segunda-feira, 1 de junho de 2020

Velhos, de Alê Motta




Por Adriane Garcia

A velhice afigurou-se-me repentinamente doce e harmoniosa.
Cícero

Diabos!, Catarata é a constatação irrefutável da velhice.
Alê Motta


O livro Velhos, da escritora Alê Motta, é uma coletânea com trinta contos curtos, todos versando sobre o tema intitulado.

Em um outro livro, o clássico A velhice, escrito em 44 a.C, Cícero fala de um envelhecimento amparado pela filosofia e pela prática das virtudes, uma velhice feliz, sábia, com temperança e contribuições à sociedade que só uma vida experiente e sensata pode dar. Certamente, a velhice de Cícero é a velhice dos sonhos, mas está longe de ser aquela retratada nos contos de Alê Motta.  Em Herança, por exemplo, primeiro conto da coletânea, podemos conhecer este avô:

Meu avô é um velho inconveniente que faz todas as perguntas que não devia fazer nos eventos familiares.
Além de fazer perguntas medonhas, ele me encara e comenta que eu engordei, afirma que minha amiga é sapatão, que eu nunca vou arrumar um emprego com o curso que faço na universidade, mas tudo bem, porque sou um fracassado igual ao meu pai e fala isso dando aquela risadinha sarcástica de quem está determinado a se meter.”

Se no imaginário pode persistir a imagem de velhinhos fofos e inofensivos, é na contramão que Alê Motta trabalha. Suas narrativas não fazem concessões e seus personagens se contextualizam em uma sociedade em que, diferentemente do que indica Cícero para sua época, velhos são desvalorizados e considera-se que pouco têm a oferecer a uma sociedade como a brasileira, que despreza as experiências do passado. Alê Motta situa suas velhas e velhos em um lugar que não dá importância à memória, tanto é que nos contos em que os idosos se encontram com adolescentes, ora são ridicularizados, ora são ignorados, já que os jovens estão sempre com a cabeça baixa mexendo em seus celulares. Há exceções como em Viagem, em que o avô aprende com o neto sobre aplicativos de celular e marcas de chocolate ou em Festas, um conto no qual a família é surpreendida com as ações do aniversariante de oitenta anos, afinal, não o conheciam tão bem quanto julgavam.

Certamente um envelhecer contemplativo é um privilégio. Nem mesmo um sábio poderia considerar a velhice uma etapa leve, se estivesse na penúria. A máxima é universal e atemporal. Dados recentes apontam para um aumento significativo do número de idosos na população mundial. No Brasil, especificamente, para muitos idosos, as políticas públicas ou são inexistentes ou insuficientes no sentido de garantir a saúde e o bem estar psicológico e material dessa população. Em Mudanças, Alê Motta levanta a voz de um desses muitos velhos do país: “Antes era só deitar e afundar na velhice – minha e do meu colchão. Agora estou num colchão que não é meu, dividindo o quarto com dois netos, na casa do meu genro, que gosta pouco ou nada de mim.” Também em Encontros, além do tema do relacionamento amoroso na terceira idade, a autora expõe a necessidade de velhos terem que arrumar um emprego após a aposentadoria, ou por causa das necessidades materiais ou mesmo por não suportarem o isolamento e a solidão.

No conto Desculpas, o primeiro parágrafo traz a façanha de conter um capítulo inteiro da história do Brasil: “Sou preto e sou velho. Diferente da maioria dos pretos no Brasil, sou rico. Moro num condomínio sofisticado, num bairro de brancos que acham muito esquisito a minha família preta morar ali.” O racismo estrutural brasileiro também aparecerá em outras páginas.

Ainda que tratando de uma temática que traz reflexões – e às vezes soluções – graves, Alê Motta consegue fazer um livro de prazerosa leitura. Muito disso se deve a um humor que sabe trabalhar com o absurdo naturalizado e a crueldade. Do humor de Alê Motta rimos como se ri de um palhaço: rimos da queda (porque nós mesmos caímos); e como o velho de Lucros, acabamos por concluir que é melhor não nos levarmos tão a sério. Esse personagem tem setenta e sete anos, obesidade, vários problemas de saúde e é filmado por um jovem quando, ao se pesar, quebra a balança da farmácia. O andamento e o final desse conto são terrivelmente deliciosos.

Temas como choque de gerações, proximidade da morte, partilha de herança, Alzheimer, suicídio, passados obscuros, abandono, estadia em asilos, velocidade do tempo, novas tecnologias, tragédias familiares, palavras que ficaram por dizer, busca por companhia, precariedade da matéria estão todos presentes em Velhos. No livro de Cícero, ele classifica “quatro razões possíveis para acharem a velhice detestável. 1) Ela nos afastaria da vida ativa. 2) Ela enfraqueceria nosso corpo. 3) Ela nos privaria dos melhores prazeres. 4) Ela nos aproximaria da morte.” Porém, Cícero oferece todos os contrapontos que transformam as desvantagens em vantagens. Parece realmente uma velhice ideal, e rara. Os velhos deixaram de habitar o reino ciceroniano para habitar o livro de Alê Motta. Nos contos da autora, a resposta à vida é dada com gestos desesperados ou melancólicos. Claro que também se encontra sabedoria nas soluções dessas pessoas, mas é uma sabedoria pé no chão, como a de quem sabe que há determinados problemas que só serão resolvidos com um assassinato – ou com uma maratona de Stranger Things.

“Emoções

Tomei um banho quente, escovei e ajustei a dentadura, penteei meus cabelos ralos e coloquei o arquinho. Engoli os comprimidos da manhã, café com leite, pão e requeijão. Escolhi minha roupa mais arrumada – saia marrom e casaquinho xadrez.
Fui para a varanda esperar. Meu neto tem problemas com horário. Essa geração é muito enrolada.

Vamos de carro para a zona e meu neto dirige muito mal. Acelera-freia-desvia e eu agarro no puta-que-pariu cinza-bebê do carro que ele tem porque eu cobri a metade das prestações que o pai dele não pagou. Sim, meu filho tem problemas financeiros. A geração dele também é enrolada.

Hoje é um dia de ouro, muito especial. E esses garotos vêm com calças caindo nas bundas, camisetas velhas-coloridas?, e essas garotas de blusinhas-e-calças-grudadas-indecentes? Não há respeito.

Tenho oitenta e nove anos. Cada passo que dou é lento, apoiado pela bengala que era do meu finado marido. Todos falam que meu voto é desnecessário.
Vovó, na sua idade não precisa...
Mãe, tem certeza?
Vizinha, os políticos não merecem!
Comadre, pra quê esse sacrifício?
A senhora tem quantos anos?, nossa!
Eu quero votar. É meu direito. Lembro da época que eu queria e não podia. Só os homens podiam.

Com meus passos lentos entro na sala e cumpro meu dever cívico. Fico emocionada e quase choro. Meu neto é um dos garotos com as calças caindo na bunda. Não fez a barba, não cortou o cabelo. Mas segura o meu braço com delicadeza e de novo estou com meu velhinho, que já mora com Deus no céu, viemos juntos votar, e ele está tão lindo de terno, vamos seguindo de braços dados pelo corredor e todas as mulheres olham para ele. Eu fico emocionada e quase choro.”  (p. 31/32)

***
Velhos
Alê Motta
Contos
Ed. Reformatório
2020





segunda-feira, 25 de maio de 2020

Anna Akhmátova, Antologia Poética. Seleção, organização e tradução de Lauro Machado Coelho




“Todos nós somos um pouco hóspedes desta vida.
Viver é apenas um pequeno hábito.”
A.A.

Por Adriane Garcia

O volume reúne poemas dos vários livros da poeta russa Anna Akhmátova (1889 – 1966), dispostos em ordem cronológica. Anna Akhmátova teve uma vida marcada pelas duas grandes guerras, pela Revolução de 1917 e pelo Stalinismo. Em sua obra, vida e poética estão completamente imbricadas.

A antologia, organizada e traduzida por Lauro Machado Coelho, que também é biógrafo de Anna Akhmátova, traz notas importantes e permite perceber o desenvolvimento da escrita da poeta, indo dos poemas mais dedicados ao amor, aos relacionamentos, até o registro político e as dores do seu tempo:  seu primeiro marido e pai de seu filho foi preso e fuzilado pelo regime, seu filho, posteriormente foi preso por duas vezes, seu terceiro marido morreu num campo de concentração. Anna teve amigos exilados, transportados para campos de concentração, vitimados pelos expurgos e viu uma geração inteira de poetas desaparecer, sendo uma das poucas sobreviventes quando começou a abertura do regime. Tempo de profundas transformações para a Rússia – e para o mundo – Anna Akhmátova registra também a fome, a doença e o medo em sua obra.

A poeta pertencia ao grupo de poetas chamados acmeístas, grupo que buscava uma poesia de linguagem simples e objetiva, rejeitando as características do Simbolismo. Também não se interessavam pelos temas politizados e o experimentalismo da escola de Maiakóvski e Khlébnikóv. Após a Revolução, os acmeístas pagaram caro por fazer uma poesia acusada de não colaborar com a nova ordem (o que também não impediu que poetas que colaboraram com a ascensão do regime fossem exilados ou mortos).

Os poemas possuem um tom intimista, confessional. São, no mais das vezes, diretos e dispensam adornos. Anna Akhmátova, que durante a vida já era considerada uma grande poeta, desenvolveu um estilo próprio, que muitos avaliaram ter grande influência da prosa russa. É notável sua capacidade de fazer críticas no presente por meio de alguma personagem histórica do passado remoto. Sua poesia avançou das reflexões individualistas para as reflexões que sentem a dor coletiva. No poema “Dedicatória”, sobre as mães que visitam seus filhos na prisão, a poeta demonstra esse sentimento:

Dedicatória

Diante dessa dor, as montanhas se inclinam
e o grande rio deixa de correr.
mas os muros das prisões são poderosos
e, por trás deles, estão as “tocas dos condenados”
e a saudade mortal.
É para os outros que a brisa fresca sopra,
é para os outros que o pôr-do-sol se enternece –
mas nada sabemos disso: somos as que, por toda a parte,
só ouvem o odioso ranger das chaves
e o passo pesado dos soldados.
Levantávamo-nos como para o culto da madrugada,
arrastávamo-nos por esta capital selvagem,
para nos encontrarmos lá, mais inertes do que os mortos,
o sol cada vez mais baixo, o Nevá mais nevoento,
enquanto a esperança cantava bem ao longe...
O veredicto... e as lágrimas de súbito brotam.
E ei-la separada do mundo inteiro
como se de seu coração a vida se arrancasse,
como se com um soco a derrubassem.
E, no entanto, ela ainda anda... cambaleando... sozinha...
Onde estão, agora, as companheiras de infortúnio
desses meus dois anos de terror?
O que estarão vendo, agora, na neblina siberiana?
A elas eu mando a minha última saudação.
março de 1940

A poeta se recusou a sair da Rússia e mesmo em seus poemas observa-se a crítica aos amigos que se exilavam. Anna não gostava de chamar a Rússia de União Soviética. Sabia que sua poesia estava intimamente ligada ao amor à língua, ao povo russo e a uma geografia que também os compunha. Também produziu ensaios e foi tradutora. Sua poesia é importante naquilo que diz e cheia de beleza na forma como diz.



Cerca de ferro fundido
e a cama feita de pinho.
Como é doce não ter mais
de sentir de ti ciúmes.

Forraram a minha cama
com súplicas, com soluços.
Vai, procura o teu caminho
onde queiras, Deus te guie.

Já não ferem teus ouvidos
palavras descontroladas,
já ninguém espera a vela
queimar até o dia seguinte.

Finalmente conseguimos
paz e dias inocentes.
Tu choras – mas eu não valho
uma só de tuas lágrimas.

***
Antologia Poética, Anna Akhmátova
Seleção, tradução do russo, apresentação e notas de Lauro Machado Coelho
Poesia
Ed. L&PM
2009

terça-feira, 19 de maio de 2020

A criação do patriarcado: história da opressão das mulheres pelos homens, de Gerda Lerner



Por Adriane Garcia


Livro obrigatório para estudos sobre patriarcado, feminismo e principalmente História das Mulheres, “A criação do patriarcado”, de Gerda Lerner , traduzido por Luiza Sellera, foi publicado no Brasil pela editora Cultrix.

Gerda Lerner (1920-2013) foi historiadora e professora na Universidade de Wisconsin e representou um papel fundamental no desenvolvimento do currículo de História da Mulher. O livro é resultado da pesquisa, por décadas, que a autora fez de extensa bibliografia e fontes primárias referentes à História Antiga, mais especialmente os resultados da arqueologia e antropologia do período pré-histórico até a consolidação dos Estados arcaicos. Muitos dos capítulos serão desenvolvidos por meio de acurada análise sobre os códigos de leis, com destaque para o babilônico, o assírio e o hebreu.

A criação do patriarcado lança hipóteses e fala da importância de se voltar aos estudos e criação de sistemas com o olhar de quem procura a história das mulheres. A autora desenvolve capítulos sobre as origens da opressão sobre a mulher, estudos sobre a esposa como substituta, a mulher escrava, os papéis da esposa e da concubina, o significado do velamento da mulher, a importância e o destronamento das deusas, a ordem dos patriarcas, a aliança no Antigo Testamento e a importância de se compreender que aquele que cria simbologia exerce grande poder. Há uma atenção especial de Gerda Lerner para mostrar que foi negado às mulheres o direito à simbologia, à criação de sistemas, pois a mulher foi excluída dos lugares de escrita, criação e intervenção política pelos meios oficiais.

Porém, ainda assim, as mulheres sempre estiveram presentes – nem sempre objetificadas como mercadoria – constituindo metade da humanidade, participando e fazendo com seus contemporâneos de todas as eras um caminho. É para esse caminho que Gerda Lerner alerta. Seu livro é um chamado às mulheres para que encontrem e conheçam sua História e como sujeitos históricos fundamentem uma outra ordem.


“Quando as condições históricas são adequadas, e as mulheres têm tanto espaço social quanto a experiência social para embasar seu novo entendimento, a consciência feminista se desenvolve. Historicamente, isso ocorre em estágios distintos: (1) a consciência da injustiça; (2) o desenvolvimento da noção de irmandade; (3) a definição autônoma pelas mulheres de suas metas e estratégias para mudar a própria condição; e (4) o desenvolvimento de uma visão alternativa de futuro.
O reconhecimento de uma injustiça se torna político quando as mulheres percebem que essa injustiça é compartilhada com outras. Para remediar essa injustiça coletiva, as mulheres se organizam na vida política, econômica e social. Os movimentos que organizam inevitavelmente encontram resistência, o que as força a contar com os próprios recursos e força. No processo, desenvolvem um senso de irmandade. Esse processo também resulta em novas formas de cultura da mulher, impostas às mulheres pela resistência que elas encontram, tais como instituições ou modelos de vida segregados por sexo ou separatistas. Com base em tais experiências, as mulheres começam a definir as próprias demandas e a desenvolver teorias. Em determinado nível, saem da androcentricidade na qual foram educadas e passam a colocar as mulheres no centro. Na área acadêmica, os Estudos das Mulheres buscam encontrar uma nova estrutura de interpretação interior à cultura histórica das mulheres, resultando em sua emancipação.
É apenas por meio da descoberta e do reconhecimento de suas raízes, seu passado, sua história, que as mulheres, assim como outros grupos, tornam-se capazes de projetar um futuro alternativo. A nova visão das mulheres exige que elas sejam colocadas no centro, não apenas de eventos, onde sempre estivemos, mas do trabalho universal de reflexão. As mulheres estão exigindo, como fizeram os homens durante o Renascimento, o direito de definir, o direito de decidir.” (p. 294)



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A criação do patriarcado: História da opressão das mulheres pelos homens
Gerda Lerner
História
Cultrix
2019

quarta-feira, 29 de abril de 2020

O mez da grippe e outros livros, de Valêncio Xavier





Por Adriane Garcia


Edição muito bonita e ilustrada, feita pela Companhia das Letras, O mez da grippe e outros livros reúne cinco obras de Valêncio Xavier: O mez da grippe, Maciste no inferno, O minotauro, O mistério da prostituta japonesa & Mimi-Nashi-Oishi e 13 mistérios + O mistério da porta aberta.

O livro, no todo, revela a inventividade do escritor Valêncio Xavier e sua linguagem de experimentação. O destaque é para o livro O mez da grippe, em que o autor escreve uma novela com diversas vozes discursivas, a partir da abordagem histórica, sobre a ocorrência da gripe espanhola no Brasil, no ano de 1918, mais especificamente na cidade de Curitiba. De forma genial, Valêncio Xavier junta recortes de jornais, notícias, fotografias, depoimentos de sobreviventes, anúncios publicitários da época para compor uma história de tragédia na saúde pública, ao mesmo tempo em que os personagens caminham para uma narrativa que envolve loucura e crime, realidade e fantasia.

O livro também assume um viés de denúncia quanto ao papel das autoridades de Estado nos momentos de pandemia, registra alguns fatos do fim da Primeira Guerra Mundial, além de recuperar o comportamento da grande imprensa, resgatando um passado que se quis esquecido; aliás, essa preocupação com o resgate do passado e com a cultura de massa em tempos idos é uma recorrência na obra do autor, podendo ser notada para além de O mez da grippe.

Valêncio Xavier é um exemplo daqueles escritores que experimentam a liberdade de criar, alargando o terreno do possível na literatura. Sua escrita é híbrida, desfazendo fronteiras entre gêneros literários e se misturando com as artes plásticas, a diagramação assumindo papel fundamental para compor aquilo que conta; sendo literatura que se utiliza de prosa e poesia, grafic novel e colagem, aproximando-se imageticamente da fotografia e do cinema (neste sentido, Maciste no inferno é um primor), enquanto entre o tecido de ilustrações utiliza-se de micronarrativas e fragmentação. Nas mãos de Valêncio Xavier, o antigo se torna novo. Sua escrita é lúdica e chama o leitor para montar um quebra-cabeças, descobrir e decifrar. Não raro, os jogos de Valêncio Xavier não têm solução – e o jogo era exatamente esse.






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O mez da grippe e outros livros
Valêncio Xavier
Cia das Letras
1998





sábado, 11 de abril de 2020

Wander Piroli: Uma manada de búfalos dentro do peito, de Fabrício Marques




“Alguns autores estão presos à página impressa. Estou preso à página viva, que é a rua”
W.P.


Por Adriane Garcia

Por estes dias, estive lendo a biografia de Wander Piroli, escrita pelo poeta e jornalista Fabrício Marques. O encontro, de Fabrício e Piroli, não poderia ser mais perfeito. Primeiro, porque sendo jornalista, Fabrício Marques saberia focar um dos aspectos cruciais da vida do biografado, sua importância na história do jornalismo entre as décadas de 60 e 80; segundo, porque, sendo poeta, Fabrício Marques teria (e teve) sensibilidade e sagacidade suficientes para flagrar a essência e a poesia no ser humano Wander Piroli, além de falar com propriedade sobre sua obra literária.

O livro, muito bem editado pela Conceito Editorial, na coleção Beagá Perfis, tem um formato agradável ao leitor e traz várias fotografias de Wander Piroli, além de cópias de alguns de seus trabalhos no jornalismo e capas de seus livros. A linguagem é clara e há muitos trechos de entrevistas nos quais se pode confirmar o caráter que Fabrício Marques nos descreve.

Uma biografia, além de trazer os atos e palavras do biografado, os testemunhos sobre ele, deve traçar-nos o caminho de uma vida única, suas vicissitudes. O biógrafo refaz, interpreta e revive. O trabalho de um bom biógrafo é difícil, pois precisa se amparar ao máximo nas fontes, já que as zonas intermediárias entre a reconstrução e a bisbilhotice, entre a biografia e a hagiografia são tênues. Várias intenções podem estar na raiz das biografias – de elevar a detratar, e muitas vezes elas podem traduzir uma “pedagogia do exemplo”. Mas para o leitor, o que ela deve fazer é fascinar.

Já nas primeiras páginas dessa biografia fascinante entendemos a relação umbilical do escritor Wander Piroli com o bairro da Lagoinha – um bairro operário de imigração italiana que se formou para a construção da capital Belo Horizonte – e seus personagens: trabalhadores, boêmios, bêbados, prostitutas, marginais, abandonados de todo tipo, vítimas da injustiça social. É o bairro da Lagoinha, onde o escritor passou a infância e grande parte da vida, que influenciará não só sua obra literária, mas suas escolhas jornalísticas. Tendo sido na maior parte das vezes editor da página policial de jornais, Wander Piroli nunca dava o fato por si, mas perguntava a razão: “O editor não se limitava à interlocução com os superiores, estimulava os jornalistas a ir além do mero fato, como pontua Alberto: “Uma das primeiras recomendações de Piroli era: ‘Busquem sempre os porquês’. Foi procurando o ‘porquê’ que sua equipe ganhou o Prêmio Esso de jornalismo com o caso Defensor, em pleno regime militar, ao denunciar a tortura praticada pela polícia contra um trabalhador até que ele ficasse paraplégico.

Formado em Direito, Wander Piroli advogou na Justiça do Trabalho por pouco tempo, indo depois para o jornalismo, onde sempre se destacou. Corajoso, criativo, anárquico e leal a si mesmo, criou manchetes ousadas, publicou matérias impublicáveis, desafiou o seu tempo – em plena ditadura – e foi demitido muitas vezes. Chegou a trabalhar no Suplemento Literário de Minas Gerais, de onde se demitiu alegando não ter vocação para “coveiro cultural”. Acreditava que o jornalismo devia ser feito para incomodar o poder, refletir, melhorar a vida das pessoas. Como escritor não foi diferente, exercitou a linguagem tentando purificá-la de todo penduricalho, quis aproximá-la ao máximo da vida – seu sonho era poder ser lido por operários. Seus personagens são reais, ele os vê, escuta, procura.

Na literatura infantil inaugurou uma nova forma de escrever, trazendo para as crianças temas reflexivos. Seu O menino e o pinto do menino e Os rios morrem de sede, por exemplo, rompiam a visão edulcorada da vida que, muitas vezes, tenta enganar as crianças. Seus livros fizeram sucesso, dividiram opiniões, foram considerados polêmicos, sob o argumento de que não se devia escrever coisas fortes para crianças.

Em Wander Piroli: Uma manada de búfalos dentro do peito, Fabrício Marques, além de traçar um panorama completo de seu biografado, atendo-se a muitas fontes e depoimentos, escuta seu biografado, deixando que ele também fale sobre si mesmo. Wander Piroli: uma manada de búfalos dentro do peito nos leva a desejar conhecer mais da literatura desse escritor incansável, que tinha verdadeira obsessão por melhorar um texto e pressa nenhuma em publicá-lo. Que acreditava que jornalismo e literatura se misturavam à própria vida e era ele próprio um exemplo dessa simbiose. Um escritor que tinha muitos amigos e que era por eles amado. Um homem apaixonado pela vida e cuja paixão – tão bem descrita – acaba por nos apaixonar também.

Sem o menor pudor, declaro que gosto de viver. Sempre tive uma certa incapacidade para aceitar a injustiça. Nem pensar em futuro, é viver o presente. Eu fui treinado a não abrir mão da esperança. Acredito numa sociedade melhor, para mais gente... E creio que tem muita gente com a mesma fé, a mesma esperança. Sou um homem aprisionado. Mas eu negocio a minha liberdade o tempo todo e luto por ele. Eu vivi a minha vida, pequenininha, mas eu vivi pedaço por pedaço. Quem esteve comigo viveu também. Então, eu não admito tristeza. Vivo intensamente com o meu pessoal, eu gosto das pessoas e gosto deles, exageradamente, mas não exclusivamente, porque eu gosto de muita gente ao mesmo tempo. Nunca me arrependi disso e nunca quebrei a cara. Acho que vou morrer desse jeito, com uma certa insubordinação, uma certa rebeldia. A boa jogada de viver está, por exemplo, num pedaço de terra na beira do São Francisco. Se eu pudesse, estaria lá, de pé no chão.” (p. 251)

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Wander Piroli: Uma manada de búfalos dentro do peito
Fabrício Marques
Biografia
Conceito Editorial
2018




sábado, 28 de março de 2020

As baleias do Saguenay, de João Batista Melo







Por Adriane Garcia


Coletânea de dez histórias que prendem o leitor do início ao fim – e reverberam, As baleias do Saguenay (Ed. Moinhos), de João Batista Melo é um livro conciso, desses que provam que mais vale um livro com poucas páginas – porém todas necessárias – do que um livro cheio de páginas, mas do qual poderíamos prescindir de grande parte. Com apenas o necessário – e epígrafes perfeitas precedendo cada conto – João Batista Melo compõe mundos. Mundos dos quais seus personagens se despedem.

No conto As baleias de Saguenay, que dá nome ao livro, um filho se despede de um pai e um pai se despede da imagem que representa um oceano limpo, despoluído, prenhe de vida: a imagem das baleias. Em Caminho das Índias, o inusitado de estarmos diante do escrivão de Cristóvão Colombo e assistindo à despedida de um mundo de superstição, indo ao encontro da esfericidade do planeta, da ciência da navegação, do mundo novo. Em A lanterna mágica, o passado fica representado no encontro com a misteriosa Luciana, na beleza do cinema, na nostalgia pelo prédio que o abrigava, um conto lindíssimo também sobre a despedida e a imposição do dinheiro “que ergue e destrói coisas belas”. Em FC, é o escritor que se despede da vida e trama o ato de escrever na própria trama. Depois do crepúsculo despede-se da amizade e daquilo que mesmo nos incomodando pode ser que faça parte de nós a ponto de sentirmos falta; é um conto sobre dois velhos que sabem que não há mais o mundo deles e que nunca confessam exatamente o que sentem um pelo outro. Retratos de uma paisagem revela a despedida da civilidade e dá uma rasteira no leitor ao nos conduzir por um caminho e chegar a outro, que sequer imaginávamos. A moça triste de Berlim é a despedida dos sonhos democráticos, a inauguração dos governos fascistas e nazistas, a instauração da violência como governo e oposição: a guerra. Em O homem que fraudava latas, despede-se da empatia. Em Os caminhos do vento, um casal vê sua lua de mel transformada numa experiência de horror (ou paranoia?), aqui um dos temas do conto que dá nome ao livro retorna: um mundo poluído, que adoece os seres e o planeta. Em Uma voz, João Batista Melo tece mais uma narrativa emocionante, o escritor sabe que escreve por causa da morte, a derradeira despedida.

Pelo enfoque do desaparecimento de mundos, As baleias de Saguenay se irmana a outro autor: o uruguaio Juan José Morosoli, também mestre de falar sobre os viventes de um tempo que já se foi, ou de personagens à beira do desaparecimento. Em ambos, José Batista Melo e Morosoli, a passagem do tempo e o sentimento de perda são cruciais.

Neste As baleias de Saguenay, o autor constrói narrativas que muitas vezes desembocam no fantástico. Seus contos saem de realidades muito palpáveis e podem ir para um salto de imaginação e/ou para uma grande metáfora. Uma habilidade em manter o suspense faz com que o leitor não queira interromper a leitura de um mesmo conto – já que a profundidade deles o fará dar uma pausa entre um conto e outro; também a variação de seus personagens, envolvidos em atividades e cenários diferentes a cada história, pertencentes a paisagens que mudam conto a conto, colabora na avidez do leitor, já que ele sabe: será surpreendido novamente.

As baleias de Saguenay traz situações profundas que nos deparam com nossas próprias despedidas, neste mundo que muda tão rapidamente que já não o reconhecemos mais e corremos o risco de nem nos reconhecermos a nós mesmos.

Alguns se fazem ao mar pelas riquezas. Outros embarcam em defesa da fé. Eu nem ao menos esse lenitivo tenho. Navego apenas por navegar. Em tempos remotos, criei escamas de peixe e me fiz sereia insubmersa, prisioneiro dos escaleres e das gáveas, condenado a vaguear pelos mares, quer como corsário quer como homem do rei.

Sem cobiça além das ondas e tormentas, não me justifico a presença nesta nau insana. Sinto a morte a nos esperar e nenhuma de suas recompensas me alicia: nem a conversão dos bárbaros nem o tesouro dos cravos e granadas. Olho o mar se abrindo para o nosso calado e me pergunto se nós o cruzamos ou se ele nos arrasta, iludidos, rumo a um destino obscuro.

Da amurada na proa, Cristóvão Colombo me observa, e no seu silêncio demonstra conhecer o que me perturba. Insinua nos olhos cortantes que sabe ser eu quem no alto das escadas, no esgotamento dos porões, sopra temores nos corpos da tripulação, espalha horrendas histórias e visões e as deixa alastrar pelo convés nas noites mais escuras. Quando tiver a certeza me lançará aos tubarões, fará dos meus braços e pés uma nova âncora, deixará os papéis onde escrevo derivarem nos vagalhões do Mar Oceano.

Por enquanto me relega ao ostracismo. Precisará de mim apenas quando avistar terra. Então me chamará, e eu, o seu renitente escrivão, contarei os atos de bravura das três embarcações que se aventuraram para onde ninguém antes ousou seguir, e enfim aportaram nas Ilhas Molucas para retornarem cravejadas de sementes. Esse é o sonho de Colombo. Esse é o meu pesadelo.”

(Excerto do conto O caminho das Índias, pag. 29)


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As baleias do Saguenay
João Batista Melo
Contos
Ed. Moinhos
2019

Ideias para adiar o fim do mundo, de Ailton Krenak







Por Adriane Garcia


Ideias para adiar o fim do mundo é um livro composto, de forma adaptada, por duas palestras e uma entrevista de Ailton Krenak, ambientalista e pensador indígena, nascido na região do Vale do Rio Doce, lugar atingido brutalmente e de forma criminosa pela lama da barragem da mineradora Vale.

O livro é daqueles pequenos que não se mede. Além de conhecimento, o que Ailton Krenak desenvolve na sua narrativa é uma exposição de sabedoria. Enquanto o sistema capitalista explora o planeta a ponto de destruí-lo e adota termos como “sustentável” para continuar explorando os recursos naturais sem rever o modo de vida da espécie humana, Ailton Krenak chama para adiar o fim do mundo, para contar mais uma história.

É interessante que contar mais uma história apareça novamente como uma estratégia de adiamento da morte – lembramos a inteligência da Sherazade de As Mil e Uma Noites; contar mais uma história é depositar confiança na palavra, na comunicação, no interesse do outro; narrar e ouvir narrativas é uma forma de enriquecer as subjetividades.

Em Ideias para adiar o fim do mundo, Krenak critica a ideia de humanidade consensual, uma humanidade que não consegue conviver com a diversidade, que não consegue respeitar as diferenças e aceitar que não somos e nunca seremos todos iguais, uma humanidade que quer o achatamento e a destruição das subjetividades e que, portanto, no seu conceito, já traz implicitamente a ideia de uma sub-humanidade.

O autor destaca o consumo, a separação da natureza, como se ele – o homem – não fosse parte dela. Causa dos desastres socioambientais, a transformação do homem não em cidadão, mas em consumidor, leva ao equívoco de uma espécie que se afasta daquilo que verdadeiramente poderia integrar; um ser que se vê acima dos outros seres e que os acha subordinados à sua vontade.

Krenak faz uma crítica a um modo de vida que mais se parece com a morte, pois não há celebração verdadeira, não há interação com o cosmos, com as árvores, com os rios, com os bichos, com as montanhas e as pedras, não há dança ou genuína alegria, mas ordens publicitárias em que cada um se torna apenas engrenagem do capital para servir ao deus mercado.

Por outro lado, a liberdade e alegria daqueles que ousam continuar diferentes, que se negam a habitar essa humanidade desolada gera uma intolerância enorme, pois o que chamamos de humanidade não admite os que ainda vivenciam suas subjetividades, os que ainda vivem seus ritos em comunhão com a Mãe Terra.


Em 2018, quando estávamos na iminência de ser assaltados por uma situação nova no Brasil, me perguntaram: “Como os índios vão fazer diante disso tudo?”. Eu falei: “Tem quinhentos anos que os índios estão resistindo, eu estou preocupado é com os brancos, como que vão fazer para escapara dessa.” A gente resistiu expandindo a nossa subjetividade, não aceitando essa ideia de que nós somos todos iguais. Ainda existem aproximadamente 250 etnias que querem ser diferentes umas das outras no Brasil, que falam mais de 150 línguas e dialetos.

Nosso amigo Eduardo Viveiros de Castro gosta de provocar as pessoas com o perspectivismo amazônico, chamando a atenção exatamente para isto: os humanos não são os únicos seres interessantes e que têm uma perspectiva sobre a existência. Muitos outros também têm.

Cantar, dançar e viver a experiência mágica de suspender o céu é comum em muitas tradições. Suspender o céu é ampliar o nosso horizonte; não o horizonte prospectivo, mas um existencial. É enriquecer as nossas subjetividades, que é a matéria que este tempo que nós vivemos quer consumir. Se existe uma ânsia por consumir a natureza, existe também uma por consumir subjetividades – as nossas subjetividades. Então vamos vivê-las com a liberdade que formos capazes de inventar, não botar ela no mercado. Já que a natureza está sendo assaltada de uma maneira tão indefensável, vamos, pelo menos, ser capazes de manter nossas subjetividades, nossas visões, nossas poéticas sobre a existência. Definitivamente não somos iguais, e é maravilhoso saber que cada um de nós que está aqui é diferente do outro, como constelações. O fato de podermos compartilhar esse espaço, de estarmos juntos viajando não significa que somos iguais; significa exatamente que somos capazes de atrair uns aos outros pelas nossas diferenças, que deveriam guiar o nosso roteiro de vida. Ter diversidade, não isso de uma humanidade com o mesmo protocolo. Porque isso até agora foi só uma maneira de homogeneizar e tirar nossa alegria de estar vivos.”
(p. 31 a 33)

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Ideias para adiar o fim do mundo
Ailton Krenak
Cia das Letras
2019