terça-feira, 19 de outubro de 2021

Nem sinal de asas, de Marcela Dantés

 



 Por Adriane Garcia

 

Sob olhares religiosos ou científicos, suspeitos ou não, a história da humanidade registra alguns casos de corpos que não se decompuseram. Por vezes, esse fenômeno foi considerado místico, dando origem à crença dos santos incorruptos. Durante muito tempo, a Igreja Católica defendeu a tese de que somente os puros de coração, os santos e as santas, os de fé inabalável podiam não sofrer a degradação da matéria que atinge os pobres mortais pecadores, a mais comezinha das situações; motivo pelo qual, inclusive, muitos candidatos ao reconhecimento de sua santidade foram exumados, a fim de saber se o corpo se conservou incorrupto, ou parte dele, apresentando-se como sinal inequívoco para a beatificação e canonização. Nem sempre se consegue explicar o motivo pelo qual esses corpos se apresentam mumificados, petrificados, mantendo seus traços e forma. Há casos de santos católicos cuja incorruptibilidade foi considerada milagre, mas estudos revelaram o processo artificial de mumificação pelos devotos. Porém, existe mesmo o fenômeno da mumificação natural. O paleopatologista Gino Fornaciari, da Universidade de Pisa, esclarece que “a mumificação natural acontece em lugares muito secos, onde o corpo desidrata rapidamente e a falta de água impede a ação das enzimas e das bactérias responsáveis pela putrefação”.  

 

O romance Nem sinal de asas, de Marcela Dantés apresenta-nos um corpo incorrupto, o de Anja Santiago, encontrado cinco anos após sua morte, dentro do apartamento. É a partir do leilão do imóvel, de herança vacante, que já desconfiamos que essa mulher tão anônima não tem ninguém e, assim, ninguém deu por sua falta. Ela foi encontrada por motivos econômicos: seu dinheiro no banco cessou e o débito automático das contas não se fez mais possível. Somente quando os credores deram falta do dinheiro de Anja, ela foi procurada.

 

Anja, como todas as vítimas de nomes que só agradam seus pais, mas que servem de motivo de bullying certeiro e adivinhado na escola, odeia o próprio nome e, por isso, só se apresenta como Ângela. Não obstante, o nome escolhido faz-se perfeito no romance de Dantés, evocando um território religioso, celestial, a santidade de Anja: uma santidade sem fé, uma santidade que escolhe cuidar do outro sem se envolver, para melhor lhe preservar a vida. Uma santidade baseada na impotência, a de fazer o menor mal possível.

 

O martírio de Anja começa logo no seu nascimento, quando Dulce, a mãe, branca e racista – casada com Francisco, um homem negro – quer uma filha branca e se vê frustrada em seu desejo, partindo para uma terrível “solução”. É interessante que, aqui, Marcela Dantés poderia ter enveredado pelo ódio dos racistas e “chapado” essa personagem, o que não acontece. Dulce é mulher de carne e osso, erro e acerto, solidão e luta, medo, amor e culpa, exercendo não uma maternidade idealizada, mas uma maternidade real, dessas que tem dificuldade de amamentar, e não a dos encartes publicitários. Perdendo o pai aos quatro anos, Anja perde também aquele que era o equilíbrio da família e terá que aprender a viver a solidão, na máxima ensinada por sua mãe, a de que tudo a que a gente se apega, morre.

 

Alfabetizada pela mãe, com uma inteligência além da média, Anja se destaca na escola e se torna, a despeito das profissões “importantes” escolhidas por Dulce, enfermeira. Dois traumas principais darão direção aos caminhos dessa personagem: a morte do pai e sua relação de perda com os objetos de amor, e a dor de queimadura causada em sua pele quando ainda era bebê. Todas as suas escolhas serão de modo a evitar a repetição desses dois sofrimentos, nem sempre com sucesso.

 

Nem sinal de asas é narrado por duas vozes, uma anônima, em terceira pessoa, e outra em primeira, a voz do porteiro Ramiro, homem limitado, machista, capaz de abusos e muita sinceridade. Na narração em terceira pessoa, Marcela Dantés utiliza de forma recorrente os parênteses. Neles, a voz narradora, diz e desdiz, afirma e duvida, sublinha, acrescenta, desmente, sussurra, humoriza, aproximando-se de quem está lendo:

“Enquanto vivo, Francisco não soube.”

(Depois de morto, também não.)” p. 51

 

“No escuro e sem conhecimento e sem ferramentas e sem diploma técnico de elevador (existe diploma de técnico de elevador?)...” p. 109

 

“Eulálio fingiu (ou acreditou) que estava tudo bem por uma semana...” p. 119

 

O principal cenário do romance é o Edifício Hotel Lucas, prédio decadente, de passado glorioso, em cujo apartamento Anja será encontrada. A descrição e ambientação de parte da história nesse lugar é feita com tamanha eficiência que tem a força de fixar o edifício imageticamente quase que como um personagem, silencioso, presente, crucial. Cenário de vida e de morte, nele Anja não resistirá ao amor de proximidade, de envolvimento e esconderá um gato, o Rinoceronte.

 

Com uma protagonista forte e inesquecível, Nem sinal de asas mostra, de forma emocionante, a história de uma mulher cujo milagre foi viver até onde lhe foi possível, presa nos traumas de infância, exercendo a coerência das suas virtudes na convivência com seus defeitos, no recolhimento que respeitava suas limitações. Mesmo não sendo evidente, é possível que houvesse uma insistência de Anja pela vida, na medida em que, ao optar pelo suicídio lento – o cigarro – ela ainda podia esperar (desejar) algo, nem que fosse a dor. Infelizmente, a lição de Dulce, a de que tudo que amamos morre, se inseriu tragicamente quando em nada mentiu. Tudo que amamos morre, não porque amamos, mas porque tudo morre. Assim, o erro de Dulce não foi detectar o fato real, mas interpretar nele o amor como causa. O que Dulce não considerou é que o amor pode adiar a morte. Anja não queria morrer antes da mãe, queria cuidar da mãe. Anja não queria morrer antes do seu gato Rinoceronte porque o amava. Anja adiava a própria morte por amor.

 

No apartamento praticamente vazio, cujo corpo mumificado dava um ar tenebroso, os mais atentos puderam ver que as plantas ainda estavam vivas.

 

 

Anja pensava que talvez Dulce se orgulhasse de seu corpo cada dia mais magro, as pontas dos ossos querendo rasgar a pele pra respirar melhor. Anja era enfermeira, mas sempre achou que os cabelos cancerosos só caíam por causa do tratamento invasivo e violento, mas não. A cada banho ela entupia o ralo com os crespos que a mãe odiava e custava a se abaixar pra recolhê-los, porque a cabeça parecia muito mais pesada do que o corpo podia suportar. Uma cabeça humana pesa aproximadamente seis quilos e traz trinta e dois dentes, mas a de Anja devia estar pesando muito mais do que aquilo, ainda que trouxesse apenas vinte e sete dentes brancos (amarelos) e cobertos por uma camada quase invisível de saliva ressecada.

No dia trinta e um de dezembro de dois mil e onze, sete meses e oito dias depois da sua primeira consulta, Anja estava deitada no sofá, a febre aumentando e os remédios ignorando que aquilo lhe doía muito, demais. Não estourou um champanhe quando virou dois mil e doze, mas acendeu um cigarro.”   (p. 162/163)

 

 

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Nem sinal de asas

Marcela Dantés

Romance

Ed. Patuá

2020

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Criogenia de D. ou manifesto pelos prazeres perdidos, de Leonardo Valente

 



Por Adriane Garcia

 

Livro interessantíssimo, Criogenia de D. ou manifesto pelos prazeres perdidos, de Leonardo Valente, é um romance escrito em primeira pessoa, cuja personagem “D.” nos leva ao seu mundo por meio de uma experimentação de escrita. Já nas primeiras páginas D. nos alerta para o fato de que possui a “síndrome da imunodeficiência afetiva”.

 

De D. não sabemos se é homem, se é mulher, se é cis, trans, se é hétero ou homossexual, não temos qualquer definição nesse sentido. Também não sabemos com o que trabalha, ou seja, não é uma pessoa definida pelo que faz dentro da cadeia produtiva. Sabemos que é uma pessoa, é o que importa, e essa é uma das características mais marcantes nesse romance, dar-nos a perceber que as situações vividas, as emoções narradas poderiam se passar com qualquer ser humano, sem precisar que seja definido um grupo sexual, um gênero ou uma profissão. E mais, como o texto nos convence, seja qual for a maior identificação de gênero que façamos da personagem, o autor acaba por mostrar, de modo eficiente, que a verossimilhança com relação a uma personagem não precisa depender necessariamente de qualquer afiliação, característica ou orientação da autoria. Nesse sentido, Criogenia de D. ou manifesto pelos prazeres perdidos é também um livro que se destaca nos debates sobre lugar de fala e criação. Ao jogar com os artigos e pronomes masculinos e femininos e com as desinências de gênero variadas para uma mesma pessoa, sem que isso atrapalhe a fluidez da narrativa, Leonardo Valente adiciona à história um jogo delicioso para quem lê. A universalidade do que é humano se sobrepõe. “perdão pela indelicadeza de até o momento não me apresentar. sou D. creio tratar-se de informação suficiente diante de tudo o que pretendo vomitar e que é infinitamente mais importante que minha identificação social ou o que exerço no trabalho.”

 

D. expõe seus problemas quanto nos relacionamentos com seus ex-maridos, o marido atual e seu futuro marido, assim como confessa a vigilância que exerce sobre eles nas redes sociais, na demonstração consciente de apego ao passado e ansiedade pelo futuro, entregando sua agonia por nunca estar no presente: “atropelo a vida com essas antecipações”. Um detalhe curioso é que todos os seus maridos possuem o mesmo nome, o que reforça a fixação da personagem por esse outro que a ocupa. Nas crises dos relacionamentos, D. costuma deixar a eles a responsabilidade pelo término, pelo fim das próprias histórias, revelando sua covardia. No fundo, ela/ele está sempre buscando a mesma pessoa em várias, como um narcisismo que busca a si mesmo; em outros momentos parece tratar-se de uma fragmentação de personalidade. D. só ama o que perde, desdenha do que tem, age como uma pessoa superficial, sendo alguém muito profundo.

 

Para dar conta de sua profundidade e da dificuldade que é viver e se relacionar, D. escreve. É a escrita seu método de criogenia. D. escreve para congelar o sofrimento, a ansiedade e o passado. Congelar para interromper a vida, mas um dia, quem sabe, poder reavivá-la. Assim, toda criogenia é uma morte pela metade, e é um exercício de esperança. Falando de si, a personagem de Leonardo Valente também constrói um texto metalinguístico em que discute a própria ficção. D. mistura suas confissões com o exercício de escrever, a ponto de, depois de nos convencer de algo, simplesmente dizer na página seguinte: “minto tanto que às vezes não sei diferenciar a realidade do que inventei. sou um mentiroso de coisas fúteis e de coisas relevantes”, ou de nos confessar o oposto do que há pouco nos dissera: “suprimi aqui uma parte inteira que tanto gostei – meia página – apenas por não acreditar que o que escrevi seja realmente eu. falsificar-me é vício que quero substituir por outros, pelo menos aqui”.

 

Quanto aos prazeres perdidos, D. confessa, por exemplo, fantasias sexuais para, em seguida, registrar a repressão, a vergonha e a culpa, dando satisfação à sociedade, que denuncia como falsa. Tudo isso é feito de modo muito bem-humorado – um humor cítrico – e utilizando a ambiguidade de cenas que podem bem ser metáforas, como nas suas confissões culinárias em que a cozinha se dá como lugar de falsificações. D. chega a nos dar uma receita de penne ao funghi verdadeira que ele nunca experimentou, depois de nos informar várias vezes de como já falsificou molhos utilizando creme de leite e sopinhas industrializadas. Cama e mesa se estabelecem como lugar de prazer, onde pode estar a verdade, mas também a mentira elaborada, verossímil. Comida e literatura.

 

Página a página, Criogenia de D. ou manifesto pelos prazeres perdidos surpreende com um uso muito consciente do texto como ocupação gráfica na página.  O texto é escrito com minúsculas, na maior parte do tempo, o que tem um uso justificado na narrativa. O capítulo todo escrito em maiúsculas deixa claro a intenção de gritar, de ser agressivo. As páginas irregularmente preenchidas, os espaços em branco, a mancha reduzida na página 82, por sinal uma página de cor invertida, preta com letras brancas, tudo é intencional: “esta, por exemplo, sou eu do avesso”. D.  tem ciência de que escreve e sabe que escrever é seu único espaço de plenitude.  Com a leitora/o leitor nas mãos, D. nos reafirma uma das lições da literatura, a de que não se deve confiar em narradores: “Não confiem em nada do que acabo de escrever”, e ainda completa, “pois minha essência é fraudulenta”. No entanto, confiamos em D. até a última página.

 

“cozinhar é o ato perfeito de transubstanciação, a ciência mais depurada em prol da vida. já fiz muitos pratos elogiados para os amigos, mas hoje não mais. afastei-me deles por causa de meus maridos. afastei-me deles por minha causa. converso com esses não mais tão amigos de vez em quando, curtimos uma ou outra coisa nas redes sociais, mas nunca mais comemos juntos. e se não comemos reunidos é porque nossos laços não são mais os mesmos. o afeto vive ao redor das mesas, tanto que é delas que queremos afastar rapidamente aqueles que não mais convêm ou que decepcionaram. as mesas revelam mais intimidades do que as camas. um estranho pode conhecer a textura dos lençóis e a densidade da mola de meu colchão com apenas minutos de convivência, mas jamais sentará em minha mesa sem antes tornar-se um alvo de meus afetos, um significante com vários significados em meus relacionamentos, e isso leva tempo. na noite insone por causa daquele conhecido que vi na TV, fiz macarrão após adormecer. fervi a água, escolhi um espaguete bem fino e de massa italiana e o depositei delicadamente na panela. não ponho um fio de azeite na água, como muitos vangloriam-se de fazer. azeite na água é pós-verdade de quem acha que entende de cozinha. tenho muitas restrições ao termo pós-verdade, mas considero a expressão perfeita para a necessidade do uso do azeite para o bom cozimento do macarrão. acompanhei todo o processo sem sair de perto da panela. senti por alguns minutos o vapor d’água chegar ao rosto, até que soberanamente decidi estar pronto, pois sou a senhora do ponto da minha massa.”

(excerto da pág. 17/18)

 

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 Criogenia de D. ou manifesto pelos prazeres perdidos

Leonardo Valente

Romance

Ed. Mondrongo

2021

 

O som do rugido da onça, de Micheliny Verunschk

 



Por Adriane Garcia

 

Inteligente e emocionante, “O som do rugido da onça”, romance de Micheliny Verunschk, compõe (recompõe) uma história para Iñe-e e Juri, duas crianças indígenas sequestradas/traficadas pelos cientistas Spix e Martius, na missão científico-cultural realizada pelos naturalistas bávaros entre os anos de 1818 e 1821. Em uma terrível viagem de navio, que lembra também o horror dos tumbeiros, algumas crianças, entre elas a menina-onça do povo Miranha e o menino-peixe do povo Juri, são levadas até Munique para estudos e exibição na corte de Maximilian Joseph I.

 

Logo no início, duas coisas são percebidas: o terror da menina Iñê-e, presa em um porão de navio com animais empalhados e sem ter com quem partilhar qualquer palavra – mesmo as outras crianças são de comunidades diferentes e não falam a mesma língua – e o uso da linguagem que a autora escolhe para poder devolver algo da história das duas crianças. Micheliny Verunschk nos conduz pelo horror, pela travessia infernal que contém angústia, precariedade, pavor e morte, conseguindo que suportemos essa viagem porque acolhe na narrativa o mundo mágico e lírico da integração à natureza, a poesia do mistério, do afeto, do encantamento e dos encantados. É com essa linguagem prenhe de simbolismo e imagens que, por exemplo, percebemos o estranhamento da menina Iñe-e ao ver o mar pela primeira vez: “Tanta água não, nunca haviam conhecido, um espírito assustador em sua baba salgada, esturrando, mas onça é que não”. É por causa da exatidão dessa habilidade da linguagem – que concilia delicadeza e contundência – que damos conta da fome, da pouca ração para os animais e crianças que, morrendo uma a uma, mostram Iñe-e morrendo junto, de uma outra forma, “porque lhe faltava a palavra”.

 

É da falta da palavra que O som do rugido da onça vem falar. É sobre retirar o som, a tradição, o idioma, representado na violência máxima do silenciamento simbólico que é substituir, apagar o nome daquele que se coloniza. Mostrando a violência simbólica acompanhada da violência física, o poder de vida e de morte sobre o outro, a romancista não deixa escapar qualquer detalhe dessa opressão, e lembra que os reis, mesmo decapitados, mantém seus nomes, mas ao menino Juri, filho e sucessor natural do líder de sua tribo, o nome foi negado.

 

A negação da linguagem vai direto no apagamento da identidade e na reafirmação das relações de poder, mas a história negada de Iñe-e e Juri precisa ser contada na língua possível. Assim, a narradora – e aqui escolhemos que ela é a e não o, assim como os rios poderiam ser as rios, se a história da nomeação das coisas fosse outra – não esconde seu conflito com a própria linguagem que precisa emprestar: “Empresta-se para Iñe-e essa voz e essa língua, e mesmo essas letras, todas muito bem-arrumadas, dispostas umas atrás das outras, como um colar de formigas pelo chão, porque agora esse é o único meio disponível. O mais eficiente. E embora ela, essa língua, seja áspera, perfurante, há alguma liberdade sobre como pode ser utilizada, porque houve muito custo em apreendê-la.” Ouvindo a sabedoria da floresta, a autora nos conta que todos os seres têm palavras: “Tem palavras que só as onças usam e que não é dado a nenhum outro animal dizê-las. Do mesmo modo toda a diversidade de reinos dos bichos e das plantas.” Enquanto se acompanha a trágica história do sequestro e da inadaptação das crianças a um mundo que as violenta e para o qual elas não têm sequer aparelhamento imunológico, também se reflete sobre a palavra e seus limites, em uma confissão que compreende tanto boa vontade quanto um sentimento de impotência, pois a narração tentará preencher as lacunas dando-nos, e dando àquelas crianças, palavras, mas será “tudo eivado de imperfeição”.

 

Pode-se ler “O som do rugido da onça” como um romance que conta histórias paralelas, a história de Josefa, por exemplo, a estudante paraense radicada em São Paulo, em fuga da própria identidade, indo encontrá-la no rosto de Iñe-e, dois séculos depois, pois estamos na proximidade do dia 18 de março de 2018, dia do assassinato de Marielle Franco. Mas essa é uma leitura possível se estivermos na percepção do tempo linear, tempo da cultura judaico-cristã e não do tempo de inúmeras das chamadas sociedades tradicionais, cuja constituição é circular. A forma que a autora escolhe para narrar pode nos fazer perceber uma história única, em consonância com o movimento de fluxo contínuo entre as personagens, em que a narração vai e volta, dando a própria ideia da circularidade do tempo. No círculo qualquer lugar pode ser o começo e o passado, o presente e o futuro estão juntos. Os antepassados ensinam os viventes. Iñe-e também é Josefa. Tudo compondo uma história só; o fato que não é curado tornando-se uma repetição. “Uaara-Iñe-e viu que sua vida e sua morte se davam por repetidas nas vidas e nas mortes de outras crianças, como a Dona da Caça havia dito. Assim, não é estranho que do século XIX se passe ao documentário sobre o cacique Raoni ou às manchetes de jornais que registram diversos crimes contra os povos originários. É tema e forma, na cosmogonia que abriga os bichos desde o princípio dos tempos, as causas e efeitos, tudo interligado, sob os olhos da “Onça Grande, Tipai uu”.

 

O som do rugido da onça mostra a desesperança de Iñe-e em voltar para sua terra, para os seus familiares, sua mãe, sua avó, seu rio. Fosse nomeada a doença naquela época, Iñe-e estaria tomada de depressão. Em uma melancolia profunda, na sua desgraça (que os leitores são instados a saber que é a desgraça de um país chamado Brasil e cuja história se funda nessa violência), ela repensa a desgraça dos inimigos que na tribo também eram separados de seus filhos, de seus pais, de sua gente e vendidos aos brancos. Na sua desgraça de perder sua própria criança, a rainha Karoline Friederike Wilhelmine von Baden repensa a desgraça das crianças indígenas sob sua custódia e sente culpa na sua consciência acusatória. Micheliny Verunschk situa a rainha na sua condição de mulher, fazendo com que esse seja também um tema que acompanha a obra.

 

O som do rugido da onça denuncia as forjas da história hegemônica, as palavras que podem ser domadas muito facilmente com o objetivo de trair, de falsificar uma biografia nobre, ocultando ou maquiando todos os atos vis. É isso que faz Martius e é contra isso que, declaradamente, Verunschk escreve. Se Martius se insere no seu próprio discurso e no discurso histórico como o salvador daquelas crianças, o herói que as libertou de um cativeiro, aquele que as tirou do breu da barbárie para a luz da civilização, a autora o coloca no lugar que ele se esforça por esconder: o de um sequestrador de crianças.  Talvez uma das mais duras constatações desse romance embebido de poesia seja a de que com toda a reparação do mundo algo jamais poderá ser devolvido. Ainda que Spix simbolize o homem “menos pior”, aquele que não deseja o efeito da ação, o homem branco é um devedor irremediável.

 

A escritora Márcia Wayna Kambeba, do povo Omágua/Kambeba, em seu Saberes da floresta, fala da importância de se formar um lugar de escuta: “É preciso silenciar para ouvir as vozes da floresta ecoando em nossa alma, tornando-nos sensíveis para entender cada movimento, cada cor e o canto dos pássaros e animais. As vozes das florestas servem de alerta para evitar muitos desastres, para educar, curar, orientar. É preciso estar com o coração e os ouvidos atentos para acolher e entender.” A escritora e pesquisadora Julie Dorrico, descendente dos Macuxis, no prefácio que faz em Saberes da floresta, defende que o povo branco é que deveria se instruir na educação dos povos ameríndios. A pesquisadora Maria Luísa Lucas, no artigo Os Miranha e as fotografias de Albert Frisch, faz a seguinte pergunta: “Ao conhecermos melhor os meandros das relações entre os povos originários e os não-indígenas no passado, podemos mesmo nos perguntar: e se essa última e distante fronteira puder ser não o fim, mas o começo do Brasil?

O som do rugido da onça é um romance que nos faz pensar sobre esse lugar de escuta, sobre essa educação que nos falta e sobre um futuro que, de forma circular, fosse não o fim, mas, como na descoberta de Josefa, um começo.

 

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O som do rugido da onça

Micheliny Verunshck

Romance

Companhia das Letras

2021

 

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Sacrifício e outros contos, de Francisco de Morais Mendes

 

 


Por Adriane Garcia

 

Exímio contista, Francisco de Morais Mendes nos traz sua mais nova coletânea, Sacrifício e outros contos. O livro, disponível também em e-book, foi o vencedor do prêmio Gato-Bravo, da editora portuguesa de mesmo nome e em breve será lançado no Brasil pela editora Jaguatirica.

 

No seu Decálogo do perfeito contista, Horácio Quiroga aconselha: “Toma teus personagens pela mão e leva-os firmemente até o fim, sem ver nada além do caminho que traçastes para eles. Não te distraias vendo o que a eles não importa ver.” Nos livros de Francisco de Morais Mendes, desde Escreva, querida (1996), a regra de ouro de Quiroga é também a sua; nos contos de Francisco de Morais Mendes as aparas são cuidadosamente retiradas e os personagens tão concentrados em suas próprias histórias, que nos concentramos com eles. Não há desvios e tudo tem importância dentro da narrativa.  

 

No conto Sacrifício, que dá nome ao livro, uma situação absolutamente absurda – achar dinheiro nas ruas a vida toda – ganha verossimilhança na habilidade do autor. A leitura nos encaminha para a empatia com o protagonista, Marcial. A surrealidade da história nos comove porque Marcial tem sua humanidade tocada pelo destino, do qual não consegue fugir. Será crime achar objetos perdidos e não devolver? A quem acha tanto e não devolve só resta a lavagem de dinheiro?  A metáfora para o trabalho cria a equivalência de rebaixar-se, fazer sacrifício, aproximando-o da raiz da palavra “Tripalium”, tortura. Em Sacrifício, uma situação que causaria inveja a qualquer um na vida real, ao contrário, faz com que nós a rejeitemos; não queremos a solidão e o vazio de Marcial, recusamos a sua boa sorte.

 

Em Jogo de cartas, um mistério. Um homem poderoso contrata um poeta para escrever cartas para sua esposa. Disso resulta um crime passional; porém à leitora/ao leitor resta o encargo de suspeitar sobre quem foi que matou e quem foi que morreu. Um jornalista precisa contar a verdade, mas sabe que tudo pode ser comprado, inclusive a imprensa. Em Quinta feira, 17, por volta das 18 horas, com chuva, a leitura nos faz pensar que estamos em um lugar, mas termina, surpreendentemente, nos situando em outro. Francisco de Morais Mendes nos coloca na espacialidade – tantas vezes não desejada – que pode ser vencida pela fuga da imaginação.

 

No conto A duração, um rapaz que se encantava com o herbário do avô acaba se tornando também um botânico. Nesse caminho, o passado faz conservar a ilusão (talvez realidade) de que tenha feito parte da música de Kantor, um grande compositor. Porém, o próprio compositor desaparece quando ninguém mais escuta suas composições. O protagonista liga a existência à memória; fora da memória, a finitude atravessa tudo. É preciso que um artista reabilite o outro, tempos depois de seu desaparecimento. Em Gravitação, o personagem está tão imobilizado quanto nós que o acompanhamos. A tensão é contínua e a confusão mental compõe a sensação da leitura.  O narrador não sabe o que se passa consigo. A situação final traz o humor trágico das ocasiões inusitadas e a complexidade que envolve os coadjuvantes. Em O ato de ler, uma atriz está diante de uma grande plateia, simplesmente lendo, no gozo de ler. O conto é uma grande homenagem às leitoras e aos leitores, mostrando o ato de ler elevado a cena admirável, teatral, momento de fruição absoluta; um ato tão “comum" – e íntimo – que pode se transformar em algo extraordinário, espetacular.

 

Teca traz um ritmo quase melancólico. O homem solitário encontra uma jovem na fila do cinema e ela insiste em levá-lo ao seu quarto, para que a veja vestida de coelhinha. Sem forma de manter contato que não seja o acaso, o protagonista vivencia a precariedade do relacionamento. Não há nem avanço na relação e nem desapego sobre ela. No conto Autópsia, Francisco de Morais Mendes disseca um grupo literário que discute sobre autoficção, crítica literária, enquanto faz piadas entre os seus, de preferência utilizando como alvo aquele ou aquela que estiver ausente. Ressentimentos, traições, “alfinetadas” e conluios que podem terminar em “dentes a menos”.

 

Na finalização do livro há vários contos curtos sob o título Sugestões para começo, meio e fim, numerados sem sequenciamento crescente, que falam de temas variados. Inteligentes, por vezes bem-humorados, críticos e emocionantes – como, por exemplo, o dos tantos cachorros que já morreram na literatura ou o do restaurador de livros chamado Louzada que “Costuma dizer que os livros querem voltar a ser árvores. Por isso, as páginas ressecam e ficam quebradiças, como se tornassem à madeira que um dia foram”. Em muitos momentos, Sacrifício e outros contos é uma homenagem aos livros, ao ato de ler e às bibliotecas.

 

16

É incrível a quantidade de cachorros que morrem nos textos literários. A literatura é um cemitério de cachorros. São muitas as histórias em que alguém leva um cachorro para morrer longe de casa. E, por mais que esse alguém pense ter enganado a todos, resta sempre um menino de olhos vermelhos no portão, porque sabe que o cachorro não voltará mais”.

 

 

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Sacrifício

Francisco de Morais Mendes

Contos

Ed. Gato Bravo

2019

 

O Ausente, de Edimilson de Almeida Pereira

 


 


Por Adriane Garcia

 

O Ausente, romance que integra a trilogia Náusea, de Edimilson de Almeida Pereira, conta a história de Inocêncio, um homem que vive no meio rural e se torna o rezador e o curandeiro de sua comunidade por predestinação. Durante os partos, raramente acontece de o bebê nascer envolto pelo saco amniótico e, em alguns lugares diversos do mapa, desde épocas remotas, o fato é compreendido como um sinal de proteção especial, resultando em um símbolo de sorte ou da marca inescapável de curar. Inocêncio é um empelicado.

 

Em Ausente, no curto espaço de tempo entre o final da noite e a madrugada, Inocêncio reflete sobre sua vida e sobre uma decisão radical que deve ou não tomar. Entre o destino e as possibilidades que não viveu, entre a obediência e a desobediência, situa-se o seu mal-estar. Na cama, ao lado de Inocêncio, está sua companheira Djanira, a professora, aquela que lhe alargou o mundo e lhe mostrou que nem tudo precisa ser como é. Durante a leitura do romance, acompanhamos a insônia incômoda de Inocêncio, que não dorme porque está prestes a escolher. E escolher é também recusar.

 

É interessante notar que o personagem muda de nome durante o romance. Inocêncio é Inoc e é Esse de Agora – o nome muda porque o ser muda no tempo, seja porque lhe nomearam, seja porque ele mesmo se renomeia. Os nomes do benzedor revelam a transitoriedade de si e um sentido de metamorfose que perpassa toda a sua reflexão: a do devir. Inocêncio dorme um para acordar outro. No seu mundo marcado pela permanência, Esse de Agora talvez decida retirar-se da sua herança e se refazer, pois descobre, ao visitar o moribundo e transgressor Zé Vítor, que é possível transgredir e refazer a própria identidade, fora dos maniqueísmos. Inocêncio rompeu um pacto e a escuridão da noite se traduz na agonia de uma velhice que questiona sobre agir por conta própria, sobre fundar na ação uma declaração de liberdade, mesmo quando pareça tarde demais.

 

Narrado em primeira pessoa, ainda que em temporalidade condensada, o que Inocêncio mostra é um tempo largo, profundo, que visita mistérios e arquétipos, um ritmo que só é possível naqueles que se dão a observar a si mesmos e ao seu entorno. Esse efeito é conseguido por meio da linguagem que o autor utiliza. Edimilson de Almeida Pereira constrói narradores (Djanira também narra em determinado momento) que não nos enganam. Estão mesmo onde dizem estar e passam pela situação que descrevem. A língua que falam chega até nós porque há um exercício muito atento de escuta. É o homem e a mulher do campo, cuja sintaxe se aproxima da poesia. Assim, o autor conta para que o personagem possa contar:

Nós, pessoas em carne, osso e alumbramento, vivemos daquilo que nos contam e que nos arvoramos a recontar. Por isso, esses, aí chegando – um pai, a mãe e o seu filho deles – em muita carência, mas ajustados no seu transporte, merecem que os escutemos.”

 

Ausente é um lugar, é o nome da comunidade, mas pode também ser uma pessoa que se ausenta da própria vida. Pela linguagem, Inocêncio faz a sua revolução noturna: rememorar e contar seu auge e ruína, apresentar o antigo e o novo, desestruturar-se e mostrar seu mundo desestruturado, mas em busca de outra inteireza. Seu exercício noturno de reflexão aproxima os dois ofícios, o de curador e de contador de histórias, pois na cura a palavra tem espaço primordial. O ausente Esse de Agora é presente.

A fala de Djanira (a Deja, semeadora de livros, filha de um semeador de árvores) é feita de amor, crítica social, lucidez e resistência. Para ela, estudo é remédio. Djanira mostra a opressão socioeconômica que se abate sobre os mais vulneráveis, sem precisar localizá-la em uma cronologia exata, pois injustiça e violência existem desde que o mundo é mundo; tanto que podemos reconhecê-las imediatamente, nos dias de hoje, seja no medo das comunidades que vivem próximas às barragens construídas pela mineração – e que a qualquer momento podem destruir populações inteiras como se nem crime fosse – seja na ameaça perene de perder suas terras para fazendeiros que contratam milícias para abater os legítimos donos.

Aqui o ar é longo, as plantas crescem com argumentos. Crescem por gentileza, às vezes penso que deveria ser por ódio contra os senhores abancados em mesas na cidade, que atiçam o fogo contra nós – rios e matas e cavernas. Mas o Ausente é uma sorte, ermo apartado fora do mapa.”

Inocêncio, um homem que faz o balanço da sua experiência, busca um novo encaixe para aquilo que, sozinho, já não faz mais sentido. Sim, ele, um homem religioso, um homem feito para ser santo, desconfia dos homens santos e dos discursos religiosos, duvida do deus que lhe contaram e duvida até mesmo da simbologia de sua marca de empelicado. Se a tradição lhe dita uma essência, a liberdade a nega e prega uma existência.

 

Edimilson de Almeida Pereira, que também é pesquisador de culturas e religiosidades afro-brasileiras, traz para a narração de O Ausente, muito da escuta alcançada e registrada no seu livro de estudos antropológicos, Mundo encaixado, escrito com Núbia Pereira de Magalhães Gomes. A religiosidade tem papel central nessas comunidades e se entrelaça com todos os outros temas:

 

A vontade divina consiste numa determinação que delineia o desempenho humano, evidenciando-lhe a precariedade. A religiosidade popular tem na resignação uma resposta a essa determinação, mas trata-se de uma resignação que encontra no sagrado sua justificativa. A força divina, capaz de gerar o universo, dispõe de sabedoria para também gerenciar aquilo que criou. Desse modo, resignação e fé se completam, uma vez que à aceitação segue-se a possibilidade da recompensa.”

 

A insônia de Inocêncio vem questionar o primeiro e mais crônico aprendizado, até que contraposto a outros encontros – os da ciência (Djanira), os de uma filosofia rebelde (Anastácio – um teólogo sem religião), os do exemplo divergente (Zé Vítor). Corajoso, ele enfrenta as questões da identidade e se coloca o problema universal respondido de modo muito insatisfatório pelas religiões: o do livre-arbítrio. O Ausente é um livro bonito, poético e profundo sobre um auto resgate. E quando se conta uma história, sempre se pode também resgatar um outro.

 

EcceHomo fala quando não deveria, penso. Mas dispenso logo essa ideia. Eu mesmo não vim para tirar algo dele. Vim porque a ferida era minha. Não preciso de Deus, nem do seo-sem-nome. Careço de um emplastro de alma. Se eu não me quisesse iludir, iria eu mesmo buscar o assa-peixe. Punha no pilão e macerava com sal e gordura, para dar liga. Enfiava depois, por minha conta e risco, num saco de pano virgem e tatuava sobre a minha dor. Enquanto isso, liberava deus para ir no açude, escolher um caniço e soprar sua música.” (p. 83)          

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O Ausente

Edimilson de Almeida Pereira

Romance

Editora Relicário

2020                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          

terça-feira, 6 de julho de 2021

Como usar um pesadelo, de Bruno Ribeiro

 




Por Adriane Garcia

 

Em seu precursor A interpretação dos sonhos (1900), Freud nos informa que o sonho é a realização disfarçada de desejos. Durante o sono, o que fazemos é desligar nossos sensores (e censores) para os estímulos externos; assim, afastados do mundo, nossa censura enfraquece. Isso permite que o conteúdo inconsciente, reprimido, secreto, ultrapasse a barreira e se manifeste. Porém, alguma censura do consciente ainda age e o conteúdo não permitido se dissimula, se distorce, se condensa, se figura e se realiza em forma de sonho. O material dos sonhos é a memória de restos diurnos, da vida na vigília desde a infância. Como em um caleidoscópio, mas não ao acaso, o sonho é uma narrativa de combinações as mais variadas, cujo autor é o inconsciente e pode ser articulado a ponto de ter vários sentidos na interpretação do sonhador.  

 

Para dar atenção aos sonhos, esse maravilhoso e rico repertório de autoconhecimento, é preciso dar-se o tempo de dormir, sonhar, lembrar, até mesmo narrar ou escrever a experiência onírica. Em um mundo apressado, no qual somos parte de uma engrenagem produtiva que jamais pode parar de trabalhar e, na melhor das hipóteses, consumir, o sonho passa despercebido. O pesadelo – com todas as emoções e medos que evoca – acontece sem que se reflita sobre ele. Deixamos de contar nossos segredos a nós mesmos, de sermos surpreendidos sobre forças que se ocultam no nosso interior. Em um sistema que promove tudo o que é superficial, o aprofundar-se em si é algo a ser evitado.

 

A coletânea de treze contos de Bruno Ribeiro, intitulada Como usar um pesadelo coloca o sonho de terror no centro de todas as histórias. Se o sonho diz do próprio sonhador e não de outra pessoa, ao trazer esses elementos oníricos para a literatura, Bruno Ribeiro entrega-nos outros sonhos que não mais os seus, pois agora passam a ser nossos, sendo que cada símbolo ali tocará de maneira pessoal o leitor. Há também os sinais típicos, simbologias universais.  Reconhecemos os pesadelos narrados por Bruno Ribeiro porque seus elementos também nos são comuns, ainda que cada um os leia à sua maneira, pois o exercício de ler é o exercício de uma coautoria.


Nem sempre os pesadelos são lembrados na íntegra. O mais comum é que preenchamos as lacunas ao narrar o sonho, no momento em que nossas censuras conscientes já estão bem acordadas e que a linguagem de vigília elabora o conteúdo manifesto, podendo até chegar, em análise, aos conteúdos latentes. Nos contos de Como usar um pesadelo, a intrusão dos componentes ilógicos, as associações imprevistas, fragmentadas e compostas de imagens, já estão organizadas em narrativas que os leitores são capazes de compreender. Não se trata de literatura surrealista, no sentido formal, com discurso e associação livres. Trata-se do uso do nonsense típico dos sonhos, onde o caos não se dá na linguagem, mas no mundo que é observado.

 

O repertório onírico de Como usar um pesadelo apresenta-nos personagens e situações inusitados: um homem que observa uma mosca agonizante próxima ao seu prato com bife e batata frita. O bicho agoniza e o homem come. Todo o cenário é de brutalidade e terror. Até mesmo a garçonete tem algo de mosca. Uma caixa misteriosa com algo que deve ser consumido em quinze dias e que ninguém sabe o que há dentro. Uma narradora sexualmente atraída pelo dono da caixa tentando que ele ouça seu pensamento “vem me ver”. Uma tentativa de assassinato que se repete todas as noites, mas o alvo nunca dobra a esquina, nunca morre, pois jamais encontra a sonhadora e, assim, ela preserva o desejo intacto. Um pai olha o filho com espanto, achando-o feio, monstruoso; ao mesmo tempo, aparece um monstro na cidade, suscitando teorias. O monstro seria humano, restos de experiência científica? Medo, desconfiança, piedade, ataque; e o perigo de nos tornarmos aquilo que combatemos.

 

Em alguns dos contos, os pesadelos se aproximam muito da forma realista dos períodos de vigília e refletem a solidão, a falta de sentido e a medicalização da vida. Em Três dias sem as meninas não se pode afirmar que a personagem esteja em um pesadelo ou em surto psicótico: “Vou sentindo minha cabeça tombar pro lado, a varanda do nosso apê vai dobrando, inclinando, um furor toma conta dos meus olhos que se tornam estrábicos. A paisagem cinza da cidade fica horizontal e uma cólera de dor invade meu pescoço, minha mão treme, tudo fica dobrado, torto, inclinado, até que o mundo fica escuro e a paisagem de outrora desaparece.” Ao mesmo tempo, a literatura se beneficia da ambiguidade de tudo que pode funcionar como metáfora. Em outros contos, o cenário onírico se faz de pura fantasia, apresentando-nos uma festa em que corpos flutuam no céu amarrados por uma corda, feito balões, o efeito lembrando muito as pinturas surrealistas de René Magritte. Um outro momento, tomado de fantasia, é o conto “Passarinho preto”, no qual um homem possui um ninho no lugar da cabeça, com um passarinho dentro – um pássaro morto que canta.  Aqui, elementos típicos dos sonhos, como inversão e transmutação da representação mental acontecem. Chama a atenção a linguagem utilizada, especialmente poética, lembrando-nos que sonhador e poeta muitas vezes são sinônimos populares para descrever a mesma pessoa.

 

 

Como usar um pesadelo traz críticas sociais, políticas e existenciais implícitas. Os pesadelos selecionados mostram um mundo assolado pelo desequilíbrio, pelos transtornos mentais, pelo mau caratismo, pela busca do sucesso propagandeada pelos coachs, pela terra arrasada em que as ervas-daninhas da autoajuda, essa nova roupagem do charlatanismo, encontra para se alastrar; o sadomasoquismo das relações, a violência e a tortura como soluções políticas, findando assim toda a política. No pesadelo coletivo, não há espaço para a democracia. Em “A voz do povo” o ex-presidente é preso e a população decidirá sobre sua morte. A teatralização do inimigo para torná-lo maior e mais abjeto até destruí-lo mostram os caminhos da violência dos estados de exceção. A estética é a mesma que a dos pesadelos, a estética do horror, por isso Bruno Ribeiro nos dá a tortura em detalhes. Não há mais espaço para a subjetividade e por isso não há que se interpretar os sonhos. O homem e a mulher do horror são aqueles que trabalham, consomem, obedecem, frequentam igrejas, defendem a família, a pátria, a tortura contra seus inimigos; odeiam os mais fragilizados e qualquer revolucionário e não conseguem perceber o próprio pesadelo.

 

Outras vezes, o sonho revela a angústia de ver um filho afogado ou de perceber, como se fosse uma peça de dramaturgia encenada, sua família disfuncional e infeliz em detalhes, marcada pelo poder do patriarcado, que oprime mulheres e crianças, gerando conflitos de casamento, paternidade mal vivida, sexualidade mal resolvida, violência doméstica, sonhos e expectativas desfeitos. A recorrência dos espaços pintados de branco, leva-nos sugestivamente aos lugares em que estamos à mercê completa dos outros, hospitais, manicômios e prisões. E como não poderia faltar, Como usar um pesadelo mostra um encontro com o diabo e o recurso onírico da repetição, do espelhamento e do beco sem saída.

 

O sonhador de Como usar um pesadelo é perdido, sem entendimento, fragmentado. A palavra que o assombra é “fim”. Se a recorrência de pesadelos pode gerar medo de dormir, o pesadelo na vigília gera medo de viver. No fundo, os contos de Bruno Ribeiro não estão falando dos pesadelos que temos dormindo, mas daqueles que vivemos acordados. É preciso enfrentar a noite.

 

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Como usar um pesadelo

Bruno Ribeiro

Contos

Ed. Caos & Letras

2020

 

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Quênia, de Michaela V. Schmaedel

 

 



Por Adriane Garcia

 

Entre a dimensão filosófica e a fabulação, a poeta Michaela V. Schmaedel nos entrega um livro de aprofundamento temático e apuro da linguagem. Se em seu primeiro livro, Coração cansado, a temática próxima dos processos de luto privilegiam uma subjetividade mais solitária, neste Quênia – poemas de viagens, a subjetividade é mais solidária. A poeta sai de si tocada pelo mundo exterior e entra em si a partir deste mundo para comungar com ele. É a comunhão com a natureza na sua rusticidade e pureza, sentida como uma epifania, que ela nos comunica em poemas certeiros, econômicos, que contam com sugestões e silêncios.

A viagem de Michaela V. Schmaedel ao Quênia leva a uma busca das origens. É do ponto mais alto da África que o eu-lírico declara sentir a queda da humanidade: “feito pedra/ espreita o mundo// feito homem/sente a queda”. O eu-lírico caminha para a reflexão sobre a espécie humana desde o seu continente ancestral, colocando-se não só no lugar do humano, mas emprestando-se, como nas fábulas, ao bicho, às pedras, aos rios, à vegetação para ver a si.

 

O efeito da reflexão filosófica (uma ontologia) e a força dos elementos arcaicos das fábulas potencializam a leitura, tocam em arquétipos, questões existenciais antigas cuja premência se situa no presente. É de se notar que o livro evoca nossa natureza comungada com os outros seres quando essa comunhão se mostra esquecida e o homem não é capaz de ler o bioma em que vive ou acolher vias sustentáveis para conviver no planeta.

 

A terra escreve

a árvore escreve

a montanha escreve

o rio escreve.

 

Nós é que somos

limitados na leitura.”

 

A poesia se beneficia da metáfora e a ela nenhum estranhamento causa a fábula; desde os tempos imemoriais possuímos modelos de histórias em que falamos por meio dos outros seres. Em nossa memória ancestral sabemos de elefantes, hienas, montanhas, girafas que nos contam histórias ou que delas fazem parte para nos simbolizar algo. Em Quênia, esses elementos vêm articular os tempos, questionar e atualizar o homem e o animal que a memória coletiva deve preservar.

 

Há muitas

linhas do Equador

a dividir os trópicos.

 

Há muitos

modos de olhar

o mesmo animal.”

 

Ao olhar a paisagem e os seres que a habitam, o ser humano penetra na sua própria noite, que é abismo, dor e morte. A condição humana da qual não se pode fugir (mas tenta-se todo o tempo) alcança a consciência nessa simbiose e isso talvez fosse benéfico para que o homem desenvolvesse outras relações que não as do predador no topo da cadeia alimentar:

 

À NOITE

 

Procuro

ossos

carcaças

pego

eu mesma

o que

consigo.

 

Carrego

eu mesma

a morte.”

 

Em Quênia, a espacialidade, a distância tomada pelo eu-lírico, resultam numa prospecção. Vê-se de longe e de perto, para frente e para trás, coletivamente e individualmente. O eu-lírico também fala de suas dores pessoais: “No lugar da caça/ do bicho quase não vivo/ na savana das presas/ me encontro.” É neste lugar da perda que ele se identifica. O ser humano olha para si, olha para os outros seres e se dá conta do que lhe falta, seja o capim mais verde, a pessoa amada na penumbra ou mesmo um sentimento que o una aos outros. Sua constante é a luta e a persistente ilusão de que está separado do mundo:

 

HIENA

 

Sorrateira

no passo

a passo

da caça

atrás do

coração

que lhe falta.”

Michaela V. Schmaedel retrata-nos um mundo dessacralizado mostrando-nos um outro onde ainda era possível um sentido religioso de “relegere” (reler) ou o “religare” (religar). Para isso nada melhor do que figuras que nos aproximem dos “mythos” (fábulas). Procura-se Deus, mas nada indica que possa ser encontrado, exceto na beleza:

 

FLAMINGOS

 

Procuram

Deus no

silêncio

das águas”.

 

Diante da paisagem do Quênia, a poeta está tomada de beleza. Havendo uma moral da história, elemento fabuloso, podemos dizer que ela consta no primeiro poema do livro, aviso oracular do qual deveríamos ler todas as linhas e entrelinhas:

 

Ainda somos o homem

ancestral agachado

na savana do Quênia.”

 

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Quênia – poemas de viagens

Michaela V. Schmaedel

Editora cas’a

2021