quinta-feira, 15 de março de 2018

Escafandro – de Wilson Torres Nanini



rezar não adianta
é difícil o mundo
nos aceitar sem algum suborno”


a estrada é árdua
a ampulheta é célere
a lamparina é parca”





Por Adriane Garcia


A palavra “escafandro” já evoca uma imagem poderosa: um escafandro tanto lembra perigo quanto proteção. A sonoridade é tanto exótica quanto parece um verbo no gerúndio. Um escafandrista pode nos remeter ao futuro descobrindo o passado, e também ao próprio passado, desenhado neste objeto lúdico de exploração aquática. Obviamente, poetas diante da palavra “escafandro” não a deixariam escapar por nada, ainda mais se ela lhes fosse soprada em um sonho.

Sonhada por Wilson Torres Nanini, juntamente com a palavra “redemunho”, que nos coloca em movimento imediato, ele a transformou em um livro: Escafandro (ed. Patuá, 2015).

Escafandro é uma coletânea belíssima, cujos poemas são intitulados com iniciais de nomes de pessoas. O livro traz à tona retratos de família, conta as memórias de uma comunidade, pelo olhar do poeta: uma comunidade mineira, rural e demasiadamente humana. Nos poemas de Nanini, a memória, impregnada de afeto, mistura a vida das personagens com o sentimento do autor sobre elas. O resultado é um mergulho profundo nas questões existenciais, envolvendo o sentido da vida, o tempo, a irreversibilidade, as ilusões desfeitas, as fatalidades a que estamos expostos, a experiência humana sempre forjada no erro, a morte e, principalmente, a precariedade. Diante do difícil exercício de viver, Nanini evoca, reincidentemente, a necessidade dos anestésicos: o amor, a distração dos afazeres, a religiosidade, os buquês de flores de ipês salvadores, na luta constante, exterior e interior entre o bem e o mal.

É preciso coragem para vestir um escafandro. Quem o veste, sabe que visitará os mortos, que entrará no reino amniótico das águas, que recolherá os rastros de uma raça extinta. A memória, sabe Nanini, é um relato ajudado pela imaginação, quando precisa explicar para si mesma algum fóssil que encontra aqui e ali. Pelo silêncio, o homem submerge, e pela palavra emerge (borboleta-de-rapina). Por ela, o escafandrista nos conta, não sem dor, que esteve em um mundo cujo redemunho poderia enlouquecer qualquer um. É quando nos damos conta de que, enquanto líamos o livro, o mergulho também era feito dentro de nós.


padre O. da serenidade

e saber ir-se a deus
a velhice é um caminho
o câncer é um atalho –
quando os desejos já são múmias
de que valem as hóstias sem açúcar
aos dentes já ausentes?
a igreja
dói devagar – apesar
de em seu meio:
negações ruminando galos
a cisterna de águas-vivas bentas
apaziguando
o excesso de miragens
as muitas madalenas
que me juram excrementos
mesmo após eu as ter
livrado
do apedrejamento


dona L. do asilo

ela: cerne de cicuta
velhinha vestida de alarido
ciranda presépio e disparates
rumina rindo-se uma
cantilena hieroglífica

em nós dói ela
ninar perene boneca-
-de-pano (simulacro de seu
bebê fenecido de infância)

as fotografias de seus entes
(coágulos fantasmas) já sem nome

e uma solidão que
nunca foi mansa


dona E. N. das pamonhas

após as tachadas
interpreta deus
a felicidade é:
um domingo-à-tarde
(os cães satisfeitos com restos de comida e de afeto
os filhos orbitando em torno dela
aureolares)
segunda-feira entre novelas
iniciar a novena
pois “um peito em brasa só se apazigua
com cuspe divino”
– “deus me é o leito de uma sede-sem-margens” –
mas o coração é tão
desfiladeiro
aquilo pelo qual
mais morremos
mais nos mata”


tio N. dos brejos

inútil cálice com água
em uma casa submersa
demoro a minha sede
depurando os brejos
demoro a minha infância
decantando os assombros
e quando me chega o
apaziguamento
eis: uma água
uma água! –
póstuma ao incêndio


sargento M. dos provérbios

benzidas as roseiras
obtém-se a asfixia
apta para espingardas

cada um sabe com que cus
restituirá ao mundo
os ossos que engolira
com bocas incautas

difícil é resgatar as borboletas
voluntariamente encravadas
na ferrugem do autonaufrágio

as únicas vacas que não
vão para os brejos
são as aladas

qualquer pão volta a ser pedra
se demoramos a colher
o milagre oferto

***
Escafandro
Wilson Torres Nanini
Poesia
Ed. Patuá
2015


sexta-feira, 9 de março de 2018

Os ratos roeram o azul – De César Gilcevi




Por Adriane Garcia


você está fodendo tudo”
Minha alma começa a ser íngreme me escalam”

Terminei a leitura, fluida e absorvente, do livro Os ratos roeram o azul (ed. Letramento, 2016), de César Gilcevi. O título já é um poema inteiro, e o livro, no formato retangular, todo ilustrado com colagens de Warley Desali, é bonito e instiga ao manuseio. Livro para ler e para olhar.

Nas epígrafes, Gilcevi sugere seu universo eclético e vasto de referências, da tradição canônica da poesia ao rock, da literatura beat ao mundo católico e transcendente de Adélia Prado. No decorrer das páginas, encontramos tanto o eco de Drummond como o de Piva, mas em um exercício antropofágico do autor, emergindo uma poesia rica e de voz própria.

Assim como o volume é ilustrado com colagens que trabalham distorções sobre as fotografias de infância e dos antepassados do poeta, os poemas são tomados de memória e ancestralidade: “carrego o retrato empoeirado onde mamãe sorri/ sem dentes carrego este sonho intranquilo”. A cidade e seus arredores são o palco, ora atual, ora passado, para as cenas flagradas pela poesia. Belo Horizonte (e arredores), por vezes rural, aparece ao lado da metrópole urbana, com seu rio Arrudas poluído, acordando para a realidade difícil, cheia das baldeações daqueles que têm que dar conta do pão de cada dia, pois “o senhorio nunca dorme e me aguarda na portaria”.

Em seus versos, o poeta traça o surreal, o onírico e a realidade mais crua ( que de tão crua parece surreal). Entre imaginação e denúncia, a poesia de Gilcevi é um coquetel de excelente mistura. Assim, a igreja de São Sebastião no Barro Preto, inspira o poeta aos terríveis versos: “carrego o revel torso de são sebastião/esfaqueado por michês numa alameda sem saída do barro preto”. Os subúrbios o levam às “lolitas manchadas de acne & batom”. Em um jogo de empatia, Os ratos roeram o azul é um livro que, ao falar dos caminhos do poeta, acaba falando de uma cidade inteira, pelo olhar de quem pisa o seu chão.

A afirmação da ancestralidade é outro ponto fulcral em Os ratos roeram o azul. Ao dizer do “clã dos silva” e “clã dos souza”, dois títulos de poemas do livro, Gilcevi trabalha a profusão de etnias que compuseram a família, brancos, negros e índios. Em todo o livro pode-se perceber que o olhar do poeta é marcado pela experiência da diversidade, do sincretismo religioso e mesmo da recusa da religião. Também é notável o adensamento de sua interpretação de mundo quando somou às experiências de infância as leituras e informações da cultura letrada: “vó preta macera patuás me benze/ com alquímicas negras vogais”.

Assim como a infância é tema de vários poemas, ligada, não raro, à pobreza e à dificuldade econômica, “aqui as crianças já nascem/desmemoriadas do azul”, a adolescência ganha versos memoráveis, fazendo-nos pensar que a chegada do sêmen é, de certa forma, a morte do menino:

chega o outono
& eles constroem um cômodo só para mim
(macho apartado das irmãs & primas & seu jardim
urdindo o incesto & a orquídea

A juventude é retratada em diversos poemas que versam sobre dor, frustração amorosa, drogas e derrota, quase sempre ligada, direta ou indiretamente, à solidão: “se continuar assim morrerei/ perdulário poeta acoólatra velho/ & brocha recitando de cabeça lament for my cock/ acovardado no beliche de uma pensão no centro”. Tudo isso em poemas que, num fluxo, levam o leitor a ler até o fim, acompanhando a linguagem densa e forte, que sabe medir o lírico e o antilírico, alinhando-se a uma estética contemporânea.

Os ratos roeram o azul desperta nossos sentimentos universais, porque sabe cantar a sua aldeia.


Infância X
(barreiro de cima)

o meu pai teve a mãe
& o meu pai teve o pai
só que para ele ter o pai
ele teve os avós
a única viva é a mãe da mãe do meu pai
a bisa dasdor que matou o marido com o pilão
pra se casar com o primo
ele arrancou uma costela dela
& do osso nasceu uma amante
que com ele teve mais vinte anti-heróis
que sabiam amansar o azul & a pólvora
& povoaram o barreiro

deus viu que isso era bom
& foi-se embora


  1. clã dos silva

da parte do pai vinham os de pele escura & parda
índios pegos no laço ladrões d'além mar capitães do mato
idólatras do cobre da preguiça & das armas
malvivendo amontoados naquela casa pau a pique senzala
partiam para o leste sob a tutela da noche oscura
levavam na matula a bússola a meiota de cachaça
carcaças de pequenos animais
sapienciais pergaminhos: eis que vou agora dormir no pó
se me procurares pela manhã já não existirei

  1. clã dos souza
os irmãos da mãe na fronte acuada traziam sardas
lixo branco escorraçado das terras de lund
lazarones no monturo do morro das pedras
ralé de pés rachados sonâmbulos na encruzilhada
malvivendo amontoados naquela casa adobe senzala
pico & cola arranhando as grades da alma
falavam uma gíria bárbara & cheia de fúria
:o terceiro mundo vai explodir quem tiver de sapato não sobra


infância XII
(manual da mãe)

se você andar de costas
vai encontrar sua mãe morta
em pé atrás da porta
se pisar numa risca no chão
a espinha da mãe quebra
blusa do avesso não pode
chinelo virado a mãe morre
tá tudo na bíblia o que pode
o que não pode
juro pela minha mãe mortinha
bom é ter mãe
mesmo que seja uma silva

drogaria drugstore

ainda bem que vocês não me viram precoce drogaria drugstore
520 wolts no terceiro coração sobressalente & inafiançável
revirando vicious no mundaréu das tretas bocadas & beiras
ventosa vila pinho nova cintra betânia bonsucesso b.d.i magé
desemprego & buças feias sob o céu avariado
leréia language de beats suburbanos roubando carro pra dar um rolê
no olho da rua no olho do ku na casa do karalho na putaqopariu
o pau príapo porrete cocaínado a convidada
de xota azul & nariz guloso
serial killer crime scene madrugabasura de corpos desovados
ao que tudo indica devido ao tipo de vestimenta a vítima
era garota de programa falou na TV o delegado


*** 
Os ratos roeram o azul
César Gilcevi
Poesia
Ed. Letramento
2016


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

A loucura dos outros – de Nara Vidal




Por Adriane Garcia


Tão bom o livro, a beleza já começa na dedicatória: “Para Ismália”. Quem não se lembra de Ismália, que era de Alphonsus de Guimarães e depois se tornou de todos nós? Ismália, a mulher voando da torre, o anjo suicida, a sublime louca das loucas.

A dedicatória dá a tônica de A loucura dos outros (ed. Reformatório), de Nara Vidal, e não é à toa que a referência vem da poesia. O texto de Nara, pelos vinte e dois contos que compõem a coletânea, é permeado de poesia, aqui e ali, entre destroços de vidas que passaram daquele ponto em que a loucura não pode mais ser desapercebida. Notamos a loucura de seus personagens, afinal, é fácil notar a loucura nos outros. Ifigênia, por exemplo, perde literalmente (e metaforicamente) a cabeça. É impossível não notar.

Os contos todos são intitulados com nomes de mulheres. A loucura é trabalhada por Nara Vidal pelo viés do abandono, da incompreensão e do rótulo, trazendo indagações sobre o preconceito, a moralidade, o machismo, o amor romântico, os papéis normatizados.

Também é interessante notar que, apesar dos contos serem intitulados com os nomes das mulheres que os habitam, nem sempre o protagonista é essa mulher. Em Marta, temos o marido que espera da esposa a mesma beleza que ela tivera quando se casaram: beleza de Úrsula Andress. Isso, anos depois, numa exigência de que a mulher paralise o tempo, quando ele mesmo, barrigudo e careca, não consegue perceber que está enredado num absurdo.

Em Ana Rosa, o marido, presidiário, criminoso confesso, só não admite que se conspurque a moral da esposa, em um exercício irracional de enganar a si mesmo. Em Vanessa, o drama de Marta reaparece, mas com outro enfoque. Vanessa engordou e o tempo fez com que o marido, Orlando, notasse sua baba no travesseiro. Não era mais a mulher para ele, mas poderia continuar sendo a mãe, a dona de casa, a mantenedora do lar, a que prepara as refeições. Cecília tem horror a homem bonito ou que lê literatura barata. Enquanto o marido a ignora, procura flertes, na rua, durante o dia. Procura algo que brilhe, na opacidade da rotina. Adriana não suporta mais o companheiro, não suporta olhá-lo, deseja que ele arrume uma amante. Maria Dulce saiu da Polônia, está de passagem pela Alemanha e indo ao Brasil, ao enterro do irmão que se suicidou. No caminho, o sexo, a infidelidade, a constatação de que é casada com um bom marido, o desejo da maternidade, o conflito com a própria mãe e a afirmação de que tem muita coragem, mas pouco coração. Selma vive num asilo e a cada passo se pergunta até quando se esticará o fio de sua vida. Lúcia criava, com Zé Luís, bodes e cabras e, juntos, produziam o melhor queijo de leite de cabra da região. Um dia, a vigilância sanitária fechou o negócio que, tão tradicional, não se encaixava nas novas regras. Lúcia teve que se refazer profissionalmente e ser a força dupla, já em idade avançada, quando Zé Luís perdeu o rumo. Amanda ainda espera que Marcos a olhe como da primeira vez, enquanto tenta desculpar as surras que ele lhe dá. Ana e Paulo discordam de muitas coisas e, surpreendentemente, souberam se acertar assim, e vivem bem. Marelena é uma menina doente, a narradora é sua mãe, vivenciando a dor funda de ver a loucura em casa, roubando a infância da filha. Rita é outra mãe, convivendo com essa inversão inaceitável que é a morte de um filho pequeno. Olívia não suportou a falta de seu homem morto e morreu em vida, os filhos em total abandono. Sílvia sai de casa para ver “loucos, miseráveis, amantes, depressivos” e, desta forma, não ficar em contato com esses seres dentro dela mesma. Sentada no transporte público, convive com a dura realidade de não ser mais notada por um homem, nem mesmo por um homem também invisível: “Senti o tempo me morder com dentes afiados de ingratidão”. Agora é Sílvia que, observando um homem casado, em passeio com a família, julga a esposa, aponta seus defeitos e se projeta como amante e alívio. Fláviafoi mãe porque teve medo de envelhecer sozinha” e se pergunta como foi acontecer de ser mãe, com ela, que nunca quis cuidar de ninguém. Érica é um conto de reflexão profunda sobre a morte de uma mãe: “ A morte não incomoda em nada quando dizima uma família inteira sustentada por uma mãe, em carinho, atenção, justiça e força”. Regiane é casada com Guilherme e se inscreve num trabalho de telessexo para poder trabalhar em casa e ter um horário flexível que se compatibilize com as funções domésticas. Débora, numa sessão com a psicóloga, oferece-nos um olhar verdadeiro e inusitado sobre sua indiferença com relação à irmã, seu gosto por gente velha, feia, estranha, e sua visão da maternidade como armadilha. Mírian, dentro de um vagão de trem, reflete sobre o tempo, sobre a doença terminal da mãe e sua morte. O conto, circular, tem um final deliciosamente surpreendente. Íris é a moça do interior que foi pedida em casamento por Silvério. Eternamente noiva, se apaixonou por Adriano, dono do novo armazém na cidade; homem mais velho, cheio de histórias e livros. Íris é um dos contos mais poéticos de A loucura dos outros, a tragédia contada em poesia.

Cruel, A loucura dos outros é uma leitura rica sobre relacionamentos. Com uma escrita fluida, a autora constrói personagens tão sinceros, que parecem ter nos flagrado. De fundo, Nara Vidal nos coloca diante dos temas universais: o tempo, o amor e a morte. No fim das contas, tantos de nós podemos estar ali, e estamos; pois, são o tempo, o amor e a morte aquilo que nos salva e nos enlouquece.


Era eu. No reflexo do vidro era eu. Meu cabelo era uma juba bem cuidada, meticulosamente bagunçada, com cheiro de flor quase murcha não fosse por mim mesma a injetar-me de água, na tentativa de evitar a tragédia que é a morte plena. Morrer aos poucos ainda é alguma vida.
Passei os olhos discretos pelo vagão. Um homem me chamou a atenção. Meio careca e já suado às oito da manhã. Traços finos, nariz agradável. Será que ele me queria?
Passava dias pensando se alguém ainda ia me querer. Rodopiei os olhos e vi um homem bonito. Tenho horror a homem bonito. Gosto de beleza em esculturas, quadros, não em homem. De certo eu era velha pra ele, mesmo que ele não tivesse menos que cinquenta anos. Notei a mulher que devia ser tão invisível quanto eu. Quis beijá-la, mas seria por pena.
Voltei os olhos para o homem meio careca. Ele lia literatura barata. Incomodou-me o meu desprezo. Se eu fosse menos esnobe, talvez meu marido notasse que eu tinha um mar nos olhos e que eu tinha uma boa estrutura óssea.
O homem meio careca notou que eu me via no reflexo. Eu jogava os cabelos pros lados na tentativa de um bom ângulo. Ele sorriu. Eu apertei os olhos. Enrubesci. Aquele homem não sonhava com uma mulher feito eu. Eu era tanto pra ele, e assim mesmo eu estava disposta a levantar a saia e mostrar meu mundo pra ele, pro homem meio careca.
Não trocamos telefone e nem um segundo olhar. Estive viva. Ninguém precisava saber disso. Agora precisava voltar a morrer. Depois do trabalho a volta pra casa me esperava”.
(Excerto do conto Cecília, p. 49/50)

***
A loucura dos outros
Nara Vidal
Contos
Ed. Reformatório
2016

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Impublicáveis - zine de Adri Aleixo





Por Adriane Garcia


Há dias estou para falar do zine intitulado Impublicáveis da poeta Adri Aleixo.

Tendo a Lady Godiva, de Ethel Mortlock, na capa, Impublicáveis é uma coletânea de onze poemas, onde se pode notar, inequivocamente, o quanto a poesia de Adri Aleixo tem crescido em tratamento dos temas e forma. O trabalho reunido no zine pode ser lido rapidamente, mas logo em seguida, instiga o leitor à releitura, e foi o que eu fiz.

Com vagar, saboreando o sentido e os versos, Impublicáveis se torna ainda melhor numa manhã ou tarde silenciosa. Talvez, tendo ao lado uma xícara de chá, um aquário com pequenos peixes, uma disposição amistosa para o silêncio.

Esta a descoberta: onze poemas convidando para a introspecção, para a contemplação, para o toque daquilo que só pode ser devidamente sorvido se tiver ultrapassado o barulho e a multidão, o apego e a palavra excessiva. Não por acaso, um dos poemas evoca o gato de Orides Fontela, gato que, sabemos, é impossível de ser capturado. Noutro, Lady Godiva descobre, sabiamente, que é preciso despir-se de tudo, inclusive do cavalo; noutro, ainda, o amor que só pode ser percebido nas frases que não foram ditas.

Em Impublicáveis, assim como na lição ouvida por Godiva, menos é mais. E é mesmo. A poeta busca o sentido profundo do que observa e vivencia, com o pressuposto da verdade socrática de só saber que nada sabe: “Eu sei de muitas coisas/todas elas muito rasas/uma canção/alguma ou outra poesia”. Confessando não saber, Adri Aleixo busca o cerne das coisas, naquilo que é terreno da contemplação, do mistério, pois quem não sabe que a poesia se aproxima muito menos do conhecimento do que da sabedoria?

Deixo vocês com três poemas desta delícia. E o desejo profundo de que o silêncio habite mais vezes a nossa saúde e o nosso coração.

Cumeeira

Para cessar
o peso
do dia
poderás ir ao
telhado
lá, há um
precipitar de chuva e pulo
uma vista para o descampado
é lá onde secam as palavras
e coragem é uma espécie de ruindade
lá duas águas se encontram

Bilhete

Deslizo pelas paredes do quarto
e acendo as luzes da sala
a casa dorme
pedaços fragmentos coisas

há um azul se refazendo no teto
astros asteróides galáxias
mandam dizer
que dispensam explicações

Lady Godiva

Gostava de seguir tendências
leu certa vez em uma vitrine
: menos é mais!
despiu-se do cavalo


***
Impublicáveis
Adri Aleixo
2018
Publicação independente da autora
Disponível com a autora
Contato por e-mail: adrianalinguagens01@gmail.com


terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Antologia Contemporânea de Poesia Negra Brasileira (Org. Paulo Colina)



Por Adriane Garcia


Estive, por esta semana, às voltas com a Antologia Contemporânea de Poesia Negra Brasileira, organizada por Paulo Colina e editada pela Global, em 1982.

A antologia traz poetas de Minas Gerais (Adão Ventura), Paraíba (Arnaldo Xavier), Rio Grande do Sul (Oliveira Silveira), Rio de Janeiro (Éle Semog, José Carlos Limeira) e São Paulo (Abelardo Rodrigues, Cuti, Geni Mariano Guimarães, José Alberto, Maria da Paixão, Itaim Bibi, Mirian Alves, Oswaldo de Camargo, Paulo Colina e Ruth Souza).

Coletânea interessante, sobretudo, por registrar alguns nomes que passamos longe de conhecer, ou mesmo de ouvir falar, já que, notadamente, a literatura brasileira tem sido mais eficiente em divulgar autores homens, brancos, heterossexuais e de classe média. O padrão é tão visível que podemos nos perguntar até mesmo se esses não são os verdadeiros critérios extraliterários.

Antologia Contemporânea da Poesia Negra Brasileira traz poemas marcados pela afirmação da resistência, pela primazia do corpo como espaço privilegiado do sentir, em imagens onde a dor é um elemento comum. Porém, essa dor poucas vezes está relacionada com a dor individual, subjetiva e confessional, de um poeta olhando para dentro. Nos diversos poemas, dos vários autores e autoras, é possível notar um olhar para o coletivo, cuja dor em si é a dor de um grupo, na reflexão do que significa ter pele negra no Brasil, esse país construído, principalmente, sobre a força e a expropriação dos africanos, africanas e seus descendentes.

Na organização, o livro traz estilos diferentes de poesia. O leitor encontrará algo de seu gosto. De minha parte, devo à antologia a grata surpresa de conhecer a poesia de Arnaldo Xavier. Um experimentador da forma, um poeta cuja soltura é impressionante e, ao mesmo tempo, um poeta que segura o poema até onde ele necessita. Criativo, anárquico e brincante com a Língua, além de profundo. É com ele que vou deixá-los por aqui:


ATÉ O MAIS HERÉTICO DOS HEREGES REZA QUANDO AMA

,Quando falo
:)!Amor(
Soa falso como uma Árvore
,Se esboço um gesto de Luz
)redijo(
escuridão
                    em todos os movimentos
na Certezabsurdônika: DE QUE
ESTAMOS MORRENDO A CADA MOMENTO

,Assim como o Grito
tem que ser tão ensurdecedor
)em suas Garras de todos os Pássaros
Vivos(
ao ponto: de estrangular
até o ECO
!EU NÃO VOMITO
EU SOU O PRÓPRIO VÔMITO

,Porém
TODAS AS CANÇOES SERÃO REFEITAS
                                                                                                                –!No Dia
em que não mais se Combata
: UM INIMIGO
DO QUAL
SE FAZ PARTE
                                    –!Seja qual Flor
qualquer que seja o Mal-me-Quer
Qualquer que seja o Bem-me-Quer
,uma Porka Ibérica
)de olhos
azuis e verdes(
pariu três rebentos
Aragão
Castela
e Portucale

,pois pois filhos de Porkos
poucos São
,Arruda de Aragão casou
Com Agra de Portucale
Ribeiro de Portucale casou
com Tavares de Castela
Albuquerque de Castela casou
com Rego de Aragão
Almeida de Portucale casou
com Mariz de Castela

)certo Dia
sob qualquer Sol (Agra brigou
com Mariz
no casamento de Almeida com Tavares
:Arruda tomou as Dores
de Agra
e Almeida As de Mariz
,Rego tomou a mulher de Ribeiro
e Tavares jurou matar Rego
,Agra atirou em Mariz
e feriu
Albuquerque
,Albuquerque Arruda Ribeiro
Tavares choraram
)porém(
entre mortos e feridos
MORREU O NEGRO SEBASTIÃO
,A Denotação
é fácil ser Flor
ou
    ser Capim;
é fácil
               ser Flor
ou ser Capim;
é fácil ser Flor
ou ser Capim
)Difícil(
é
Ser Flor y Ser Capim

,Da Niincanção
)nem(
as Estrelas Quadrúpedes
)nem(
os Sóis Bípedes
)nem(
Raquel
)nem(
o Negro-Anjo Fortunato
)nem(
as Luas Zarolhas
)nem(
Mr. Smith
)nem(
Abdala

NEM

as vítimas desta Thristeza Anfíbia
compreenderam) até hoje(
QUE PARA
                      )A Chama(
a Vida
não é assim
                       e ASSADA
,in 4-3-3
à Paulo Cesar Lima

,aquele JOGO
:foi um jogo
)de vida e
de Morte(
o time Deles venceu
pelo escore íntimo
de 1 x 0
gol
       de Ternura
,naquela noite
Amargura
foi substituído por Solidão
logo no início do I Tempo
)e(
        Dor foi expulso
por cuspir no rosto do Goleiro Amor
e troca de pontapés com Paixão

,nosso goleiro
o Thriste
não foi feliz )no lance( do gol
de Ternura
e me lembro no vestiário
Thriste estava chorando
desolado
ao lado de Desolado
que estavam sendo consolados
pelos reservas: Lamento
Melancolia
e Angústia

,naquela Partida
nosso time jogou
com

                  Thriste
          Amargo
                         Lacrimoso
                  Medo
                                      e Desolado
                         Nostalgia
                 Banzo
                                e Saudade
Loucura
                      Dor
                                                 Amargura
(depois Solidão)



***
Antologia Contemporânea da Poesia Negra Brasileira
Organização Paulo Colina
Poesia
Ed. Global

1982