segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Forte apache, de Marcelo Montenegro




Forte apache (Cia das Letras), de Marcelo Montenegro é dividido em três partes; a primeira homônima do livro (2017) e as outras duas com poemas de seus trabalhos anteriores: Garagem lírica (2012) e Orfanato portátil (2003).

Oferecendo uma viagem sobre a produção de Marcelo Montenegro, Forte apache permite verificar que a voz do autor já vinha definida e diferenciada, que se manteve e se fortaleceu naquilo que parece centrar seu projeto poético: o olhar. Marcelo Montenegro é o poeta da cena, da imagem, dos “takes”, dos pequenos momentos que passariam despercebidos se sua sensibilidade não os flagrasse e, como alguém que seleciona as cenas, o poeta também pensa as trilhas sonoras.

Utilizando-se do humor, do contrassenso, das antíteses, das constatações inusuais, da ironia, Marcelo Montenegro retira da realidade, do fato banal, aquilo que deveríamos ter visto e não vimos, ocupados demais que estamos em viver nossos dias atropelados. Seus versos são para acordar, avisar, assustar. O que é importante? O que não é importante? No que não reparamos? Quando algo é ressignificado pode mudar de valor.

Com aquilo que, via repetição dos gestos, já nos acostumamos, a poesia de Forte apache alerta: tudo pode ser muito estranho e novo, cada ato banal que todos praticam no mundo particular. É ao dar visibilidade para esses atos que o poeta denuncia a normatização (e diluição) como estratégia do coletivo para cegar, afinal, a singularização nos torna loucos (e tão mais interessantes) diante do mundo.

Em Forte apache, a atenção se volta para o cotidiano mais comum, o que não é a nossa atuação calculada, do palco; é, antes, o que estamos fazendo nas coxias. Desse cotidiano, o poeta extrai sentido e delicadeza e o leitor percebe que há também grande ternura naquele que observa.

Uma poesia feita com a linguagem do nosso tempo, permeada pela prosa que capta o lírico, com referências do cinema, da música e da literatura, na busca dos pequenos conceitos e definições que ajudam a compreender o mundo, grifando os livros para achar as frases, grifando a vida para achar o verso.


Bruxismo

Isto podia ser outra coisa. Uma bebedeira, por
exemplo. NÃO, não uma bebedeira, mas o começo
encantador da embriaguez. Um dia bom, qualquer
motivo, a vida irrigando o corpo com nicotina.
Podia ser uma baleia encalhada na praia
do amor. Um pote de raiva esquecido no sótão.
Podia ser uma antena em estado de coma.
Ou cacos de vidro num fliperama. Um fotógrafo
desolado por não estar com sua câmera
naquele momento. Ou um menino sentado
na ponte, balançando os pés ao som de si mesmo.
Podia ser uma seleção de crônicas publicadas
em lugar nenhum. Um deus discotecando
instantes. Um hidrante aberto no agora.
Podia ser uma mulher suspendendo a barra
da calça para saltar uma poça. Aqueles insetos
que morrem após a picada. Uma adega de
ausências que o tempo elabora. Podia ser
um exame que, buscando uma coisa, diagnostica
outra. SIM, podia ser isso tudo. Uma solidão
acesa no abajur da melodia. Um macaco
se olhando na água no primeiro dia do mundo.



Buquê de presságios

De tudo, talvez, permaneça
o que significa. O que
não interessa. De tudo,
quem sabe, fique aquilo
que passa. Um gerânio
de aflição. Um gosto
de obturação na boca.
Você de cabelo molhado
saindo do banho.
Uma piada. Um provérbio.
Um buquê de presságios.
Sons de gotas na torneira da pia.
Tranqueiras líricas
na velha caixa de sapato.
De tudo, talvez, restem
bêbadas anotações
no guardanapo.
E aquela música linda
que nunca toca no rádio.



Cabaré


para Paulo de Tharso (in memoriam) e Ester Laccava


E se apenas cantássemos
como dois cansaços
num “deserto sem bússola”?
E se inscrevêssemos nosso sopro
na vidraça suja do mundo?
E se parássemos
de gastar nossas fichas nesta máquina?
E se apenas fingíssemos
como dois copos tingidos
de vinho no fundo?
E se nos anunciássemos
com bocejos sinceros em reuniões de negócios?
E se apenas sangrássemos
feito fiapos de riso
que escapam do choro?
E se topássemos, entre abandonos,
com o prenúncio invisível
de um poema lindo?
Resistiríamos, desistindo?


***
Forte apache
Marcelo Montenegro
Poesia
Cia das Letras
2018









quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Nada acontece, de Carina S. Gonçalves




Por Adriane Garcia



Livro interessante é Nada acontece (ed. Urutau), de Carina S. Gonçalves. Orgânico, seus poemas giram em torno do título da coletânea. Nada acontece capta o vazio e a solidão das vidas que esperam, das vidas que repetem, das vidas que, diante da rotina, precisam encontrar um acontecimento.

Esse acontecimento, em Nada acontece, é a própria poesia e – no caso da poesia de Carina S. Gonçalves – também a imaginação. Muitos de seus poemas poderiam ser curta-metragens e nos emocionariam pela simplicidade, assim como seus versos nos emocionam pela carga de reconhecimento da condição humana. Os grandes eventos, aqueles que nos tiram do chão, nos enlouquecem, nos fazem vibrar têm uma onda curta em nossa história. Hesíodo, em Os trabalhos e os dias descreve bem a nossa luta: “ É que os deuses mantêm escondido dos humanos o sustento./ Pois senão trabalharias fácil, e só um dia,/ e, mesmo ocioso, terias o bastante para o ano./ Logo colocarias o timão sobre a lareira,/ os trabalhos dos bois e das mulas incansáveis desapareceriam./ Mas Zeus escondeu-o, encolerizado em seu coração,/ porque o enganara Prometeu de curvo pensar./ Por isso maquinou amargos cuidados para os humanos,/ e escondeu o fogo. (...)”.

Nada acontece não diz, mas mostra o quanto estamos presos nas engrenagens e amaldiçoados pelos deuses. O ordinário é tanto que, num almoço de família, não somos mais pessoas, estamos fora do poema e o que aparece como sujeito é o objeto. O objeto pratica a ação e, depois, de tão repetitiva, somente a ação passa a existir, invisibilizando até mesmo o objeto:

Concerto para almoço ordinário
de família ordinária 4'33''

o telejornal chia
garfo tilinta no prato de porcelana
boca assopra
jarra enche o copo
suco de laranja desce pela garganta
copo vazio toca a mesa
tosse

passa o guardanapo?

faca serra o pão
faca serra o pernil
garfo tilinta o prato
suco desce pela garganta
copo metade vazio toca a mesa
saleiro chacoalha arroz cru e sal
colherinha de alumínio topa o vidro
do copo cheio de suco

pra que tanto açúcar?

cadeira arranha o chão de porcelanato
suco desce pela garganta
garfo tilinta
faca serra
cadeira arranha o chão
suco desce
copo enche
colherinha topa
cadeira arranha
tosse

arranha
desce
tilinta
serra
chacoalha
arranha
desce
enche
topa
arranha
tosse
chia

Se não é possível para um simples mortal fugir da cadeia da vida, que consiste em nascer, crescer, morrer e, neste meio, trabalhar no sistema de moer gente: “Ganharás o pão com o suor do teu rosto(Gen 3:19), Carina S. Gonçalves encontra a saída subversiva do poema. Tudo acontece se ela assim o quer, por isso trabalha com a traição ao senso comum, um humor da fatalidade que denuncia a rotina e a inversão. Se você acha que a menina de tênis e saia, ao passar pela garota de burca, julgará que está em melhores condições do que esta, está enganado, mas “de nada adiantou o encontro/ de nada/ eu sei/ eu acho”.


A matéria dos poemas de Nada acontece é o insignificante, e é bonito como a poeta consegue nos ligar ao livro, tirando-nos do ordinário ao nos lançar o ordinário na cara. Ao significar o insignificante, ressignificamos, tomamos posse de algo que passaria sem ser visto, já que a máquina em que fomos inseridos quer-nos cada vez mais banais, triviais, na vida-morte. No fim das contas, Carina desmascara o não-acontecimento, pois quando nada acontece, tudo o tempo todo está acontecendo dentro do ser que narra, esta ilha no mundo. Andar na sala, passear com as cachorras, notar uma calçada cujas folhas das árvores não estão mais lá, pegar o ônibus, notar um rasgo na calça de algodão preferida, pensar um filme, contar de um fracasso, marcar uma consulta, “acordar com ganas de comprar um boeing/ ou um transatlântico”, memorizar a fragrância de um banheiro no Japão, sonhar em ser poeta, insistir na poesia, tudo isso enquanto somos puro conflito interno: “perto de onde estou// meu desejo não está”.


A imaginação supre o não-acontecimento e a vida encontra seu alívio seja com um tiro, seja com o fim do mundo, e não se sabe, na poesia de Nada acontece, se isso é pesadelo, ou desejo.


Livro para ler e reler.






poema vira-lata


o cachorro vira-lata
é o que mais se aproxima
de mim


ele abana o rabo
nunca visto
orelhas, patas e pelos
nunca vistos


tudo é novidade
em um cão
que não tem raça


nem ultrassom pra dizer
como um vira-lata
vai ser


se grande
se bravo
se louco
se manchas na pata esquerda


acolho o bicho misturado
como um filho
o bicho independente
que nem precisa de mim
como um filho
também não precisa


como deixar
esse bicho
tão desigual
tão somente
tão sozinho
tão na rua


não deveria protegê-lo
tanto
ele precisa virar
latas
eu preciso virar
latas
eu e ele
viramos


***


Nada acontece
Carina S. Gonçalves
Poesia
ed. Urutau
2018













terça-feira, 4 de dezembro de 2018

A elite do atraso, da escravidão à Lava Jato, de Jessé Souza




Por Adriane Garcia



Mais que interessante, necessário, o livro A elite do atraso (ed. Leya), de Jessé Souza, traz uma análise acurada da história brasileira, oferecendo uma chave de entendimento que não a do patrimonialismo. Para Jessé Souza, a teoria de Sérgio Buarque de Holanda (do patrimonialismo e do brasileiro cordial), depois adotada pela intelectualidade tanto de direita quanto de esquerda, não dá conta da principal causa dos conflitos e desigualdade social no país. Jessé centra a chave de leitura dos problemas brasileiros na escravidão, da qual muito se fala, mas nada se reflete.

É pela perpetuação das condições dos escravizados, com seus mecanismos de exclusão, crueldade, e inferiorização, que se produz a subcidadania de milhões de brasileiros. A desigualdade social não é herança do Estado corrupto, mas da escravidão.

Não é o Estado corrupto o principal inimigo do povo brasileiro, como quer que pensemos a rede Globo, trabalhando diariamente para isso, mas a “elite do atraso”, os grandes capitalistas por trás dos governos, de quem os “governos” se tornam meros “aviõezinhos”. Muito maior do que a porcentagem que alguns políticos levam nas transações venais, é o montante que a “elite do atraso” ganha explorando ao máximo os trabalhadores, não pagando impostos justos ao controlar os que legislam em seu favor, sonegando impostos, e controlando seu exército predileto e atuante, por meio do controle da grande mídia: a classe média.

É do entendimento da escravidão e seus mecanismos de opressão que se pode entender a classe média. Aquela que não tem o dinheiro dos ricos, mas detém conhecimento técnico e “moralidade”. Vive entre ter asco dos mais pobres e sentir inveja dos mais privilegiados, ostenta sua moralidade como a “virgem no cabaré”. Não suporta a corrupção do Estado, mas suporta tranquilamente a corrupção do grande capital, a exploração dos mais pobres, a fome dos vulneráveis, as condições prisionais subumanas, e mesmo contra a corrupção, só vai às ruas se a rede Globo conclamar, somente contra a corrupção seletiva atribuída a um partido específico que o grande capital deseje retirar, para manter o Estado sob seu controle e não mudar as regras do jogo econômico ou do sistema social.

É interessante que Jessé Souza não analise somente como sociólogo, mas que algumas vezes nos dê pistas psicanalíticas a respeito da classe média. A classe média precisa do fosso que a separa dos pobres, dos negros, dos trabalhadores simples. Sua moralidade deseja a caridade (ela deseja se sentir boa, beneficente), mas jamais a justiça social. Isso explica muito do que aconteceu quando, sob o governo do PT, as empregadas domésticas adquiriram direitos trabalhistas, ou da revolta com a implementação das cotas universitárias, quando, na verdade, as cotas jamais tiraram as vagas de ninguém, visto que dobrou o número de vagas nas universidades no país.

Há ódio, ignorância e preconceito enraizados na sociedade brasileira. A “elite do atraso” assim o quer, pois assim sempre dominou e em jogo que se ganha, não se mexe. O país reproduz as condições da escravidão todos os dias, e mesmo os mais instruídos caem no conto do “patrimonialismo”, como se nosso problema fosse reproduzir na administração do Estado os mesmos vícios da administração de Portugal, enquanto Brasil colônia ou reinado. Mas Portugal não teve escravidão dentro de seu território, formando sua cultura e seus hábitos, seu modo de ver e se relacionar. O patrimonialismo se reveste de crítica social e mascara o que realmente precisa ser criticado: o sistema escravagista sobre o qual o país foi construído, assim como seu pensamento. Todo nosso modo de vida, de constituirmos nossas famílias, de educarmos nossos filhos é forjado na escravidão. Não fizemos as contas e as contas precisam ser feitas.

Na tese de que o Estado brasileiro nasceu e será para sempre corrupto porque patrimonialista, que o “jeitinho brasileiro” é algo genético, joga-se contra o Estado e com o Estado o tempo todo. Por exemplo, gera nosso complexo de vira-latas, dando-nos a impressão de que os corruptos somos somente nós, brasileiros, e que nossas estatais, então, devem ir para mãos mais honestas, estrangeiras e particulares. Como se nossa exploração e corruptores não se dessem por meio de particulares. Com a tese de que nosso mal reside na corrupção tão somente do Estado, basta a rede Globo denunciar um esquema de corrupção contra alguém que a “elite do atraso” não queira no poder, e a classe média se coloca a postos. Por que os que se identificam com a “casa-grande” ficariam ao lado da senzala?

A Elite do atraso dá visibilidade àqueles que o escritor Sebastião Nunes chama de “panderosos”. Se você já viu um panderoso, ele não era um. Por trás dos 3 % de um político, bilhões de reais são expropriados da classe trabalhadora. Contra essa imoralidade, quem?


Trecho do livro (p. 231 a 234):

O Brasil, governado pelos lacaios do sistema financeiro, precarizou sua saúde, sua educação, sua capacidade de produção de tecnologia e pesquisa, em suma, está comprometendo seu futuro e seu presente para engordar uma ínfima elite do dinheiro, esta sim, verdadeiramente, predadora e corrupta. Afinal, para seus mais dedicados estudiosos, como a coordenadora nacional da auditoria cidadão da dívida pública, a pesquisadora Maria Lúcia Fatorelli, a dívida pública é a verdadeira corrupção. O esquema criminoso foi tornado sagrado pela associação entre atravessadores financeiros, como os grandes bancos de investimento aqui e lá fora, e seus sócios menores no aparelho de Estado – as corporações jurídicas mais caras do mundo que recebem uma espécie de “propina de classe” da elite do dinheiro para defender seus interesses – e na mídia.
Para Fatorelli, que tem participado de auditorias de dívidas públicas em todo o mundo, o próprio início da dívida pública nos anos 1990, sob o governo do grande amigo dos bancos que foi Fernando Henrique Cardoso, é obscuro e existe a suspeita bem fundada de que dívidas já prescritas tenham sido o início da bola de neve que hoje nos tira o futuro e o presente. A taxa Selic de 45% ao ano, no governo FHC, turbinou uma dívida de origem suspeita até torná-la impagável como ela é hoje. Todo o orçamento público é usado para pagar juros apenas, sem que a dívida em si seja jamais diminuída. Uma dívida sem contrapartida, imoral, ilegal e que só engorda uma ínfima elite do dinheiro que comprou a política, a justiça e a mídia. Todos nós, que pagamos impostos, trabalhamos para esse esquema criminoso e inconstitucional que se torna invisível, porque fomos feitos de imbecis e olhamos para a corrupção dos tolos. Imbecis somos nós todos, ainda que em medida variável. O esquema se desdobra nos níveis estadual e municipal com a venda de ativos públicos e da própria arrecadação, muitas vezes sem contrapartida, diretamente aos atravessadores financeiros, como já está acontecendo nas grandes cidades brasileiras 126. É desse modo que o lucro desse pessoal aumenta enquanto a população fica cada vez mais pobre.
Isso tudo, caro leitor, sem contar os R$ 520 bilhões em paraísos financeiros, fruto da sonegação fiscal dos milionários, em um país em grave crise fiscal, depositados no exterior. Um dinheiro que resolveria a fabricada crise fiscal do Estado brasileiro, que estancaria a catástrofe do Rio de Janeiro – reduzido à miséria pela ação lesiva da Lava Jato e da grande imprensa para poder entregar a Petrobrás aos estrangeiros honestos – segundo estudos do Tax Justice Network 127. E não esqueçamos que isso acontece em um contexto onde esses ricos já pagam muito pouco ou nada de imposto, se compararmos com os países ricos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) 128.
Finalmente, caro leitor, não nos esqueçamos de que temos a maior taxa de juros do planeta, embutida em tudo o que compramos – quer compremos a crédito ou não. Créditos esses que somam 15% do PIB ou R$ 1 trilhão todos os anos, segundo dados do próprio Banco Central 129. Se separarmos a diferença entre os juros extorsivos, praticados aqui, com a média de juros internacionais, quantas centenas de bilhões pagamos todos os anos, sem qualquer motivo aparente senão a ganância do saque sobre uma população indefesa, para nossos rentistas? Certamente uma grandeza em torno de oitocentas ou novecentas vezes superior ao montante orgulhosamente recuperado pelos paladinos da justiça da Lava Jato, a farsa principal da corrupção dos tolos. Não nos esqueçamos de que esse saque via juros acontece todos os anos. Essa é a real “boca de fumo” do nosso capitalismo, que só se separa do narcotráfico por exterioridades. A fonte real do assalto à população, que se torna invisível posto que toda a atenção midiática é voltada aos aviõezinhos da política ficam com as sobras. Os 3% dos Sérgio Cabral da vida permitem tornar invisível a corrupção e o assalto real.
Caro leitor, você conhece alguma sociedade que tenha sido feita de imbecil a esse ponto pela nossa corrupção dos tolos? Eu não conheço. O início para a recuperação de nossa inteligência, roubada por um mecanismo de distorção sistemática da realidade pela grande mídia, tem que ser pela admissão de que fomos todos, você e eu, feitos de imbecis. Não existe outro caminho. Não se aprende nada na vida sem a humildade e a coragem de admitir que não se sabia melhor e que se deixou enganar. Não existe outro caminho para refazer a vida.
O espantalho da criminalização da política só serve para que a economia dispense a mediação da política e ponha seus lacaios sem voto e que se vangloriam de sua impopularidade vendida como cartão de visitas para a elite do atraso, como garantia da obediência cega à elite de rapina da população como um todo. Já o espantalho da criminalização da esquerda e do princípio da igualdade social só serve para que a justa raiva e o ressentimento da população, que sofre sem entender os reais motivos do sofrimento, percam sua expressão política e racional possível. Foi assim que a mídia irresponsável possibilitou e pavimentou o caminho para a violência fascista do ódio cegos dos bolsonaros da vida. O ódio fomentado todos os dias ao PT e a Lula produziu, inevitavelmente, Bolsonaro e sua violência em estado puro, agressividade burra e covarde. Agora, uma população pobre e à mercê de demagogos religiosos está minando as poucas bases civilizadas que ainda restam à sociedade brasileira. Essa dívida tem que ser cobrada da mídia que cometeu esse crime.
Em relação aos setores conservadores da classe média, também, sua arregimentação pela elite a partir da cantilena do populismo, que é a versão acadêmica do ódio aos pobres, apenas a torna agora muito mais explorada pela elite que defende, em troca da pífia manutenção da distância social em relação aos pobres. Que a classe média, assim como a mídia e as corporações de Estado que se envolveram no golpe, nunca deram a mínima para a corrupção fica empiricamente comprovado, agora, por meio de sua passividade total, enquanto a corrupção mostra sua face mais danosa e mais assassina. Onde estão os “camisas amarelas”? Onde estão as panelas? A conta do ódio aos pobres foi o empobrecimento de todos.”



notas:
126 – ver a entrevista de Maria Lúcia Fatorelli ao programa Encontro da Escola de Contas, disponível em : <http://www.escoladecontas.tcm.sp.gov.br/>
Acesso em ago. 2017.
128 – Disponível em:

***
A elite do atraso
Da escravidão à Lava Jato
Jessé Souza
Leya
2017



segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Rocketman, de Rique Ferrári




Por Adriane Garcia


Surpresa boa me foi o livro Rocketman (ed. Patuá), de Rique Ferrári. A edição, além de bonita, com 22 ilustrações produzidas por tatuadores, traz uma poesia que nos proporciona, no mínimo, duas viagens.

A primeira delas, a viagem a que um bom livro, por si só, nos leva. As segunda e demais viagens nos transportam para vários países da América do Sul: Argentina, Uruguai, Chile, Peru, Bolívia, Colômbia. Em Rocketman, Rique Ferrári elabora uma geografia afetiva, onde o olhar perscruta e refaz as paisagens, atenta-se para detalhes que só a poesia poderia ver e dar a ver.

Nessa chave generosa daquele que possui e reparte, Rocketman emociona. São camadas de cores. O olhar deste poeta é atento à luz nas cidades, especialmente à luz solar. Em consequência, sua poesia possui amplidão e privilegia a imagem. Do cenário para dentro, de dentro para fora, verdadeira usinagem que se manifesta em versos: o desenho tanto pode se dar na pedra, na arquitetura, nos muros, quanto na pele. As cores (com predominância para o amarelo) são uma presença recorrente nesta poesia e um símbolo da diversidade humana. Há algo de holístico a ser aprendido: “ – não estamos na natureza, somos a natureza – ” , na transmutação da noite para o dia, o próprio homem se transforma.

Viajar é abrir horizontes, contatar culturas. O bom viajante reflete, repensa, traz para vida o antes impensado do outro. Um viajante atento desfaz preconceitos, pois viajar é uma das melhores maneiras de conhecer. Rocketman faz dessas viagens o motor para a sensibilidade. Elementos corriqueiros, como a chuva, não lhe passam despercebidos. O olhar de um viajante precisa ter o frescor infantil para aproveitar a novidade. O poeta, melhor que ninguém, possui esse olhar infantil, que é também o olhar do sábio: “sabe-se desde os pré-colombianos: o sol marca as horas, a chuva o tempo”.

Utilizando-se de versos longos, Rique Ferrári lida à vontade com a linguagem, permitindo o pensamento solto, como se deixasse até certo ponto um fluxo. Contudo, os poemas são bem amarrados, sabem onde querem chegar, mesmo quando confessam não saber, caso do último poema, homônimo da coletânea. Também é de se notar a maneira como sua poesia é brincante, lúdica, com onomatopeias, ironia e citações por vezes inusitadas; em uma palavra muito usada pelo próprio poeta, Rocketman tem uma poesia “transante”.

Tendo o cenário e a viagem como gatilho, Rique Ferrári desenvolve uma poesia que passa pelos temas do conflito interior, da observação do mundo, da contemplação, da constatação da desigualdade social, da guerra e da violência promovida pelos colonizadores, dos gestos do cotidiano e da simplicidade como peça chave para viver bem, da importância da imaginação e do sonho, das indagações acerca do nosso ser/estar no mundo e do avesso das coisas. Se a viagem nos deixa tanto, também deixamos nas viagens nossos resquícios.

Rocketman é uma viagem de foguete para confirmar a frase de Gagarin, “a Terra é azul”, e para acrescentar que é preciso que deixemos que a luz amarela do Sol nos invada. Uma viagem de foguete pode dar a impressão de ser rápida, mas Rique Ferrári dá direito a belas paradas, ainda que nos confesse (os poetas são terríveis) uma verdade tirada do Mistério: “o mundo é só um dia”.


confissão

roubei duas coisas ontem

as quais, obviamente, não posso revelar aqui

se me apreenderem nos encontros calmos do meio
terei constitucionalmente o direito de permanecer calado,
o qual já o faço por dever, apenas deslizando nas leituras
escutando o som de vvvvvvvvvv
ou zzzzzzzz da minha própria respiração
(a depender de gripes)

infelizmente a ladroagem é uma arte não-reconhecida pelos noticiários

o índice de roubos mente
já que a maioria dos furtos é desapercebida

e nesta categoria estão chicletes, isqueiros, bebidas, principalmente

o guiness book dos roubos também mente
não foi o depósito Knightsbridge, em Londres, o maior furto da história
foram as terras;
a dizer, os colonizadores e colonizados, você sabe

no entanto, pode-se roubar algo ruim de alguém bom:
um sentimento podre, um desassossego de domingo, uma fúria ao patrão
e assim, na bela arte fina, além do ladrão não ser preso
ainda liberta a queridíssima vítima

está na categoria dos pequenos furtos leves
que ou cabem no bolso ou na consciência.



***

Rocketman
Rique Ferrári
Poesia
ed. Patuá
2017












terça-feira, 6 de novembro de 2018

Começa em mar, de Vanessa Maranha




Por Adriane Garcia



Começa em mar (ed. Penalux), romance da escritora Vanessa Maranha, traz para bem perto do leitor mais de uma viagem. Não só a viagem a que um bom livro leva, mas a própria viagem que a personagem Alice Zuma empreenderá. Filha de mãe espanhola e pai português, fugidos do salazarismo, a criança Alice se vê refugiada em uma ilha da Bahia. Ali começará sua história de inadaptação, cujo sentimento constante será o do exílio.

Os pais de Alice, no Brasil, não se adaptam. O conflito é interessante, pois mistura humilhação secreta com externação de sentimento de superioridade. O pai, com o tempo, definha, cada vez mais “diminuto”. A mãe insiste em narrar as glórias do passado europeu, enquanto se recusa a partilhar dos hábitos locais, inclusive não vestindo a filha como as outras crianças. Alice irá para a escola com a indumentária espanhola, mesmo que isso lhe aumente a inadequação de uma infância visivelmente forasteira. Essa infância determinará o cenário de Alice, esteja ela onde estiver: o não-lugar.

Simultaneamente à figura do pai que se enfraquece até desparecer, a mãe vai se “emasculando” naquilo em que ele se omite e retira; autoritária e cruel: “Para Concha, sofrimento era pedagogia (...)”. A influência (ou a falta de influência) do pai medíocre será determinante para o modelo de casamento da filha, cujo marido, também medíocre, escreve livros que ninguém lerá, preso no porão do hotel, agora, negócio em que Alice ganha a vida.

Assim como a incompletude está presente desde o início da narrativa, o mar é o constante contraponto: Alice sabe que ele é a possibilidade de encontro, chegada e partida e nele deposita esperanças de curar uma vida inteira de faltas.

Deste modo, planeja partir e descobrir suas origens na Ibéria, mas, inexorável, acaba por descobrir que também não pertence à Europa. No entanto, é em pleno mar e somente nele, a bordo de um navio, que Alice descobre uma natureza sexual desconhecida, sua sexualidade libertina, farta como as águas do oceano, onde é absoluta senhora de si e de seu corpo.

É interessante notar o destaque das personagens femininas em Começa em mar, todas trazendo relacionamentos conflituosos entre si e seus homens, entre si e seus filhos; também entre patroas e empregadas: “não se pode amar quem nos chefia, é antinatural”, sogra e nora. Situações muito próprias da experiência das mulheres como maternidade, estupro, aborto, objetificação são abordadas.

A linguagem se aproxima da prosa poética, às vezes trazendo construções parecidas com o português de Portugal; utilizando, amiúde, a inversão sintática. Uma história envolvente sobre despertencimento e solidão, ainda que nossos pés estejam em terra e que uma multidão nos acompanhe. Começa em mar também fala do desejo humano pela volta ao princípio. É a água o nosso primeiro lugar.

A ideia era atirar-se no mar, tornar à água, ninguém nesse mundo suspeitava que em Jordana tal intenção fermentasse tão lenta e longamente. Eram planos que desenhava desde muito antes, o perigo, nela, jazia acomodado, sem iminências nem rompantes, uma fera dormente, delicadamente alimentada em autofagia, de pouco em pouco a devorando por dentro.
A Jordana sempre sentira viver uma vida que não lhe pertencia. Nascida em negativo. Ainda mulher. Muito olho contra, quem sabe perecesse semente mesmo vingasse não. Desenvolvida para não ser. A mulher era só superfície de alisar. A mulher era vaso onde despejar tremores líquidos, sua carne de fundo infinito aberta em rasgo. Pra baixo de réptil, imbecil, amordaçar-lhe a sua muita fome.” (pg. 120)


***
Começa em mar
Vanessa Maranha
Romance
ed. Penalux
2017
Menção honrosa no Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2016.












terça-feira, 30 de outubro de 2018

O corpo descoberto, de Eliane Robert Moraes (org.)




Por Adriane Garcia



Apesar do erotismo ter estado sempre presente na literatura brasileira, foi a partir do final do século XIX que ele se expandiu, coincidindo com um maior exercício da tardia imprensa no Brasil e suas tipografias. O livro, artigo de luxo restrito a uma parcela pequena e privilegiada da população, era, em geral, importado. Com a maior circulação do livro na capital do Império, a autoria nacional cresceu no mercado livreiro.

Os livros tidos como pornográficos já faziam seus adeptos entre os leitores no país; vindos da Europa, tratavam dos temas devassos, da luxúria, da depravação, dos bordéis, das orgias e dos personagens sobre os quais a moral fazia calar: prostitutas, homossexuais, pervertidos, libertinos monásticos e políticos. Em uma sociedade marcada pelo conservadorismo e pelo controle do corpo através da Igreja e do Estado, alguns escritores brasileiros, para desenvolver a temática erótica, optaram por assinar com pseudônimos.  Além dessa estratégia, os escritores do século XIX que se aventuraram a falar do sexo, muitas vezes o fizeram utilizando-se da alusão.

Em O corpo descoberto, seleção organizada por Eliane Robert Moraes, é possível encontrar um grande acervo do que foi essa literatura. A seleção delimita setenta anos de produção do conto erótico brasileiro, de 1852 a 1922, finalizando exatamente com a chegada do Modernismo. Outra delimitação é que somente foram usados textos de domínio público. São 23 autores, notando-se entre eles apenas uma escritora: a carioca Júlia Lopes de Almeida. Em um país com entraves que iam da  deficiente alfabetização das mulheres ao machismo nas relações sociais, é explicável que a autoria feminina ficasse totalmente prejudicada. Não obstante, o conto da autora, O caso de Ruth, é um dos melhores da seleção. O leitor poderá observar a mudança de tratamento no conflito da personagem feminina quando escrito por Júlia. Sua personagem esconde o segredo da violência sexual e diferentemente de, por exemplo, a narrativa de Olavo Bilac, em que o narrador acaba justificando essa violência com a “premiação” de uma gravidez, Júlia nos conta de uma personagem que não escapa do suicídio.

Contextualizados dentro do Romantismo, passando pelo Realismo e Naturalismo, O corpo descoberto traz nomes como Machado de Assis, Raul Pompéia, Cruz e Souza, Aluísio de Azevedo, João do Rio e Lima Barreto, dentre outros, chegando em Mário de Andrade. A organização do livro é temática, abrangendo histórias que envolvem objetos, viúvas, feitiços,  mulheres da vida, descoberta do corpo, assombrações e até a sensualidade dos tísicos (mais especificamente das tísicas). A mulher é o personagem em comum e nisso também o livro se torna interessantíssimo. Como é para o leitor, a leitora de agora, ler essa visão de mulher essencialmente idealizada ou demonizada na literatura do século XIX? Pois é fato que o leitor, a leitora lê com os olhos de agora.

Usando a alusão para praticar uma literatura erótica, os autores em O corpo descoberto mostram os “modos de narrar”, de dizer sem dizer e, ao mesmo tempo, trabalham com a sugestão. O braço nu da mulher sugere o corpo, o vaso de cerâmica sugere a vagina, a comparação com o cisne sugere a mulher elegante, feita para a apresentação na sala, ao mesmo tempo que a comparação com a cabrita sugere a mulher sensual e pecaminosa, feita para a cama. No deslanchar das histórias, quase sempre, o homem é o ser desencaminhado pelas mulheres, assolado e desolado pelas paixões. A mulher bonita é quase invariavelmente branca, loira, no máximo morena, o que quer dizer ter cabelos negros.

Machado de Assis traz uma boa surpresa: Pílades e Orestes, um conto homoerótico sobre dois amigos inseparáveis e Mário de Andrade fecha o livro com O besouro e a rosa. Neste conto, um besouro caminha sobre o corpo de Rosa e se embola nos seus pelos pubianos. É a linha que separa a inocência do desejo consciente do sexo. A organizadora foi sagaz ao encerrar a seleção com um escritor que também representa uma linha divisória.

Um livro especial, feito para leitores e leitoras que para além da ficção, prezam os registros que a literatura efetua e que constituem, também, a nossa história e a história dos nossos modos de narrar.

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O corpo descoberto
Contos Eróticos Brasileiros (1852-1922)
Seleção de Eliane Robert Morais (Org.)
Cepe Editora
2018


Texto originalmente publicado no jornal Estado de Minas, Caderno Pensar, 05 out 2018.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Amortalha, de Matheus Arcaro



Por Adriane Garcia

Já na epígrafe, Matheus Arcaro nos coloca em contato com a Filosofia. Um fragmento póstumo de Nietzsche, uma frase do Ética, de Espinosa. Tanto quanto o tema da morte, as referências da Filosofia atravessam os contos de Amortalha, naturalmente, numa escrita fluida (nem sempre linear) que usa analogias bem construídas: “Bete arrasta as sandálias como se precisasse desgrudar uma verdade da calçada”, “sua boca, uma metralhadora de Deus”. O leitor versado em Filosofia encontrará alusões que enriquecem a narrativa; o que não for, também aproveitará a leitura, pois as histórias sustentam-se sem as referências. Aqui, vale exemplificar com a ironia presente no conto Má educação, em que o professor de Filosofia, em greve, é agredido pelo policial que foi seu aluno. A Filosofia não salvou o militar, nem o professor, mas as consciências foram aguçadas.

Por toda a leitura, chama a atenção a capacidade de Matheus Arcaro para emocionar. Os contos permitem que o leitor não só “entre” na narrativa, mas que estabeleça contato com sentimentos e situações dos personagens. Parte deste alcance se deve ao fato de o autor conseguir manter a tensão e o mistério enquanto conta. No conto Como fugir? o narrador sente a beleza de forma tão avassaladora que chega a doer. A arte é absurdamente um ápice da capacidade humana de produzir beleza: “Antes a cegueira que os girassóis de Van Gogh.” A beleza da arte é comparada à beleza da natureza, Michelângelo, um deus “torturador”, como o deus que fez o vulcão e a lava vermelha que incandesce: “É deus esfregando a beleza na cara da gente”.

Na coletânea, sobressai a dor da morte nas nossas variadas experiências. A morte de nosso cão, de nosso ente amado, de nosso pai, de nosso filho, mãe, avó. A morte também do amor e a morte em seu avesso: o nascimento. É interessante notar que se no conto Alemão, o filho reage de forma racional à morte do pai, a ponto de parecer não senti-la, no conto seguinte, A flor, a epígrafe de Simone de Beauvoir já desmente toda a situação do conto anterior: “É inútil pretendermos integrar a morte na vida e conduzirmo-nos de maneira racional em face de uma coisa que não o é: que cada um se vire como possa na confusão de seus sentimentos.”, ressaltando a pluralidade dos personagens e dos conflitos. A flor, é um conto belíssimo, em que o amor por Princesa, uma gata, cresce na mesma medida que a solidão de sua dona, Clara, aumenta. As duas se tornam tão ligadas que estabelecem uma linguagem entendida por ambas e até pelo leitor. Matheus Arcaro nos faz acompanhar a dor dos últimos dias da companheira de Clara, doente e à beira do sacrifício. A morte poderá se tornar, então, gesto de amor.

Escritor que não foge ao seu tempo, Matheus Arcaro traz preocupações com relação ao presente e ao futuro das mulheres; seus personagens, não raro, são filhos de mães fortes ou pais de meninas: “Não sei teu sexo e te chamo assim! Ilustração de como será tua jornada caso sejas Camila. É mais profunda a cicatriz de fêmea, filha amada”. Também os cenários são construídos na sociedade das desigualdades econômicas, sociais e políticas. No hospital, a enfermeira de “A graça de Benedito” cuida de todos, indistintamente, inclusive dos moradores de rua que sempre voltam, doentes de novo. Em Fora do ar, o autor nos lembra, criticamente, através do seu jardineiro, que a beleza só poderá ser vista se desligarmos a TV.

Trabalhando também com humor, em Linha da vida, Amortalha traz um conto engraçadíssimo, em que Arthur, atendente em um programa contra suicídio, no seu primeiro dia, conversa com um provável suicida, Francisco (que ele insiste em chamar de  Frederico). Porém, pela conversa dos dois, o conhecimento de Filosofia de Arthur (referência a Schopenhauer) só faz piorar.

Amortalha é um livro sobre os fins, sobre os começos, sobre o amor, a certeza da morte e sim, a celebração da vida. Também trata do desejo, inclusive do de morrer. Uma leitura inteligente, envolvente e emocionante.



Filha, é bom que saibas: o ser humano não é como apresentam nas histórias de herói. Às vezes, ele pratica o mal em nome da justiça, às vezes diz uma coisa e faz outra, às vezes enterra um punhal no peito de quem ama. É bom que saibas que, enquanto algumas pessoas apanham migalhas para tapar os buracos do estômago, outras descartam comida como se fosse água barrenta. É bom que saibas que há pessoas que julgam importante a cor da outra pessoa e o que ela carrega nos bolsos. Saibas, Antonella, que, por seres mulher, o mundo, diversas vezes, vai te esfregar a proibição nas vistas. Vai te trancar portas e podar possibilidades. Vai esconder por trás de discursos coerentes o cimento que ergue a intransigência.
Não, não quero borrar tua visão com meus juízos. Não quero mostrar-te apenas a parte suja dos fatos. Estou certo de que não te assustarás com minhas palavras, mas as usará como combustível pro teu combate diário. Além disso, tu provarás, feito um faminto, a porção suculenta da vida e, com ela, lambuzarás a alma. De alguns destes momentos, sei que vou participar. Passearemos no parque em muitos finais de tarde, iremos ao cinema, falaremos sobre as danças da existência e, com tua mãe e teu irmão, chegaremos à ousada conclusão de que a vida, justamente pela ausência de sentido prévio, tem o vigor de uma bailarina.”

Excerto do conto A gestação de um pai, pag. 114/115

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Amortalha
Matheus Arcaro
Contos
Ed. Patuá
2017