quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Canção sem palavras, de Laura Cohen Rabelo




Por Adriane Garcia


Maria Tereza, protagonista de Canção sem palavras (ed. Scriptum), mais novo romance de Laura Cohen Rabelo, é uma musicista, violonista, filha de um famoso e requisitado luthier. Tendo vivido no universo da música desde seu nascimento, Maria Tereza se torna uma virtuose do violão. A narrativa se concentra especialmente no período de estudos universitários de Maria Tereza, na Escola de Música em Belo Horizonte – quando já fazia concertos em um duo de cordas, com o namorado Arie – e no primeiro ano após a formatura.

Dos conflitos e angústias comuns aos jovens assim que deixam a faculdade, Laura Cohen dá atenção especial à questão da vocação e da escolha de um projeto de vida. Tanto Arie quanto Maria Tereza entrarão em uma crise que coloca em dúvida não só o lugar que a música ocupa em suas vidas, quanto o lugar deles próprios na relação amorosa. É nesta crise que surgirá a viagem. Tanto Maria Tereza quanto Arie são filhos de mães judias e têm a possibilidade de fazer o “birthrigth”, um programa de turismo educativo para fortalecer a identidade judaica e colocar em contato jovens judeus de todo o mundo com os israelenses.

Ao partir para Israel, em um grupo de quarenta jovens, Maria Tereza empreenderá uma viagem surpreendente e – aqui o grande mérito de Laura Cohen – o leitor irá junto.

Chama a atenção em Canção sem palavras a fluidez do texto e a forma quase matemática (como a música) em que a narrativa vai se dando. Há um ritmo de imersão  para o leitor. Nada é dado de mais ou de menos, a leitura alcança uma verossimilhança total. Laura Cohen é profunda observadora de seus personagens, flagrando suas nuances e pensamentos. Tendo escolhido contar a história na terceira pessoa, mas no tempo verbal do presente do indicativo, Laura Cohen coloca seu narrador “colado” à sua protagonista, tanto que, no fim das contas, o leitor sabe que Maria Tereza existe, que pode ter passado por ela alguma vez e até lamenta não ter ido a um concerto seu.

Outro fato notável é que aqueles que não conhecem Israel ficam com a sensação de já terem ido lá, ainda que em sonho, enquanto leem o romance de Laura Cohen. Se a melhor literatura de viagem é aquela em que o leitor sente o que sente o viajante, fica próximo de outra cultura, ganha informações que pertencem a campos distintos do conhecimento, desenha em sua imaginação o cenário proposto a ponto de parecer ter pisado nesse outro território, Laura Cohen a cumpre em Canção sem palavras.

Além do universo da viagem, o romance traz dilemas intrínsecos aos músicos e aos estudantes de música. Como se já não fosse o suficiente, o leitor curioso encontrará uma espécie de “playlist” para ouvir, já que Maria Tereza em seu percurso de estudos vai nos mostrando o nome de grandes obras e compositores.

Canção sem palavras é um romance múltiplo, com personagens completos e complexos, demasiadamente humanos, procurando seu caminho no deserto. Da crítica geopolítica à condição feminina e à consciência do mito da masculinidade, do sucesso profissional ao sentimento constante de precariedade e da perecibilidade das coisas. Sutilmente, o lugar da viagem – um país jovem numa terra inóspita, que ameaça e é ameaçado – é também metáfora: “Ela tem a impressão de que tudo é frágil e vai acabar ruindo em pedaços um dia.”

O homem sem cidade ou é um deus ou é um monstro. Ela tem a impressão de que tudo é frágil e vai acabar ruindo em pedaços um dia. O que a salva dessa impressão sedutora e quase confortável de um fim violento é a rotina. Mais do que tudo, ela ama a rotina. Há os dias bons e os dias ruins, e isso ela pode controlar. Acorda, estuda, vai ao restaurante, trabalha, sai mais cedo quando tem aula de violão ou ensaio com o quarteto, volta para casa, estuda, toma um banho, lê, dorme. Sente que está avançando muito no violão, como se algum nó de aprendizado tivesse finalmente se desfeito, e agora ela gasta todo o tempo que tem para tocar tocando, e não se refestelando nas angústias em que se envolvera no Brasil depois que Arie foi embora. O que era uma promessa de ficar melhor finalmente tinha ficado melhor, e ela se lembra da melhor parte dos seus dias, o estudo, a rotina.
Anda muito a pé e pega a bicicleta do tio Jacques e pedala por todas as partes. Gosta de ver os judeus religiosos caminhando pela rua, gosta de passar entre eles, atravessá-los como o presente atravessa o passado. Os mais moços olham, às vezes sorriem como crianças tímidas. Bochechas coradas, homens puros. O sonho de toda religião é manter todos nós como crianças para sempre, sempre puros e sem erro. Vai enrolando para entrar no curso de hebraico, mas aprende aos poucos com a tia Deborah.
– Você não sabe de nada – diz a tia enquanto mexe a panela de molho de tomate.  – Seu tio Jacques brigou com seu avô não porque ele queria ir para Israel e ele não deixava. Seu tio Jacques saiu de casa porque ele é gay. Sua mãe não te conta as coisas direito, conta? (p. 192/193)




***
Canção sem palavras
Laura Cohen Rabelo
Romance
Ed. Scriptum
2017






segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Cloro, de Alexandre Vidal Porto




Por Adriane Garcia

O romance Cloro (Cia das Letras), de Alexandre Vidal Porto é narrado em primeira pessoa pelo advogado Constantino. O narrador, já falecido, não sabe bem em que lugar da eternidade se encontra. A partir de seu estado de “morto”, Constantino procura passar a vida em “revista”. Sem as amarras morais a que as convenções da sociedade obrigam, nada mais precisa ser fingido ou ocultado, afinal, mentir só faz sentido para os vivos. É então que Constantino terá coragem de contar sobre sua homossexualidade e como se deu a sua construção de homem heterossexual e homofóbico.

Como no romance anterior de Alexandre Vidal Porto, Sérgio Y. vai à América (Prêmio Paraná de Literatura, Cia das Letras), a escrita é direta e clara, o ritmo de frases curtas cadencia a narração. A inesquecível cena que revela a razão do título do livro é de um erotismo belo, fino e sutil. O interesse do leitor em Cloro é mantido do princípio ao fim; em capítulos curtos, muito bem costurados, o autor dá, aos poucos, os eventos que explicam Constantino e sua morte obscura, misteriosa para o leitor até quase o fim do livro.

É na infância que acontece a ruptura entre o que Constantino é (ser) e o que Constantino irá se tornar (estar). Um evento secreto e traumático de viés homofóbico, cometido por seu colega de escola, Marcos Bauer, traçará a linha que Constantino definirá, aos oito anos, como divisória entre a espontaneidade da criança, que simplesmente sente, e a performance limitada, do macho adulto que finge, com medo de ser descoberto.

A partir dos oito anos, Constantino estará na vida como quem está permanentemente num palco, atuando, sem descanso, para não ser pego em flagrante. Na rota de fuga, todo o aparelhamento do homem hétero bem-sucedido, uma espécie de kit-homem-de-bem: sucesso profissional, casamento, família, aceitação social e bastante afirmação de masculinidade, com pitadas de homofobia: “Nunca hostilizei ninguém cara a cara. Não me considerava homofóbico, mas participava de piadas e levantava suspeitas condenatórias contra possíveis homossexuais. Acho que devo ter vergonha disso, você concorda?” Obviamente, o que este narrador nos traz é uma vida triste, premida pelos ditames do patriarcado, camuflada, que envolve filhos e amores não vividos. Ser infeliz é também fazer infeliz.

Um segundo evento traumático, agora na vida adulta de Constantino, causará uma reviravolta, quando ele começará a fazer um raio-X de suas relações e um princípio de mudança.

Cloro é um livro interessantíssimo e corajoso, que traz um personagem crucial para a nossa reflexão, aquele que, impedido de ser e exercer a sua sexualidade, participa de um mundo triste, de tanta violência e engano. A negação e a dor de Constantino oferecem o retrato de uma sociedade que prefere enrustir e anular, quando a vida é curta e talvez não haja tempo para ser feliz, se gastamos todas as horas com o que esperam de nós. Haverá tempo para alguma realização sexual e amorosa genuína de Constantino? O leitor torce por ele, mas o autor, assim como as vidas mal vividas, é impiedoso.


Os avós de Débora haviam sido pioneiros no Jardim Virgínia, no Guarujá, e tinham uma casa grande na esquina da avenida Atlântica com a rua do canal. Durante nosso namoro, passamos vários feriados nessa casa.
Quando isso acontecia, eu dividia quarto com o meu cunhado Sílvio, irmão único e mais velho de Débora. Esse quarto que ocupávamos – “o quarto dos rapazes” – era na verdade uma garagem convertida em dormitório adicional. Ficava separado da casa, do lado de fora, com acesso independente.
O quarto tinha dois beliches de madeira, uma cômoda e um pequeno armário perto do banheiro com azulejos azul-celeste e um chuveiro elétrico que sempre dava defeito.
Sílvio era cinco anos mais velho do que eu. Na época em que dividíamos o quarto mais frequentemente, ele começava a explorar sua vida adulta. Dirigia, bebia, saía à noite. Nem Débora nem eu ocupávamos muito de sua atenção. Ele não era rude, mas pouco falava conosco. Tinha coisas mais importantes para fazer.
Sílvio e Débora acabaram ficando muito mais próximos ao longo dos anos, sobretudo depois da doença dos pais. Já eu nunca consegui desenvolver uma relação espontânea ou íntima com o meu cunhado.
A culpa terá sido minha, porque acho que não desenvolvi relação íntima ou espontânea com ninguém. É difícil ser espontâneo quando se tem medo. Como ser íntimo quando a intimidade é o que mais apavora você?” (p. 33/34)

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Cloro
Alexandre Vidal Porto
Cia das Letras
Romance
2018










quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Mulherzinhas, de Louisa May Alcott





Por Adriane Garcia

Terminei de ler essa belezura que é Mulherzinhas, de Louisa May Alcott, publicado pela primeira vez em 1868.

O romance retrata a vida de uma família durante a Guerra Civil Americana, quando o pai está na guerra e mãe e filhas têm que continuar a rotina, após perderem grande parte de seus bens. A solidariedade é destacada como valor comunitário essencial.

A história se centra nas quatro irmãs, Meg, Jô, Beth e Amy e conta de modo fluido e divertido o mundo de infância e adolescência que é construído à custa das dificuldades e da imaginação. Louisa May Alcott dá uma aula de construção de diálogos. Também reserva um papel importante para o vizinho Laurie, jovem solitário que encontra nas vizinhas a amizade e uma segunda família.

É interessante como cada irmã tem sua personalidade bem construída o que as torna verossímeis e reais, com destaque para Jô, uma menina de 15 anos que não quer ser uma menina nem se comportar como uma mulherzinha. Jô, que protagoniza a história, tem como melhor amigo um rapaz e quer se tornar independente e escritora, ao invés de casar-se. 

O livro foi o primeiro a tratar de uma personagem adolescente desta forma.

Mary May Alcott foi uma escritora à frente do seu tempo. Não se casou, ganhou dinheiro com literatura para sustentar sua família (tendo antes passado por diversos empregos, de governanta a lavadeira de roupas), foi abolicionista e sufragista.

Um clássico que vale a pena conhecer.


“– Meninas, não briguem – Meg repreendeu-as. – Vocês gostariam que papai ainda tivesse o dinheiro que perdeu quando éramos pequenas? – Perguntou, pois se lembrava de tempos melhores. – Meu Deus! Como seríamos felizes se não tivéssemos tantas preocupações!
– Outro dia, você disse que somos mais felizes do que os filhos dos King, que vivem brigando e se preocupando o tempo todo, a despeito do dinheiro que têm – Beth lembrou-a.
– Eu disse, Beth, e acho que somos realmente mais felizes do que eles. Embora tenhamos de trabalhar, sabemos nos divertir entre nós, somos um “bando alegre”, como diria Jô.
– Jô usa cada termo! – Comentou Amy, olhando com reprovação para a irmã estendida no tapete.
Sentando-se rapidamente  e pondo as mãos nos bolsos do vestido, Jô começou a assobiar.
– Não assobie, Jô! Isso é coisa de homem!
– É por isso que eu gosto!”


***

Mulherzinhas
Louisa May Alcott
Romance
Ed. Nova Cultural
edição de 2003



sábado, 29 de dezembro de 2018

O som das coisas se descolando, de Casé Lontra Marques





Por Adriane Garcia




Na capa de fundo verde, onde outros olhos podem ver azul, somente o título e o nome do autor. É já ali a primeira pista sobre essa leitura: sinestesia. O som das coisas se descolando exige escuta e, por isso, alude ao silêncio. Ao abrir o livro, o leitor será solicitado a ouvir, mas, também, seguirá por um caminho tátil, gustativo, olfativo, visual. É para aguçar os sentidos. A poesia de Casé Lontra Marques requer o corpo.

Ensina o filósofo Merleau Ponty que nós só sabemos que existimos porque somos um corpo no mundo e que esse corpo único e individual é nossa chave de entendimento, chave pessoal e intransferível, corpo vivido. O corpo do outro é algo, no máximo, familiar, mas é por meu corpo percebendo os outros corpos que o mundo se alonga e se amplia: “um prolongamento milagroso de suas próprias intenções, uma maneira familiar de se relacionar com o mundo”.

Porém, antes de “saber”, no sentido intelectivo, percebemos, e a percepção é nosso primeiro contato com as coisas. Antes do pensamento elaborado há a sensibilidade, um contato primário muito rejeitado na sociedade contemporânea. Sociedade que sobrevive às custas de não ser percebida, para ser apenas consumida, para ter seus danos nos corpos validados pela ciência.

Entre o chamado mundo adulto, que despreza o encantamento pueril da criança e o mundo da criança, ainda na presença do susto, alumbramento diante das coisas (corpo para sentir), existe uma ponte chamada poesia. Não à toa, Octavio Paz escolheu dois símbolos como o princípio e o fim da linguagem humana: o abraço dos corpos e a metáfora poética: “No primeiro: união da sensação e da imagem, o fragmento apreendido como cifra da totalidade e a totalidade repartida nas carícias que transformam o corpo numa fonte de correspondências instantâneas. Na segunda: fusão do som e do sentido, núpcias do inteligível e do sensível.”

A poesia de Casé Lontra Marques, em O som das coisas se descolando, situa-se nessa ponte, onde o inteligível e o sensível se encontram. Casé Lontra Marques constrói os poemas com as imagens e os elementos dos corpos, aludindo ou fazendo referências, amiúde, aos termos da biologia e contrapondo a angústia à paz na mesma correlação que contrapõe vida orgânica à vida inorgânica: “Nada que respira perdura em paz”.
Há uma fluência de veias funcionando, uma delicadeza de arrepio de poros:

“Nunca inerte, a delicadeza
(pulsando)
se faz deque: sobretudo
quando algum grão
de coragem
chega
na garganta – e aí não para,
ainda
que tampouco
se apresse.”

As palavras são escolhidas com o cuidado de quem conhece o trajeto sensorial da poesia. Aludir ao paladar enquanto o verso trai o senso comum, ao mesmo tempo que a sonoridade, dedicadamente trabalhada, chega aos ouvidos. Concomitante, uma imagem visual feita de absurdos se nos dá, mas já não é mais absurda, e nos cai perfeitamente. Algo anterior ao que valorizamos como entendimento percebe, sente:

Em hora arredia,
arar o que mais arde:
oceano
mordido pela maçã
da face.”

A atenção é constante sobre a saliva, o sangue, o fôlego, a carne, os ossos, a precariedade e a sujeição do ser ao tempo. O desejo, no que concorda com os budistas, é uma grande aflição, a fome não dorme, “sempre insone”. O poeta de O som das coisas se descolando é atento e observador, cada reação e sentimento não lhe escapam. Seus elementos vão do micro ao macro, do grão às galáxias. Casé Lontra Marques trabalha o poema curto, com o mínimo; o que quer é mesmo esse grão que interfere, à flor da pele.

Por trás da composição de seus versos, o poeta reflete a existência, dialoga com informações de vários campos do saber, da filosofia à psicologia, chega à doença como sintoma:  a azia como um aviso de que não se está vivendo corretamente; a sabedoria ancestral de que “Conhecemos com os pulmões”, esse órgão da troca inexorável com o exterior: Ar. E, tendo percorrido, nos poemas, as reflexões que se apoiam em conhecimento intelectual é como se, paradoxalmente, afirmasse: Eu não sei se é assim, eu sinto que é assim. Do nada saber conecta-se com o Mistério; não para o alívio, mas para a plenitude. A vida aparece quase que como um organismo predador e o corpo só pode ser pensado no tempo. É contra o tempo que se apresenta a linguagem:

O tempo se debate
quando conseguimos respirar
 dentro
 de uma frase.”

O som das coisas se descolando permite várias leituras, o reino de suas significações é amplo, mas sob qualquer interpretação, os versos inquietam: “o que se traga sem trauma?”. Viver é um exercício destemido, principalmente porque só funciona se há a coragem de mexer dentro do próprio corpo e não fora dele, no corpo próprio e não no corpo do outro. Da constatação de que fazemos parte não do equilíbrio, mas da “ordem arredia do caos” e que o imperativo absoluto é viver, fecundar, o desafio da compensação: linguagem, poesia, pois a linguagem é necessária, mas a fome é fluente.

Que as frases, anonimamente;
que as frases
infeccionem – uma a uma –
sem
desfalcar a fome (aquela
mais fluente que
de fato funda).”

De tudo se descola uma palavra, como se a palavra fosse a pele das coisas:

Os objetos – assim como
os substantivos
que deles se soltam – nunca
abdicam
de desobedecer.
suas arestas
os arejam (eu que aprenda
a jamais
me apaziguar).

O que seria do corpo/ sem o espanto que o expande?”, pergunta Casé Lontra Marques. Seria a diminuição do corpo, a sua inutilização, a impossibilidade de sua plenitude – e como vive sem plenitude nossa sociedade! Os poemas de O som das coisas se descolando é um convite ao contato com esse espanto e a demonstração de que a poesia é uma maneira de acessar nossa primeira forma de estar no mundo, nosso estágio de percepção, as primeiras práticas de nosso aparato psíquico-biológico. Nossa vida não é toda refletida, nem tudo que acontece acomete nosso intelecto. É a percepção que revela o mundo pela primeira vez.

A poesia quer um corpo vivo. Um corpo vivo o suficiente para se alegrar e para sofrer, para sentir e para tentar entender, também para aceitar que nada entende. Um corpo vivo o suficiente para celebrar-se e se perceber numa espécie de maldição com consciência, em carne viva, ruína se formando no tempo e caminhando para a morte (integração?), vivo o suficiente para ouvir o som das coisas se descolando.

Tragédia veloz, trajetória voraz
– inenfaticamente:
aprender a ruir é já ressuscitar.”


***
O som das coisas se descolando
Casé Lontra Marques
Poesia
Ed. Aves de água
2017


segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Machamba, de Gisele Mirabai






Por Adriane Garcia


Narrado em terceira pessoa, por um narrador que é voz que se mistura à própria voz da protagonista, Machamba (ed. Nova Fronteira), romance de Gisele Mirabai, prende a atenção do leitor do início ao fim. A autora sabe, com maestria, dar aos poucos os detalhes que revelam acontecimentos e motivações. É exercendo domínio sobre o ritmo da narrativa e um “jogo” com a curiosidade do leitor que Gisele Mirabai faz com que cada capítulo seja mais uma peça do quebra-cabeças que se necessita para seguir em viagem com a personagem.

Machamba é filha única de fazendeiros, tendo passado a infância e parte da adolescência na fazenda Fiandeiras, em MG. No momento em que Gisele Mirabai começa a nos contar a história, Machamba já é uma jovem adulta e mora em Londres, onde é garçonete e não se apega a nada. Apenas mantém a vida, pratica sexo sem compromisso e sem tabus, e foge do amor.

É nesta fuga do amor que Machamba empreende suas viagens pelo mundo. E é ao mesmo tempo em que Machamba viaja, que o leitor vai encontrando o passado que a motivou a desgarrar-se (aparentemente). Há um sentimento de perecibilidade permanente, a vida é instável. Até aqui, o leitor sabe que o “Elo Perdido” foi um grande trauma, e que é por causa deste trauma, ainda não revelado, que ela perdeu suas crenças estruturais e se mantém alerta, hipervigilante, com pensamentos circulares.

É por causa deste trauma, que o leitor só conhecerá ao final do livro, que Machamba sairá de Londres e irá para a Grécia, para a Turquia, Israel, Egito e Índia: “Quem sabe assim ela encontrasse o que despencou no Elo Perdido, aquilo que separou para todo o sempre o Dia do Antes do Dia do Depois.”.

É impossível não notar a linguagem utilizada neste romance como um exemplo excelente de quando a forma encontra o conteúdo. O trauma mantém Machamba na infância em Fiandeiras ainda que ela viaje o mundo (afinal, pra onde formos nos levaremos) e a linguagem que o narrador utiliza, sendo a linguagem do próprio pensamento de Machamba, além de circular e obsessivo, cria em muitos momentos analogias e associações comuns nos exercícios de linguagem infantil ou (porque a criança sabe) da poesia.

Além disso, a nomeação muito singular de alguns elementos fundamentais para a progressão da história e da compreensão do mundo interior da personagem, tornam a narrativa diferenciada quanto ao uso das palavras. Não é o vocabulário de rotina, mas o vocabulário pessoal de Machamba que comunica sua pequena odisseia.

Pequena, porque tudo é pequeno no Tempo Grande. Assim como tudo parece maior do que é, no Tempo Pequeno. Machamba, em seu processo de crescimento, opõe, de forma recorrente, o micro ao macro, as forças diárias da vida, do medo: “o Moedor de Ossos” às forças cósmicas, universais, imparciais, a importância de nossos problemas pessoais à insignificância de nossos egos diante do Todo. Tendo escolhido mais o silêncio do que o barulho, mais a mudez do que a fala, a protagonista de Gisele Mirabai ocupa-se em fazer a sua “usinagem interior”, em ouvir-se. Talvez, por isso, o livro alcance em tantas linhas verdades incômodas, mas tão reveladas, sobre nós.

Por fim, o leitor monta o “Quebra-Cabeças”: é o Tempo Grande que manda em nossas vidas. E a viagem de Machamba acaba por provar uma verdade adquirida por ela, a de que só a mudança é permanente. Como sabiam os gregos antigos, fugir do destino pode ser uma forma de encontrá-lo.


“Mohammed olha o início da tempestade. Espera que ela se levante por si só. Os ocidentais e suas esquisitices. Os turistas passam e partem com as areias, o deserto fica. Três cavalos trotam pela imensidão. Ela permanece deitada enquanto o camelo continua no seu tempo de camelo. Com as coxas fortes e a boca que mastiga, com a altura da sua antiguidade e a largura de suas narinas. A chuva de poeira se anuncia pelos céus e o camelo se ajoelha de frente para as pirâmides. Com seu colar de pompom colorido, caindo pelo chão. O camelo tem um manto vermelho sobre as corcovas, ele olha algo que é além das pirâmides, acima das tempestades, o camelo fita o infinito com a certeza de uma estabilidade acima de todas essas passagens. Aconteça o que acontecer, há algo que não muda, a permanência inevitável de uma força que a tudo rege e que fica, e o camelo sabe disso, vê algo que ela ainda não pode enxergar, mas confia.” (p. 140)

***
Machamba
Gisele Mirabai
Romance
Ed. Nova Fronteira
2017
(LIVRO FINALISTA DO PRÊMIO JABUTI 2018)