quarta-feira, 19 de junho de 2019

Mulheres, raça e classe, de Angela Davis




Por Adriane Garcia



Livro fundamental para pensar as estruturas de sexismo, racismo e injustiça social, Mulheres, raça e classe, da editora Boitempo, tradução de Heci Regina Candiani, fala de maneira clara e bastante acessível sobre as interseções entre esses temas.


A autora, Angela Davis, tem uma vida dedicada ao ativismo e fez parte do grupo Panteras Negras. Seus estudos sobre a escravidão levam a compreender que o movimento feminista nos Estados Unidos aprendeu grande parte da luta organizada no movimento antiescravagista: “O movimento antiescravagista oferecia às mulheres de classe média uma oportunidade de provar seu valor de acordo com parâmetros que não estavam ligados a seus papéis como esposas e mães.”


Em Mulheres, raça e classe, Angela demonstra as linhas de aproximação e distanciamento entre as mulheres brancas e negras, assim como os diferentes modos de vida na sociedade geraram comportamentos diversos, já que a mulher negra trabalhou ombro a ombro com seus pares homens. Entre as pessoas negras, o trabalho doméstico significava a própria sobrevivência, no sentido de “lar”, de maneira que sua importância era notável. Já as mulheres brancas, principalmente da classe média, a partir da industrialização, são treinadas, cada vez mais, para uma feminilidade enfraquecida em que a casa, o serviço doméstico é visto como algo inferior. Enquanto as mulheres brancas pediam sufrágio universal e mercado de trabalho; as mulheres negras, que sempre trabalharam, lutavam contra as condições precárias de trabalho, pois para elas, trabalhar não significava, propriamente, liberdade.


Algumas feministas brancas, como as irmãs Grimké, perceberam logo a ligação indissociável entre abolicionismo e feminismo. Feministas negras como Sojourne Truth absolutamente brilharam no enfrentamento não só do racismo e do sexismo, como no enfrentamento das estruturas racistas dentro do próprio movimento feminista. É famoso e inesquecível o discurso de Sojourne Truth em que ela pergunta “Não sou eu uma mulher?”.


Angela Davis mostra que, à medida que a luta pelo sufrágio feminino aumentava, mais a estrutura racista dentro do movimento feminista se recrudescia. Pós Guerra de Secessão, declarada oficialmente a abolição da escravatura, muitas feministas viram o envolvimento das mulheres negras em sua própria luta (pelas mulheres) como empecilho para conseguir a simpatia e a adesão das mulheres brancas do sul ao voto feminino. Neste trajeto, a presença fundamental de um ativista negro se destaca: Frederick Douglass, o abolicionista que iniciou a luta pela igualdade e o direito de voto de todas as mulheres.


Após a abolição, os postos ocupados pelas pessoas negras ficam praticamente inalterados, indicando muito mais a continuidade com a escravidão do que a ruptura. A essas pessoas os empregos oferecidos continuaram sendo no campo e nos serviços domésticos, sob péssimas condições, análogas às de escravidão. Com a industrialização, alguns movimentos operários e de mulheres começaram a refletir mais profundamente sobre a consciência de classe. Entre as pessoas negras, havia ainda um problema muito mais grave a ser pensado: a lei dos linchamentos, que matava a população negra independente de julgamento e a lei antiestupro, que acabava por servir à lei de linchamentos. As mulheres negras, vítimas por séculos dos estupros causados por homens brancos como arma de opressão, viam agora os homens negros de suas comunidades serem presos e mortos todo o tempo pela lei dos linchamentos; quando não eram elas próprias, retiradas de suas casas, estupradas por gangues de supremacistas brancos e dependuradas em forcas nas árvores.


Como empregadas domésticas, sofrendo a opressão de classe; como mulheres, sofrendo a opressão do sexismo; e como pessoa negra, sofrendo a opressão do racismo, para este segmento da população a vida era (é) triplamente difícil. Enquanto o movimento feminista discutia o sufrágio, as mulheres negras falavam sobre não serem assassinadas e as suas famílias. Quando o sufrágio negro (do homem negro) foi aprovado, parte do movimento feminista branco ficou indisposto, mesmo a parte que antes lutara contra o escravagismo, o que demonstra que em alguns casos, a luta antiescravagista foi mera conveniência. Com a repressão às drogas, os poderosos conseguiram transformar vários cidadãos eleitores negros em presidiários. Era uma forma de cercear o voto e uma forma de oferecer uma outra faceta escravagista: o estado podia ceder presos para contratos privados de trabalho.


Obviamente, dentro do movimento feminista de mulheres brancas havia mulheres antirracistas, muitas delas, mostra-nos Angela Davis, abriram um dos caminhos mais importantes para a população negra: a escola. A população negra sabia que sua emancipação dependia do acesso à educação. Em 1973, “uma ex-escrava que havia comprado a própria liberdade abriu uma escola na cidade Nova YorK, conhecida como Escola Katy Ferguson para Pobres”. Angela Davis chega a afirmar que “Os exemplos mais marcantes de sororidade que as mulheres brancas tinham em relação às mulheres negras estão associados à histórica luta do povo negro por educação”. Mulheres como Prudence Crandall, Margaret Douglas e Myrtilla Miner, por exemplo, arriscaram suas vidas para transmitir conhecimento para pessoas negras. Eram perseguidas, tinham suas escolas invadidas, quebradas, incendiadas por gangues como a Klu Klux Klan e ameaçadas de morte.


Com a entrada do século XX, as ideias eugenistas ganham cada vez mais terreno no pensamento das pessoas. Até mesmo parte do movimento feminista de mulheres brancas ficará seduzido pelo termo “mães da raça”. O culto da maternidade aos moldes brancos veio com força total para enfraquecer a mulher e dar-lhe um lugar definitivo. Mãe da raça. Ela é responsável pela procriação. E ponto. Já no movimento feminista negro, antirracista por excelência, o racismo não se dissociava do sexismo; havia, inclusive, a defesa do homem negro, vítima, como elas, da opressão de classe. As mulheres do movimento feminista negro notaram, muito rapidamente, que inferiorizar o homem negro as inferiorizava e que essa inferiorização advinha do racismo e da dominação econômica.


Angela Davis também escreve um capítulo, “Mulheres trabalhadoras, mulheres negras e a história do movimento sufragista” mostrando as divergências entre as associações de trabalhadoras e associações de mulheres, negras ou não. Mesmo após a conquista do sufrágio feminino, “as mulheres negras do Sul foram violentamente impedidas de exercer seu direito recentemente adquirido”. Com o advento das associações comunistas e da oficialização do partido comunista, a questão da classe toma mais vigor e várias lideranças femininas aparecem, brancas e negras. Com a perseguição aos comunistas, várias delas são presas.


Um dos capítulos é dedicado ao tema do estupro e do mito do estuprador negro. “A experiência do Vietnã proporciona um exemplo adicional do modo como o racismo pode funcionar enquanto incitação ao estupro. Uma vez que foi incutida na cabeça dos soldados dos Estados Unidos a visão de que lutavam contra uma raça inferior, eles acabaram aprendendo que estuprar as vietnamitas era um dever militar necessário.”


Angela chama a atenção para o fato de que “em grande parte da literatura contemporânea sobre o estupro há a tendência de equiparar o “estuprador dos registros policiais” com o “estuprador típico”. O estuprador dos registros policiais é amiúde negro – aquele que a polícia prende; o estuprador típico é, inúmeras vezes aquele que não aparece, o homem da casa, o pai, o tio, o primo, o patrão, o empresário, o que inclui vasto número de homens brancos.Se esse padrão de atribuir a imagem do estuprador dos registros policiais à imagem do estuprador típico persistir, será praticamente impossível revelar as reais causas sociais do estupro.”


Os homens brancos usaram a defesa da honra de suas mulheres como pretexto para matar negros. Arma rotineira de repressão, a condenação por estupro era contra a mulher negra e seu companheiro. Forma de humilhar. O caso dos meninos de Scottsboro, em 1931, exemplifica bem. Acusados de estupro em um vagão de trem, após uma briga com rapazes brancos, as duas mulheres que acusaram os nove rapazes negros retiraram a acusação e admitiram ter mentido, antes do veredito. Mesmo assim, os jovens foram condenados. As penas variaram de 75 anos de prisão à morte.


Na sequência do livro, Angela trata de “Racismo, controle de natalidade e direitos reprodutivos”. Aqui, a autora descreve e reflete um pouco da luta das mulheres pelos direitos reprodutivos, pelo direito ao próprio corpo, sem o qual não há que se falar em liberdade. Porém, o que era reivindicado como um “direito” para as mulheres privilegiadas veio a ser interpretado como um “dever” para as mulheres pobres.A esterilização compulsória surge como ideia estatal e defendida por muitas e muitos como forma de controlar os pobres. “O potencial progressista do movimento foi roubado quando passou a defender não o direito individual das pessoas de minorias étnicas ao controle de natalidade, e sim a estratégia racista de controle populacional.


No último capítulo a autora dedica-se ao tema das tarefas domésticas e a necessidade de libertação de um trabalho que gasta grande grande parte do tempo das mulheres. Pensando sobre isso é impossível não lembrarmos duas coisas: 1. que homens participam - quando participam - ainda muito pouco do compartilhamento das tarefas domésticas; 2. que mulheres que podem pagar fazem com que mulheres que não podem façam o trabalho doméstico por elas, na maior parte das vezes sem a sororidade necessária para oportunizar mudanças positivas na vida da empregada doméstica. Pelo contrário, tirando delas qualquer tempo que lhes poderia sobrar para se dedicarem às suas próprias famílias. Aqui as implicações de classe e racismo se manifestam claramente. E novamente a continuidade de vários elementos das relações de “senhora” e “mucama” vêm à tona. Se formos pensar em Brasil, o que ainda é pior: essa continuidade passa desapercebida, porque aprendemos a velar nosso racismo, tão internalizado ele está e tão desacostumados estamos a pensá-lo.


Mulheres, raça e classe é um livro obrigatório para entender um passado tão presente e, quem sabe, agir cotidianamente para um futuro mais justo.


Durante o período pós-escravidão, a maioria das mulheres negras trabalhadoras que não enfrentavam a dureza dos campos era obrigada a executar serviços domésticos. Sua situação, assim como a de suas irmãs que eram meeiras ou a das operárias encarceradas, trazia o familiar selo da escravidão. Aliás, a própria escravidão havia sido chamada, com eufemismo, de “instituição doméstica”, e as escravas eram designadas pelo inócuo termo “serviçais domésticas”. Aos olhos dos ex-proprietários de escravos, “serviço doméstico” devia ser uma expressão polida para uma ocupação vil que não estava nem a meio passo de distância da escravidão. Enquanto as mulheres negras trabalhavam como cozinheiras, babás, camareiras e domésticas de todo tipo, as mulheres brancas do Sul rejeitavam unanimemente trabalhos dessa natureza. Nas outras regiões, as brancas que trabalhavam como domésticas eram geralmente imigrantes europeias que, como suas irmãs ex-escravas, eram obrigadas a aceitar qualquer emprego que conseguissem encontrar.
A equiparação ocupacional das mulheres negras com o serviço doméstico não era, entretanto, um simples vestígio da escravidão destinado a desaparecer com o tempo. Por quase um século, um número significativo de ex-escravas foi incapaz de escapar às tarefas domésticas. A história de uma trabalhadora doméstica da Geórgia, registrada por um jornalista de Nova York em 1912, reflete a difícil situação econômica das mulheres negras das décadas anteriores, bem como de muitos anos depois. Mais de dois terços das mulheres negras de sua cidade foram forçados a encontrar empregos como cozinheiras, babás, lavadeiras, camareiras, vendedoras ambulantes ou zeladoras e se viram em condições “tão ruins, se não piores, do que as do período da escravidão”.
Por mais de trinta anos, essa mulher negra viveu involuntariamente nas casas onde era empregada. Trabalhando nada menos que quatorze horas por dia, ela geralmente tinha permissão de sair por apenas uma tarde a cada duas semanas para visitar a família. Em suas próprias palavras, ela era “escrava de corpo e alma” da família branca que a empregava. Sempre a chamavam pelo primeiro nome – nunca por sra. ... – , e não era raro que se referissem a ela como sua “preta”, ou seja, sua escrava.
(...)
Desde a Reconstrução até o presente, as mulheres negras empregadas em funções domésticas consideraram o abuso sexual cometido pelo “homem da casa” como um dos maiores riscos de sua profissão. Por inúmeras vezes, foram vítimas de extorsão no trabalho, sendo obrigadas a escolher entre a submissão sexual e a pobreza absoluta para si mesmas e para sua família. Essa mulher da Geórgia perdeu um de seus empregos, no qual morava, porque “eu me recusei a deixar o marido da senhora me beijar”.
(p. 98/99)

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Mulheres, raça e classe
Angela Davis
Tradução: Heci Regina Candiani
Ed. Boitempo
2016

sábado, 25 de maio de 2019

O último voo do flamingo – de Mia Couto




Por Adriane Garcia


Romance lindíssimo, recheado de lirismo e reflexão. Em O último voo do flamingo, Mia Couto narra um Moçambique pós-guerra civil, em que os caminhos estão minados e pessoas explodem nas ruas. O mistério se dá quando essas explosões começam a acontecer com os soldados da ONU, de maneira inusitada: os soldados explodem sem deixar restos, exceto os órgãos genitais e o boné do uniforme.

Em busca da explicação, um emissário italiano, Massimo Risi, é enviado à Tizangara, cidade onde se passa a ação. Um tradutor, morador local, lhe é indicado. No decorrer da história, vemos que o narrador não é para traduzir as palavras, mas o mundo que Massimo não entende. E é este tradutor que conta a história em primeira pessoa.

Das relações que surgem entre o emissário italiano, o tradutor, Ana Deusqueira (a prostituta), Temporina (a jovem amaldiçoada com cara de velha), o velho Sulplício, Zeca Andorinho (o feiticeiro), o padre Muhando, o administrador Estêvão Jonas e outros, o fio condutor se desenvolve para criticar o colonialismo, mas também a dependência pós-colonial, os efeitos da dominação estrangeira e da guerra, a ganância e a corrupção das autoridades locais, a traição aos anseios populares de justiça social feita por aqueles que juraram defendê-la enquanto eram da guerrilha, o esquecimento da ancestralidade.

Um romance cheio de nuances e riquíssimo em imagens, em uma história que emociona e nos leva para um dos solos da África. Entre a realidade e o maravilhoso, Mia Couto consegue o pacto com o leitor de levá-lo a uma Tizangara mágica, em que feitiçaria e política se encontram.


O senhor se cuide, Massimo Risi: a boca é grande e os olhos são pequenos. Ou como se diz aqui: o burro come espinhos com a sua língua suave. É que isso aqui é mais perigoso do que o senhor pensa. Perigoso por quê? O senhor vai descobrir como o pato. Sim, como o pato que descobre a dureza das coisas só depois de partir o bico.
É que no meio de tudo há sangue, mortos a quem não cobriram o rosto. Esses mortos dormiram no relento, impurificaram a noite. Para o senhor, com certeza, isso não traz gravidade. Aqui não é a morte, mas os mortos que importam. Entende? Ainda vai morrer mais gente, lhe asseguro. Não faça essa cara. Eu espero que a desgraça lhe passe nas costas, a si que me parece um homem bom.
Fui mandada para aqui pela Operação Produção. Quem se lembra disso? Atafulharam camiões com putas, ladrões, gente honesta à mistura e mandaram para o mais longe possível. Tudo de uma noite para o dia, sem aviso, sem despedida. Quando se quer limpar uma nação, só se produzem sujidades.
Em Tizangara até me receberam bem. Esta gente se afastava, como não querendo ser contaminada. Contudo, não me maltrataram. No início eu me sentia como numa prisão, sem grades, mas cercada por todo o lado. Eu estava como o prisioneiro que encontra no carcereiro o único ser com quem trocar as humanidades. E pergunto: Por que nos ensinaram essa merda de sermos humanos? Seria melhor sermos bichos, tudo instinto. Podermos violar, morder, matar. Sem culpa, sem juízo, sem perdão. A desgraça é esta: só uns poucos aprenderam a lição da humanidade.”  (p. 177/178)
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O último voo do flamingo
Mia Couto
Romance
Cia das Letras
2005

domingo, 12 de maio de 2019

O feminismo é para todo mundo, políticas arrebatadoras – Bell Hooks




Por Adriane Garcia
O livro O feminismo é para todo mundo (ed. Rosa dos Tempos), de Bell Hooks, trabalha em linguagem simples (um objetivo declarado da autora) um pouco da história e crítica do feminismo contemporâneo, com ênfase no feminismo visionário, ou seja, aquele que não quer nenhuma espécie de sexismo, nem do homem sobre a mulher, nem da mulher sobre o homem, buscando a igualdade social, política e uma cultura de colaboração.

Para além das reformas que o feminismo já alcançou e quer alcançar, Bell Hooks destaca que o sistema capitalista patriarcal de supremacia branca é a estrutura central sobre a qual o sexismo se estabelece, de maneira que é necessário derrotá-lo. Deste modo, o livro discute também a questão de raça dentro do movimento feminista e os desdobramentos de conflito quando a demanda de mulheres brancas que já alcançaram postos na estrutura do sistema não coincide com a demanda das mulheres trabalhadoras pobres e/ou negras, para quem o trabalho existe desde que o mundo é mundo, mas é trabalho que jamais libertou essas mulheres.

A autora, em capítulos curtos, discute os tópicos “políticas feministas”, “conscientização”, “a sororidade ainda é poderosa”,  “educação feminista para uma consciência crítica”, “nosso corpo, nosso ser, direitos reprodutivos”, “beleza por dentro e por fora”, “luta de classes feminista”, “feminismo global”, “mulheres trabalhando”, “raça e gênero”, “pelo fim da violência”, “masculinidade feminista”, “maternagem e paternagem feministas”, “casamento e companheirismo libertadores”, “uma política sexual feminista”, “alegria completa: lesbianidade e feminismo”, “amar novamente: o coração do feminismo”, “espiritualidade feminista”, “feminismo visionário”.

Um livro interessante, excelente, inclusive, para quem estiver se iniciando no assunto, já que o feminismo é um dos mais importantes  movimentos e temas de nossa época.

"Se mulheres e homens querem conhecer o amor, precisamos aspirar ao feminismo. Porque sem o pensamento e a prática feministas não temos a base necessária para criar laços de amor. No início, profundas frustrações nos relacionamentos heterossexuais levaram várias mulheres a aderir individualmente à libertação da mulher. Várias dessas mulheres se sentiram traídas pela promessa de amor e felicidade para sempre quando elas se casaram com homens que rapidamente se transformaram de príncipes charmosos a senhores feudais patriarcais. Essas mulheres heterossexuais trouxeram para o movimento sua amargura e raiva. Elas juntaram seu coração partido com o de mulheres lésbicas que também se sentiram traídas em laços românticos  fundamentados em valores patriarcais. Consequentemente, quando a questão era o amor, o ideal feminista no início do movimento era de que a liberdade da mulher existiria somente se as mulheres se desapegassem do amor romântico.
  Nosso anseio por amor, conforme ensinadas nos grupos de conscientização, era uma armadilha sedutora para nos manter apaixonadas por amantes patriarcais, homens ou mulheres, que usavam aquele amor para nos dominar e subordinar. (...)" p. 145/146




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O feminismo é para todo mundo
Políticas arrebatadoras
Bell Hooks
Teoria feminista
ed. Rosa dos Tempos
2019

terça-feira, 30 de abril de 2019

Fahrenheit 451, de Ray Bradbury





  
“Há mais de um jeito de queimar um livro”
Ray Bradbury

Por Adriane Garcia

Fahrenheit 451, livro de ficção científica, distopia escrita por Ray Bradbury, narra a história de Guy Montag, um bombeiro que, ao invés de apagar fogo, coloca-o. Os bombeiros, em uma época em que as casas já não queimam mais, dedicam-se a queimar os livros daqueles que insistem em ter em casa esses objetos proibidos e anacrônicos.

O conflito do protagonista com sua função começa a se manifestar quando ele se encontra casualmente com Clarisse, uma menina que faz perguntas, gosta de diálogos e conversas. A personalidade de Clarisse e o indício de que sua família cultiva os mesmos gostos que ela sugerem que se trata de um grupo transgressor. Ser transgressor, na sociedade que Bradbury retrata, é ousar pensar, dedicar-se a ouvir o outro, ler. O aceitável é a cultura de massa, o pensamento único e uniformizado, a delação e a censura.

Publicado em meados do século XX, o livro aponta as observações que o autor vinha fazendo da sociedade norte-americana, no início da Guerra-Fria. Levada ao extremo, a sociedade retratada em Fahrenheit 451, mostra o empobrecimento das relações tomadas pelo uso da tecnologia sem estímulo ao pensamento. A consciência crítica diminui drasticamente até se transformar em traição ao Estado.

Guy Montag terá sua vida modificada por fazer o exercício de pensar, por achar os livros irresistíveis, por saber que há algo neles que não pode (mas precisa) ser contado. Ao final, uma emocionante surpresa sobre resistência, sem necessariamente ser uma esperança.

Essencial para dias perigosamente fascistas, como os que vivemos.


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Fahrenheit451
Ray Bradbury
Romance
Ed. Globo
2009


Carolina, de Sirlene Barbosa e João Pinheiro





Por Adriane Garcia

Escrita por Sirlene Barbosa e desenhada por João Pinheiro,  a biografia em quadrinhos Carolina conta a vida da escritora Carolina Maria de Jesus. Da infância em Minas Gerais, com direito a profecia de que ela seria poetisa, da luta pela sobrevivência da família, com três filhos, em São Paulo, até sua morte numa chácara, o livro flui como a obra de arte que é: bonito, emocionante, denso e dramático, tanto no texto quanto no traço do ilustrador.

Com algumas frases retiradas de Quarto de despejo, obra mais famosa de Maria Carolina de Jesus, os quadrinhos nos levam a conhecer o tom da obra desta mulher forte, negra, pobre, talentosa e que se dedicou a ler e a escrever mesmo quando já exausta.

Por um golpe de sorte, o jornalista Audálio Dantas encontra Carolina na favela do Canindé, lugar onde ela vivia, enquanto realizava uma reportagem. É Audálio que, vendo os escritos de Carolina, ajuda a torná-los livro.

Para além da biografia, o livro também fala sobre o racismo, triste fundamento da sociedade brasileira que precisa cada vez mais ser denunciado e discutido.

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Carolina
Sirlene Barbosa e João Pinheiro
Grafic novell
Biografia em quadrinhos
Ed. Veneta
2016


Poesia & Utopia, sobre a função social da poesia e do poeta, de Carlos Felipe Moisés




Por Adriane Garcia

Poesia e utopia, sobre a função social da poesia e do poeta, de Carlos Felipe Moisés, editado pela Escrituras, na coleção Ensaios transversais, traz reflexões importantes sobre a poesia e o sentido de se fazer poesia, além de discutir a função do poeta.

Sem tentar conceituar o que é poesia de forma definitiva, sabendo que muitas podem ser as definições (e indefinições), o autor adota o conceito de “ver como se víssemos pela primeira vez”. Traz no primeiro ensaio a expulsão do poeta da República de Platão, discutindo sobre a periculosidade do poeta e sobre liberdade e utopia: “Utopia e liberdade são inconciliáveis. Os sábios governantes de qualquer república “ideal” sabem ou simulam saber o que é melhor para todos e não hesitam em impô-lo, contra a vontade de quem quer que seja, vedando a partir daí todo avanço, todo conhecimento, toda liberdade.”

Ao adotar o conceito de poesia como aquilo que faz ver algo como se o víssemos pela primeira vez, destaca o potencial antipedagógico da poesia, pois, visto, o objeto tem que ser desconstruído, “desensinado”, para poder ser visto novamente, mas como se nunca antes. Neste sentido é que a poesia é intrinsecamente rebelde e traz seu potencial revolucionário.

No ensaio Make it new, parte de Ezra Pound e Confúcio. Das palavras de Confúcio: “O homem que mantenha vivo o que é velho e, ao mesmo tempo, reconheça a novidade, esse homem pode, eventualmente, ensinar”, Carlos Felipe Moisés encontra o Canto LIII, de Pound: “Tching orou na montanha e/ Escreveu: FAÇA-O NOVO/ em sua tina de banho/ Dia a dia faça-o novo/ apare a moita/ empilhe as toras/ mantenha-o crescendo.”

Em Pelos olhos e pelos ouvidos, Carlos Felipe Moisés destaca a diferença, no aspecto da periculosidade, da cidadania, entre a poesia falada e a poesia escrita. Aquela, coletiva, dita em praça pública; esta, individual, presa na página e no silêncio da vida privada. Neste sentido, discutirá a poesia e a ação política, o tecnicismo e o hermetismo.

Em Da praça pública à mansarda, Carlos Felipe continua a discussão do impacto político e da importância do poeta nas sociedades antigas e atuais.

No último capítulo, A hora da poesia, o autor continua defendendo não as respostas, mas as perguntas. Pois é preciso continuar escrevendo, lendo e falando poesia, e se perguntando para que ela serve e qual é a função do poeta em um mundo globalizado, onde cada vez mais o discurso em defesa apenas de funções técnicas servis a um mundo empresarial e globalizado ganha adeptos. Um discurso que nos aproxima das máquinas e nos distancia da nossa humanidade.


“Que papel representa para nós, hoje, essa milenar atividade humana, que continuamos a chamar “poesia”? Que espécie de realidade entrevemos ou julgamos entrever num poema, quando dele nos acercamos para ouvir a voz do poeta? Que relações mantém entre si a realidade “poética” e a “outra”, esta a que todos estamos presos, antes e depois, ou para aquém e para além do nosso contato com a poesia?
Tais são, em sua formulação mais singela, as questões que pretendemos investigar. Por várias razões, entre as quais não conta pouco a mescla de cautela e ceticismo que deve mover todo empenho ensaístico, proponho que nossa atenção se concentre, o mais demoradamente possível, nas perguntas atrás apenas esboçadas, para só então arriscar uma possível resposta. O único propósito que nos move é o misto de curiosidade e perplexidade sugerido na abertura. Por isso, convém insistir na reiterada ruminação da dúvida, sem pressa de chegar a qualquer resultado. Nesta nossa era de urgência global, que não tem tempo a perder e nos incita à corrida desenfreada no encalço de mais produção, mais qualidade e eficiência (ou seria eficácia?), proponho que nosso esforço adote de modo deliberado o ritmo contrário, o ritmo pausado e moroso de quem não tem convicções definidas a respeito do que seja “ganhar” ou “perder” em matéria de tempo; o ritmo, em suma, de quem dispusesse de todo o tempo do mundo para dedica-lo à questão da surpreendente sobrevida da poesia.”
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Poesia & Utopia, sobre a função da poesia e do poeta
Carlos Felipe Moisés
Ensaio
Ed. Escrituras
2007


sábado, 20 de abril de 2019

Torto Arado, de Itamar Vieira Junior




Por Adriane Garcia


Torto arado, romance de Itamar Vieira Junior, ganhador do Prêmio Leya 2018, é uma narrativa envolvente, efetuada em várias vozes, todas elas femininas. A força do romance se confunde com a própria força da mulher, que protagoniza o livro e o mundo descrito.

O cenário escolhido é árido: Brasil, Chapada Diamantina, Bahia – o mundo rural, o sertão e a seca. O tempo é de latifúndio: alguns anos após a abolição oficial da escravatura, encostando no hoje, aqui, agora mesmo. Já no primeiro capítulo, as duas heroínas aparecem: Bibiana e Belonísia, crianças adorando um objeto proibido e cortante. É de corte o Torto arado de Itamar Vieira Junior, é das vidas sob e sobre a lâmina que ele nos contará.

A comunidade em que a história se desenvolve é a Fazenda de Água Negra, um dos lugares onde negros e índios sem qualquer propriedade ou trabalho iam “pedir morada”. Em troca do lugar para ficar, deveriam trabalhar nas terras do fazendeiro (senhor), podendo cultivar pequena horta para subsistência no tempo que sobrasse para si. Os trabalhos para o senhor envolvem de lavoura a serviços de construção, sendo que obediência e gratidão ficam implícitos no contrato tácito (qualquer semelhança com sistema feudal e escravismo não é mera coincidência). Outros produtos poderiam ser comprados do próprio armazém do fazendeiro, a preços exorbitantes. Tal dinâmica circular, obviamente, mostra o autor, impede qualquer mobilidade social. Uma condição interessante imposta pelo fazendeiro, que Torto arado frisa, é a de que os moradores estabeleçam casa de barro e jamais de alvenaria, para que não se pudesse calcular o tempo de permanência e evitar, assim, a posse da terra por meio de usucapião, por exemplo.

Neste contexto, as famílias que ali se desenvolvem, trazendo seus conhecimentos e tradições de outros lugares, e criando outros a partir da vivência na nova terra, movimentam-se em torno de suas culturas muito particulares. No caso da Chapada Diamantina, representados nos personagens de Itamar Vieira Junior, os moradores exercitam e fortalecem sua identidade nos ritos do Jarê, religião de matriz africana (bantu e nagô) que junta elementos das culturas portuguesa, negra e indígena, mesclando santos católicos, orixás e caboclos. O líder espiritual no Jarê incorpora os Encantados, que falam ao grupo.  O Jarê mantém a comunidade unida, agrega pela fé e pelas festas, fornece a esperança para resolver o mal pelo pedido da graça e fortalece em seus cultos os laços com a natureza, a terra e as árvores.

As protagonistas Bibiana e Belonísia não só encarnam a dimensão da tragédia (que envolve miséria, sexismo, misoginia, exploração, violência) como também a dimensão da mudança. É por Bibiana e Belonísia, trazendo a força de Donana, a avó – que certamente trazia outra força-mulher atrás de si - que a narrativa evolui. Outros elementos como tradição e permanência ficam bem representados no pai, Zeca Chapéu Grande, o líder espiritual de Água Negra, um homem que apazigua os conflitos e intermedia os problemas entre os moradores e os proprietários. Ainda assim, é Zeca Chapéu Grande que, em um lance de grande esperteza, reivindicará, pela primeira vez, educação formal aos filhos dos trabalhadores.

A falta de educação formal em Água Negra é outro ponto crucial no romance. Há dois tipos de comportamento destacados em Torto arado: um conformado, já que o destino dos trabalhadores é dado pelo senhor; o destino é nascer, trabalhar, morrer. Esse comportamento não é questionado até que o primo Severo e a esposa retornem à Água Negra, agora munidos de estudo formal e da crítica sobre a própria realidade. Ao voltarem com a palavra, ao produzirem as palavras que mostram aos moradores sua verdadeira ancestralidade e direito à terra (que sem o trabalho não significa nada), uma força desponta, um segundo comportamento. Não que, antes, não houvesse consciência da exploração, essa consciência o homem rural tem e sente todos os dias, na carne; o que não havia era a transformação dessa consciência em ato político, o que nos faz lembrar Darcy Ribeiro (que adoraria o livro de Itamar): “ A crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto.”

A narrativa de Torto arado se estende por toda a história do Brasil, para trás e para a frente do tempo de seus personagens. Com um recorte de algumas gerações, Itamar Vieira Junior denuncia cinco séculos de ocupação fundiária irregular. Esta ocupação, feita não pelo direito, mas pela força, desenvolveu formas como a grilagem, quando o próprio Estado se torna cúmplice da fraude, tendo ele mesmo se formado sobre ela, pois não é possível que alguém tenha dúvidas verdadeiras sobre a quem pertencem as terras ocupadas pelos índios ou pelos quilombolas. Os conflitos no campo levam o Brasil a ser um dos países que mais mata ativistas no mundo, segundo dados da ONU e noticiários de nossas manhãs.

O conflito agrário envolve milícias, genocídio, assassinato, jagunços e muito sangue derramado. Aqueles que, como no romance de Itamar Vieira Junior, desenvolveram uma ligação com a terra, que se confunde com a própria vida, não têm condição de se retirar dela sem se esfacelar. Este processo, muito bem estudado e descrito noutro livro, Mundo encaixado (ed. Mazza), de Edimilson de Almeida Pereira e Núbia Pereira Gomes, leva o homem do campo a perder completamente a sua identidade e é uma das faces mais violentas da injustiça social, que transfere o homem do campo para as favelas dos grandes centros urbanos.

O romance Torto arado contribui de várias maneiras para a literatura brasileira e a reflexão sobre história e racismo. Ao trazer para suas páginas o protagonismo negro – e mais: o protagonismo da mulher negra, lidar com personagens que representam os “vencidos”, centrar o conflito na condição primeira destes personagens: herdeiros da escravidão, Itamar Vieira Junior fornece ao leitor uma imagética menos comum, já que nossa formação literária poucas vezes nos ofereceu as histórias cujo protagonismo e centralidade faziam jus ao fato de que a população negra é a maioria no país. Ainda assim, os produtos culturais agem como se o comum fosse sair e ver gente muito branca, masculina e burguesa nas ruas. Daí a grande importância de trazer à tona livros como este, como os de Lima Barreto, Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Carolina Maria de Jesus e outras e outros escritores que tratam de temáticas e personagens oriundos da triste e injusta herança escravagista.

Tensão e dramaticidade acompanham todo o livro. Itamar Vieira Junior mantém os segredos e mistérios que povoam a narrativa até o limite, de maneira que o leitor leva seu interesse sem pausa. Sua atenção às nuances mínimas que regem as emoções nos convívios deixa claro o quanto é observador de seus próprios personagens, tão bem construídos que se tornam conhecidos do leitor. Ninguém esquece Bibiana, Belonísia, Donana, Salu, Severo, Sutério, Tobias, Santa Rita Pescadeira. Nem mesmo detalhes das mãos de Donana, parteira, “mãe de pegação”, o leitor se esquecerá: “Eram mãos pequenas, de unhas aparadas, como deveria ser a mão de uma parteira, dona Tonha dizia. Pequenas, capazes de entrar no ventre de uma mulher para virar com destreza uma criança atravessada, mal encaixada, crianças com os movimentos errados para nascer. Ela faria os partos das trabalhadoras da fazenda até poucos dias antes de sua morte.”

Torto arado retrata com tanta verossimilhança a comunidade de Água Negra, que a impressão do leitor é a de já ter pisado lá. O autor não trata este lugar ou estas pessoas com idealizações. Naquela comunidade negra, de família estendida, de laços solidários e fraternos (pois é a solidariedade que salva o pobre), também ocorrem brigas, fofocas, sexismo, assédio sexual, dominação mesmo entre os fracos sobre os ainda mais fracos (supostamente), alcoolismo, violência doméstica. Se o homem negro sofre, a mulher negra sofre triplamente. A seca, a falta de recursos e opções, a grande mortalidade infantil, mostram o quanto estas pessoas são obrigadas a se adaptar ao inóspito, demonstrando gigante resistência, mas uma resistência que não deveria ser exigida de ninguém.

O sexo surge como um chamado da reprodução, força enorme da vida que quer se perpetuar e que, quanto pior for o ambiente, mais precisa se tornar fértil. A mulher, mais uma vez, matriz da vida, também aparece como ordenadora do mundo, o que fica bem explicitado no capítulo em que é descrito o barraco de Tobias: um mundo caótico à espera de uma mulher para ordená-lo e depois ser maltratada; uma cena que simboliza a coisificação da mulher, um objeto que é passado do pai para o marido e que torna os casamentos um excelente negócio para os homens.

Torto arado é um livro rico, complexo, que carrega a vantagem dos grandes romances escritos em linguagem comunicável, simples, mas jamais simplista: pode ser lido pelo leitor comum e pelos leitores mais experimentados, pode agradar jovens e adultos. Em primeiro plano se está lendo uma boa e intrigante história, que é também sobre amor, amizade e superação; em  segundo, se está vendo de outra forma o que se pensava ter visto; em terceiro plano, se está ligando aquilo que lê a uma realidade maior, ali questionada. Ao ter um tratamento tão sensível, há uma grande eficiência em despertar a empatia. O livro é cheio de beleza e contundência nas imagens, emocionantes passagens, triste e terrível, concilia bem a dureza da luta com a existência da esperança e mostra a dignidade daqueles que trabalham a terra e sabem que essa é a sua dignidade.

Os expedientes do poder sofrem pequenas metamorfoses, como transformar capitães do mato em policiais, feitores em capatazes de fazendas, para matar os divergentes, os insurgentes, os que proliferam as ideias de justiça e, por fim, não só prender ou matar o revolucionário, mas também manchar e matar a sua reputação. Contra o discurso que precisa acompanhar toda violência para legitimá-la só caberá outro discurso. É a força da oralidade que pode ajudar a comunidade de Água Negra, aliada aos novos saberes formais. É na linguagem que a consciência amadurece. Torto arado parte da metáfora da mudez para falar pelos que foram silenciados.

Necessário e imperdível.


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Torto Arado
Itamar Vieira Junior
Romance
Editora Leya
2019
Disponível em e-book pela Amazon
Em breve livro físico no Brasil