sábado, 22 de fevereiro de 2020

Eu, de Augusto dos Anjos




“O coração do poeta é um hospital
Onde morreram todos os doentes.”

Por Adriane Garcia

Delícia que foi voltar a este Eu, de Augusto dos Anjos, depois de três décadas. Poder sorvê-lo muito melhor que quando jovem, com mais maturidade para compreender temas e forma.

Seus versos, tão meticulosamente trabalhados e cheios de musicalidade, falam da precariedade humana, da efemeridade da matéria. Há um entendimento panteísta do universo, uma integração de tudo, na dança cósmica em que se insere a vida e que inclui, por necessário, a morte: uma obsessão em seus versos.

Augusto dos Anjos traz um pessimismo elevado em sua poesia. A morte e a finitude fazem com que a vida humana não encontre sentido. A saída, afirmada em sua obra, é a memória e a arte; de resto, tudo vai parar no festim dos vermes:

Budismo moderno

Tome, Dr., esta tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esboa
Ao contato de bronca destra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!

O poeta destaca em sua poesia a força dos instintos, a característica animalesca do ser humano na luta ingrata para vencer sua natureza. É uma poesia impregnada de filosofia. Estudioso e erudito, trouxe para seus versos termos oriundos de diversas ciências, com destaque para a Biologia. Deixou o legado do antilirismo e da antipoesia de maneira original, ampliando as possibilidades do gênero e inovando a linguagem poética. Eu foi seu único livro publicado em vida, em 1912. Identificado como pré-modernista na História da Literatura Brasileira, Augusto dos Anjos foi um criador singular.


Soneto

Ao meu primeiro filho nascido morto
 com sete meses incompletos
2 fevereiro 1911

Agregado infeliz de sangue e cal,
Fruto rubro de carne agonizante,
Filho da grande força fecundante
De minha brônzea trama neuronial,

Que poder embriológico fatal
Destruiu, com a sinergia de um gigante,
Em tua morfogênese de infante
A minha morfogênese ancestral?!

Porção de minha plásmica substância,
Em que lugar irás passar a infância,
Tragicamente anônimo, a feder?!...

Ah! Possas tu dormir feto esquecido,
Panteisticamente dissolvido
Na noumenalidade do NÃO SER!


Debaixo do tamarindo

No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos!

Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flora Brasileira,
E a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!


***

Eu
Augusto dos Anjos
Poesia
Edição Círculo do Livro


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Terno novo, de André Luiz Pinto





Por Adriane Garcia


O livro Terno novo, de André Luiz Pinto, se apresenta, já no projeto gráfico, sóbrio. Um livro vestido de terno (não um terno velho, mas um terno novo), que poderia ser soturno, preto, marrom, cinza, mas é discretamente verde. A capa (edição da 7 Letras) traduz bem a ambiguidade da palavra terno, termo bem escolhido pelo poeta para compor não só o título, mas para acolher parte das reflexões feitas em seus poemas. Terno, palavra que pode pertencer à classe dos substantivos, dos numerais, ou dos adjetivos.


Os dilemas que atravessam essa coletânea podem ser abarcados pelos sentidos vários de um simples vocábulo dissílabo. Terno, na mão de um hábil poeta, se torna uma palavra que é um pequeno poema de si própria.


Assim, é o eu-lírico que se confessa terno, afetuoso e precisado de afeto, o eu-lírico não só capaz da ternura, mas sensível a ponto de saber que para a poesia “Um mínimo de lastro de vento é o ponto de partida”. Não se trata simplesmente de um terno: trata-se de um terno novo. Uma nova tentativa, ou uma nova reincidência.


Reconheça
tudo é só afeto
até porque
detrás da coxia
dezenas de famigerados seres
relutam em dizer
toda uma manhã que nasce.
Toda uma manhã – durante a noite.”




Terno é também palavra para dizer da frustração da vida, da inadequação de viver sob um sistema econômico e político onde não há espaço para a ternura. O poeta vê uma coisa no lugar de outra, sabe que “Viver é sempre um delírio”, e mesmo aceitando jogar o jogo, tem dificuldade de se vestir como manda o figurino. O acerto de três números, casas ou pontos em certos jogos leva o participante a acertar algo, mas a não alcançar algo maior. Nem a quadra, nem a quina. Terno é o quase. É uma espécie de prêmio de consolação. Em Terno novo, André Luiz Pinto expõe a angústia de não se poder viver plenamente nem a poesia, nem a continuidade dos sonhos de juventude, quando “minha vida já teve um destino maior”. E o terno novo se torna a materialização desse prêmio que se ganhou pela metade.


Fim das contas – ou para pagar as contas –, o poeta veste a roupa de três peças: paletó, colete, calças. E como claustrofobia pouca é bobagem, acrescenta-se uma gravata. O poeta não é mais poeta, ou o é apenas do lado de dentro, discretamente verde. Quem olha de fora, vê o homem crescido, cooptado. Internamente, insubordinado, ele continua a se perguntar a inútil e bela questão: De onde vem a poesia? Como apreender o efêmero? O que acontece no espírito para despertá-la? Sabendo que o próprio surgimento do poema é um mistério e que o artefato da poesia só vai se realizar se ele mesmo (o poema) o quiser, em contraponto com a sociedade tecnocrata de padrões, metas, ordens e manuais de instrução para se construir a infelicidade.


A poesia entra em constante conflito com as normas sociais e o poeta não pode fugir deste pensamento que renitentemente assoma à lucidez: Nada disso vale/ a pena: moedas, salário/o bárbaro e o convívio.” Toda a poesia é incerteza e o eu-lírico de Terno novo pensa a condição humana, recusa-se, por suposto conforto, a abraçar falsos deuses. Declara “Não trago fé alguma”, exceto essa: “é preciso ter a fé de que nada vai dar certo/ para escrevermos”.


Então, com essa fé, escreve, e seus temas vão desde a procura do verso até as questões dos relacionamentos, da crítica social, das despedidas, da morte. No poema Em família, fala de um neto fora da árvore genealógica, acolhido pela ternura. No velório da avó, se vê rechaçado pela família biológica como se não pertencesse àquele lugar:


Agora veio Cláudia
em púlpito
querendo convencer
que os netos não compareceram?
Que neto não compareceu?
Sequer tinham ideia sobre quem era.
Vou lhes contar:
Leda adorava pôr panos quentes
no batente da casa, no podre
das famílias, debatíamos
sobre isso
até porque
(deu pra notar)
dou
a mínima.


Terno novo é um livro muito bonito, cuja leitura nos chama sempre um pouco mais. Traz uma poesia tecnicamente trabalhada, versos limpos, uma exatidão por não conter supérfluos – e uma expressão clara, sem hermetismos. Mas há ainda aquele algo que é o que realmente nos faz gostar de poesia. Aquele algo que está nos silêncios, na maneira secreta com que os versos se ditaram. Esse algo é intraduzível.


Paul Valéry afirmava que “O poder do verso é consequência de uma harmonia indefinível entre o que ele diz e o que ele é”. W. H. Auden, sobre a afirmação de Valéry completava dizendo que “a impossibilidade de definir a relação juntamente com a impossibilidade de negá-la, constitui a essência da frase poética”. A poesia de André Luiz Pinto tem essa harmonia.


RETORNO


Olhe a tua volta: as raízes
das árvores foram arrancadas
até não sobrar nada.
Nem o silêncio que tilintava
das folhas, na laguna de uma poça
a fauna microscópica não sobrou.
Olhe a tua volta. Silêncio
do rumorejo das águas a preamar.
Olhe ao redor: tudo explode
no mesmo lugar, não há razão
para certezas, o mundo está em greve.
Olhe mais um pouco, contemple
o relicário de um ovo, nunca pergunte
haverá misericórdia? Olhe, peço de novo
aquele ovo, a brisa te envenena
acariciando os cabelos. Olhe na hora
do martírio as contorções do corpo.
Olhe bem de perto, você aguenta.


(p. 14)




***
Terno novo
André Luiz Pinto
Poesia
Ed. 7 Letras
2012

Sorte, de Nara Vidal




Por Adriane Garcia


A história das mulheres é também uma história da violência. No romance Sorte, de Nara Vidal, cuja ação se passa na primeira metade do século XIX, não importa se a mulher está na Irlanda ou no Brasil. Não à toa, na epígrafe do livro, a autora nos brinda com um trecho escrito por ninguém menos que Paulo, o apóstolo que nunca conheceu Cristo e que após sua fase sincera, aquela em que perseguia cristãos primitivos, invadia suas casas e os prendia, virou pastor:  Quanto às mulheres, que elas tenham roupas decentes, se enfeitem com pudor e modéstia. (...) Durante a instrução, a mulher conserve o silêncio, com toda submissão. Não permito que a mulher ensine, ou domine o homem”. Lembra um outro pastor, dono de emissora de TV que, recentemente, exortou os fiéis a não deixarem suas filhas completarem mais que o Ensino Médio.
Certamente o cristianismo de Cristo seria outro, mas o de Paulo é o que temos para hoje. Prossigamos com a resenha:

A narrativa de Sorte acompanha uma família que vive de forma miserável, na Irlanda, em 1806: um pai católico fervoroso e extremamente autoritário, uma esposa submetida e filhas humilhadas, “repreendidas ao menor sinal de alegria”. O pai se considera um homem sem sorte por ter apenas mulheres, motivo pelo qual, mesmo passando necessidades, continua tentando fazer um filho. A miséria e o nascimento de tantas meninas sendo justificados como castigo divino: “O pai fazia filhos na mãe até uma hora sair dela um homem”. Em plena Guerra Napoleônica pela Europa, o pai desejava qualquer acontecimento, nem que fosse os conflitos chegarem ao seu país. Enquanto isso, a mãe tentava driblar o eterno cinza dos dias com cortinas de pano enfeitando as portas.

O livro possui três partes, sendo que as duas primeiras, Início e Meio, são narradas por uma das filhas, Margareth. Já o Final, tem um narrador anônimo, cujo ritmo difere em muito da primeira narradora. Enquanto as duas primeiras partes trazem uma história mais preocupada em narrar os fatos ocorridos, segundo a percepção da principal envolvida, Margareth, de forma mais realista e detalhada, a última parte é narrada com elementos que se aproximam do lendário; com a pressa e a falta de explicações das lendas, a aproximação com o maravilhoso, ou seja, a história de Margareth e as consequências desta história se tornaram a história contada pelo povo e recolhida por alguém: ganhou as marcas da oralidade.

Já na primeira parte, dois acontecimentos agravam ainda mais a vida das personagens centrais, um com relação à saúde do pai – o que o torna ainda mais opressor – , outro com relação à viagem que a família terá que empreender ao Brasil (1827), uma terra que, no imaginário da gente irlandesa, era uma ilha movediça que aparecia e desaparecia de sete em sete anos, engolindo seus visitantes e deixando sua descendência marcada para sempre, sob uma maldição.

Sorte, é um livro sobre mulheres que aprendem a amar os homens que estão disponíveis, os piores homens, os machistas que as oprimem e violentam. Homens que regulam e aviltam, com todas as armas que o poder lhes dá, a vida, a conduta e os sonhos das mulheres, enquanto cometem seus adultérios, estupros e falsificam a própria moral.

Nara Vidal traz a questão da opressão exercida pelo patriarcado, esse mal no mundo que basta um olhar ao redor para concluir que não deu certo; também recria um dos retratos da imigração no país. Nesse sentido, Sorte soma aos seus temas os deslocamentos migratórios a que grandes populações humanas têm que fazer esperando condições melhores, tantas vezes sem alcançá-las. Se a viagem dos irlandeses relatada em Sorte já foi tão precária, o livro leva-nos de imediato a comparar com a viagem daqueles – os africanos – que sequer podiam trazer uma mala ou mesmo seus nomes.

No Brasil, Margareth conhecerá Mariava, a escravizada de dentro, continuamente estuprada e abusada pelo senhor e senhora da chácara onde vivem (fato comum e corriqueiro no Brasil-Colônia, no Brasil-Império, depois continuado na República com as empregadas domésticas). A amizade – talvez comunhão – dessas duas mulheres, uma ruiva e uma negra, será parte importantíssima da trama que se desenvolverá envolvendo maternidade, abandono, Casas de Misericórdia e afins, instituições que recebiam donativos da elite para que religiosas e religiosos cuidassem dos enjeitados e, em Sorte, para cometer atrocidades.

A forma como esses elementos se cruzam constroem em Sorte um livro impactante, de ficção e denúncia, sobre dores femininas muito silenciadas. As histórias de seus personagens nos lembram, infelizmente, tempo e espaço tão conhecido, deste “lugar enfeitiçado, sem passado, sem futuro, de mentira que continua se chamando Brasil”.

Lembro-me de ter passado a noite às claras. A Mariava com compressas pelo meu corpo humilhado em cada pedaço. Minha preta sabia como secar feridas. Fazia isso todos os dias nela, na Dolores, no irmão, nos pretinhos que escapuliam da quinta pra ver o horizonte além da goiabeira.
– O dia que eu não sinto cheiro de sangue, de machucado, eu acho que morri. Sei que a vida segue nos conformes porque vivo com sangue e pus espirrados na bata.
Daniel dormia no mesmo quarto do James. Ouvia da minha cama o ronco daqueles dois porcos. Malditos sejam. Só espero que nunca tenham filhos. Pensei na mãe que insistiu até o fim com o seu olhar de afeto para que pairasse a bondade dentro da gente. Mas era muita violência, violação, muito sacrifício.
O amor desistiu da nossa casa e fazia muito tempo.”
(p. 40)

***

Sorte
Nara Vidal
Romance
Ed. Moinhos
2019

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Estados alucinatórios, de Eduardo Sabino



Por Adriane Garcia



Há momentos em que a linguagem é convocada a dizer de outra maneira que não a usual, cotidiana ou direta. Momentos em que, parece, um mesmo idioma se torna ininteligível, pois as mesmas palavras já soam esvaziadas ou até mesmo antagônicas, a depender do ouvinte. Nestes momentos, surgem tentativas de usá-las de outros modos e é notável que a resposta venha da capacidade das palavras de romper com a realidade a fim de adentrar no nonsense, no fantástico para, estendendo os seus sentidos, voltar a falar da realidade. Não por coincidência, José J. Veiga escreveu A hora dos ruminantes durante a ditadura militar no Brasil (1966) e Eduardo Sabino escreveu Estados alucinatórios entre o Golpe de 2016 e o governo Jair Bolsonaro.

Estados alucinatórios é um livro que reúne onze contos, cujos personagens ultrapassam a fronteira que separa sonho de realidade, racionalidade de alucinação, sanidade de loucura. E é justamente ultrapassar esses limites que permite que as leitoras e os leitores compreendam as alegorias e retornem para pensar o momento presente.

Em Samuel e Samael, o adolescente descobre que tem o demônio no corpo. Não qualquer demônio, mas aquele tão encantador que fez com que Lilith desistisse de vez de Adão e fosse morar com Samael. A relação conflituosa de Samuel com seu demônio finaliza-se de um modo emocionante, que faz pensar sobre o sentido da vida, a poesia e a energia vital que a cultura de adultos quer nos obrigar a perder.

Alimentando Junior, dentro de um livro de contos ótimos, é talvez o de maior excelência. Nesta narrativa, de condução exemplar, um homem, em seu narcisismo, resolve adotar um filhote de crocodilo sem a menor preocupação sobre o que isso pode significar no futuro. Mais do que a verossimilhança, totalmente alcançável no conto, o que chama atenção aqui é que os recursos estilísticos e a imaginação do autor funcionam de forma perfeita para gerar a alegoria pretendida.

Em Blattaria (ordem à qual pertencem as baratas), um homem deixa uma situação doméstica chegar ao insustentável até lhe custar caríssimo. É interessante que Sabino use justamente o recurso da alucinação para chamar à razão: não a do homem de Blattaria – um caso em que a paixão ultrapassou todos os limites; mas a razão dos que ainda a possuem.

Em Um sonho chinês há aquela suspeita por todos nós alguma vez aventada: somos parte do sonho de alguém? Existimos apenas enquanto imaginação de outro? Qual dos portais é real: o que frequentamos enquanto dormimos ou aquele no qual nos vemos acordados?

Pessoa física é alegoria pura. A metáfora triste e abissal em que se vai tornando um mundo onde as grandes empresas, corporações e bancos substituem os Estados e, pior, as próprias pessoas. Um conto sobre a solidão, a perda da identidade e a objetificação humana.

Em O abraço da serpenteSabino nos dá, ao avesso, o mundo da pós-verdade. Não o da mentira (que ainda é um braço da verdade, pois em oposição a ela, em relação), mas o das novas verdades, das fakenews, da abundância de novas versões sem qualquer lastro com os fatos, afinal, os fatos não importam mais, o importante é que o sujeito se torne impermeável a tudo o que o contradiz.

Se o fantástico usa muitas vezes das crendices, superstições e misticismo de uma comunidade na elaboração das histórias, Sabino nos traz em Ofertório as doutrinas e dogmas do Cristianismo com o mesmo peso dessas superstições e misticismos.

Em Ofertório temos um padre cuja retórica e má-fé se confundem com a de um pastor evangélico. E não importa a denominação se, no fim das contas, as ovelhas sempre se afogarão no naufrágio. Se houver a expectativa de presenciar algo, a mente se prepara para presenciar. As alucinações coletivas sensoriais podem ser induzidas por sugestão e isso os pastores, padres e afins conhecem muito bem.

No conto A natureza suína, o recurso da inversão nos rende boas risadas. Sabino cria uma família de porcos falantes, à moda das fábulas, e se aproveita da ambiguidade da palavra “porco/porca”. Um conto sobre gente de bem, sobre parte das famílias brasileiras.

Em Deu pau, a obsessão fálica fica exposta. Obsessão essa que não poderia deixar de integrar e promover a cultura do machismo e, por consequência lógica, a cultura do estupro. Aqui, a alucinação é a própria realidade: só em 2018, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o país registrou 180 estupros por dia.

Em Pérolas aos demos, retorna-se a um tema tratado em Samuel e Samael: talvez os demônios queiram de nós nossa melhor parte ou, talvez, a poesia só interesse aos demônios.

No último conto, Alice e as barragensSabino denuncia a situação ambiental por que passa o estado de Minas Gerais, vítima de crimes ambientais, cujos criminosos parecem inimputáveis. Ao mesmo tempo, a correlação é feita com o estado emocional de Alice, uma mulher à beira de estourar. Alice é a metáfora daquilo que, chegando ao limite, dá sinais claros de transbordamento e pede urgência de resolução, mas não resolve.

Todos os contos trazem elementos utilizados na literatura fantástica, nas fábulas (os animais-arquétipos), no maravilhoso dos contos de fadas, na lógica do absurdo. As situações inusitadas, as ironias e hipérboles fazem com que o livro tenha muito humor e alguns contos, como Alimentando Junior ou A natureza suína, por exemplo, rendem muitas risadas ao leitor. A crítica social perpassa todas as histórias, uma atenção para os arranjos ditatoriais, a gestação do ovo da serpente, ou do crocodilo – uma alegoria do fascismo.

A alucinação é também um recurso da tentativa da consciência em produzir um mundo que faça sentido, mas não é um recurso seguro. A humanidade tem um histórico assustador de alucinações coletivas que costumam fazer mortandades incríveis. É preciso achar um sentido para o mundo antes que a alucinação o faça e isso parece se chocar com o sistema econômico e político no qual vivemos. O título Estados alucinatórios engloba perfeitamente os contos reunidos. Não só os personagens estão em plena alucinação: o mundo está alucinado. O país está alucinado. A realidade está em plena alucinação. A literatura, mais uma vez, não se omite.


Eu contornava a orla da Lagoa da Pampulha, saindo do trabalho, quando o encontrei. Surgiu por entre as capivaras que tomavam sol à margem, pequeno e inofensivo feito um cão abandonado: um filhote de crocodilo. Até então não julgava que isso ocorresse assim tão facilmente, a paixão entre um homem e um animal selvagem tão exótico, mas aconteceu. Um sentimento oceânico, assim, de repente, no meio de uma cidade tropical e serrana onde espécies como aquela não deveriam sequer existir, nas proximidades do zoológico de onde talvez ele tivesse fugido. Estacionei o carro às pressas, caminhei devagar para não afugentar e agachei a três metros do bebê: ele também deve ter sentido o mesmo, pois veio até mim, e peguei-o no colo.” (p. 33, do conto Alimentando Junior)

*** 
Estados Alucinatórios
Eduardo Sabino
Contos
Ed. Caos e Letras 
2019


Ombros caídos olhando para o inferno, de Constança Guimarães





Por Adriane Garcia


Guta, Dora, Ana, Fátima, Suzane, Sílvia: mulheres nas quais é possível ver uma multidão de outras mulheres, atravessando o tempo (sem plural, pois é um só o tempo da violência). O delegado: um homem que representa a misoginia, o machismo e os ciclos sem interrupção da cultura do estupro. Ombros caídos olhando para o inferno, romance de Constança Guimarães, narra em terceira pessoa, mas por uma voz narrativa claramente comprometida em falar pelas silenciadas, a vida de mulheres que têm suas histórias e seus corpos marcados pelo jugo masculino.

É interessante notar que o algoz, o delegado, não tem nome, que seu nome seja o título de sua profissão, uma profissão ligada ao poder e, muitas vezes, ao abuso de autoridade. Ao chamar o personagem de delegado, Constança dá a ele uma dimensão metafórica e coletiva; afinal, sabemos, o nome do delegado é Legião.

O romance se utiliza de uma estrutura fragmentada, cada momento apresentando a história de uma personagem. O recurso funciona bem, inclusive por deslocar o protagonismo de uma personagem para outra, além de gerar curiosidade e suspense durante a leitura.

Também é de se notar que a voz narradora assume certas características do processo de memória das personagens. No início da narrativa, é possível perceber a tentativa consciente de Guta não se lembrar de nada, de parar qualquer processo que possa levar à memória de seu passado tão doloroso. Porém, sendo inútil esforço, um simples objeto pode desencadear o caleidoscópio de lembranças. A voz narradora também parte desse desencadeamento, usando a força que certos eventos possuem como motor para narrar. Em outro exemplo, Dora sempre se enoja da aparência física do delegado, pois lembrar-se dele é lembrar-se de seus aspectos repugnantes e sentir novamente o nojo; os mesmos detalhes são repetidos pela voz narradora.

A violência do delegado sobre as mulheres de Ombros caídos olhando para o inferno não decorre do fato de ele ser um monstro. Constança Guimarães fala de um homem normal, bem adaptado, escolarizado, branco, que conseguiu emprego, posição, família. Não é uma exceção, e sim um representante de muitos homens em condição semelhante. O que permite ao delegado fazer o que faz – e isso a escritora Micheliny Verunschk analisa com lucidez na orelha do livro – é a naturalização da violência do homem sobre a mulher, é a naturalização do patriarcado a ponto de ser introjetado e não suscitar questionamentos. Os abusos e crimes cometidos pelo delegado parecem a ordem natural das coisas, quando são a ordem cultural das coisas. Ângela Davis em seu Mulheres, raça e classe alerta para esse tipo de estuprador. Não o “estuprador típico” mostrado pelos telejornais para sustentar os mecanismos racistas do capitalismo, mas o “estuprador anônimo”:

... em primeiro lugar, por que existem tantos estupradores anônimos? Não seria esse anonimato um privilégio usufruído pelos homens cuja condição social os protege de processos judiciais?”

Dados do Ministério da Saúde, coletados entre 2011 e 2017, mostram que, no Brasil, a maioria das ocorrências de abuso sexual, tanto com crianças quanto com adolescentes, ocorre dentro de casa e os agressores são pessoas do convívio das vítimas, geralmente familiares.

Os prejuízos do patriarcado para a humanidade são incalculáveis, mulheres e crianças com depressão profunda, famílias disfuncionais, paternidades negadas, maternidades indesejadas, potências profissionais anuladas, infâncias violadas, feminicídios, mantendo metade da raça submetida à outra metade, utilizando para isso todos os mecanismos da violência física e psicológica. Um ciclo de infelicidade que não se restringe apenas às mulheres, volta-se contra a própria humanidade e impossibilita qualquer vida plena.

As mulheres em Ombros caídos olhando para o inferno apanham, apanham muito – e algumas delas são estupradas pelo homem de bem, pelo homem da família. Em uma sociedade que naturalizou a violência contra a mulher, ela muitas vezes não pede ajuda, não enxerga socorro possível a não ser o que pode ser executado com as próprias mãos. Constança Guimarães constrói um romance sobre o machismo e sobre a força das mulheres, sobreviventes de um mundo que as ameaça, todos os dias.

A vida adulta da Fátima menina começou a partir de uma aposta entre o escrivão e o delegado. O escrivão duvidou que o delegado fosse capaz de ter mais uma mulher na confusão de sua vida. E o delegado, rindo numa arrogância, disse que comeria todas as meninas de 17 anos que atravessassem a sua frente. Eles conversavam, fumavam e tomavam café em copos de vidro na entrada da delegacia, para fora da porta, num avarandado de muro baixo que circundava todo o térreo daquele sobrado antigo, até o começo do enorme pátio onde eram estacionadas as viaturas. Fátima passava na calçada, voltando do açougue, onde tinha ido comprar 350 gramas de acém para macarronada especial que a mãe ia fazer para o aniversário do Álvaro. O irmão adorava macarronada. O delegado e o escrivão se olharam e definiram o futuro da menina que queria fazer o curso de normalista, ser professora e ler muitos livros para seus alunos.
A paquera começou naquela tarde mesmo. O delegado interpelou Fátima, sob o pretexto de lhe dar instruções sobre como andar em segurança para não ser molestada pela rua. Ela agradeceu, ele jogou um charme, ela não soube o que dizer, ele a elogiou, a menina ficou sem graça e sorriu, ele não perdeu tempo e disse que aquele era o sorriso mais bonito que já havia visto em toda a sua vida. Fátima ficou cardíaca e seduzida, quando agradeceu já era um inseto voando em direção à teia, sem escape. “Comer menina educadinha é diferente. Essa aí eu vou preparar. Quero gamadinha, na minha mão”, dizia o delegado naquela noite, enquanto pegava suas coisas, chave do carro, carteira e arma, para ir para casa. O mundo para Fátima começava a se fechar em uma abóboda, que travou hermeticamente e, num súbito, ela se adaptou ao ar rarefeito, só décadas depois notaria as pedras nos pulmões ressentidos.”
(p. 159/160)


***
Ombros caídos olhando para o inferno
Constança Guimarães
Romance
Ed. Urutau
2017























quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Todos que conheço são suicidas, de Cristiano Silva Rato






Por Adriane Garcia


Certa vez, fui a uma apresentação de SLAM, em um evento que trazia vozes da periferia, e ouvi um poema que contava o cotidiano e a dor de uma filha cujo pai era um presidiário. A menina trazia uma dor real, não era ali o “fingidor” de Pessoa. Era a pessoa, a própria.

Lugar de fala” é um conceito que tem causado bastante irritação e revolta, sobretudo para aqueles que detinham a palavra com exclusividade e agora se veem dividindo espaços e, vez em quando, até cachê.  Pessoas que, por exemplo, brancas, sempre se arrogaram o direito de dizer o que é ser negro no Brasil, como verdade absoluta, e agora se veem contestadas pelas – que audácia – pessoas negras (!).

Lugar de fala” também é um conceito enriquecedor para os que têm ouvidos para ouvir, e ouvem. Aqueles que foram silenciados e tiveram seus pontos de vista emulados por outros são – até por isso – os donos da novidade. Não novidade no sentido supérfluo e banal da palavra, mas novidade na sua raiz primeira: o novo (que é o velho oculto). Ouvir esses pontos de vista (lugar de escuta) acrescenta-nos o outro lado da moeda; afinal, o mundo branco, macho, hetero, patriarcal, cristão não é um mundo completo e essa versão já temos.

Em Todos que conheço são suicidas, Cristiano Silva Rato traz um livro cujos poemas são, em sua maioria, confessionais. Entre as dores dos fracassos amorosos, a voz de um eu-lírico que tem no seu cotidiano a familiaridade com os tiros, com a violência policial, com o Estado liberal ocultando na meritocracia o genocídio da população negra, com a morte prematura dos seus amigos e a angústia permanente de saber que pode ser o próximo. No título o poeta já dá a referência sobre os que, lançados à categoria de “cidadãos” de segunda classe, são induzidos ao autoextermínio.

De dentro da realidade dos locais (e do corpo negro) em que a lei é aplicada apenas para prosseguir no antigo projeto brasileiro de exterminar a população negra, a vida é de alta pressão (com alterações da pressão arterial e maior risco cardíaco, inclusive). No poema introdutório, toda a carga da denúncia e a explicitação do sentimento dessa vivência:

Sobre uma pergunta

Ainda não cortei os pulsos.
Você está bem?
Eu
ainda
não cortei.

O poeta usa, em poemas vários, versos inequívocos para demonstrar o estrago que o racismo faz no corpo negro, transformando-o numa espécie de campo minado: “e no peito/ um pino/ arrebento”; “um sentimento de desprezo por mim”; “em mim tudo está trincado”; “só um dia/sem nada temer”; “em nome do povo,/ pisoteiam meu corpo”; “Sinto um ódio profundo em mim”; “sem poesia, longe das vidas interrompidas”; “o amanhã chega,/ com a guilhotina enfileirada”; “aguarda o julgamento dos bancos./Dos brancos”.

Todos que conheço são suicidas traz um tom de “in memorian” e é dedicado àqueles que foram induzidos pela sociedade e pelo Estado a se matar. Mas também é ofertado aos que completam mais um ano de vida.

Ah! Por que querem que eu fale sobre o ódio?” Pergunta o poeta que deseja – como tantos o fazem – apenas “dizer coisas ridículas”. Porém, a luta de quem se manifesta deste lugar que Cristiano fala é outra.

Ainda assim, mesmo em guerra, um poeta sempre nos descortina o pôr do sol:

E quem acredita em poesia
se ela não possui
sua freguesia?

Bem, à tarde, os prédios
escondem o pôr do sol.


***
Todos que conheço são suicidas
Cristiano Silva Rato
Poesia
Ed. Caos e Letras
2019