terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Noite de São João, de Natália Agra

 


 


Por Adriane Garcia

 

O filósofo Gaston Bachelard nos diz que “o objeto nos designa mais do que o designamos.” Está com isso fazendo um alerta sobre a “imparcialidade científica”, mas, ao mesmo tempo, está afirmando a carga simbólica e subjetiva que os objetos que escolhemos para o nosso interesse trazem. Em A psicanálise do fogo, Bachelard elegeu o fogo um dos objetos mais dados a subjetividades que existem, daí a dificuldade que foi torná-lo objeto científico. O fogo é, por excelência, um objeto poético.

 

 

A poeta Natália Agra elegeu o fogo seu objeto central no livro Noite de São João.  Desse centro, irradiado (de calor e frio), o livro se expande em duas partes, Fogo-fátuo e Reminiscências, e trata de memória e dor, vida e morte, lembrança e esquecimento. A forma na qual o fogo vai se materializar, na fogueira de São João, traz em si o paradoxo e a antítese. Se as fogueiras de São João se fazem associar com festa (conceito muito bem ilustrado na capa – fotografia de David Carneiro) em Natália Agra também se associam com os mortos.

 

Noite de São João retrata uma espécie de obituário lírico. Um a um, os que se foram. A lembrança, fogo-fátuo, é demonstrada nos seus limites, fagulhas. O que são as reminiscências senão fragmentos? A poeta reclama a voz que não ouve mais, o timbre que se perdeu: “tentei tocar também a voz de minha avó e de meu avô (que morreram tanto tempo antes). não consegui.”

 

No uso de algumas palavras, por vezes recorrentes, a força dos substantivos metaforizados, usados em profundidade, nas suas funções simbólicas: fogo, pássaro, trovão, orvalho, flor, nevoeiro, fumaça. Uma poética que busca no olhar a sua linguagem, nos elementos da natureza a conotação. Utilizando a força dos sentimentos relacionados a perda, Natália Agra mede os versos com um rigor tal que poderíamos atribuir ao seu poema Rigor, que trabalha com a condição de rigor mortis, a classificação de um poema metalinguístico. O poema é o próprio rigor poético.

 

RIGOR

 

de uma só vez empilhar

cuidadosamente

todas as mãos frias

de uma só vez chorar

 

O sofrimento perante a morte dos entes amados é grande e demorado, o poema sugere o desejo de brevidade do sofrimento, abreviando o tempo entre uma morte e outra. O próprio poema é breve. O verbo empilhar é de uma violência atroz; não empilhamos os que amamos, nós os enterramos, ou cremamos, um a um. Mas é cuidadosamente – a poeta invade de amor o poema com um advérbio – como se deve empilhar bons versos. A constatação de que estão mortos, “todas as mãos frias”, traz ao poema uma carga emocional altíssima e, por fim, a síntese esperada da emoção, “de uma só vez chorar”, é a própria síntese alcançada que, certamente, chora todos os mortos de uma só vez em quatro versos.

 

No ato de lembrar os mortos instala-se uma nostalgia da infância, as reminiscências apontam para objetos como uma caixinha de música, que silencia o mundo, ou as flores cultivadas pela avó Amália, por sinal o nome de uma espécie de antúrio; sugerem calma e segurança antes que a morte, este elemento de ruptura veloz, viesse se fazer presente. No poema Pavana para minha irmã morta, isso se mostra claramente; a antítese entre o mundo representado por uma dança com regras, em que todos os passos são calculados e não há surpresas e o mundo do caleidoscópio, onde as vidas e os eventos se recombinam no imprevisível, sem qualquer controle. A leitura de Noite de São João pode fazer acordar uma pergunta infantil: para onde é que as pessoas vão depois que morrem? Para o assoalho da memória dos que ficam é uma resposta possível, e o limbo, palavra também recorrente neste livro é a representação desse assoalho, em que cabem tanto o reviver de um tio amigo quanto a lâmina que dá fim à vida, extingue a pulsação e encaminha a tragédia. As festas de São João, deste modo, se fazem “festas submersas”, o que nos leva ao elemento antípoda do fogo, a água, matéria primordial e uterina.

 

Diante da morte dos seres amados tudo se torna constatação do esquecimento e tentativa de lembrar. Carl Gustav Jung, em O homem e seus símbolos afirma que o ato de esquecer “é um processo normal, em que certos pensamentos conscientes perdem a sua energia específica devido a um desvio da nossa atenção. Quando o interesse se desloca, deixa em sombra as coisas com que anteriormente nos ocupávamos, exatamente como um holofote que, ao iluminar nova área, deixa uma outra mergulhada em escuridão. Isso é inevitável, pois a consciência só pode conservar iluminadas algumas imagens de cada vez e, mesmo assim, com flutuações nessa claridade. Os pensamentos e ideias esquecidos não deixaram de existir.” Noite de São João faz o esforço de procurar este lugar onde o que foi esquecido não deixou de existir e por isso seus poemas constatam que “o passado é uma casa abandonada de onde nunca conseguimos sair” e que essa casa (precário edifício da memória) está “cheia de fantasmas”, afinal, as coisas guardamos é em nós.

 

Quanto ao fogo, continuamos em Bachelard: “O fogo é, assim, um fenômeno privilegiado capaz de explicar tudo. Se tudo o que muda lentamente se explica pela vida, tudo o que muda velozmente se explica pelo fogo. O fogo é ultravivo. O fogo é íntimo e universal. Vive em nosso coração. Vive no céu. Sobe das profundezas da substância e se oferece como um amor. Torna a descer à matéria e se oculta, latente, contido como o ódio e a vingança. Dentre todos os fenômenos, é realmente o único capaz de receber tão nitidamente as duas valorizações contrárias: o bem e o mal.”

 

Em Noite de São João, o fogo revive e consome, empresta aos versos a qualidade do vermelho (chás de hibiscos, noites púrpuras),  sua eternidade não é a eternidade das pessoas, é tanto o crepitar das noites mais bonitas, que acenderam os dias, como o incêndio destruidor e a confusão. O fogo é o estalar da madeira queimando e também o silêncio ensurdecedor que habita o desaparecimento das pessoas. Natália Agra nos faz entrar nos quartos escuros das casas assombradas, os quartos que requerem claridade, luz, fogueira, fogo carregado de simbologias primitivas, tecnologia e mistério. Seus poemas deixam um rastro inteiro de amor: o fogo habitou – e pode arder – onde existe fumaça e cinzas.

 

 

EVOCAÇÃO

 

Para o tio Jonas que, assim como São Francisco, foi um grande protetor dos animais (in memoriam)

 

alguém

dizia: “pula a fogueira!”

no fim da tarde

fechava-se a ciranda

 

ainda respiro

aquele contorno cigano

como vapor na chaleira

 

espeto o milho na brasa

deixo que ardam nos olhos

os últimos anos felizes da família

mesmo que nunca sobrevivam à fumaça

 

sempre que retorno

encontro as janelas cobertas

o jardim vazio, as festas submersas

no esquecimento

de novo a criança soluça

o silêncio absoluto da navalha

 

 

***

Noite de São João

Natália Agra

Poesia

Ed. Corsário Satã

2020

Interiorana, de Nívea Sabino

 





“Eu gasto muito

é com passagem”

(Nívea Sabino, versos iniciais de Lírica de uma favelada,)

 

Por Adriane Garcia

 

O poema permite se dizer e se desdizer. Nívea Sabino, a poeta dos slams, que usa a palavra falada e escrita como arma para a luta e ferramenta para o encontro, escreve: “O inventor do lápis/ é bem mais meu amigo/ que o primeiro humano/ que testou a fala/ e dificultou o meu grito// Meu berro é no verso/ sou toda escrito”. Ela escreve, mas berra, e das duas formas realiza com potência sua poesia, que é toda contra o silenciamento daqueles que a sociedade torna mais vulneráveis. Nívea não só leva seu corpo e voz a serviço da poesia – e do humano – como registra que a escrita é um fator de transformação pessoal, “modificou-se o olhar/ viu a si como antes não vira”, que o olhar se aguça para os fatos (flagrar a finitude na cena do “vô” na cadeira de balanço, flagrar a violência policial (“quem pratica homicídio/é o Estado”) contra as pessoas negras como continuidade do processo de escravidão.

 

Sua poesia escancara a discriminação social, racial, de gênero, mas também fala da busca de um sentido existencial: o paradoxo da previsibilidade e da imprevisibilidade da vida, inexorável nas suas consequências, “Feto homem/ feto feito/ feito louco/ de repente”. É poesia que pensa a finitude por meio daquilo que está ao alcance das mãos, em um exercício de olhar de poeta: extrair da observação de uma fruta, de uma mexerica, uma reflexão sobre a morte e um cheiro de algo que sentimos, mas não está mais. Nos poemas mais intimistas, Nívea Sabino revela o gesto ensimesmado, interiorano, calado; silêncio necessário para compreender a importância das relações afetivas, principalmente dos amigos (“amigo é família/ que cresceu/ noutro lar”) para aplacar a solidão. O riso surge como símbolo aparente do encontro, da felicidade, ainda que momentânea, que só pode se dar com a outra/o outro. No poema “Roda d’água ou moinho”, é possível perceber como a pessoa-lírica desvendou um mecanismo, o das repetições, o dos nossos erros recorrentes: “A primeira vez que ouvi moinho/ ladainha,/ mira sem direção// Segunda, não/ já aprendi a lição”, assim como percebeu que cada pessoa é única ou que o mundo, com seu machismo, racismo, homofobia, miséria e necropolítica está em um movimento de ruínas.

 

Interiorana também traz muitos poemas de amor. Neles, a pessoa-lírica ri de si mesma, com um certo humor sobre os desencontros amorosos. Fala da timidez de se declarar, do erotismo, das decepções, das expectativas frustradas, como no poema “O tesão e a graça”, em que um só pode abandonar o outro, pois falam línguas completamente diferentes. Em Interiorana, o amor só se torna pleno no corpo e é visto como algo tão longínquo de se realizar como a distância que, aparentemente, nos separa das estrelas; o amor é um desejo a se cumprir, mas que pode levar a muitos equívocos, como o de mendigar amor, pagar qualquer preço pelo que pareça ser amor, migalhas de um olhar. Nessa constatação, um poema dá conta da maturidade:

 

“Legítimo

 

Só

por só

 

fico só

comigo.”

 

A poesia falada, aquela que “não vive presa na livraria” certamente trouxe para o livro muitas de suas características. Um tom de conclamação em alguns poemas, um ritmo que pede a recitação em outros, uma pessoa-lírica que fala diretamente à leitora/leitor, uma preocupação de denúncia, de fazer acordar. Ao mesmo tempo, Nívea Sabino demonstra uma preocupação estética com a palavra escrita, o que se manifesta nos seus muitos jogos silábicos/semânticos ou na forma visual em que a poeta habita a página, como no poema “Amor e casal”, em que o descompasso amoroso leva os versos a dançarem na página, de forma que não poderei reproduzir aqui, “vai um/ pra cá// outro/ pra lá”. Um outro encontro muito interessante entre forma e conteúdo é o poema “Abreviando”:

 

Abreviando

 

Quero ser

pra quem

me serve

 

No mais

serei breve.

 

É interessante notar em Interiorana o olhar de uma poeta que possui a experiência de morar no interior de Minas, mas um interior como Nova Lima que, próximo da capital, cria um trânsito perceptível na sua poesia. Há tanto o poema que se ressente da falta do mar (mineiros sendo mineiros na sua saudade ancestral), como o poema que celebra Belo Horizonte como um lugar lotado de bares. Há tanto o silêncio observador da vida interiorana quanto o barulho dos saraus, dos slams, dos megafones em riste gritando que querem outras cidades, denunciando também o ativismo de sofá e a covardia dos omissos, que ao não deter o mal, participam dele: “Nenhum/ ao meu redor/ impediu o metrô/ de seguir viagem// havia um corpo/ negro/ estendido no trilho (...)”. Interiorana traz a experiência do mato, do cerrado, dos ritos africanos, das casas com quintal, dos pés na terra, das mãos no barro, das crianças que subiam em árvores e colhiam frutas, um afeto pelas pessoas da cidade natal; traz também o terror da mineração, ceifando saúde e vidas.

 

Nívea Sabino constrói poemas cheios de ritmo, comandados por uma musicalidade que usa de aliterações em versos muito bonitos como “moveu-se o mar/ sem derramar” ou “feito cão/ farejo mudo/ imundo mundo/ me faz fadiga”, assonâncias, rimas externas e internas, mas dando a cada poema um tratamento próprio, sem se prender a uma fórmula apenas.          

                                               

Rogério Coelho, poeta e articulador do Coletivoz, em seu prefácio à primeira edição de Interiorana, não chama o livro de Nívea Sabino de livro, mas de “livre”. Àquelas e àqueles a quem foi proibida a subjetividade e seu registro toda a história cultural construída é pura resistência, e creio mesmo que quando escrevem um livro escrevem um “livre”. Se, historicamente, uma mulher escrever representava (representa) uma espécie de transgressão – punida, inúmeras vezes – para a mulher negra representava (representa) uma afronta. Nívea Sabino, em “Na saga das Evaristo”, é imperativa:

 “beba na fonte

erga a fronte

 

Negra: afronte!”

Dizem que a poesia pode ser muito perigosa, tanto que poetas não são bem-vindos em ditaduras (e o que é a República de Platão – lugar em que cada um tem seu papel pré-definido e poetas são expulsos – se não uma ditadura?). Em sociedades antigas, a poesia era sabida de cor (coração), era dita/cantada a céu aberto, para muitas pessoas. Não havia a concorrência da TV, dos jornais, das rádios, das redes sociais... Era, como o teatro, arte apoiada na oralidade, no poder do encontro físico, e o encontro físico sempre pode potencializar as reações. O poeta e crítico Carlos Felipe Moisés, em seu livro “Poesia & Utopia, sobre a função social da poesia e do poeta” destacou o caráter antipedagógico da poesia, já que ela é aquilo que faz ver algo como se o víssemos pela primeira vez, nisso residindo o seu potencial antipedagógico, pois, visto, o objeto tem que ser desconstruído, “desensinado”, para poder ser visto novamente, mas como se nunca antes. Neste sentido é que a poesia é intrinsecamente rebelde e traz seu potencial revolucionário. Carlos Felipe Moisés ainda nos conta o processo que levou os poetas do encontro com muitos, no mundo público, olho no olho, para a solidão da mansarda, do mundo individual, presos à página e ao silêncio da vida privada, modificando seu impacto político até chegar ao ponto em que a própria linguagem de alguns parece não querer mais se comunicar, reduzida, quando muito, a falar com um grupo de meia dúzia de iniciados.

 

Hoje, a poesia que sai das ruas e vai para os livros ou que sai dos livros e vai para a rua aproxima-se novamente de uma origem, de um cantador. Slamers e rappers desensinando o que aprendemos sobre nós ou o que ensinamos sobre os outros. Nívea Sabino, nos desensina, por exemplo, em “Lírica de favelada” a ver uma pessoa negra, para vê-la pela primeira vez:

 

“E desmontar

o ódio e

a aversão à cor

que chegam primeiro

do que quem eu sou”

 

Quem já frequenta ou frequentou os slams e saraus da periferia das cidades, sabe que poetas perigosas como Nívea Sabino ainda andam por aí.

 

 MEU TRAÇO

 

Falar sobre mim

é de uma imensidão

sem rastro

 

Transito

me acho

 

No infinito

do que me permito

do que eu faço

 

Não minto

disfarço

 

Caminho

neste mundo vasto

de encontros

de acasos

 

Profundo acaso

ou destino

do meu passo

no sem lugar

para o qual

 

eu me laço

 

***

 

Interiorana

Nívea Sabino

Poesia

2ª edição

Edição independente

2018

 

Contato da autora: nivearp@gmail.com

 

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

A infernização do paraíso (Mina de Morro Velho: as vísceras douradas da maldição), de Rodrigo Leste

 



Por Adriane Garcia



Em A infernização do paraíso, de Rodrigo Leste – livro de poemas que também pode ser lido como um poema longo – o leitor toma contato com uma crítica contundente à mineração, mais especificamente em Minas Gerais. Usando um humor sutil, já no início o poeta marca sua posição como artista, fazendo menção ao famoso poema que Drummond dedicou a Manuel Bandeira, Política literária. No poema de Leste, o verso “Tirar ouro do nariz” se amplia utilizando-se não só do sentido que tem no poema originário, mas no sentido que ganha no decorrer de A infernização do paraíso: 



Estou no centro da praça,

risco o fósforo e não devo nada a ninguém.

Indivisível como o pirulito

(redundante obelisco)

gozo a vertigem,

a estranha insegurança da liberdade.

Não pertenço a nenhuma confraria,

Clube, milícia ou facção.

Sou desse lugar, e como artista ou poeta

não vou ser reconhecido,

homenageado, incensado,

içado à condição de

“Poeta Municipal”.

“Federal”,

nem pensar:

“Tirar ouro do nariz”

não é a minha vocação.



A extinta Mina de Morro Velho, localizada em Nova Lima, próxima a Belo Horizonte, foi propriedade da companhia inglesa Saint John Del Rey Minning Company a partir de 1834, e chegou a ser considerado o investimento mais lucrativo dos ingleses na América Latina, à época. De 1850 a 1867 manteve a produção de uma tonelada de ouro por ano. Rodrigo Leste conta um percurso de ruínas, não só da exaustão dos recursos naturais, mas da exaustão do trabalhador das minas, em péssimas condições de trabalho, mesmo antes da exploração inglesa.


Estou no ano de 1814.

Somos escravos.

Trabalhamos na lavra pro

homem da batina preta.

Depois de colher todo ouro da superfície,

metemos pólvora na montanha,

buscamos os veios principais,

os grandes filões.

Neste ano,

retiramos das entranhas da terra

16 kilos do mais puro ouro

pro delírio da negra batina.


O livro ultrapassa a extração do ouro e avança para a questão da extração mineral mais ampla, do ferro, da água. Em diálogos com os poetas Carlos Drummond de Andrade (que viu sua Itabira transformada pela mineração) e Dantas Mota (que tem uma poesia profundamente enraizada em Minas Gerais), Rodrigo Leste soma sua voz aos que cantaram o lamento da devastação ambiental e usaram a literatura para retratar a miséria ambiental e humana que a cupidez do lucro deixa para trás após a exploração de uma mina.


A ferida aberta

revelou

meus pulmões arruinados

aos frios

e burocráticos olhos.

Foi comprovada a absurda quantidade

de chumbo que corre em minhas veias.

Finalmente

expediram o laudo:


A devastação da minha saúde

valeu

a indenização

de trinta mil reais.


A Mina de Morro Velho passou por um incêndio em 1867 e um soterramento que matou vários mineiros em 1882. A Infernização do paraíso foi publicado em 2010. O Rio Doce – um paraíso – ainda não havia sido invadido pela lama criminosa da Vale. No sistema em que vivemos, somente o lucro ganha a mais atenta e primorosa manutenção. As barragens em Brumadinho e Mariana aguardavam, silenciosamente, o momento de outros crimes.


Um livro precioso, que trata, com arte, de um assunto urgente.


*** 

A infernização do paraíso

Rodrigo Leste

Poesia

Ed. Mano a Mano

2010

(edição realizada com os benefícios da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte)









sexta-feira, 4 de setembro de 2020

O sêmen do rinoceronte branco, de Cinthia Kriemler



 

Por Adriane Garcia

 

Coletânea com vinte e sete contos, O sêmen do rinoceronte branco, de Cinthia Kriemler, lança luz sobre histórias de breu, apagões de humanidade. É interessante, inclusive, que a primeira história que nos narra se intitule Chiaroscuro. Nesse conto de abertura, que fala sobre racismo, violência policial e estupro, podemos perceber que a autora não organiza o livro em uma gradação confortável; não vai conduzir suas histórias protegendo as sensibilidades, preparando-as para um adiado momento trágico ou um relato de grande degradação; pelo contrário, é desses relâmpagos sobre o breu, desde o início, que todas as narrativas irão se compor.

 

O rinoceronte branco era o último. E foi extinto. Por trás da extinção dos animais está a forma predatória, capitalista, da insanidade pelo consumo a que a humanidade se submeteu, destruindo sua própria espécie, enquanto pensa destruir “apenas” os outros seres do planeta. Uma gota do sêmen do rinoceronte branco poderia ser uma esperança para os utópicos (ou para os cínicos), aqueles que acreditam que a tecnologia trará de volta não apenas o rinoceronte, mas uma humanidade capaz de consertar os seus erros quando já pareça tarde demais. Recriar, pela engenharia genética, o animal extinto significaria que nosso dano é menor. Porém, nem isso; sobre o sêmen do rinoceronte branco, Cinthia Kriemler nos acende um lampejo de paliativo sonho.

 

Nesse livro os contos abordam, principalmente, temas que se desenvolvem nas sombras das relações econômicas, da injustiça social verificada na quantidade de miseráveis. O destaque é para os mais fragilizados: crianças, pessoas negras, mulheres, velhas. No conto Vigília, a morte aparece na vida de uma mulher como uma possibilidade de dignidade jamais alcançada em vida. Em 12h28, outra mulher traz um comportamento de abandono sobre si parecido com o da personagem de Vigília, sua dignidade foi usurpada durante um crime ambiental, quando uma das tantas barragens prestes a estourar em Minas Gerais estourou.

 

Como o alcoólatra do conto Garrafas no jardim, a sociedade, viciada e adoecida, tenta esconder a própria realidade. Ao trazer essas situações e personagens para o foco de sua escrita, Cinthia Kriemler chama para ver o que está diante dos olhos de qualquer um, mas que de tão naturalizado, se ocultou. Se podemos passar pelos moradores de rua e seguir com indiferença à miséria material dos outros, a autora nos coloca, individualmente, diante de alguns deles e nos conta que são humanos. Há um engajamento de alguns narradores que não tem a menor intenção de se disfarçar, “Mas hoje não é a barbárie da indiferença social que me preocupa. É alguma coisa mais evidente, mais urgente”, não querem ser imparciais e julgam a paisagem de ruínas que os cerca. Os personagens narrados não buscam uma identidade individual, porque já a possuem, mas está invisibilizada. A outra identidade, aquela pela qual são reconhecidos, veio de fora; por isso, mais importante do que uma construção psicológica de suas características – os contos se centram muito mais na construção das situações –, os personagens de O sêmen do rinoceronte branco buscam a construção de uma identidade coletiva e, no ápice, um lugar dentro da categoria que se define como humanidade.  Quando no emocionante conto “Não é” a mãe, no necrotério, em negação para reconhecer o corpo do menino assassinado pela polícia, revela seu próprio nome, o nome do pai e o nome do filho, com sobrenome e tudo, está dizendo de suas existências civis, cidadãs, excluídas; está afirmando sobre suas identidades ignoradas pelos outros, porque dentro da coletividade são marcadas pela negação: “Sim, Maria do Amparo da Silva sou eu, sim, senhor. E o meu esposo é o José dos Santos. E o nome do meu menino é José Eustáquio da Silva Santos.”

Outros temas que se destacam nos contos dessa coletânea são a crise dos relacionamentos amorosos do ponto de vista da mulher e o abandono sentido pelas velhas e velhos.  Não raro, as tragédias amorosas em O sêmen do rinoceronte branco estão ancoradas na cultura do amor romântico – cujo destino é sempre a falência – e do machismo, resultando em solidão extrema, como em Bípedes, em que o excesso de sexo (ou o sexo direcionado a qualquer um) aparece como um desequilíbrio, um sintoma da infelicidade (ponto de vista que autora trabalhou no romance Todos os abismos convidam para um mergulho). Em Mesa posta, a comodidade que os parentes encontram no abandono dos velhos, o arrependimento inútil, “a alma arranhada”. Em Assim, o suicídio como solução para os afetos fracassados. Mais uma vez o alcoolismo aparece como problema social destruindo relações familiares, fomentando a violência doméstica, servindo de lenitivo diante das dificuldades da vida e criando outras. Em Aposentadoria, a impossibilidade do sonho de finalmente se aposentar e a pergunta implícita: Quem aposentará a violência ceifadora do Estado?

 

No contexto planetário de degradação do meio ambiente e, no nível brasileiro, de crescente pauperização do corpo social, precarização do mundo do trabalho, extermínio e adoção da necropolítica como gerência de Estado contra os mais vulneráveis, a obra de Cinthia Kriemler vem narrando o seu tempo com as preocupações que o permeiam. Seus contos enfatizam a continuidade das mazelas. O que denuncia é uma imobilidade social – e cultural – em um mundo regido pela lógica capitalista, herdeira do escravismo e da misoginia, pela estética e pela ética do consumo. Ser é ter. E é sobre essa base que os seres que não têm são esmagados e, portanto, não são. Para muitos personagens de Cinthia Kriemler o consumo não é pelo supérfluo, ou pela escalada de status – a que é tão afeita a classe média – mas pelos itens de necessidades mais básicas. Os personagens de O sêmen do rinoceronte branco são subcidadãos, quer pela sua renda, quer pela sua cor, quer pelo seu gênero, quer por sua aparência física, quer por sua idade. Estão situados em uma sociedade padronizadora, que odeia diferentes e os extingue, como fez com o último rinoceronte branco.

 

Com uma escrita ágil, preocupada em dar a conhecer que lugar o indivíduo ocupa na pirâmide social ou a que rótulo está condenado dentro da estrutura capitalismo/patriarcado, frases curtas, fala direta, sintaxe simples, vocabulário atualizado, a autora também indica a preocupação quanto ao acesso de seu texto: é para o maior número possível. Forma e tema, situando-se na máxima de Graciliano Ramos, mestre do escrever com simplicidade, que afirmou que “a palavra foi feita para dizer”.

 

O que a obra dessa autora vem dizendo, com uma luz incômoda, a exemplo do que pode ser verificado indubitavelmente no conto que dá nome ao livro – é:  Se não protegemos nem os filhotes de nossa própria espécie, como protegeremos a nossa casa?

 

 

“Não é

 

Não é ele, doutor. Tenho certeza. O senhor me trouxe até aqui à toa. Isso tudo é um engano. Uma perda de tempo. E eu com tanto trabalho pra fazer. Tenho chão de cozinha pra lavar, casa pra varrer, quarto de criança pra limpar, cachorro pra levar pra passear. Tem louça do almoço na pia, tem lixo no banheiro. Eu não posso ficar aqui, doutor. Ainda mais pra ouvir o senhor dizer besteira. Que o meu menino morreu. Que ele levou tiro da polícia. Que ele tava roubando carro junto com bandido. Bandido fichado. Mas o que é isso, doutor. O meu menino só tem doze anos. Doze. Eu deixei ele dormindo lá em casa. Como eu deixo todo dia. Quatro e meia. É a hora que eu levanto. Pra sair de casa às cinco e pegar dois ônibus até essa casa onde eu trabalho. O meu menino só levanta às sete. E vai direto pra escola. Vai, sim. Ele adora a escola. A professora me disse que ele é bom aluno. Só tem dificuldade em matemática. Como é que ela ia me dizer isso se ele fosse menino de matar aula? Acredite em mim, doutor, o meu menino está em casa. Ou brincando na rua. De pipa, de bola de gude. Ou jogando videogame. Porque hoje não tem aula. É feriado na escola. Verdade. O meu menino não mente pra mim, doutor. Ele não é vagabundo. Ele sabe que tem que estudar. Que não é pra se meter com bandido. Nem com droga. Ele sabe que eu me mato de trabalhar pra dar as coisas pra ele. E não é só comida, não, doutor. É tênis, é camiseta, é bermuda, é óculos de sol, é corrente, é boné. Dei até bicicleta e videogame. Ele tem de tudo, doutor. Ia roubar carro pra quê? Eu já disse que ele só tem doze anos? Não é ele, não, com certeza. Então por que é que o senhor me trouxe pra este lugar horrível? Por que é que eu tenho que olhar pra esse menino aí deitado? O cheiro aqui é ruim. Eu quero vomitar. Eu quero ir embora. O meu menino está lá em casa, doutor. Lá em casa. Eu já disse. O senhor não quer ouvir. Que merda. Presta atenção no que eu tô dizendo, pelo amor de Deus! Eu sei que parece. O meu menino tem uma marca de nascença na coxa. Igual a essa aí. Tem uma tatuagem de caveira que ele fez escondido de mim. Igual a essa aí. No mesmo lugar. O meu menino tem as unhas roídas. E um dedo torto que ele quebrou no futebol. E uma cicatriz de tombo. E o dente da frente com a ponta quebrada. E as orelhas de abano. Como esse aí. Mas esse não é o meu menino. Não importa se os vizinhos viram o roubo, e a viatura que apareceu cantando pneu, e a troca de tiros, e os bandidos que foram todos mortos. Não importa quem disse que era o meu menino que tava lá com uma arma na mão. Não importa se esse daí tinha duas pedras de crack no bolso. Nem sei quem deu o meu nome para o senhor, doutor. Gente má. Sim, Maria do Amparo da Silva sou eu, sim, senhor. E o meu esposo é o José dos Santos. E o nome do meu menino é José Eustáquio da Silva Santos. Mas me escuta, doutor, por favor. O meu menino não tem esse olho arrebentado de bala. Não tem essa cara inchada. Não é gelado assim. Não rouba carro. Esse aí é bandido. É ladrão. É menino que engana a mãe que trabalha fora o dia inteiro. Mãe que sai de casa antes do dia clarear que deixa o filho dormindo que não sabe o que ele faz quando acorda que acredita que ele tá no colégio que pensa que ele é bom aluno que jura que ele é feliz com o tênis, a camiseta, a bermuda, o videogame. Como é que eu vou reconhecer o filho dos outros, doutor? Tá surdo? Eu tô aqui repetindo que esse aí não é o meu menino, caralho. Não é, não é, não é, não é.”

***

 

O sêmen do rinoceronte branco

Cinthia Kriemler

Contos

Ed. Patuá

2020

 

Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva, de Silvia Federici

 


 

Por Adriane Garcia

 

Nesse livro imperdível sobre a história das mulheres, a historiadora Silvia Federici registra o resultado de três décadas de suas vastas pesquisas sobre a caça às bruxas, ocorrida desde o final do século XV e ocupando os primeiros séculos da Era Moderna. Com ápice no século XVI – e não na Idade Média – a caça às bruxas, argumenta a historiadora, foi primordial para a acumulação primitiva, que permitiu o acúmulo de riquezas para a Europa e o desenvolvimento industrial, assim como o próprio sistema capitalista.

 

Traduzido no Brasil pelo coletivo feminista Sycorax (nome da mãe bruxa de Calibã, na peça de Shakespeare, A tempestade), em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo, e publicado pela editora Elefante, o livro tem uma edição lindíssima, de 466 páginas de conhecimento, além de belas e impactantes imagens e muita reflexão sobre o papel que o controle do corpo das mulheres ocupa na manutenção do poder no capitalismo.

 

Calibã e a bruxa é dividido em cinco capítulos: O mundo precisa de uma sacudida, onde a autora mostra as lutas camponesas e o processo de consciência de classe, muitas vezes conduzido por mulheres que levavam à contestação das leis e à exigência de direitos, além da participação como lideranças nos movimentos heréticos. É bem interessante notar a ênfase no período feudal, em que a autora descreve uma Idade Média cheia de lutas comunais e rejeitando a ideia de desenvolvimento linear de progresso. O capitalismo não foi algo evolutivo – no sentido do pior para o melhor; foi, na verdade, uma reação a uma consciência coletiva que evoluía. Em A acumulação do trabalho e a degradação das mulheres, Silvia Federici mostra como a privatização das terras na Europa (os cercamentos, principalmente) e a retirada das terras comunais prejudicaram as mulheres. As desapropriações produziram escassez, aumento da prostituição, incentivo aos estupros e foram acompanhadas da intervenção estatal no mundo do trabalho e na reprodução, usando como método a desvalorização do trabalho feminino e implantando o patriarcado do salário (somente os homens seriam remunerados). Com a mulher reduzida ao mundo privado, e substituindo um bem perdido (a terra) para o homem trabalhador, deixá-la sem salário forçou a obediência ao novo papel.  No capítulo 3, O grande calibã, a historiadora centra-se nos processos de controle do corpo da mulher, considerado um corpo rebelde que precisava por todos os meios – científicos, principalmente – ser domado. Em A grande caça as bruxas na Europa, é possível acompanhar que toda a misoginia plantada a partir da perda das terras e do cerceamento das atividades das mulheres nas comunidades levou a uma naturalização do genocídio das mulheres, culminando no fato de ser a queima das bruxas um espetáculo público. No último capítulo, Colonização e cristianização, a autora mostra como a caça às bruxas na Europa e a caça às bruxas nas Américas fizeram parte de um mesmo projeto e se serviram do mesmo aprendizado nas câmaras de tortura, nos interrogatórios que procuravam o diabo, na demonização das crenças dos nativos, na inferiorização das mulheres; aprendizado que serve à exploração capitalista ainda nos dias de hoje.

 

Calibã e a bruxa faz notar a falta de estudos em Karl Marx, relacionados ao extermínio de mulheres no processo de acumulação primitiva, assim como ao trabalho não remunerado de reprodução da mão-de-obra a que as mulheres ficaram prisioneiras. A autora nota também que Foucault, nos seus estudos sobre poder, violência e corpo não dá importância ao processo específico de controle do corpo feminino, na violência e extermínio realizados na caça às bruxas.   Ao mostrar que um processo de proporções tão gigantescas como a caça às bruxas não obteve a atenção dos dois grandes estudiosos da origem do capitalismo, Silvia Federici denota a importância de se rever os estudos históricos, incompletos, quando metade da humanidade não é levada em conta de modo específico, já que o tratamento da mulher durante a história é bem específico.

 

O trabalho não remunerado das mulheres para suas famílias foi (e é) essencial para a manutenção e reprodução da mão-de-obra no capitalismo. Camuflá-lo a ponto de ele não ser considerado um trabalho foi essencial para aniquilar a autonomia das mulheres e oferecê-las como único bem, para dispor como bem quisesse, uma compensação, a um homem expropriado pelo próprio capital. Entender a guerra contra as mulheres é entender grande parte das engrenagens de poder. É entender que tanto a naturalização do estupro, o seu incentivo por meio de uma cultura, quanto a proibição do aborto estão ligados a formas de continuar oferecendo as mulheres como mercadorias, objetos, retirá-las da posse de seu próprio corpo. Explica não só o passado como explica o reacionarismo que se nota hoje, quando tanto os movimentos feministas crescem, em número e em amplitude de voz, quanto o retorno de ideias antigas de misoginia e controle sobre a mulher. O capitalismo, nos seus primórdios, não inventou a misoginia, mas soube usar todos os seus ecos – religiosos, principalmente – para silenciar aquelas que, diante da fome, diante da espoliação, saíram em protestos; daquelas que, dominando saberes tradicionais, remédios, linguagens, conversavam diretamente com suas comunidades. Mulheres capazes de discernir sobre o mal da desagregação coletiva.

 

Nos estudos sobre a colonização das Américas, Silvia Federici nos dá mais uma face do capitalismo/patriarcado: o racismo. Tanto contra as populações indígenas quanto contra os africanos trazidos para sustentar o trabalho nas terras invadidas, os métodos de câmaras de tortura, genocídio e inferiorização das mulheres foram amplamente utilizados. Ferramentas para um objetivo unificado, preparando um sistema baseado no lucro e na transformação de seres autônomos em força de trabalho alienada. Para a concretização do objetivo, igrejas, cientistas, filósofos, artistas, literatos, humanistas se uniram. É farto o material que não só justifica a misoginia e o racismo, como os “enriquece”. Assim como em determinadas épocas, tudo que acende alguma luz quanto à injustiça social é taxado imediatamente de “comunismo”, também na época da caça às bruxas, qualquer reunião de duas ou mais mulheres era logo taxada de “sabá”. Qualquer mulher independente, fora da regra imposta, era uma serva do diabo e o preço ia de ser marcada a ferro a ter que andar de mordaça na rua, de ter o nariz mutilado a tomar açoites públicos, de ser afogada a ser queimada viva. Métodos que seriam usados com os negros africanos nas colônias.

 

Muitas estudiosas feministas nos dizem que capitalismo e patriarcado são indissociáveis, e que derrubar um exige derrubar o outro. A caça às bruxas mostra que sim. Os homens não só foram coniventes, como se beneficiaram da destruição da autonomia feminina. Não todos, logo se arvoram. Sim, mas as exceções só provam a regra. No início do século XVI na Europa, ou nas colônias espanholas e portuguesas, o mercantilismo preparava o terreno. Limpava o terreno com sangue. O capitalismo/patriarcado/racismo precisava criar uma nova divisão sexual do trabalho e alienar as mulheres quanto à importância de seu papel reprodutivo – não só biológico, mas o de manutenção da mão-de-obra, com os cuidados de limpeza, saúde, planejamento doméstico. Que isso fosse um dom, um fato da natureza, e não um projeto. Não era possível destruir as solidariedades locais sem destruir as mulheres, as lavradoras, as parteiras (com seus conhecimentos sobre reprodução), as curandeiras, as pedreiras, as artesãs, as anciãs sem incutir nelas o medo dos castigos corporais ou da morte, por qualquer sussurro.

 

 

“A CAÇA ÀS BRUXAS E A RACIONALIZAÇÃO CAPITALISTA DA SEXUALIDADE

 

A caça às bruxas não resultou em novas capacidades sexuais nem em prazeres sublimados para as mulheres. Foi, pelo contrário, o primeiro passo de um longo caminho ao “sexo limpo entre lençóis limpos” e à transformação da atividade sexual feminina em um trabalho a serviço dos homens e da procriação. Neste processo foi fundamental a proibição, por serem antissociais e demoníacas, de todas as formas não produtivas, não procriativas da sexualidade feminina.

A repulsa que a sexualidade não procriativa estava começando a inspirar é bem evidenciada pelo mito da velha bruxa voando na sua vassoura, que, assim como os animais em que ela também montava (cabras, éguas, cachorros), era a projeção de um pênis estendido, símbolo da luxúria desenfreada. Este imaginário retrata uma nova disciplina sexual que negava à “velha feia”, que já não era fértil, o direito a uma vida sexual. Na criação desse estereótipo, os demonólogos se ajustavam à sensibilidade moral de sua época, tal como revelam as palavras de dois contemporâneos da caça às bruxas:

 

Acaso há algo mais odioso que ver uma velha lasciva? O que pode ser mais absurdo? E, entretanto, é tão comum(...). É pior nas mulheres que nos homens (...). Ela, enquanto velha megera e bruxa, não pode ver nem ouvir, não é mais que uma carcaça, ela uiva e deve ter um garanhão. (Robert Burton)

 

É ainda mais divertido ver mulheres velhas, que quase já não se sustentam em pé, pelo peso dos anos, e que parecem cadáveres que ressuscitaram, saírem por aí dizendo que “a vida é boa”, ainda excitadas, procurando por um parceiro... sempre espalhando maquiagem no rosto e depilando os pelos pubianos, ainda exibem seus peitos moles e murchos e tentam provocar, com trêmulos cochichos, apetites lânguidos, enquanto bebem, dançam em meio a garotas e escrevem cartas de amor. (Erasmo de Rotterdam)”

 

 

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Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva

Silvia Federici

Trad. Coletivo Sycorax

Ed. Elefante

2017