Mostrando postagens com marcador Maria Valéria Rezende. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Maria Valéria Rezende. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Carta à rainha louca, de Maria Valéria Rezende








Por Adriane Garcia


Os direitos são criações humanas. Assim como existem, podem deixar de existir. Basta, para isso, que a conformação da sociedade mude, que não se vigie a existência ou a vigência de um direito, que se façam novos (ou velhos) arranjos de poder. Os direitos das minorias são conseguidos a duras penas, depois de lutas cumulativas que levam décadas, por vezes séculos e a permanência desses direitos (porque nunca existem pela benesse dos poderosos), vive sob tensão, sob o perigo dos ataques.

É no cenário permanente de ataque aos direitos das mulheres, que hoje enfrentam, no Brasil, o aumento do número de agressões e feminicídios, tendo à frente do país um homem que disse a uma parlamentar “só não te estupro porque você não merece”, que Maria Valéria Rezende nos dá a conhecer o seu Carta à rainha louca.

Para além de sua importância política, como literatura que reflete o seu tempo, mesmo quando pesca nas águas do passado, Carta à rainha louca é um livro que permite a fruição prazerosa da leitura, aliando vivacidade da história narrada com construção de linguagem, ironia e humor.

A narrativa se passa entre 1789 e 1792, a partir de uma carta que Isabel Maria das Virgens escreve à rainha de Portugal, Maria I, a Rainha Louca, que foi educada para o canto, a pintura e a adoração a Deus, e não para administrar um reino falido e povoado de ideias iluministas. Isabel, a protagonista, está presa, há muitos anos, em um convento de recolhidas, em Olinda, sem julgamento, nas eternas prisões provisórias de que o Brasil insiste em fazer muito uso, quando nas garras da lei caem as pretas, pretos e pobres.

Isabel, porém, é branca. Órfã de mãe muito cedo, foi cuidada na senzala pelo fiel amigo de seu pai, o africano Gregório. Mais tarde, dama de companhia, Isabel se percebe na classe de mulheres que, na época colonial, não serviam para nada: não tinham dote para um possível casamento nem eram empregadas na lavoura.  Com a perdição e tragédia de sua senhora, ludibriada por um sedutor inescrupuloso e narcisista, ela se vê com a vida completamente transformada.

Nessa trajetória, Isabel conquista seu maior e talvez único tesouro: aprender a ler e a escrever. É pela leitura e pela escrita que Isabel busca a salvação diária. Nesse sentido, Carta à rainha louca é também uma grande e comovente homenagem à escrita e à literatura, principalmente à literatura escrita por mulheres. Aprender a ler torna Isabel Maria das Virgens mais instrumentalizada para lutar pela vida e pela liberdade. O saber como uma arma para a vida prática:
Tantas e tantas cousas que se havia por saber e tão úteis e tão possíveis de se vender aos que nada sabem e todos os dias lutam contra o caos que advém das cousas materiais se as deixamos sem vigilância – saberes que, por se referirem a cousas comezinhas, não causarão espanto ao ver-se que os possua uma simples mulher. Saberes para mim tão preciosos continha que eu já cismava em sair logo dali para o verdadeiro vasto mundo e em como todo aquele conhecimento me serviria para ganhar tostões e comprar liberdade.”

Certamente, uma mulher que lê, que escreve e que ousa, demonstrando coragem e inteligência, rompendo padrões é tida como louca. É assim, de louca para louca, que Isabel busca a empatia da rainha; Isabel busca sororidade.  Em sua carta, denuncia os abusos de toda sorte que acontecem com as mulheres e os desvalidos na colônia, os abusos dos poderosos e os abusos da Igreja, intrinsecamente ligados na época colonial. Sua carta é sua petição de defesa, mas é também a petição de defesa de todos que como ela sofrem. Isabel se sente assemelhada tanto aos escravizados quanto a uma mulher que, ainda que rainha, era proibida de ser qualquer coisa que não aquilo que lhe determinaram. Tanto o patriarcado quanto o escravagismo eram males que deviam ser combatidos.

Carta à rainha louca, escrito com uma mescla do vocabulário setecentista e nossa linguagem contemporânea, delicia a leitora, o leitor; ao mesmo tempo em que dá voz a uma personagem que grita pela liberdade, pela igualdade de gênero, pelo direito da mulher ao seu próprio corpo, pela solidariedade entre os fracos, pela justiça social. Uma personagem que, não tendo todo papel disponível para escrever, precisa poupá-lo e , por isso, conhecemos seu pensamento livre, a parte rasurada em que ela percebe que seria censurada.

Em um mundo onde a mulher não pode sair do lugar estreitíssimo que lhe foi delimitado pelos homens, Isabel será capaz de grandes ousadias. Ousadias imperdoáveis, mas das quais, sabemos, ela não se arrepende.



Percebo, Senhora, que, embora outra desgraça possa me acontecer a qualquer momento e quiçá me veja outra vez sem meios para escrever-Vos, continuo a errar por tantos assuntos sem nenhuma utilidade – a não ser a de dar-me a mim o gozo de escrever palavras – em lugar de dizer-Vos aquilo que é de grande urgência, pois que se o souberdes logo Vos movereis para tirar-me deste inferno. Com os suplícios sobre mim impostos, porém, como já Vos relatei, rodavam minhas ideias como moinhos ao vento e por isso enchi páginas e mais páginas com minha pobre escrita, sem sequer dizer-Vos quem de fato sou e como e por que vim parar a esta masmorra.

Devo confessar-Vos, Majestade, que muitas vezes duvido de quem sou, duvido de minhas lembranças, já não sei se são verdade ou alucinações, e temo que tudo o que tenho imaginado como se meu passado fosse, até mesmo em parte belo em minha recordação como por vezes me parece, não seja senão o meu desejo de que assim tivesse sido. Prossigo, no entanto, minha Senhora porque isto de não se saber ao certo quem é cada pessoa, como vejo por toda parte aqui nesta terra do Brasil, há de ser cousa comum também nas galerias de Vossos paços em Portugal e em todos os Vossos reinos como aprendi dos livros proibidos que li e dos infortúnios que me fez passar Diogo de Távora. Por certo que também ali se cruzam e trocam vênias as pessoas consideradas de qualidade, sem nenhuma prova de que o são, tanta é a hipocrisia, o adultério, a mentira, a traição, a lisonja, o fingimento, a aleivosia, a devassidão, o suborno e a corrupção que por eles campeiam sinto e sei que a única cousa que me pode manter sã a mente, de sorte que eu não naufrague para sempre no mar encapelado dos meus delírios, é o esforço de ordenar as palavras em meu pensamento e no papel, não importando para nada se são verdadeiras – daquela verdade que querem os inquisidores e os juízes – ou se são apenas a verdade do meu desejo e do meu sonho, da liberdade de pensar, que outros consideram insanidade, mas que teima em medrar no mais recôndito de qualquer mulher até mesmo em Vós que, sendo rainha, por natureza nada mais sois que uma fêmea faminta de amor e de horizontes, como todas nós outras, porque assim creio estarem feitos o Vosso corpo e o Vosso coração como os nossos, e deles emanarem os mesmos humores, a não ser que Vos hajam mutilado e oprimido desde o Vosso nascimento para torcer-Vos a natureza e fazer de uma simples mulher uma princesa perfeita, o que não creio, pois se assim fosse haveríeis de enlouquecer, Vós também, sendo por certo muito mais de perto vigiada do que nós que nada valemos.

Por serdes Vós quem sois, sei bem que não tendes tempo a perder com essas quimeras de uma qualquer como sou eu. Apenas para rezar a Deus e aos Santos, reinar e fazer a justiça é que o tendes. É, pois, mister que eu me defenda de mais desvarios e agora me esforce para esclarecer-Vos, ordenadamente, sobre quem eu penso que sou e que direito e necessidade tenho de recorrer à Vossa Piedade.” (p. 51)



***
Carta à rainha louca
Maria Valéria Rezende
Romance
Alfaguara
2019








quarta-feira, 17 de maio de 2017

Outros Cantos, de Maria Valéria Rezende: O olhar da empatia



Por Adriane Garcia

Nestes dias, estive em outros cantos. Mais especificamente em Olho d'Água, sertão de Pernambuco, lugar imaginário e tão real, criado por Maria Valéria Rezende. A edição de Outros cantos, primorosamente editada pela Alfaguara, traz,  já na capa, a aridez do sertão, assim como a algaroba, árvore frondosa do semi-árido brasileiro. Delicadamente, muito discretamente, um coração entre as folhas, feito fruto – sabemos que o que irrigaria a Terra é amor. Abaixo, areia, pó, terra seca esvoaçante como a dos desertos.

“Um bando de meninos me espreitava. Nos peitos, o teclado perfeito das costelas expostas; nas costas, saliências pontiagudas, duros cotos de asas cortadas antes mesmo de que vissem a luz por primeira vez. Nus vieram ao mundo e nele permaneciam, quase nus e inocentes, não por serem incapazes de fazer o mal, mas por serem ignorantes do mal que lhes podia ser feito. (p. 15)”

Não há como ler este romance e não se envolver e se emocionar. A narrativa é feita em linguagem primorosa e, ao mesmo tempo, simples. Maria Valéria Rezende escreve para se comunicar com o maior número possível de leitores. Sua comunicação é dom e o que ela tem a dizer nos deixa despertos para a realidade. Realidade de uma comunidade que se repete por tantos brasis, marcada por fatores históricos, sociais e culturais que a retêm na miséria material, latifúndio e a confirmação da máxima “o problema do Nordeste não é a seca, é a cerca”; realidade de nossa condição humana, tão independente de geografias.

A história se passa enquanto a personagem Maria está num ônibus de viagem, quarenta anos depois, voltando para o sertão. O lugarejo é Olho d'Água, local onde estivera para alfabetizar jovens e adultos, na época da ditadura militar brasileira, no programa MOBRAL. Nas lembranças de Maria, já idosa, o leitor acompanha Maria, a jovem revolucionária, sonhadora e crente no poder de mudança da palavra escrita e da leitura. Porém, o que Maria descobriria (e o leitor) é a força da linguagem oral, a força e a beleza do povo sertanejo. Maria, que fora para Olho D'Água ensinar, descobre que só poderia aprender com esse povo ágrafo.

Entre cenas marcantes, com grande poder de fixação na imaginação do leitor, Maria Valéria Rezende traz o vigor que este cenário rural alcançou, por exemplo, com Raquel de Queiroz, Guimarães Rosa e Graciliano Ramos. Impossível, depois de ler Outros cantos, esquecer-se do tingimento das redes, dos quartos abarrotados pelos grandes teares, das conversas noturnas debaixo das algarobas, apenas sob a luz das estrelas, da primeira e única vez que o povo de Olho d'Água viu um cinematógrafo; dos penitentes mortificando a própria carne, sofrendo mais do que já sofrem, para que a chuva caia no dia de São José; das mães gastando sua única água para que os meninos fossem limpos no seu primeiro dia de escola. Impossível esquecer-se de Fátima e sua solidariedade absoluta, a solidariedade de quem aprendeu que não se vive sozinho em duras condições de sobrevivência.

Outros cantos desenha, na memória de sua personagem, um cruzamento de tempos e espaços, a protagonista fazendo comparações de seu cotidiano no sertão pernambucano com o cotidiano de outros cantos em que estivera: o deserto da Argélia, o México, Paris. O leitor vendo, pelos olhos desta autora, esses seres humanos e aquilo que temos de diferente e comum, para o bem e para o mal.

Chorei inúmeras vezes lendo este livro, chorei de tristeza por reconhecer a ambição humana, gerando dificuldades extremas para tantas pessoas, cujos sonhos se reduzem a conseguir viver apenas mais um dia; chorei de alegria por perceber o alcance que a palavra de Maria Valéria exerce na duração e após a leitura, chorei, sobretudo, pela beleza alcançada numa obra, sim, magistral. Quando fechei o livro sabia que chorar era um sintoma causado pelo instrumento, talvez principal, utilizado por sua autora: a empatia. Ao usar a empatia de forma tão natural e verdadeira, com recursos literários belíssimos, Maria Valéria Rezende desperta a empatia de seu leitor. Daí, levamos o livro em nós, saímos a olhar com outros olhos os outros cantos. Talvez, nunca mais passemos por aquele homem que mora debaixo do viaduto, na região Sudeste, exposto a toda discriminação e perigo, sem pensar que ele provavelmente abandonou Olho d'Água depois de tentar de tudo, depois de enterrar mais um filho subnutrido, deixando mulher e outros filhos, que eternamente o esperam.

Outros cantos não é um livro do qual dizemos “leia porque é muito bom”. Outros cantos é um livro que dizemos “leia porque é essencial, leia porque é necessário, leia porque é sobre política, sem ser, leia para conhecer o Brasil”. Se a personagem Maria acreditava na palavra escrita e lida como a sua missão em Olho d'Água, a autora Maria Valéria Rezende a continua, onde seu livro alcance. Que ele alcance muito mais.

 “Expliquei-me como pude. Não, menti, ou não menti, pois nem eu sabia ao certo, aquilo não era saudade de ninguém, não, e nem culpa do povo. Ao contrário, era o medo de ter de ir embora, o vereador que não resolvia nada, não trazia o contrato e o material prometidos e eu por isso esmorecia, já quase sem esperança de ser professora e poder ficar por muito tempo. “Você diz que de família só tem pouca gente, espalhada em outras terras e quer ficar aqui, que a gente é sua família escolhida. Ah, pois! Então aprenda que aqui o que mais se carece é de paciência, saber esperar. A gente vive esperando, a noite, o dia, a chuva, o rio correr de novo, esperando menino, esperando a safra, notícia, o caminhão do fio, o tempo das festas, visita de padre, tudo coisa que custa a chegar (...)”(p.123)

***
Outros cantos
Maria Valéria Rezende
Romance
Ed. Alfaguara
2016