Mostrando postagens com marcador Ricardo Silvestrin. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ricardo Silvestrin. Mostrar todas as postagens

sábado, 16 de janeiro de 2016

Metal, de Ricardo Silvestrin.



Fundir o metal para ter este livro nas mãos. A poesia de Ricardo Silvestrin.

Por Adriane Garcia


      Há milhões de anos, os australopithecus tentavam o exercício difícil de andar apenas sobre as duas patas traseiras, liberando assim as patas dianteiras. O quadrúpede evoluía para o bípede. Patas liberadas, tornadas mãos, exercício de gerações, o homo habilis, com quase o dobro da capacidade craniana do australopithecus, fazia da sua imperfeição, perante a força da natureza, o motor para a criatividade. A criatividade para a sobrevivência. Desenvolvia a linguagem, rudimentar, com a qual garantia a transmissão do conhecimento que produzia. Usava o fogo para se aquecer. Destacava-se, de forma notável, entre os grupos de hominídeos. Assim como se destacará, de forma definitiva, o homo erectus, exímio caçador, inventor de armadilhas e que sabia isolar a umidade do interior das cavernas, utilizando pedras.
      Do instrumento de pedra, madeira e osso à descoberta do metal, sua manipulação a frio ao início da técnica de fundição, milhões de anos. Eis o homo sapiens, aceleração não mais de milhões, mas dentro de somente milhares de anos, capaz tanto do domínio sobre estes saberes como de domesticar o cão, retirar de forma intensiva os moluscos do mar, inventar a arte e a metafísica, pensar o Além, preocupar-se com a cura dos doentes, enterrar os mortos, iluminar as noites, aumentando o tempo das atividades diárias. Pensar e conhecer é uma resposta do homem à sua imperfeição. Aquilo que é perfeito jamais precisou mudar.
      De pensar e conhecer, o homem dá outro grande salto: escreve. O que desde a primeira vez deve ter pressuposto que teria que ter alguém para ler.
      Uma introdução deste tamanho, apesar de resumidíssima, para dizer que não tive como ler o livro METAL, de RICARDO SILVESTRIN (editora Artes e Ofícios, 2013), sem fazer esta viagem à nossa pré-história. Metal é um livro de um poeta atento e sincero às mesmas dúvidas cruciais que nos afligiram desde que começamos a pensar (e não são essas as nossas dúvidas que importam?), um livro da confissão de nossa imperfeição, da atenção à consciência dos nossos sentimentos, mas de forma alguma é um livro pesaroso ou melancólico. Ao contrário, Metal é, principalmente na segunda metade (a primeira metade é mais filosófica e deliciosa também), uma obra do homem que aprendeu a rir, homo ridens.
      Neste poema que pergunta para que serve a arte, o poeta nos remonta à inutilidade das coisas; porém, ao imperativo maior que é viver:

Não me pergunte pra que serve a arte
se você sabe.
Antes de nascer já sabia.
Se alimentava de arte
pelo cordão umbilical.
De arte vivia
na solidão e no escuro.
De outro modo,
como conseguiria
atravessar nove meses
sem respostas
para suas perguntas?
Ritmo é resposta
no som submerso.
Só a melodia da fala,
que nada dizia,
uma entonação,
uma dança
das mãos sobre o ventre
em que você dormia.
Desde que nasceu,
sem arte,
que você sabe como ninguém pra que serve,
para que a vida serviria?

      Silvestrin trabalha com o sentir sobre a observação, em vários poemas nota-se que o poeta é um observador do que está fora, o mundo natural, e que no amálgama com o que está dentro faz a sua viagem poética, que nos oferece. É uma poesia da indagação, que admite o mistério, que não força para respondê-lo, pois reconhece seu tamanho no universo.

A aranha não pôde, mas o homem,
e aqui digo homem no lugar de ser humano,
homem ou mulher,
homulher,
atravessa séculos entranhado na trama dos dramas

      Sua atenção sobre o mundo (e sobre o corpo, que habita o mundo) leva-o naturalmente a usar termos muito comuns da biologia, mas tudo muito sutilmente, pois Silvestrin, tanto na forma quanto no tema, vai dando ao poema o que o poema impera. O que advém disso é uma grande liberdade, mas não do poeta (o que seria um engano) e sim de sua poesia, calculada onde deve ser. O homem que criou-se a si também encheu o mundo de fantasia:

garrafas jogadas ao mar
levam mensagens
que nunca mais vão voltar
um peixe de óculos
certamente vai ler

     Outro:

Os postes aos longe ao longo da rua
acendem ao comando da primeira estrela

      Na última parte de Metal, “Acervo Pessoal”, o poeta exercita mais radicalmente ainda este olhar para fora, sempre no amálgama de sentir, retratando o que vê em 42 telas, imagens que fornecem tantos modos de viver.

Tela 28

Ele está metade inteiro
e metade em decomposição.
Metade morreu primeiro,
metade, não.

      Certa vez li que uma poesia até um determinado ponto é solitária, só falando de si e só partindo de si para si (ou seja, está trancada em seu poeta) e que depois poderia passar a ser solidária, começando a falar do outro, do mundo também do outro, atravessando esse mundo por seu poeta, mas já num exercício de dar-se a sentir. Gosto de pensar sobre, apesar de várias considerações que aqui não cabem. E li a poesia de Silvestrin como sendo deste segundo tipo.

Os brinquedos da nossa infância
estão guardados sabe-se lá onde.
Estão despedaçados, a cabeça do cavalo
não encontra mais o corpo,
centenas de pequenos soldados
estão à caça, mas se perdem na expedição.
Um dia, nós também vamos estar guardados
sabe-se lá onde.

      Fui guiada pelo título: Metal. Metal é frio, comumente é duro, remete a uma forma primária da natureza, tilinta. Domado, metal é civilização. O homem/mulher, homulher, de Silvestrin é um ser civilizado trazendo tudo o que isso significa, toda a neurose, pois civilização também tem sido o afastamento de nossos conhecimentos primordiais e instintos. Este homulher de Metal quer alcançar o entendimento, na busca infinda, é bicho de transformar-se, de “dar sentido/ao que não se mostra” (por isso escreve). Metal é aventura épica sem final (pois que sabemos nós de nosso destino, enquanto raça, a não ser o que gravemente suspeitamos?), mas é preciso entrar no jogo. De um bom leitor espera-se, sobretudo, um homo ludens.

      Numa resenha não cabe nosso encantamento todo por um livro. Então, falando em homo ludens, deixo aqui o último verso de Metal, fundido entre Heráclito e a sabedoria das crianças:


sempre é a primeira vez que se faz alguma coisa.


      Livro pra ter na estante, ler e reler.