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quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Hidroavião, de Alberto Bresciani


 

Por Adriane Garcia

 


“Hidroavião”, este excelente livro de Alberto Bresciani, divide-se em três partes: Água, Terra e Ar. Um hidroavião, além de voar, faz o trabalho de pousar tanto em terra quanto em meio aquático. Esses detalhes são interessantes quando vamos falar de um livro que efetua metamorfoses.

 

Em “Incompleto movimento”, o poeta centrou-se mais na subjetivação lírica. Em “Sem passagem para Barcelona”, deu destaque a um cenário cinza de incomunicabilidade – tema recorrente na poesia de Alberto Bresciani –  e em "Fundamentos de ventilação e apneia", expôs o homem como seu próprio predador. Neste “Hidroavião”, ele nos traz as questões do incômodo e do cansaço.

 

Exausto da luta diária de subir e descer a montanha, levando novamente a pedra, o poeta possui uma nave (poesia) incomum, com uma espécie de flutuador no casco. Do alto, a visão panorâmica permite que observe e registre os passos daqueles que o cercam – ou melhor – que partilham da mesma maldição: existir. Na água, pode ouvir o silêncio dos peixes, estar nos lugares perdidos onde foge das multidões e das autorizações de voo.

 

Na terra, transmutado anfíbio (a aterrissagem é sempre mais difícil), cumpre a sua sina com outros sete bilhões de prisioneiros, onde vive a desilusão dos dias, as perdas evitáveis e as inevitáveis, enquanto sonha com o céu: um lugar em que, fatalmente descobre, há anjos invisíveis que prometem e não cumprem. O céu permite apenas cartografar.

 

Dito assim, parece que a poesia de Alberto Bresciani será de tal peso, que não há maneira de seu hidroavião decolar. Ledo engano. Sua poesia é plena de beleza e profundidade, sensibilidade e exatidão. É na carpintaria perfeita do poema que ele cria a sua aerodinâmica. O anfíbio de Alberto Bresciani faz exatamente o que ele quer e leva o leitor na sua viagem, que se torna, por identificação, a viagem do leitor; afinal, Alberto Bresciani fala de temas universais e de angústias a todos comuns.

 

Ler “Hidroavião” é tomar contato com uma poesia nada conformada:

 

“Fujo dele algumas vezes,

como agora,

aqui no telhado,

atirando pedras

para cima.”

 

O poeta desenvolve um eu-lírico cuja consistência é a de um personagem muito bem caracterizado. É possível reconhecê-lo do início ao fim do livro. Um personagem que pede socorro contra a apatia e os números de identidade nos quais nos tornamos, em um mundo que muda apenas superficialmente. Um personagem que precisa da fantasia – transformar folhas em peixes – para dissimular desejos, já que não serão realizados. Há mesmo uma sensação de que é impossível estar em paz, quando tudo o que se quer é muito simples.

 

“Hidroavião” é um livro cuja leitura se assemelha à leitura de uma narrativa longa. Nele, um poema reforça o outro. Do mundo interior, subjetivo, o menino que ainda não encontrou sua segunda asa e por isso o voo ainda é uma impossibilidade, chega à guerra maior, que se mistura à guerra privada, das perdas pessoais. A solidão é irremediável, ainda que haja o encontro:

 

“ A sua mão

sobre a pele

não evita as cicatrizes”

 

Há uma dureza inequívoca e momentos em que o lirismo alcança um ponto alto, como no poema “Caligrafia”. Mais adiante, quando o personagem se transmuta em Franz, o leitor encara a pureza, a ingenuidade de alguém que não cabe no mundo. Às vezes, como no poema “Melhor”, acontece de haver o novo, uma redenção, mas isso só ocorre após a destruição, como se dela não fosse possível escapar.

 

Pousado na terra, o poeta não escapa do seu tempo e das injustiças sociais. Neste “Hidroavião”, Alberto Bresciani traz um olhar para os despossuídos, os refugiados, os famintos, as crianças abandonadas, armadas, mortas; as guerras, os tsunamis, os terremotos, as deflagrações suicidas.

 

“O país em que vivem

está encharcado de certa radiação

que compromete seus nomes,

sua compreensão”

 

O piloto deste Hidroavião não encontra seu lugar: na terra, a salvação poderia vir das águas; nas águas, é preciso salvar-se de um afogamento. No ar, há um tempo limitado para a duração dos combustíveis. O sonho de Ícaro persiste, porque não se realiza: enquanto plaina sobre a cidade, o piloto pode concluir que viver é um exercício de heroísmo silencioso e feito de repetições. A poesia buscará os lugares onde há luz, pois é dela o contraste: o breu. Alberto Bresciani sabe e voa para testar limites. Da experiência, traz aquelas constatações que só quem chegou perto, a ponto de se queimar, nos conta:

 

“Contra o sol,

não há luz”.

 

***

Hidroavião

Alberto Bresciani

Poesia

Ed. Patuá

2020


***

Este texto foi escrito como prefácio de Hidroavião.


quinta-feira, 11 de julho de 2019

Fundamentos de ventilação e apneia – de Alberto Bresciani


Fundamentos de ventilação e apneia – de Alberto Bresciani


Por Adriane Garcia


Ponho a cabeça para fora
da noite,
mas o que vejo
ainda não é dia.

(Alberto Bresciani)


Releio Fundamentos de ventilação e apneia (ed. Patuá), do poeta Alberto Bresciani. Dividido em duas partes, Ventilação espontânea e Apneia, o livro traz 76 poemas de grande beleza, riqueza de imagens, burilamento da palavra e profundidade.

A respiração, nosso primeiro movimento de troca com o mundo, inicia o ciclo inevitável de dar e receber. Recusar-se a esse exercício é encerrar o ciclo de vida como o conhecemos, ou seja, o ciclo respiratório. O pulmão é o órgão vital que nos submete ao contato sutil com o mundo. Se pela pele podemos evitar o contato indesejado, com o pulmão, a voluntariedade de não se comunicar com o mundo exterior significaria um suicídio, lento ou não.

Ocorre que a respiração, o exercício de dar e receber, pode ser harmônica ou desarmônica e seria muito fácil se aquilo que está dentro e aquilo que está fora permitissem fluir plenamente – estar vivo poderia significar ser feliz. Não à toa, na medicina chinesa, o sentimento relacionado ao adoecimento do pulmão é a tristeza. Não à toa, místicos e alguns cientistas alardeiam a prática da meditação (cuja base é inspirar, expirar) como solução para o reequilíbrio de nosso estar no mundo.

Ao escolher falar da respiração como centro temático de Fundamentos de ventilação e apneia, Alberto Bresciani, cuja poesia gira em torno da precariedade do humano, da incomunicabilidade, da inconsciência do sentido da vida (se é que o há) e da inadequação, vai direto ao ponto agônico. Viver e respirar são sinônimos para plantas e animais; animais diversos que, no ar ou na água, o poeta traz para figurar a linguagem, para transformar em literatura uma questão absolutamente universal.

Da apneia, depreende-se o movimento voluntário de ficar sem ar. Para alcançar outros territórios, o dos peixes, por exemplo. O ser humano pode treinar a apneia, ficar momentaneamente sem respirar – passar dos limites pode levar à morte – usando apenas o oxigênio já capturado nos pulmões e no diafragma para frequentar outros cenários, interromper a troca para alcançar outra visão. A apneia de Alberto Bresciani é a poesia. Em Habitat I, o nosso ato mais ancestral vai de encontro à origem da vida, que os poetas não sabem (e sabem):

Guardei sob a pele
todos os peixes, as conchas,
anêmonas, veleiros antigos
e recuperados aos sargaços

Ninguém conheceu
os oceanos que devoravam
as moças e os rapazes
de olhos castanhos

O silêncio da maré baixa
sabe o doce
de frutas selvagens,
um mundo híbrido,
primeiro, anfíbio

À custa de nomes marinhos,
sobrevivo
Aprendi a respirar na água.


Porém, contraditoriamente, respirar no nossa habitat “natural” surge como enorme esforço:

Então sobe, engole ar, arranca ar,
aceita armas, palavras de gente
distante, curativos no que se foi
Sobe, sai da água, tem asas
peixe-voador, tem forma, a chave,
uma porta, agora pernas, ouve,
são os verdes deuses da água,
sente a porta, pode e vai abrir.



A troca efetuada em um mundo marcado pela violência e pelo medo pode levar à síndrome de pânico, que se apresenta frequentemente sob a forma de falta de ar. A apneia também pode se dar de forma involuntária, durante o sono ou a vigília:

Surto

O que é essa trava
no meio da respiração?

Houve erro, desvio
do centro eletromagnético

orientador de tartarugas
homens e tubarões?

Dizem os manuais
que o surto não passa

de dez minutos
: o tempo certo

para cortar
os pulsos.

Trocar com o mundo é muito mais complexo do que dar gás carbônico e receber oxigênio. Toda a dinâmica da vida interior e exterior precisa encontrar um ritmo de menor dano. Não sabemos fazê-lo. Talvez a história humana seja a história da nossa respiração difícil, inconsciente, inconsequente, que torna o planeta mais e mais irrespirável. A tristeza atinge até os lemingues, que passam a saltar dos prédios, traindo o próprio DNA. Se Alberto Bresciani nos coloca junto dos animais não é apenas porque quer usar de metáforas, analogias, mas porque estamos juntos mesmo, com uma ilusão de separação. Porque somos animais com eles. Porque tanto em nós quanto nas girafas, nos bisões, nos moluscos há uma ordem de viver, ainda que ali na frente esteja o nosso predador, que quer viver também. Tanto o mundo natural quanto a civilização (cultura) que construímos são tomados pela violência. Saber por que trouxemos mais sofrimento do que o existente por si torna a vida humana indecifrável. Que tenhamos nos tornado nosso próprio predador é asfixiante:

Porco-espinho

Acantonado pela fera
na touceira seca,
pensa o porco-espinho

– era então só isso, noite e dia,
um passo atrás do outro
um passo atrás do outro,

esperando o que viesse
à frente, fugindo
do que ficou para trás.


Fonte vital, alguns minutos sem oxigênio e acaba a vida. O poeta é aquele que dá valor ao invisível, ao que nutre os corpos emocionais. Quanto negamos (e negamos a nós) na nossa relação com o mundo? Quanto da nossa tristeza, depressão, sofrimento envenenam o ar? Se a sanidade de nossos pulmões dependesse da sanidade de nossas trocas afetivas, talvez a alegria fosse um antídoto; antídoto, por sinal, amplamente recomendado pelo filósofo Spinoza, pois a alegria aumentaria a nossa potência para a ação e o pensamento.

Na sobrecarga dos dias, entre poemas que dão conta de nossa claustrofobia, o poeta nos diz de uma pausa para respirar: voltar-se para dentro, para o lugar onde ainda respirávamos na água.


Submersos


Submersos, somos leves,
com cabelos de algas

Nenhum fruto se iguala
ao que nada

Sim, morder a maçã
limpa os dentes

Mas escute um pouco
o arrepio que sobe

do fluxo cadenciado
das brânquias

No fundo
sempre fomos felizes.


***
Fundamentos de ventilação e apneia
Alberto Bresciani
Poesia
ed. Patuá
2019