sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Da existência enquanto gato – de André Ricardo Aguiar




Por Adriane Garcia


Um gato é um ser de encantamento. É preciso ter perdido muito da conexão com a natureza, com a vida, com o Mistério para não reparar em um gato, quando ele está por perto. Um gato não passa despercebido por quem está vivo. Talvez seja um bom teste: se vemos ou não um gato.

Escrever sobre um ser de encantamento e mistério, que figura na admiração e imaginação de nossa espécie desde os primórdios – lembramo-nos da deusa egípcia zoomórfica Bastet, corpo de mulher, cabeça felina – é tarefa que requer uma penetração silenciosa no outro mundo: o sutil. Quem sabe o mundo sutil não seja um outro mundo? Talvez seja este mesmo, mas isso só um gato poderia nos responder.

O gato, tradicionalmente, habita a companhia de escritores e bruxas – além de ser um dos animais preferidos das crianças – ou seja, gato é feito sob medida para os que intuem. Poetas podem ter tamanha predileção por gatos, que chegam a compará-los com poemas, pela imprevisibilidade de ambos. André Ricardo Aguiar, em sua plaquete Da existência enquanto gato (Fresta Editorial) brinda os leitores – e os amantes dos gatos – com vinte poemas em que o gato é (e como poderia deixar de ser?) figura soberana.

Alguns desses poemas já nasceram clássicos, como é o caso de Loa para um gato:

Loa para um gato

O gato, ele é todo uma antena
um clérigo de patas, uma ponte
qualquer para atingir o nunca
de esquivez – todo ele mil gatos.

Todo ele parte de si e nenhuma,
fácil de perder-se na sombra,
mover-se felinamente para o mistério
do quarto – que mal respiramos.

Não consigo sequer tocá-lo,
inútil é a ilha do seu nome.
Sua filosofia jamais suportaria
Os gestos bruscos, as fomes.

Não o temos. Um gato tem-nos.
E sua leitura é sermos lidos
por ele, sermos menos que uma
ideia felina, um chamado.

O acento interrogativo do rabo
diz que o bicho é uma pergunta
que não quer resposta. Seus olhos
de desdém são segundas garras.

Deixá-lo ser. Respira-se melhor o ar
volátil enquanto a lenda estremece.
Nem roca nem fuso no íntimo do lar.
Tece-se aqui um gato.

Em Da existência enquanto gato, André Ricardo Aguiar desenvolve uma poesia de fino humor, situações inusitadas como encontrar um gato após a morte e saber que o céu dos gatos é o inferno dos homens. Também há flagrantes deliciosos de pensamento: o gato nos desloca e desnuda, ensina que nosso modo de vida é inútil porque não aprende o vagar nem a verdadeira presença.

Os místicos sabem que os cães protegem o mundo físico e os gatos, o mundo espiritual. Afirmam que à noite, enquanto dormimos, o gato, animal noturno, filtra nossas energias negativas e, durante o dia, enquanto estamos em vigília, o gato dorme, livrando-se do que nos limpou. No poema Carta do gato ao possível dono, ele (eu-lírico-felino) nos avisa: “três quartos de um gato/ tem um deus vigilante”.

Há que se registrar que poemas não se salvam apenas pelos temas, poemas são, antes, a capacidade de trazer o tema à linguagem. André Ricardo Aguiar domina a feitura desse artefato. Sua poesia é exata, lúdica, instigante e imagética. Sua observação do mundo (no caso, do gato) consegue trazer versos como estes, em Sustentável: “o sossego contido na pupila/ como um sol que derrete”. No poema Cadeado, um caso curioso é não sabermos se o eu-lírico é um gato, ou se é o poeta em pleno zoomorfismo.

Lendo Da existência enquanto gato podemos formular perguntas como: ver um gato é vê-lo ou imaginá-lo? Parece muito mais que um gato nos vê: “Não menos fiel que o cão, o gato/ é o verdadeiro amigo imaginário.”

A boa dose de culpa no poema Il castrato, mostra que o “dono” não aprendeu muito com “seu” gato. Afinal, castra-o e apresenta justificativas e minimizações, muito mais para aliviar a consciência de si mesmo que para o gato. Atribui à castração o efeito de tornar o gato um monge, quando um gato o é de qualquer forma (e jamais carrega culpas).

Da existência enquanto gato pertence àquela poesia que aprisiona nossa atenção, que concentra nosso silêncio para que possamos olhar na tentativa de ver. Dos assombros que um gato acrescenta à nossa experiência está seu pulo, salto. Repare: um gato está e não está. Vinte poemas convidam para essa beleza e sensibilidade.


Como flagrar um gato caseiro
[A Marco de Menezes]

Deve-se começar por um movimento furtivo da tarde
e ir pondo aqui e ali móveis caseiros e um ar poroso
de seres que fazem uma impossível sesta em dia de trabalho.

Ou se o fundo melancólico do barulho do elevador
indicar que o dia existe por conta própria, também a sombra
dos livros irrequietos para uma próxima mudança

Pode-se dispensar a existência de Deus, mas não suas tramas
Azuis e alguma hipótese gotejante ali na cozinha. Um frêmito
(caça a um rato imaginário) ali nas dobras da louça lavada.

João Gilberto baixinho no rádio, uma maçaneta da porta
com defeito, e pouco a pouco, lentamente, almofadas e gato
se distinguem, o último pula ao chão com a mesma gravidade

de um astronauta já ciente de que a lua é toda sua:
a casa deserta.


***
Da existência enquanto gato
André Ricardo Aguiar
Poesia
Fresta editorial
2019

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Desnorteio – de Paula Fábrio





Todas as famílias felizes se parecem entre si;
 as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.”
Leon Tolstoi


Por Adriane Garcia


A sensação de terminar a leitura de um livro e imediatamente querer recomeçá-la, não por não ter entendido algo, mas para não perder absolutamente nada, para repetir a fruição de uma linguagem intensa e rica é um dos presentes que Paula Fábrio, com seu Desnorteio, oferece.

Desnorteio (ed. Oficina Paula Fábrio) foi o romance vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2013, ganhando agora a segunda edição. A primeira foi pela editora Patuá, em 2012. A história se passa em Sorocaba, interior paulista; porém, antes de falar da história em si, é preciso falar do labirinto.

Um labirinto existe para desnortear os que o percorrem. Desnortear é, sobretudo, perder o senso de direção, não saber para onde se vai, podendo estancar ou prosseguir, sem nenhuma garantia ou mapa. Podemos estar desnorteados por não possuirmos uma bússola ou porque nossa bússola não é confiável. Pode ser que tenhamos a sensação de andar a esmo ou que, caminho controlado, tudo deu em nada: erramos. Não compreender nos desnorteia. Labirinto é, por excelência, metáfora.

O mais famoso labirinto, o de Creta, construído por Dédalo, ainda contava com um recurso de crueldade maior, o Minotauro, o monstro metade homem, metade touro, que devorava aqueles que lhe eram oferecidos. Estar no labirinto é ser dado em sacrifício: mas por quê? Por quem? Para quê? Essas perguntas respondidas equivaleriam a descobrir o sentido da nossa existência. No mito grego, Teseu conseguiu derrotar o Minotauro com o fio de Ariadne, desenrolado ao longo do percurso.

É instigante quando um livro consegue fazer o tema encontrar a forma a ponto de parecer que não poderia ter outra. Não por óbvio, mas por exato. Desnorteio é labiríntico: seus múltiplos narradores vão dando a trama, capítulo a capítulo; de forma não linear, ao mesmo tempo em que tecem para o leitor as personalidades uns dos outros, em um misto de ficção e memória. A estrutura da narrativa é fragmentada, com capítulos curtos, ora na primeira, ora na terceira pessoa, utilizando algumas vezes recursos da dramaturgia. A autora chama o leitor para a imagem, fecha-o na cena, usa até mesmo os recursos da luz e da sombra teatrais, do foco, enquanto seu personagem/ator permanece estático ou se movimenta, à sua direção:

BENÉ. MAGRO COMO UM QUIXOTE. Sempre dizia natal é nozes, flores, straus, champanhe. Ríamos dele. Um riso que se travou em nossas faces. Chamaram a polícia. O rapaz é bobo. Está a seguir mulheres. Caso arquivado. Personagem em posição de descanso no meio do palco.
As luzes recaem no desvão do tablado. Um quarto estranho com um homem curvado na cama. (...)
Miguel entra em cena. Tem o rosto iluminado. Sua imagem abrindo a porta do casebre. (...)

De imediato, pode-se dizer que Desnorteio é a história de uma família. A família Oliveira. Na profundidade, porque assim são as histórias que de algo tão particular erguem o universal aos nossos olhos, Desnorteio fala do labirinto que é a condição humana; da falta de sentido de percorrê-lo. No meio do caminho pode haver miséria, loucura, doença, velhice e, fim das contas, a morte sempre nos espera. O romance trata tanto da complexidade psicológica quanto das consequências da restrição material. É também uma crítica da pobreza e um retrato dos miseráveis que abundavam o milagre econômico brasileiro da Ditadura Militar na década de 70.


Em uma cidade do interior de São Paulo: o Brasil. A escravidão, o racismo e o machismo na raiz; a década de setenta, os anos 80. Os dias atuais, em que uma narradora, da qual não sabemos o nome e que é caracterizada pelo tempo (tem quarenta anos), narra. É ela a voz que se impõe à dos demais, sem causar qualquer desequilíbrio na narrativa, e é ela quem puxa o fio de Ariadne. Depois disso, apresenta-nos, entre outros, seus tios Dôrfo e Bené, os loucos; Miguel, o vagabundo. Tia Teresa, a senhora de cabeleira branca que ensina a morrer; Vó Carmela e a prima Carminha, o pai e a mãe Oliveira, Inês, a cigana; o irmão engenheiro, Fábio e a dentuça Maria Luiza. Também os tipos populares dos quais a igreja se apropria depois de perseguir, como Nhô João.

Se a família é o que – no senso comum – nos norteia, fornecendo o amparo para a segurança e o pertencimento, Paula Fábrio, corajosamente, expõe o contrário. A tal família tradicional é, inúmeras vezes, disfuncional e, nesse caso, muito mais contribui para a nossa perdição que para o nosso encontro. O labirinto é também uma espécie de “matrioska” em que o labirinto maior (o da miséria, por exemplo)contém a família, que contém o indivíduo, que contém a sua própria individualidade. O corpo é outro labirinto. A família, quanto mais disfuncional, mais é lugar para estarmos perdidos, mostra Paula Fábrio.

Nesse micromundo, o familiar, onde estabelecemos nossas primeiras e talvez mais definitivas relações, treinamos e aprendemos a agir e reagir, a situar e demonstrar (ou não) nossas emoções; é o primeiro lugar onde amamos e odiamos, onde nos alegramos ou colecionamos mágoas. É o primeiro lugar que nos dá limites, podendo tanto nos fornecer asas quanto mutilá-las, em alguns casos para sempre. A mulher de quarenta anos, de Desnorteio, registra um momento singular (que é sempre em oposição àquela/àquele que nos cuida), o da percepção da identidade:

Naquela manhã, eu acordara cedo para fazer uma expedição ao local onde estava o objeto que despertara minha curiosidade inocente. Com o auxílio de um banquinho, pude espreitá-lo com autonomia. O espelho. Foi nesse momento que constatei, pela primeira vez, que eu não era minha mãe, nem mesmo a extensão dela.

Tratando as emoções de modo complexo – como elas são – Desnorteio acrescenta a ênfase ao incômodo. A família Oliveira, no seu modo disfuncional, produz pessoas que se incomodam entre si – não que elas tenham essa intenção – mas é o que fazem. O leitor sabe o motivo de cada um, mas não o personagem, que mesmo o mais coadjuvante é protagonista de si. Da pobreza, da violência doméstica, do preconceito, das doenças não tratadas, do incesto em segredo, do abandono (itens familiares tão familiares) seria raro tirar algo que não fosse o incômodo e a vontade de fuga. Essa vontade, inclusive, fica bem representada no irmão engenheiro que, conscientemente, trabalha para abandonar a família. Cada um a seu modo procura a fuga. O contraponto do incômodo é o alívio. Aquele ou aquela que incomoda devem ser deixados o mais longe possível, longe da vista, longe da sala de visita, longe da vida em comum, em um manicômio longe da cidade. Uma família disfuncional sempre lembra o que se quer esquecer. Não à toa, é conhecido o sentimento de alívio quando um parente de relacionamento difícil, que nos envergonha ou que dá muito trabalho, morre.

O resultado por sentir alívio pela morte de um familiar ou mesmo desejar a tragédia sobre um dos nossos, como o desejou explicitamente Dôrfo, gera a culpa. A culpa tanto pode vir em forma de tormento psicológico quanto na materialização de uma lata de goiabada ou na doação de alguma pequena quantia de dinheiro. É assim que Maria Luíza pede desculpas por ter superado a pobreza, enquanto seus entes queridos estão na mendicância. Famílias têm espaço para muito arrependimento e quando o amor e a conveniência estiverem na mesma batalha, pode bem ser que a conveniência ganhe.

Paula Fábrio traz em Desnorteio o amor torto das famílias disfuncionais, ou aquilo que se naturaliza chamar de amor – ou que a cultura manda chamar de amor – mas que olhado friamente, poderia ganhar outros nomes. Miguel, por exemplo, parece amar de maneira torta. Assim como Dôrfo só ama o proibido e sua violência pode advir do fato de lhe ser proibido o amor ou a fala sobre esse amor. Miguel talvez seja uma janela de redenção para o leitor observar, pois afinal, o amor aparece nem que seja de relance. Alguns podem achar sentido em muito infortúnio e um pouco (avaro) de amor; sentimento que redime, mas parece insuficiente diante de tanta desolação. Como é que se aprende a amar em famílias que desamam? Como se explica a frouxidão dos laços entre os irmãos depois que o pai e a mãe morrem, senão pelo amor obrigatório?

Ler Desnorteio é penetrar no esforço de se localizar no labirinto, de percorrer-lhe as partes para vê-lo de cima, em panorâmica. Para se entender a própria história é preciso que se “Recoste o ouvido sobre o azulejo e ouça. Está tudo lá”. Essa a escuta que Desnorteio proporciona e incita, um eco de sabedoria sobre pensar a vida em nível profundo, ter a coragem de remontar os destroços, imaginar as partes que faltam, percorrer os caminhos de perder-se, embrenhar-se no passado para que o presente possa ser libertado. Paula Fábrio constrói uma narrativa instigante, que demonstra seu olhar arguto para o mundo e para as relações. Olhar sem julgamento, sem concessões, cru, mas não sem compaixão:

É vital saber. Penetrar-lhes o pensamento. Capturar as peças que faltam. Completar o neurótico quebra-cabeça. Parar o tempo, organizar as falas, estabelecer o conforto da lógica. E as mãos permanecem atadas. E as palavras não servem mais. Aos quarenta, as perguntas se moldam à falta de respostas.

Desnorteio dá de cara com o Minotauro e pelo fio da palavra escapa.

***
Desnorteio
Paula Fábrio
Romance
Ed. Oficina Paula Fábrio
2ª edição
2019











sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Dicionário de imprecisões – de Ana Elisa Ribeiro





Amor
Substantivo masculino mas de todos os gêneros, singular
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Acalmar os ânimos. Arrefecer.
Velocidade de cruzeiro.
Sujeito a derivações, desvirtuações, vícios e fim.
Ver paixão.”




Por Adriane Garcia


Já dizia Mario Quintana que “todos os poemas são de amor”, mesmo se um poeta falar de um gato. Foi esse o verso que me veio à memória enquanto ainda estava nas primeiras páginas do Dicionário de imprecisões (ed. Impressões de Minas), de Ana Elisa Ribeiro. O decorrer da leitura confirmou a declaração do querido poeta gaúcho, que certamente teria gostado do humor e da ironia fina no livro da autora, coisas que lhe eram tão afeitas em poesia.

Partindo de verbetes, a poeta escreve seu dicionário afetivo. Escolhe as palavras que irão compô-lo e constrói poemas com um ritmo peculiar, e isto é muito interessante: que grande parte do livro faz o poema dançar ao som do que sabemos ser leitura de dicionário; porém quem acompanha a poesia de Ana Elisa Ribeiro sabe que sua voz poética vem nos mostrando uma habilidade de falar sério e brincar, no mesmo poema, ao mesmo tempo, com tema e forma. Falando em habilidade, neste dicionário, os fechamentos dos poemas são como fagulhas acendendo o pensamento, ora para confirmá-lo, ora para traí-lo: poesia repleta de inusitado.


Também é de se notar que em Dicionário de imprecisões a poeta traz seus conhecimentos da área de linguística para a poesia, assim como estabelece o contrário. É brincando com a organização que ela desorganiza, seu campo de estudos é invadido e invade, valida e invalida, define e indefine. O resultado é um livro delicioso, que alcançará várias camadas de sensibilidade, efeito da poesia que sabe se aproveitar de todos os meandros de uma palavra.


Se a poeta fala de amor, também fala de política (“a América do Sul padece/ da síndrome de Estocolmo?”), da experiência de ser uma mulher, sobretudo uma mulher que escreve – fala de feminicídio; fala da maternidade, da própria página em branco, antes do poema; do objeto livro, do sentimento medo; sobre as definições e indefinições dos gêneros quanto à sexualidade, afinal, “nos dicionários isso é mais simples do que na vida”. Os poemas chegam a abranger o grande problema nacional da leitura (“No país, vamos precisando de óculos/ que ajudem a interpretar”), assim como em um deles, Ouro Preto, retoma a fotografia, tema de seu livro anterior, Álbum. Curioso e bonito: Saudade ganha um lugar especial no dicionário.


O livro, com projeto gráfico muito bonito de Elza Silveira, conta com ilustrações de Wallison Gontijo e traz, ao final, um índice curioso, em que o leitor, só após a leitura dos poemas, dá-se conta de que leu um dicionário incompleto em que algumas letras iniciais não são contempladas. Esse é um ponto interessante, pois a poeta, quando definia um de seus verbetes, “Dicionário”, já havia nos avisado que nenhum dicionário é capaz de abarcar toda a experiência de um sujeito e, por isso, um dicionário “deve ser lido com intensa fé”. Lemos o dicionário de Ana Elisa Ribeiro com fé, e até vermos o índice, acreditamos que tudo está ali – então que nos deparamos com a falta de que a poesia cuida.


Voltando ao primeiro parágrafo e ao verso de Mario Quintana, Dicionário de imprecisões é um livro sobre o amor. Por isso dedica uma página para definir “Agora”. Pois o amor é urgente. Já a palavra “urgente” não entra em seu dicionário, porque os bons livros são aqueles que deixam alguma coisa para o leitor escrever.


Escadas
Substantivo feminino aqui no plural


Escalera é vocábulo do espanhol para nossa escada.
Escadas são para escalar, por supuesto,
e me atraem as coisas mais literais.
No entanto, escadas podem servir para sentar e descansar ou
sentar e chorar, como fiz quando entreguei meu filho ao pai
pela primeira vez.
As escadas laterais do edifício em que trabalho servem para
amantes telefonarem para suas e seus amores,
além de abrigarem casais fazendo sexo,
às vezes, arriscando, amorosamente, suas reputações.
Nunca ouvi dizer que tenham se arrependido.






Filho
Substantivo, aqui masculino e sujeito a plural


1. Diz-se daquele que nasce das entranhas de alguém.
2. Diz-se daquele que se forma a partir da matriz biológica
de seus pais e nasce das entranhas da mulher.
3. Diz-se daquele que pode ser adotado por pessoas
dispostas ao amor.
4. Diz-se daquele que provê céus e infernos a outrem.
5. É extremamente comum que tenha como mãe uma puta.
6. É também comum que não sejam mesmo putas suas mães.
7. Os pais escapam a essas acusações.
8. Os dicionários não podem definir essas relações
satisfatoriamente.


***
Dicionário de imprecisões
Ana Elisa Ribeiro
Poesia
Ed. Edições de Minas
2019
Ilustrações Wallison Gontijo
134 páginas
R$ 35,00










quarta-feira, 7 de agosto de 2019

O evangelho segundo Jesus Cristo - De José Saramago





Por Adriane Garcia


Depois de mais de uma década, peguei O evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago, para reler. Há muito que eu desejava esse reencontro e a hora não chegava. Finalmente pude experimentá-lo.

A experiência de minha primeira leitura, que foi por volta dos meus trinta anos, havia sido arrebatadora e transformadora. O livro de Saramago tanto mexeu comigo porque minhas bases de educação familiar foram cristãs, quanto me causaram o alumbramento de ver até onde a literatura poderia chegar, de como a literatura é um território livre e sem limites. Já na releitura, pude experimentar detalhes que só podemos aproveitar depois de já ter vencido a ansiedade da história em si.

A narração usa como base a mesma dos evangelhos bíblicos, porém, Saramago se utiliza de todas as omissões bíblicas – como a infância e juventude de Jesus, por exemplo –, os desaparecimentos nos textos sagrados, a falta de detalhamento dos personagens para aprofundar situações e todo um mundo psicológico que a mitologia não desenvolve. Sem dúvidas, Saramago conserva Jesus Cristo como o verdadeiro cristão – talvez o único – aquele que estava ao lado dos homens, tendo-lhes compaixão pela condição humana; e coloca Deus no papel de algoz supremo. O Pastor, nome que o próprio Lúcifer se dá, é a figura ambígua, o lado reverso da moeda sem o qual Deus não existe, mas ainda assim mais próxima dos homens, mais compassivo que Deus.

Em um cenário de há mais de dois mil anos, O evangelho segundo Jesus Cristo traz reflexões de nosso próprio tempo e mostra as raízes de uma sociedade ocidental preconceituosa, enraizada na misoginia e na xenofobia e cuja postura religiosa serve muito mais para aprisionar do que para libertar, em um cristianismo que se trai quando não prima por justiça social e que demonstra, em seus quadros, tanto de lideranças das várias vertentes religiosas cristãs, quando entre os fiéis dessas igrejas, a marca da hipocrisia.

O livro é magnífico e na segunda leitura fica ainda melhor. Deliciosas heresias que fisgam o pensamento, colocam o Deus do Antigo Testamente como um rei nu e clamam para que o homem compreenda a tragédia do obscurantismo.

Como se se movesse no interior da rodopiante coluna de ar, José entrou em casa, cerrou a porta atrás de si, e ali ficou encostado por um minuto, aguardando que os olhos se habituassem à meia penumbra. Ao lado dele, a candeia brilhava palidamente, quase sem irradiar luz, inútil. Maria, deitada de costas, estava acordada e atenta, olhava fixamente um ponto em frente, e parecia esperar. Sem pronunciar palavra, José aproximou-se e afastou devagar o lençol que a cobria. Ela desviou os olhos, soergueu um pouco a parte inferior da túnica, mas só acabou de puxá-la para cima, à altura do ventre, quando ele já se vinha debruçando e procedia do mesmo modo com a sua própria túnica, e Maria, entretanto, abrira as pernas, ou as tinha aberto durante o sonho e desta maneira as deixara ficar, fosse por inusitada indolência matinal ou pressentimento de mulher casada que conhece os seus deveres. Deus, que está em toda a parte, estava ali, mas, sendo aquilo que é, um puro espírito, não podia ver como a pele de um tocava a pele do outro, como a carne dele penetrou a carne dela, criadas uma e outra para isso mesmo, e, provavelmente, já nem lá se encontraria quando a semente sagrada de José se derramou no sagrado interior de Maria, sagrados ambos por serem a fonte e a taça da vida, em verdade há coisas que o próprio Deus não entende, embora as tivesse criado.” (p. 26/27)

***

O evangelho segundo Jesus Cristo
José Saramago
Romance
Cia das Letras


quarta-feira, 31 de julho de 2019

O estrangeiro – de Albert Camus





Por Adriane Garcia


Romance inesquecível do escritor franco argelino Albert Camus, O estrangeiro é narrado em primeira pessoa, pelo protagonista, o jovem Meursault. A história começa com a chegada de um telegrama, avisando-lhe da morte da mãe, que mora em um asilo, noutra cidade. Deste fato em diante, a reação do protagonista a essa notícia, seus pensamentos a respeito começam a causar estranheza no leitor, pois que Meursault não se comporta segundo os ditames da sociedade.

Meursault não tem sentimentos extremos, e o que se nos apresenta se parece mais com a indiferença; porém, mesmo a acusação de indiferença não poderia ser de todo verdadeira, pois Meursault sente de outra forma, manifesta-se segundo essa forma de sentir e tem uma sensibilidade aguçada para os elementos da natureza – os lugares são descritos como beleza convidativa, como se o ser humano destoasse do idílico quando simplesmente não vive essa natureza. Por exemplo, na cena em que Meursault toma banho de mar com a namorada, tudo é tocado por luz e leveza.

Mesmo quanto ao enterro da mãe, ele vai ao asilo, vela a mãe, se faz presente no enterro, faz o que tem que fazer, exceto fingir a emoção que não sente ou que não se uniformiza com o protocolo. Se não se importasse com nada, sincero como é, certamente não teria se dado ao trabalho de ir.

A primeira parte do livro (dividido em três) mostra o cotidiano de Meursault. Os dias seguintes à morte da mãe, a vida que continuava dentro da “normalidade”, namorando, fazendo amigos, indo ao trabalho, ao mar, aos passeios. Até que no segundo capítulo um trágico incidente acontece; o que nos leva à terceira parte. O julgamento.

No julgamento, o leitor percebe que todas as cenas e sentimentos que foram demonstrados no primeiro capítulo tinham importância crucial para se localizar no julgamento. Aqui, a reflexão sobre a condição humana, que já se vinha fazendo, aparece com mais contundência. Meursault continua escolhendo não mentir.

Expoente da corrente filosófica do Existencialismo, Albert Camus acreditava que a condição humana era tão absurda que só cabia como reação digna rebelar-se. É o que faz seu personagem. Meursault olha para a realidade com distanciamento, rebela-se mudamente, com os seus “não sei” e “tanto faz”. A vida, bem demonstra o exemplo de Meursault, não permite qualquer controle ou sentido; abandonamos e somos abandonados; a própria natureza ao nosso redor nos ignora.

Vale lembrar que O estrangeiro é escrito em uma época absolutamente sombria, durante a Segunda Guerra Mundial e que o próprio Albert Camus estava estrangeiro em Paris; depois, voltando à Argélia.

A grande habilidade do autor neste livro é dar a narrativa com tanta naturalidade que o absurdo se amplia. Ao fim, o leitor fica intrigado com o personagem; talvez porque ele tenha coragens que não temos, mas sentimentos que reconhecemos muito bem.

***
O estrangeiro
Albert Camus
Tradução de Valerie Rumjanek
Romance
Ed. Record



quinta-feira, 18 de julho de 2019

Extremamente barulhentos certos assuntos, por exemplo – de Pedro Bomba



Por Adriane Garcia


Muita poesia em sessenta páginas: Extremamente barulhentos certos assuntos, por exemplo (editora Urutau) traz 23 poemas que mantém o leitor em alerta. Sim, alerta. Da poesia de Pedro Bomba nenhuma palavra pode ser perdida; nelas, no encadeamento dos versos e sentidos, a surpresa, o alumbramento, o susto se tornam parte do jogo da leitura.

O livro, já no primeiro poema, parte da ideia quântica de energia e probabilidade. A palavra é esse “quantum” que desperta outros, motor e criação. O que parece aleatoriedade chega no exato lugar que o poeta premedita, dando a impressão de que todo o caminho trilhado só poderia ter dado ali. Ou não. Na verdade, alquímico e brincante, o poeta poderia ter nos oferecido o resultado que quisesse, mas sempre faz isso de modo inusitado. É esse trabalho que Pedro Bomba utiliza em toda a coletânea, no qual a palavra tem energia suficiente e surpreendente para trazer outra:

aqui instaura-se a imagem microscópica da matéria quân-
tica em escala subfrontal descritas tal qual o fenôme-
no macroscópico diversos casos apontam que a palavra
quântica quer dizer a quantidade na mecânica a palavra
refere-se a uma concordância discreta que a presunção atribui
a certas racionalidades:

1. como a energia de um elétron contido num átomo em repouso
2. como a energia de seu dialeto contido num átomo de meu
pouso

(...)”


Há um descompasso entre o poeta e o mundo. Na “gruta de chauvet” a primeira pintura rupestre registra o homem inconsolável e inconstante. A arte é remédio e sintoma e, também por ela, o poeta registra sua crítica contumaz ao capitalismo. Ao ser que não possui propriedade alguma, a palavra surge como representação – um modo de possuir a si, sua própria história. Os poemas guardam coisas que não temos ou nos foram tiradas e que passam a ser nossas. Em “desenho” A menina indígena desenha sua casa arrastada pelo trator, toda a vida se recria em seu desenho. Tanto a injustiça social quanto a violência contra os vulneráveis permeiam os mesmos versos cujo lirismo alcança imagens de beleza e desconstrução do senso comum:

à margem da br dois quatro sete quilômetro cinco
deita o desenho feito pela criança da aldeia

aqui descansa nossa casa ou a representação dela

observem nesta imagem como olham os animais
são olhos espantados embora estejam de costas
sei pelo cheiro colorido em seus focinhos (...)”


Poeta inquieto, nos versos de Extremamente barulhentos certos assuntos, por exemplo, a insaciedade da mente, a busca maníaca pela palavra, pelo verso, pela própria poesia, a necessidade de nominar as coisas, os gestos, os atos se tornam também tema. Não há função alguma para a poesia dentro da engrenagem colocada (eis sua rebelião inata), esta que nos rouba essência; essência que nem chegamos a descobrir qual é:

(…) penso como seria
se a gente não precisasse ser
alguma coisa nessa vida
digo
seria como pensar
se na vida a gente fosse alguma coisa
sem precisar ser (…)

Pedro Bomba lança um olhar para aquilo que se recusa a participar do que está posto, para os que podem ser confundidos com os loucos ou os descartáveis: um homem que dorme no colo de uma estátua ou um pano de chão feito com uma camisa velha. Também para os rebeldes, poetas da existência, como aquele personagem do poema “distraiu jesus e roubou um carro”, uma espécie de Exu, mensageiro que instaura a quebra no cotidiano e a profanação na vida comezinha da cidade. Cidade que tanto pode ser imaginária quanto real, tanto a cidade de origem, quanto a cidade onde se está.

Também sobre a geografia afetiva, o poeta se debruça. Nascido em Aracaju, Sergipe, e hoje vivendo em Belo Horizonte, Pedro Bomba traça seu mapa tecendo referências à cidade natal e aos “viadutos” internos; pontes que o ligam aos lugares para onde foi. O poema “mapa de uma cidade impregnada” é cheio de lembrança e saudade:

(…) 2. viver vinte e sete anos dentro da cidade que te levou ao país
pela procura de algo de alguma capital de algum mundo no
interior da poesia. (...)

Ler Extremamente barulhentos certos assuntos, por exemplo é ficar por instantes absorvido pelo poder da poesia. Um livro de encontro, desses que encontramos a humanidade de alguém na nossa humanidade.

No mundo quântico, não existe separação e a forma é uma espécie de ilusionismo dos sentidos; mas sem os sentidos, não haveria o que chamamos de mundo, apenas um mar de átomos. O mundo precisa de nós para ser mundo? Se tudo que existe é resultado de nossas abstrações (nem mesmo o dinheiro existe – crença na qual todos “combinaram” acreditar), por que vivemos tão miseravelmente e não criamos abstrações melhores? A poesia é um desses fazeres inúteis que procura dar conta dos nossos sentidos duvidosos, dos nossos mistérios profundos, daquilo que não sabemos – linguagem – se é maldição ou bênção.

Pedro Bomba contribui com sua rebeldia e estudo, inversão e potência, irreverência e refinamento, emprestando à palavra sua mente, corpo e voz. Poesia para ler e reler.



morar na literatura

resolvemos o problema com a dívida do banco
decidimos ontem que não iremos pagar

faremos poemas eletrônicos nos extratos e saldos
e depositaremos nos caixas

os funcionários lerão os versos sem fundos
nada escrito nada nadinha só viagem da minha cabeça

resolvemos ontem que vamos morar juntos no mesmo barco
eu confessei sobre meus medos e lemes e cais meus sais

falei de quando quebrei o braço três vezes
e como um empurrão é uma coisa potente

falei do murro na cara que levei do ex namorado da menina
que eu me apaixonei na escola, os óculos caíram
e eu não vi mais nada

o bom de apanhar numa briga é que para o resto da vida
a possível vingança será instaurada

mas eu prefiro as noites e os encontros
o prato que se come frio é demais para os meus sentimentos

resolvemos correr riscos e eu opto por um apito
ao invés do medo
o som do apito vai e volta

você chamou atenção
isso que vai e volta é um boomerang seu doido

pode ser também o estado permanente
dos últimos três anos afirmei
o qual faço poemas sobre coisas
que não existem palavras revuntáveis

coisas que eu vou longe demais
e no fim volto como se estivesse recitando poemas
para uma multidão de pessoas

elas me olham eu as vejo
e quero que todas elas te conheçam e
criem carinho por sua fome contínua
por preferir verde e roxo ao invés de propriedade privada

resolvemos morar na literatura um do outro
é isso que esse poema quer dizer

é algo gravíssimo, um erro, um equívoco
um descuido literário

morar na literatura um do outro é como confiar no vento
quase ninguém consegue enxergar, mas é óbvio que está aqui
vejam como balançam os versos de meu cabelo.”


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Extremamente barulhentos certos assuntos, por exemplo
Pedro Bomba
Poesia
Editora Urutau
2018