quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Aulas de olhar de novo – Uma leitura de Fábulas portáteis




Por Adriane Garcia


Por esta semana, estive lendo o livro Fábulas portáteis (Patuá, 2016), de André Ricardo Aguiar. Minto, por esta semana, estive com um portal nas mãos, cujo formato era de livro, mas, na verdade, o que eu fazia era atravessá-lo, nos tempos intermitentes em que havia tempo para ler; atravessava-o e me dirigia (era dirigida?) para lugares, interior de objetos, e situações muito insólitas.


André Ricardo Aguiar, seja na sua poesia, seja na sua prosa (repleta de poesia), é um autor da imaginação. Seu cérebro, quando escreve, pensa na rotação infantil, mas utiliza todas as ferramentas que o adulto lendo (Cortázar, Kafka, Ionesco, Becket...), aprendeu. O resultado é um trabalho inventivo, lúdico, potente, que, parecendo brincar, revela as várias facetas da vida, e elas não são todas alegres.


Há um certo disfarce nos contos e crônicas de André Ricardo Aguiar, uma espécie de filtro sobre filtro, camadas. Por baixo delas, por baixo do espanto, Aguiar está nos dizendo que a vida é muito pouco se, como nos ensina Cecília Meireles, não for reinventada. Talvez seja mesmo insuportável.


O livro tem oito partes, intituladas Sofá, Despertador, Ovo, Cama, Chuveiro, Escada rolante, Tamanduá, Sombra. Mas o leitor não pense que o sofá, o despertador, o ovo, a cama, o chuveiro, a escada rolante, o tamanduá e a sombra são os nossos velhos inertes conhecidos assim nominados. Claro que não. Os contos que compõem cada parte revelam uma criatividade capaz de animar as coisas inanimadas e fazer cenários e objetos tornarem-se protagonistas de histórias.


"Despertador
Pequeno terremoto sonoro, estojo onde se guarda o susto acionado por hora marcada e violento enfarte de seu mecanismo lógico-neurótico que pode ser desativado por sistema de travamento ou súbito murro e palavrões." (p.31)


Entre o insólito, o terrível, o humor, o trágico, o mistério e o sonho, Fábulas portáteis leva o leitor a olhar para a realidade com olhos de primeira vez; olhar que só é comum nas crianças e nos poetas. O livro de Aguiar é um convite ao mágico e, ao mesmo tempo, por oposição, a uma reflexão sobre a realidade e seu deserto. O que Aguiar faz neste livro, para além de nos divertir e assombrar, para além de nos transformar em projetores de filmes surrealistas que se passam dentro de nossa própria cabeça, é que nos perguntemos:
Quando foi que perdemos isso? Quando foi que, de modo tão infeliz, crescemos? Quantas vezes nos deixamos esquecer da nossa capacidade de ver através dos espelhos?


Um livro, sobretudo, delicioso.


Composição infantil


Eu capturava réstias de sol com vários espelhinhos; consegui guardar uma delas, sem o consentimento da lua, altas horas da noite. Em compensação, na manhã seguinte, vi uma réstia de sombra, de sol apagado.
Eu inventava doenças imaginárias. Uma vez peguei febre pelo cabelo. Causava arrepio e palavras que saíam de mim que ninguém entendia. Na verdade, causavam Intendimento, com i mesmo. De outra vez, fui buscar num quarto lotado de fotos antigas uma doença chamada Mnemonia. Lembrava de coisas da minha vida que não tiveram tempo de acontecer, mas que aconteceriam se eu tivesse mais tempo. Com doze anos, lembrei o suficiente para criar a história de três cidades, incluindo moradores, genealogia, etc. Mas a doença que mais me derrubou foi susto familiaris. Eu me contagiava de tios, primas, avós, tudo dos séculos de trás e em cada tosse ou espirro me nasciam mais parentescos.
As senhoras, ao fim da tarde, varriam folhas e formigueiros. Os moços varriam conversas e causos. O rio varria a água. A tarde varria o sol. Só eu vivia nos invernos da casa, contando quantas formigas, quantas gotas d’água fugiam para o indefinido. Minhas ocupações do ócio levavam horas. Pensava em sofás que sofriam de asma, almas do outro mundo dentro da cisterna, punhos de redes que esmurravam paredes.
Penso que adoeci de vida, quando nasci.”
(p. 105/106)
***
Fábulas portáteis
Contos
André Ricardo Aguiar
Ed. Patuá
2016



quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Caótico para retratar o caos – Uma leitura de Arame farpado





Por Adriane Garcia

(...)
É certo que nasci para nada e nascer para nada é libertador:
nascer para nada não me exige títulos,
não me assinala vencimentos,
não subtrai o que sou.
(...)” p. 38

Conheci o trabalho de Lisa Alves pela internet. Li alguns poemas da autora, espalhados por blogs e revistas deste infinito universo virtual. De um poema que lia, era levada a outro, motivo pelo qual, fui em busca da poeta e seu livro Arame farpado (Lug editora, 2015), cuja primeira crítica eu já havia lido no recomendado A nova crítica, de Sérgio Tavares.

O que havia me chamado a atenção no trabalho de Lisa era a linguagem tão contemporânea, direta, aliada a um vocabulário rico (sem ser, de forma alguma, anacrônico) e cheio de referências (literárias, históricas, geográficas, cinematográficas...). Ao mesmo tempo, uma rebeldia e uma coragem. A rebeldia de assumir o mundo que é o mundo e uma coragem de denúncia e de reflexão sobre o caos. Ao encontrar o livro, vi que essas características acompanhavam toda a sua coletânea de poemas.

Arame farpado, na própria forma, é um tanto irregular. Até mesmo o ritmo, a maneira de utilizar ou não estrofes, espaçamentos, leva, ora a momentos melódicos circulares, ora a momentos sincopados. No princípio, tive mesmo um incômodo, alguns de seus poemas, abertamente políticos, poderiam beirar o panfletário – mas ela sabe não atravessar a linha tênue  há algo que foge um tanto do que nos acostumamos (apesar de todas as vanguardas, hoje antigas) a considerar como “limpo”, “lírico”, na poesia “correta” e tantas vezes insossa. Mas a verdade é que Lisa Alves faz em Arame farpado um retrato, um grito, absolutamente coerente com o país onde escreve (a terra do sol de Glauber), com o mundo que chega à sua percepção, à nossa percepção, o mundo terrível dos atentos. Como a poesia, estando viva, não se sujaria com um mundo destes? Para que serve uma poesia que não tem consonância alguma com o tempo em que é escrita? Um bom livro nos faz perguntar muitas coisas.

Com inteligência e sensibilidade, Lisa Alves nos leva à viagem insólita de pensar e ver o planeta que habitamos; muitas vezes, faz isso de modo inesperado – sujo e exuberante. Sua liberdade de elaboração (aliás, liberdade é uma palavra-chave na poesia da autora), bem articulada ao seu/nosso tempo, pode tanto nos colocar nas Minas do Barroco, cheias de conservadorismo e tradição, quanto na Faixa de Gaza, onde crianças palestinas são assassinadas por Israel, com a mesma frieza e pragmatismo com que judeus foram assassinados pelo Nazismo.

Na geopolítica, sua crítica é direcionada ao capitalismo e seus tentáculos, como a manipulação midiática ou o uso político-social das religiões, não escapando orientações de esquerda ou de direita, ou mesmo a imundície de Brasília. O espírito em Arame farpado é anárquico. No mesmo cenário, Lisa utiliza-se de seus poemas mais confessionais para falar de amor e, por esta via, expressar-se quanto às questões de gênero, a condição da mulher e sua ancestralidade, a condição da mulher homossexual e o machismo em nossa sociedade. A vida e a morte não poderiam escapar à sua poesia. E não escapam.

Construída com um discurso farpado, agressivo, de resistência, há um tipo sutil de delicadeza nos versos de Lisa Alves, muito bem retratados pela capa de seu livro. Palavra de aço, vontade drummondiana de ir de “mãos dadas”.


[o descobrimento]

Eles caminhavam em busca de uma terra
com rios, lagos e água abundante.

Eles defendiam-se do sol com tecidos
especialmente feitos para proteger a pele da invasão ostensiva dos raios.

Eles construíam casas em qualquer local
propício para uma nova cerca.

Eles não cansavam, eram dromedários
capazes de seguir em frente até darem de cara com o final.

Eles não choravam, eram hienas, seus
lamentos pareciam risadas com o poder
de afastarem os inimigos de perto.

Eles não se machucavam, eram elefantes
capazes de segurarem um dos seus em
qualquer momento de dificuldade.

Eles não fugiam dos obstáculos, eram macacos,
pulavam e suportavam qualquer tipo de superfície.

Eles mergulhavam no mundo mais profundo,
eram peixes e desbravavam qualquer oceano
em busca de alimento e abrigo.

Eles nos descobriram e até hoje não encontramos
o antídoto certo para esse resfriado.



[o tear de gaza]

ATO I: A AGULHA

Contaram que
em Gaza duas crianças
brincavam de tabuleiro
quando a Estrela de Seis Pontas
expediu um míssil que emudeceu a casa inteira.

(vermelho, cinzas e fogo)

A mãe (em seu tear) acolheu
a notícia através do padeiro e logo após
cravou uma agulha no coração (repetidas vezes)
enquanto proferia uma maldição repleta de pranto:

Oh, filhos de Israel!
Não haverá espigões para resguardarem vossas rosas.
A agulha que me lança
nos braços dos meus antepassados
derramará veneno sobre
a ceifa futura e
teus filhos não terão mais mãos
para brincarem com tabuleiros de usura”

Dizem por aquelas trincheiras que
para cada filho assassinado em Gaza
há uma maldição professada contra os seus inimigos
até o ultimar de uma quinta geração.

ATO II: SILENCIADORES

Pelo cadáver lançado
a mais de cem metros.
Pela pegada de sangue
da mãe rebelada.
Pelos filhos escoltados
ao futuro orfanato.
Convocamos um minuto de revolta por Gaza,
pois o silêncio, até hoje, só serviu de munição.

ATO III: ANTROPOFAGIA

Dois foguetes
para cada “Não” inconfesso.
Devorarei os ossos de meus filhos
quando não sobrarem mais suprimentos e
para que não se tornem iguaria basilar do Inimigo.

Insurgente alma,
durma nessa carne
nomeada corpo
e não desperte mais pelas manhãs – nem labute
ao lado de nossos fantasmas.

Gaza, eu não desejo mais nenhuma noite.



[non cacare nec abieris rubus]

Ergo uma religião que sangra metáforas.
Tracejo a pele com a pena que pagas por viver.
Favoreço toda crença em figuras inertes e inanimadas.
Minha cabeça gira 360 graus e flutua em nuvens artificiais.
Silício reconstitui meu útero – menstruo alianças binárias.
Fluir é desastroso na passagem para o nível gasoso de ideias coletivas.
Permaneço então na base de uma pirâmide de palavras obsoletas que
não cagam e nem desocupam a moita.

***
Arame Farpado
Lisa Alves
Poesia
Lug Editora
2015



terça-feira, 25 de julho de 2017

Os sinos da agonia - deste grande autor que é Autran Dourado



Por Adriane Garcia

Termino de ler Os sinos da agonia, de Autran Dourado. Li na edição da Francisco Alves Editora, edição velhinha, letra pequena, espaço de entrelinhas ruinzinho, mas nem isso foi capaz de tirar minha avidez constante na leitura.


O livro é genial, e vale conhecer um resuminho da mitologia que lhe dá uma boa chave de leitura (não que seja necessária, só enriquece; a narrativa, por si só, já conquista o leitor).


Minos, o rei de Creta, casa-se com Persifae e tem vários filhos, entre eles Ariadne e Fedra. Minos recebe um touro de Poseidon, mas tinha que sacrificar esse touro. Encantado pelo touro branco, ele sacrifica outro bovino, enganando Poseidon. Guarda o touro. Mas Persifae, a esposa do rei Minos, apaixona-se pelo animal e quer ter uma relação sexual com ele. Para isso, chama Dédalo (aquele mesmo, o pai de Ícaro) para lhe fazer um disfarce de vaca (!). Da relação de mulher e touro nasce o Minotauro. Minos esconde o filho bastardo da esposa no labirinto (também feito por Dédalo - aliás, parece que Dédalo é que é o problema de metade da mitologia grega). Para acalmar a fera, sete jovens virgens todos os anos têm que ser jogados para o Minotauro se alimentar. Teseu (que era um homem casado com uma amazona, pai de um filho casto chamado Hipólito) entra na história porque se oferece para acabar com essa carnificina. Ao tomar contato com Minos, conhece suas filhas (Ariadne e Fedra) e se apaixona por Ariadne, que lhe dá um fio para que não se perdesse lá dentro. Ele mata o Minotauro e, na volta, abandona Ariadne e fica mesmo é com a irmã dela, Fedra. Casam-se. Fedra vai morar com Teseu, quando se apaixona por seu filho Hipólito, que recusa a relação incestuosa, motivo pelo qual inventa para o marido que Hipólito quis ter relações sexuais com ela. Teseu castiga o filho, que vai para longe, morrendo no mar (um acidente causado por Poseidon). Fedra se mata logo em seguida.


Autran coloca isso no século XVIII, nas Minas. Constrói uma história que envolve o racismo e as forças sociais das Minas mineradoras em decadência. Malvina, João Diogo Galvão, Gaspar e Januário, além de seus escravos Isidoro e Inácia são os personagens que, para além de personificar os mitos gregos, mostrarão os conflitos individuais (tão caros ao mundo autraniano), econômicos e sociais no imbricamento da vida.


A narrativa se desenvolve a partir da troca de protagonismos. Durante a leitura, em algum momento, lembramo-nos da forma como Wilian Faulkner arquiteta Enquanto agonizo. Na agonia de Autran, ver a história pelo lado de Januário requer ver a história pelo lado de Malvina, que requer que vejamos a história pelo lado de João Diogo e de Gaspar, que requer o arremate de Januário. É nessa urdidura que os sinos das igrejas mineiras barrocas tocam, o aviso de que alguém agoniza e que é preciso rezar para que a morte traga, logo, o seu alívio. Uma narrativa brilhante.







quinta-feira, 29 de junho de 2017

Quando a decência ganha um sufixo de interrupção – uma leitura de Dec[ad]ência, de Manoel Herzog




Por Adriane Garcia


Estive por uma semana lendo o romance DEC[AD]ÊNCIA, de Manoel Herzog (Ed. Patuá, 2016). O que quer dizer que estive por uma semana rindo muitíssimo e assombrando-me diversas vezes. Como falamos aqui em Minas (eu me repetia a cada capítulo): “Tem cabimento?”

Dec[ad]ência conta a história de Sérgio, um psicólogo com fortíssimo e irreparável complexo de Édipo, que se envolve com uma multidão de mulheres, entre elas, uma mulher mais velha, B., também psicóloga, vizinha de consultório. Durante o conturbado romance (que era para ser apenas uma transa), o leitor terá a chance de conhecer este protagonista: oportunista, cínico, egoísta, desonesto, machista, homofóbico (quiçá gay enrustido), agressor de mulheres, palestrante motivacional no âmbito da auto-ajuda, e vítima de uma gravíssima prisão de ventre, entre outras revelações. Como rir disso? É aí que entra a linguagem.

A narrativa é construída supostamente por um ghost-writer, GW. Porém, há uma briga constante entre o protagonista e o “escritor” para tomar as rédeas do livro. Com uma falta de talento confessa para a escrita e tendo lido pouquíssima literatura, por odiá-la, Sérgio é obrigado a contratar GW, “um advogado de Santos que tinha um cacoete machadiano odioso”. Nesta brincadeira de chamar o leitor, constantemente, aos mecanismos da feitura do livro, Manoel Herzog (GW? Sérgio?) consegue nos imbricar no seu jogo. Mas essa é apenas uma das maneiras de Herzog nos fazer rir.

Em Dec[ad]ência, o deboche é a marca constante da forma. Herzog debocha dos próprios termos, do uso de parênteses, mesóclises (ah, estamos fartos de mesóclises!), aliterações, jogos de palavras. Ao fazer isso, desarma o leitor para o modelo em que o livro é escrito, habilmente, coloca-o de modo natural na leitura, como se fosse contemporâneo escrever à moda antiga, por exemplo, usando verbos no pretérito mais que perfeito.

Poderia um desavisado entender que falo de uma comédia, mas, para além da forma, no tema e seu tratamento, na construção de seus personagens, Manoel Herzog traz uma grande tragédia. Seu humor, comicidade e ironia muitas vezes alcançam o grotesco. É o humor que violenta, o humor ligado à crueldade, o “humordestruição” como vivência irrestrita da crueldade do qual falou Artaud. E é o humor revelação: aquele que me coloca (ridente), diante do objeto (risível) e me faz perguntar: qual a minha relação com isto de que rio?

A piada, em Dec[ad]ência é a própria vida e sua precariedade. É o indivíduo, a doença e a morte, é o país, é o cidadão de bem, é todo o sistema fascista germinado e em pleno crescimento entre nós. Como quem apenas conta uma piada (truque de bobos da corte para que a verdade fosse dita sem que suas cabeças fossem cortadas), Herzog denuncia o homem que sabe usar o sistema, que faz sucesso a qualquer custo, que não se importa com absolutamente nada para além do seu próprio umbigo e que por detrás de insuspeitada decência, desce, decai. Como quem apenas conta uma história centrada num indivíduo, Herzog denuncia a pequena e privilegiada parcela brasileira da população que se incomoda que aeroportos passem a abrigar gente que jamais deveria ter saído das rodoviárias.

De Pirandello, em O humorismo, a afirmação de que “o humor não reconhece heróis; diverte-se em desmantelar, em decompor mesmo quando não seja isto coisa agradável”. Vamos rindo de um homem e de suas vítimas, do que nos conta e de como nos conta, Herzog, sobre seu anti-herói, aos poucos caminhando para a fatalidade, não sem antes fazer uma incursão gananciosa pelo mercado da fé, fartamente representado pelas igrejas neopentecostais brasileiras. Os de estômago muito sensível talvez devam pegar o livro bem avisados, também os do policiamento da linguagem, os preocupados com a vigilância do politicamente correto em literatura: Herzog não alivia, faz tudo pelo seu personagem.

Riso para a reflexão e o reconhecimento. Empreitada corajosa para leitores dispostos ao susto. Recomendo muitíssimo. E “fiquem tranquilos: nenhum humorista atira para matar” (Millôr).

A antessala do consultório de Beatriz ostentava um bigodudo autorretrato de Frida Carlos, pintado não sei por quem. Por que cazzo venho a me lembrar daquele autorretrato de mme. Carlos, afinal? Óbvio que por força de uma livre associação, um conceito tão corriqueiro em psicologia corporativa, focar é essencial pra gente poder ter mais qualidade de vida, segundo o escólio de Theodore Adorno, atravessado pela hermenêutica de Lair Ribeiro. Eu confesso que sempre nutri uma antipatia gratuita por Frida Carlos, essa chatíssima pintora da modinha que  não fez outra coisa na vida que se autopintar a si mesma e reclamar de sua infertilidade e alimentar a loucura de uma legião de sua infertilidade e alimentar a loucura de uma legião de doidas mal-amadas. Beatriz a idolatrava, como se pode concluir. O bigode de Frida a mim parecia melhor aplicado no rosto angelical de uma outra Beatriz, Beatriz Preciado, grande psicóloga espanhola proprietária de um buço e uma teoria invejáveis.
A minha antipatia por Frida se fez mais acentuar no dia em que Beatriz, não a Preciado, mas a minha amada B., arrogou-se no direito de criticar a aquisição que eu e Saulo fizemos para a antessala de nossa empresa, duas lindas telas-painel de Romero Britto. (p.44 e 45)

***
Dec[ad]ência
Romance
Manoel Herzog
Patuá
2016

segunda-feira, 26 de junho de 2017

O avesso da lâmpada de Demetrios Galvão – Poesia, silêncio e memória: um antídoto para a cidade

Por Adriane Garcia

Em O avesso da lâmpada, Demetrios Galvão constrói uma poesia inteligente, rica e sensível. Seu vocabulário, recheado de metáforas e construtor de belíssimas imagens, utiliza combinações que alcançam um lirismo bem medido, sendo, ao mesmo tempo, atual e contundente. Dos termos coloquiais aos da biologia ou geometria, Demetrios dispõe de suas ferramentas realizando um projeto bonito e coeso.

Três ideias me chamaram a atenção durante a leitura: a memória, o silêncio, a cidade. Neste livro, o poeta expõe a necessidade do silêncio e da memória como formas de sobreviver no espaço que chamamos cidade, entendida tanto como espaço real, demarcado, quanto cidade vivenciada, única porque subjetiva, pela qual transitam o poeta e seus afetos.

Do exercício da memória e do silêncio, a fantasia, a poesia, o poema. “Varandas” para embelezar o cotidiano cinza na cidade precária e em decomposição. Em O avesso da lâmpada, o poeta sabe que guarda tesouros para poder prosseguir entre “dragões” de cobiça e poder, que tudo destroem. Nas entrelinhas, toda uma crítica social e política, que envolve a frieza do capitalismo, a destruição das comunidades indígenas (o passado, a memória), a exclusão dos menos favorecidos, a continuidade de um sistema de capitanias hereditárias. Ao mesmo tempo, a resistência, a amizade:

“nós, rinocerontes da ternura
nós, rinocerontes prometidos para a extinção
conhecemos bem os dragões da cidade,
os seus disfarces alcalinos, suas gírias oblíquas...”

Não há ingenuidade. A poesia de Demetrios sabe o chão onde pisa – sabe, inclusive, sobre o chão da literatura brasileira, seus círculos de luta por manutenção de poder – e constrói beleza a partir do dilaceramento dos sonhos, com a insistência nos sonhos:

“na margem do silêncio esférico
as árvores frutificam
uma espiritualidade indomável”

Forças primitivas são evocadas, a liberdade, a própria poesia cuja proximidade maior é alcançada pela criança. Provavelmente, é desse olhar infantil, tão íntimo da magia e do encantamento, que Demetrios conseguiu uma imagem como esta, aliado, obviamente, de muita leitura:

“quando o fogo alteia, sobrenatural se torna
tua arcada de medusa.
As tatuagens arcaicas grafadas nos ossos
emergem faiscando.”

O mundo interior se apresenta munido de soluções muito particulares para conviver com a dor, a insuficiência, a solidão, os fantasmas da insônia, a miséria. É no avesso que algo simples como tomar um café pode se transformar num ritual de lembrança e mesmo num exercício reflexivo sobre a história; é também no avesso que se dá o silêncio, capaz de estabelecer a comunicação consigo próprio, com os livros ou com a natureza. Aliás, no livro de Demetrios, a natureza apresenta seu potencial xamânico, de forte ligação com o sagrado, tudo em contraste com a artificialidade e a parafernália que, o tempo inteiro e sem descanso, transformam, remodelam, formam e deformam os espaços urbanos, deixando o ser perdido e em busca de referências. No avesso da lâmpada o seu escuro, o seu silêncio, o grito da identidade, a sua arma. O antídoto para a multidão sem rosto das cidades.

“a voz do abismo

como pensar no futuro
sem pronunciar a palavra medo?
a harmonia da morte não desafina
as águas não trazem alívios.

conheço uma mulher
que não sai mais de dentro de si.
desaprendeu a pronunciar “felicidade”.
– a família teve que sepultar alguns nomes.

o desencanto assalta a multidão
o terror estremece as fibras do afeto
e esperamos a queda em um campo minado.
– existe um abismo que não se cala.

as mães se pintam para a guerra
com o leite que alimenta a humanidade.
levantam o punho e perfumam as ruas
com sua coragem iluminada.

– a esperança transpõe as fronteiras armadas
resiste em assentamentos de plástico
e se salva em um abraço sem idioma.”


 ***

O avesso da lâmpada
Demetrios Galvão
2017
ed. Moinhos




terça-feira, 20 de junho de 2017

Dyonelio Machado, O cheiro de coisa viva - Introdução, seleção e notas de Maria Zenilda Grawunder



Interessantíssimo livro. A introdução de Maria Zenilda Grawunder, acrescida da seleção de entrevistas e anotações do próprio autor, trazidas a público pela organizadora, compõem um rico panorama sobre Dyonelio Machado, o escritor, médico e político rio-grandense, mais conhecido por seu romance Os ratos.

Tanto sua trajetória política (Dyonelio foi preso político na Era Vargas) quanto literária podem ser descobertas neste livro que ainda traz um inédito do autor, o romance O Estadista. 

Em O Estadista, Dyonelio descreve as relações patrimonialistas da República Brasileira, os vícios, favorecimentos e a falta de comprometimento ideológico dos políticos, cujo compromisso se dá apenas com o poder e tudo que dele se possa usufruir, esteja de que lado estiver. Na condução de seu protagonista, Dantas, o rapaz ambicioso que não mede esforços para galgar os mais altos postos, usando inclusive de relações íntimas com mulheres associadas a homens poderosos, Dyonelio leva o leitor aos bastidores da política nacional. 

O livro foi escrito em 1926 e continua mais atual do que nunca. 

segunda-feira, 5 de junho de 2017

A morte de Ivan Ilitch - Tolstói e a perfeição ao falar sobre a morte




A novela A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, é, sem dúvida, dos mais perfeitos relatos e reflexões feitos em literatura sobre a morte.


A narrativa parte do enterro de Ivan Ilitch, caminhando, em seguida para a descrição do que fora sua vida de magistrado, marido, homem correto no que tange às convenções sociais. Sem deixar de notar a crítica ao estamento burocrático russo, o leitor, ao acompanhar os últimos dias de Ivan Ilitch, vai se deparar com um texto que assombra, pela sinceridade e genialidade com que a morte é tratada. No fundo, a grande pergunta é "qual a vida que vale a pena ser vivida?".

Procurando o sentido da morte, Ivan Ilitch procura o sentido da vida, das dores, do sofrimento. O leitor se surpreende com a forma com que Tolstói constrói esta "resposta". O último capítulo da novela é um dos melhores capítulos da literatura universal. Um livro brilhante, genial, fluido, cruel, compassivo, "demasiadamente humano". 

"O exemplo de silogismo que aprendera no compêndio de lógica de Kiesewetter - "Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal" - sempre lhe parecera exato em relação a Caio, jamais em relação a ele. Que Caio, o homem abstrato, fosse mortal, era perfeitamente certo; ele, porém, não era Caio, não era um homem abstrato, era um ser completa e absolutamente distinto de todos os demais. Ele fora o pequeno Vânia, com sua mamãe e seu papai, com Mítia e Volódia, com os brinquedos, o cocheiro, a ama, depois com Kátienka e com todas as alegrias, tristezas e entusiasmos da infância, da adolescência e da mocidade. Porventura conheceu Caio o cheiro da pequena bola de couro listrado de que Vânia tanto gostava? Por acaso Caio beijava a mão da mãe como Vânia? Era para Caio que a seda do vestido da mãe fazia aquele frufru? Fora Caio quem protestara, na escola, por causa dos pastéis? Tinha Caio amado como Vânia? Seria Caio capaz de presidir, como ele uma audiência?
"Caio é de fato mortal e, portanto, é justo que morra, mas quanto a mim, o pequeno Vânia, Ivan Ilitch, com todos os meus sentimentos e minhas ideias, o caso é inteiramente outro. É impossível que eu tenha de morrer. Seria demasiado horrível.""



***

A morte de Ivan Ilitch
Liev Tolstói
Tradução: Boris Schnaiderman
Editora 34