domingo, 18 de fevereiro de 2018

Impublicáveis - zine de Adri Aleixo





Por Adriane Garcia


Há dias estou para falar do zine intitulado Impublicáveis da poeta Adri Aleixo.

Tendo a Lady Godiva, de Ethel Mortlock, na capa, Impublicáveis é uma coletânea de onze poemas, onde se pode notar, inequivocamente, o quanto a poesia de Adri Aleixo tem crescido em tratamento dos temas e forma. O trabalho reunido no zine pode ser lido rapidamente, mas logo em seguida, instiga o leitor à releitura, e foi o que eu fiz.

Com vagar, saboreando o sentido e os versos, Impublicáveis se torna ainda melhor numa manhã ou tarde silenciosa. Talvez, tendo ao lado uma xícara de chá, um aquário com pequenos peixes, uma disposição amistosa para o silêncio.

Esta a descoberta: onze poemas convidando para a introspecção, para a contemplação, para o toque daquilo que só pode ser devidamente sorvido se tiver ultrapassado o barulho e a multidão, o apego e a palavra excessiva. Não por acaso, um dos poemas evoca o gato de Orides Fontela, gato que, sabemos, é impossível de ser capturado. Noutro, Lady Godiva descobre, sabiamente, que é preciso despir-se de tudo, inclusive do cavalo; noutro, ainda, o amor que só pode ser percebido nas frases que não foram ditas.

Em Impublicáveis, assim como na lição ouvida por Godiva, menos é mais. E é mesmo. A poeta busca o sentido profundo do que observa e vivencia, com o pressuposto da verdade socrática de só saber que nada sabe: “Eu sei de muitas coisas/todas elas muito rasas/uma canção/alguma ou outra poesia”. Confessando não saber, Adri Aleixo busca o cerne das coisas, naquilo que é terreno da contemplação, do mistério, pois quem não sabe que a poesia se aproxima muito menos do conhecimento do que da sabedoria?

Deixo vocês com três poemas desta delícia. E o desejo profundo de que o silêncio habite mais vezes a nossa saúde e o nosso coração.

Cumeeira

Para cessar
o peso
do dia
poderás ir ao
telhado
lá, há um
precipitar de chuva e pulo
uma vista para o descampado
é lá onde secam as palavras
e coragem é uma espécie de ruindade
lá duas águas se encontram

Bilhete

Deslizo pelas paredes do quarto
e acendo as luzes da sala
a casa dorme
pedaços fragmentos coisas

há um azul se refazendo no teto
astros asteróides galáxias
mandam dizer
que dispensam explicações

Lady Godiva

Gostava de seguir tendências
leu certa vez em uma vitrine
: menos é mais!
despiu-se do cavalo


***
Impublicáveis
Adri Aleixo
2018
Publicação independente da autora
Disponível com a autora
Contato por e-mail: adrianalinguagens01@gmail.com


terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Antologia Contemporânea de Poesia Negra Brasileira (Org. Paulo Colina)



Por Adriane Garcia


Estive, por esta semana, às voltas com a Antologia Contemporânea de Poesia Negra Brasileira, organizada por Paulo Colina e editada pela Global, em 1982.

A antologia traz poetas de Minas Gerais (Adão Ventura), Paraíba (Arnaldo Xavier), Rio Grande do Sul (Oliveira Silveira), Rio de Janeiro (Éle Semog, José Carlos Limeira) e São Paulo (Abelardo Rodrigues, Cuti, Geni Mariano Guimarães, José Alberto, Maria da Paixão, Itaim Bibi, Mirian Alves, Oswaldo de Camargo, Paulo Colina e Ruth Souza).

Coletânea interessante, sobretudo, por registrar alguns nomes que passamos longe de conhecer, ou mesmo de ouvir falar, já que, notadamente, a literatura brasileira tem sido mais eficiente em divulgar autores homens, brancos, heterossexuais e de classe média. O padrão é tão visível que podemos nos perguntar até mesmo se esses não são os verdadeiros critérios extraliterários.

Antologia Contemporânea da Poesia Negra Brasileira traz poemas marcados pela afirmação da resistência, pela primazia do corpo como espaço privilegiado do sentir, em imagens onde a dor é um elemento comum. Porém, essa dor poucas vezes está relacionada com a dor individual, subjetiva e confessional, de um poeta olhando para dentro. Nos diversos poemas, dos vários autores e autoras, é possível notar um olhar para o coletivo, cuja dor em si é a dor de um grupo, na reflexão do que significa ter pele negra no Brasil, esse país construído, principalmente, sobre a força e a expropriação dos africanos, africanas e seus descendentes.

Na organização, o livro traz estilos diferentes de poesia. O leitor encontrará algo de seu gosto. De minha parte, devo à antologia a grata surpresa de conhecer a poesia de Arnaldo Xavier. Um experimentador da forma, um poeta cuja soltura é impressionante e, ao mesmo tempo, um poeta que segura o poema até onde ele necessita. Criativo, anárquico e brincante com a Língua, além de profundo. É com ele que vou deixá-los por aqui:


ATÉ O MAIS HERÉTICO DOS HEREGES REZA QUANDO AMA

,Quando falo
:)!Amor(
Soa falso como uma Árvore
,Se esboço um gesto de Luz
)redijo(
escuridão
                    em todos os movimentos
na Certezabsurdônika: DE QUE
ESTAMOS MORRENDO A CADA MOMENTO

,Assim como o Grito
tem que ser tão ensurdecedor
)em suas Garras de todos os Pássaros
Vivos(
ao ponto: de estrangular
até o ECO
!EU NÃO VOMITO
EU SOU O PRÓPRIO VÔMITO

,Porém
TODAS AS CANÇOES SERÃO REFEITAS
                                                                                                                –!No Dia
em que não mais se Combata
: UM INIMIGO
DO QUAL
SE FAZ PARTE
                                    –!Seja qual Flor
qualquer que seja o Mal-me-Quer
Qualquer que seja o Bem-me-Quer
,uma Porka Ibérica
)de olhos
azuis e verdes(
pariu três rebentos
Aragão
Castela
e Portucale

,pois pois filhos de Porkos
poucos São
,Arruda de Aragão casou
Com Agra de Portucale
Ribeiro de Portucale casou
com Tavares de Castela
Albuquerque de Castela casou
com Rego de Aragão
Almeida de Portucale casou
com Mariz de Castela

)certo Dia
sob qualquer Sol (Agra brigou
com Mariz
no casamento de Almeida com Tavares
:Arruda tomou as Dores
de Agra
e Almeida As de Mariz
,Rego tomou a mulher de Ribeiro
e Tavares jurou matar Rego
,Agra atirou em Mariz
e feriu
Albuquerque
,Albuquerque Arruda Ribeiro
Tavares choraram
)porém(
entre mortos e feridos
MORREU O NEGRO SEBASTIÃO
,A Denotação
é fácil ser Flor
ou
    ser Capim;
é fácil
               ser Flor
ou ser Capim;
é fácil ser Flor
ou ser Capim
)Difícil(
é
Ser Flor y Ser Capim

,Da Niincanção
)nem(
as Estrelas Quadrúpedes
)nem(
os Sóis Bípedes
)nem(
Raquel
)nem(
o Negro-Anjo Fortunato
)nem(
as Luas Zarolhas
)nem(
Mr. Smith
)nem(
Abdala

NEM

as vítimas desta Thristeza Anfíbia
compreenderam) até hoje(
QUE PARA
                      )A Chama(
a Vida
não é assim
                       e ASSADA
,in 4-3-3
à Paulo Cesar Lima

,aquele JOGO
:foi um jogo
)de vida e
de Morte(
o time Deles venceu
pelo escore íntimo
de 1 x 0
gol
       de Ternura
,naquela noite
Amargura
foi substituído por Solidão
logo no início do I Tempo
)e(
        Dor foi expulso
por cuspir no rosto do Goleiro Amor
e troca de pontapés com Paixão

,nosso goleiro
o Thriste
não foi feliz )no lance( do gol
de Ternura
e me lembro no vestiário
Thriste estava chorando
desolado
ao lado de Desolado
que estavam sendo consolados
pelos reservas: Lamento
Melancolia
e Angústia

,naquela Partida
nosso time jogou
com

                  Thriste
          Amargo
                         Lacrimoso
                  Medo
                                      e Desolado
                         Nostalgia
                 Banzo
                                e Saudade
Loucura
                      Dor
                                                 Amargura
(depois Solidão)



***
Antologia Contemporânea da Poesia Negra Brasileira
Organização Paulo Colina
Poesia
Ed. Global

1982

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Dias de abandono – de Elena Ferrante





Por Adriane Garcia

Dias de abandono (ed. Globo, tradução de Francesca Cricelli) é a história de Olga, uma mulher que, depois de quinze anos de casamento e com dois filhos, recebe a notícia do fim de seu casamento. A princípio, tentando entender o gesto de Mário apenas como uma fase, Olga se esforça por sustentar seu equilíbrio, crente de que em pouco tempo, ele voltará para casa. Daqui em diante, a narrativa, que é em primeira pessoa, dá ao leitor a sensação de estar descendo uma escada sem fim, em espiral, vertiginosa.

Elena Ferrante é mesmo uma escritora e tanto. Sua voz narrativa é potente e simples, objetiva e bem construída, limpa e de grande alcance. Em Dias de abandono, ela nos dá um romance envolvente, faz o leitor acompanhar a protagonista com ansiedade e provoca empatia por sua personagem mesmo quando suas ações já são de completo desequilíbrio.

Mais que o retrato do fim de um relacionamento, o que Elena Ferrante nos faz sentir em Dias de abandono é a tênue linha que podemos atravessar ao nos perdermos de nós mesmos, o nosso despreparo, tão humano, de viver o conflito extremo, a luta interna por nos recuperarmos, trazendo-nos a nós mesmos.

Até que ponto Mário é ou pode ser estrutura para esse outro ser humano, Olga? Que caminhos Olga percorrerá para fortalecer novamente a sua identidade, que passara a se confundir com a do outro? Em um mundo esfacelado de casamentos desfeitos, onde e como se encaixam as crianças?

Um livro sincero, tocante, de cuja história não nos esquecemos mais.

Uma tarde de abril, logo após o almoço, meu marido me comunicou que queria me deixar. Fez isso enquanto tirávamos a mesa, as crianças brigavam como sempre no outro cômodo, o cachorro sonhava resmungando ao lado do aquecedor. Disse-me que estava confuso, que vivia maus momentos de cansaço, de insatisfação, talvez de covardia. Falou por muito tempo dos nossos quinze anos casados, dos filhos, e admitiu que não tinha o que reclamar deles nem de mim. Manteve a compostura de sempre, contendo um gesto de excesso com a mão direita quando me explicou com uma careta infantil que vozes leves, certo sussurro, o levavam para outro lugar. Depois assumiu a culpa de tudo que estava acontecendo e fechou com cuidado a porta atrás de si, deixando-me como uma pedra ao lado da pia.
(primeiro parágrafo, p. 5)

***
Dias de abandono
Elena Ferrante
Trad. Francesca Cricelli
Romance
Ed. Globo
2016


quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Anticorpo – de Bruna Kalil Othero



Por Adriane Garcia

Anticorpo: proteína específica produzida como defesa contra aquele que a despertou, parte do sistema imunológico. Em si o prefixo do “contra”. Sem o anticorpo, o corpo está indefeso. Anti o corpo específico, defesa deliberada e calculista. O título escolhido por Bruna Kalil Othero para o seu livro convida-nos a repensar o sentido da palavra e do corpo. Mais especificamente, convida-nos a pensar o corpo feminino, sem deixar de lado (e como poderia?) todo o ataque que esse corpo sofreu e sofre no decorrer de milênios.

Com 122 páginas, Anticorpo é dividido em duas seções: Da cintura pra cima e Da cintura pra baixo. Na primeira parte, os poemas trabalham a temática do corpo, da mulher e do amor, mas sem a ênfase direta na relação sexual. Na segunda parte, a relação sexual aparece mais explicitamente, como objeto do poema. Tanto na primeira quanto na segunda parte, o tom é libertário, utilizando-se da reflexão, por vezes do humor, para situar uma mulher que, de posse do próprio corpo, toma a posse da palavra. Nos poemas de Anticorpo, que inclui alguns poemas metalinguísticos, corpo e palavra estão intimamente ligados. É pela palavra que o corpo se inscreve e escreve e é no corpo que a história pessoal é inscrita e escrita, numa espécie de corpoema. Não por acaso, Anticorpo começa com Em tuas mãos, onde o livro é a prova em tinta (sangue) da continuidade do corpo dos pais no corpo (livro) da poeta. E logo mais, em Mátria, o corpo se apresenta como lugar de registro da ancestralidade. O corpo da filha repete o corpo da mãe e, de certa maneira, guarda-o.

Coletânea que funciona muito bem, Bruna Kalil Othero conseguiu trazer ao leitor um projeto coeso onde um poema fortalece o outro, oferecendo possibilidades de leitura do mundo e das relações pelo viés do corpo feminino. A poeta utiliza a persona poética para denunciar sobre este corpo que não tem seu direito de ir e vir garantido, pois não pode se locomover nas ruas com segurança (sim, estamos falando de assédio e estupro); para refletir sobre as relações amorosas quando tantas vezes o outro acaba sendo o antígeno; para dessacralizar imagens criadas a fim de manter mulheres sequestradas de seus próprios corpos. Não à toa, são recorrentes nos poemas de Bruna a masturbação e ejaculação femininas e o poder do prazer autodirigido. A mulher de Anticorpo é uma mulher forte e senhora de si. Em Soneto do final feliz, Bruna, de modo sagaz, constrói um poema onde a vingança é finalmente falar, descrever de modo apenas permitido e naturalizado a um homem. No próprio título, o deboche remete aos contos de fadas, onde mulheres são sempre princesas frágeis esperando príncipes encantados. Bruna ainda faz isso no único poema do livro que se utiliza de uma forma clássica, porque o poema todo quer profanação. A mulher desse soneto não espera mais o homem, dona do próprio gozo, comprou um vibrador e, liberta, foi ser feliz. Noutro poema, Striptease, Bruna trabalha com a desautomatização do nu, brinca com a expectativa do leitor: faz esperar uma coisa e dá outra.

Sempre aprecio a poesia que tem algo a dizer. Entre tantos temas trazidos à luz da carne, Bruna, sem pudor, e amante da forma, anuncia o que a experiência de ser acrescenta à arte. Por tanto tempo, bordões ligavam as mulheres àquilo que, misterioso, não se podia entender. Óbvio, não é possível entender aquele que não pode dizer de si; não há qualquer predisposição para se entender quando não se quer ouvir. Anticorpo grita que a mulher não aguarda permissão, diz de si e diz do outro, do seu lugar. E o primeiro lugar é o corpo.



Na contramão da gravata

célebre imortal maravilhoso branco

me bate
uma vontade de ser
sujeito lírico neutro
infectado por aquela visão tão objetiva
& masculina

porque se eu
fosse
raimundo

mas antes
sequer
de terminar o raciocínio
meu útero
bate na porta:
esse mês
não


Cara-metade

diz a ciência
que para cada antígeno
há um anticorpo
específico-
complementar
que o destrói

nos completamos
você me disse
antes

mas fica a dúvida

quem
foi
qual


Anticorpo

cura
mas já feriu

fere
mas se reflete

reflete
mas não existe

não existe
mas ilude

ilude
mas encanta

encanta
mas perfura

perfura
mas desaparece

desaparece
mas já curou

***
Anticorpo
Bruna Kalil Othero
Poesia
Ed. Letramento
2017







Cavala – de Sérgio Tavares





Por Adriane Garcia


Termino de ler o livro de contos Cavala (ed. Record, 2010), de Sérgio Tavares. Livro que li sem pausa e que, imediatamente reli. É que não dá para ficar com o pesar de, talvez, ter perdido algo no torvelinho em que ele nos mete.

O livro, de 96 páginas, é composto por quatro contos, dos quais o primeiro, “Cavala”, ocupa 58 delas. “Cavala” conta a história de uma modelo internacional que, após ter vivido uma carreira de sucesso, sucumbe à anorexia e bulimia e, depois de várias internações psiquiátricas, vive sob os cuidados dos pais. Na sequência de um acidente nas passarelas, da doença e do tratamento terapêutico, a protagonista adquire um transtorno obsessivo compulsivo em altíssimo grau, em que por meio dos números, somas, divisões, subtrações, multiplicações e medidas, procura alcançar o equilíbrio de não permitir que seu cérebro dê espaço para pensamentos e lembranças ruins. Assim, ela sabe, por meio de associações, que se avistar um carro vermelho, terá que avistar, em seguida, um carro amarelo para a conta zerar e alcançar o equilíbrio. Só isso faria um dia ruim (o carro vermelho) se transformar num dia bom (o carro amarelo), ou no caso de ver dois carros vermelhos, teria que ver, em seguida, dois carros amarelos; se a conta não zerar com as cores dos carros, será preciso zerar com as placas dos carros, de modo que alguma conta matemática resulte em zero com os números das placas. Se a personagem não consegue esse zero, ela se desespera e se desequilibra. Totalmente. O leitor dentro da cabeça dela.

Acompanhar a protagonista de “Cavala” é uma experiência literária interessantíssima com final surpreendente. Sérgio Tavares nos leva em companhia da loucura, tão perto que podemos tocá-la com a mão. Justamente na busca obsessiva por equilíbrio, valor de salvação que dá a ele quem o perdeu, é que se o perde novamente. O círculo vicioso, espiral infinita, dolorida e sôfrega de uma viagem muitas vezes sem volta, onde um ser humano tenta segundas chances que nunca se viabilizam. “Cavala” é asfixiante e claustrofóbico, uma oportunidade para leitores corajosos, que gostam de visitar prisões onde não se enxergam as chaves.

O segundo conto é “Fome”. Nesse conto, a compulsão da protagonista é por sexo. Aqui, também, o descontrole, a consciência do desequilíbrio e uma espécie de desistência de vencer a compulsão. Diferentemente de “Cavala”, cuja protagonista crê que obterá sucesso no autocontrole, em “Fome” a protagonista admite sua falta de forças. No limite, traz um mendigo do lixão (personagem que também aparece no primeiro conto) para dentro de seu quarto, para a sua cama. Todos os personagens deste livro estão expostos a perigos, violências e ambientes marcados por sujeira e excrementos.

Em “Sobre a pélvis”, o narrador é um homem, homossexual, voyeur, faxineiro de um banheiro público onde realiza o desejo de ver homens urinando e imagina outras fantasias. É também com os clientes no banheiro público que consegue algumas relações sexuais. Diferentemente das protagonistas de “Cavala” e de “Fome”, o protagonista de “Sobre a pélvis” narra sem se preocupar com a questão do controle, mas assim como as outras sabe que está numa situação da qual não consegue sair: “sinto-me sórdido como um escravo tigre. prisioneiro deste cárcere de louça encardida, arquitetado para o despejo de necessidades fisiológicas, esguicho, agacho, escovo e lavo, cumprindo a pena que eu mesmo me sentenciei.

O último conto do livro é “Papel de cão”. Conto instigante, no qual o leitor não encontra fuga. É preciso aceitar o que o adolescente morador de rua relata. Só há mesmo o seu relato. É o relato de uma vítima, de um algoz e de um louco. Em “Papel de Cão”, Sérgio Tavares nos dá a fala de um adolescente abusado sexualmente por um pedófilo. O protagonista de “Papel de cão” é retirado das ruas, de vez em quando, para atender ao doutor Ivone. Desde o começo do conto sabemos que o menino possui um cão e que este cão (imagem de uma revista que ele recorta e mantém no bolso) é imaginário e, ao mesmo tempo, um alter ego onde se retrata violência e animalidade. Diferentemente dos outros três protagonistas, em “Papel de cão”, o narrador não apresenta nenhuma fresta de consciência sobre o processo que vive, sendo a realidade em que acredita a única realidade que conhece. Talvez por isso ele seja extremamente perigoso, porque não há um embate entre suas duas personas, porque sua esquizofrenia considera acordos pacíficos entre ele e o seu cão.

Cavala é um livro de contos primoroso em seu conjunto. Sérgio Tavares acerta com exatidão o nome do conto homônimo e o nome da coletânea. Assim como Cavala é tanto palavra aviltante quanto grandiosa, também pode nos remeter a cavalo, o nome utilizado em algumas religiões e seitas de base espírita para designar aquele que recebe o espírito, a força que vem de fora, alienígena ao mundo trivial, normal. Os personagens de Sérgio Tavares estão todos possuídos por uma força que não controlam e que lhes aparece como algo que não define a sua totalidade. Quem vem por essas páginas acompanhando-os de dentro de suas cabeças sabe que eles, os que contam, são algo mais que apenas estes que agem.

“certa vez, acordei e não conseguia encontrar o caderno. revirava tudo e os lençóis e não conseguia encontrá-lo. os movimentos bruscos começaram a me esgotar e, sem as páginas para me dizer o que pensar, fui ficando tonta: mareando meus olhos em imagens afogadas que me dobravam e vomitei.
lembro que era só gosma, uma espuma amarelada e amarga sendo chupada pelo carpete já que eu não comia havia... algumas horas?, mas que me trouxera um alívio tremendo, uma clareza mental inigualável que, segundos depois me permitiu encontrar o caderno logo ali. depois disso, comecei a vomitar muito. vomitava para obter descanso, me sentir tranquila, evitar que qualquer mal me atingisse e que essa borra de pensamentos imperfeitos e anseios se avolumasse e ganhasse corpo – o meu corpo.” (Cavala, p. 26 – 27)

***
Cavala
Sérgio Tavares
Contos
Ed. Record

2010

domingo, 14 de janeiro de 2018

Um defeito de cor – De Ana Maria Gonçalves



Um defeito de cor (Record, 2006), de Ana Maria Gonçalves, deveria ser leitura incluída no currículo escolar de todos os brasileiros. Não tendo sido, Um defeito de cor deveria fazer parte do compromisso de formação continuada de cada brasileiro. Trata-se de literatura e, sobretudo, trata-se daquela literatura que consegue trazer para tão perto um lugar, um personagem, uma história, que passamos a andar nesse lugar, com esse personagem e sofremos e nos alegramos como se essa história fosse a nossa (e em tantos momentos ela pode mesmo, de alguma forma, ser a história de quem está lendo).

A narrativa é feita em primeira pessoa e conta a saga de Kehinde (Luiza Mahin, mãe do poeta abolicionista Luiz Gama), africana trazida para o Brasil, no início do século XIX, em um “tumbeiro”, rumo à Bahia. Escravizada aos oito anos, segue para uma fazenda de engenho de cana, onde também se praticava a pesca da baleia e o preparo de seus derivados. O leitor, que já acompanhava a infância de Kehinde em Savalu, e depois em Uidá (Reino de Daomé), passa a conhecer também sua adolescência, juventude e vida adulta. A narrativa prossegue até sua velhice. Com isso, ergue-se um grande e completo retrato da vida de uma escravizada neste país, parte dos mais de cinco milhões de pessoas africanas, sequestradas em sua terra de origem e trazidas para o Brasil durante quatro séculos, onde estiveram sujeitas a todo tipo de violência, atos tipificados como crime, se cometidos contra uma pessoa branca.

Dos ritos dedicados aos voduns e orixás à capacidade de transformação no sincretismo religioso, do detalhamento de modos tribais africanos às diferenças culturais assimiladas dos árabes nos muçurumins, do trabalho, opressão e exploração do escravizado brasileiro aos seus modos de se libertar, Ana Maria Gonçalves cria uma obra monumental (não só pelas suas 952 páginas), espécie de epopeia, onde não se preocupa em dar à sua protagonista falas e pensamentos politicamente corretos. Kehinde é personagem de carne e osso, lutando pela sobrevivência, pela liberdade, pelo amor, pelo enriquecimento, pela identidade e faz isso de modo particular e único, talvez socorrida, em alguns momentos, pela sorte que acompanha os ibêjis (gêmeos, em iorubá), mas certamente guiada por seus fortes atributos: força, inteligência, sagacidade, generosidade e uma vontade enorme de aprender.

O livro de Ana Maria Gonçalves ainda traz riquezas como detalhes sobre os nomes em iorubá, que utiliza por quase toda a narrativa, sobre religião e política em terras africanas, além de um panorama histórico sobre a Bahia e o Rio de Janeiro.  Um defeito de cor é uma obra que faz refletir sobre as relações injustas e desiguais entre pessoas negras e pessoas brancas, de modo complexo, considerando o processo social, histórico e também afetivo. Tudo isso como pano de fundo para uma história emocionante, de uma mulher que busca a própria liberdade e o próprio destino, em uma vida cheia de encontros e desencontros. Acompanhar Kehinde saindo da África é viagem sem trégua. Acompanhá-la voltando à África põe-nos novamente no oceano. Já anciã, Kehinde precisará retornar ao Brasil para lidar com sua perda mais dolorosa. Nós, leitores desta obra ímpar, a esta altura, já iríamos com ela para qualquer lugar.

Na orelha do livro, Millôr Fernandes nos desafia: “Em suas 952 páginas, Um defeito de cor não tem hausto, parada pra respirar. Desmintam-me, por favor.”

Impossível desmentir Millôr, Ana Maria Gonçalves construiu uma das melhores obras da literatura brasileira.

“Kehinde

Eu nasci em Savalu, reino de Daomé, África, no ano de um mil oitocentos e dez. Portanto, tinha seis anos, quase sete, quando esta história começou. O que aconteceu antes disso não tem importância, pois a vida corria paralela ao destino. O meu nome é Kehinde porque sou ibêji ¹ e nasci por último. Minha irmã nasceu primeiro e por isso se chamava Taiwo. Antes tinha nascido o meu irmão Kokumo, e o nome dele significava “não morrerás mais, os deuses te segurarão”. O Kokumo era um abiku², como a minha mãe. O nome dela, Dúrójaiyé, era o mesmo que “fica, tu serás mimada”. A minha avó Dúrójaiyé tinha esse nome porque também era uma abiku, e o nome dela pedia “fica para gozar a vida, nós imploramos”. Assim são os abikus, espíritos amigos há mais tempo do que qualquer um de nós pode contar, e que, antes de nascer, combinam entre si que logo voltarão a morrer para se encontrarem novamente no mundo dos espíritos. Alguns abikus tentam nascer na mesma família para permanecerem juntos, embora não se lembrem disto quando estão aqui no ayê, na terra, a não ser quando sabem que são abikus. Eles têm nomes especiais que tentam segurá-los vivos por mais tempo, o que às vezes funciona. Mas ninguém foge ao destino, a não ser que Ele queira, porque quando Ele quer, até água fria é remédio.
A minha avó nasceu em Abomé, a capital do reino de Daomé, ou Dan-home, onde o rei governava da casa assentada sobre as entranhas de Dan. Ela dizia que esta é uma história muito antiga, do tempo em que os homens ainda respeitavam as árvores, quando o rei Abaka foi pedir ao vizinho Dan um pedaço de terra para aumentar o seu reino. Daquela vez, Dan já deu a terra de má vontade, e quando Abaka pediu outro pedaço para construir um castelo, Dan ficou bravo e respondeu que Abaka podia construir o castelo sobre a sua barriga, pois não daria mais terra alguma. Com raiva da resposta mal-educada, o rei Abaka matou Dan e, sobre as entranhas espalhadas no chão, ergueu um palácio suntuoso, a partir do qual teve início o grande império do povo ioruba. Dan também é o nome da serpente sagrada, mas esta história fica para mais tarde ou para outra pessoa contar quando chegar a hora dela, porque agora preciso falar de um tempo  que começou muito depois, quando a perseguição do rei monstro Adandozan obrigou minha avó a sair de Abomé e se mudar para Savalu.” (p. 19-20)


¹ Ibêji: assim são chamados os gêmeos entre os povos iorubas.
² Abiku: “criança nascida para morrer”.

***
Um defeito de cor
Ana Maria Gonçalves
Romance
Ed. Record
2006








domingo, 17 de dezembro de 2017

Via Férrea, de Mario Alex Rosa – Uma viagem pela luz no fim do túnel



 Por Adriane Garcia


Bela edição da Cosac Naify, o que é quase uma redundância, o livro Via Férrea, de Mario Alex Rosa é um objeto prazeroso de se ter em mãos: azul, formato estreito, 64 páginas que já sugerem não haver excesso.  Por fora, o título emblemático, curioso, substantivo concreto que antecipa a possibilidade de movimento, duro, composto, de ferro e metáfora. Via. Férrea.

Entrar nesse caminho, abrir esse livro, exige silêncio. Não é a poesia fácil que se pode ler no barulho infernal de nossos dias postáveis, pois pouquíssimo ou nada nos exigirá memória na terra da dispersão. É outra coisa, é como no verso de Drummond: “Penetra surdamente no reino das palavras”. É sempre necessário um silêncio para ouvir o outro silêncio.

Munida (e necessitada) de silêncio, abri. Nada sabia eu da viagem, essa a grande aventura a que os livros podem nos levar. Ocupei um dos vagões do monstro metálico, um vagão melancólico, onde primeiro me deparei com essa entidade assustadora e premente: o Tempo.

Em Via Férrea há uma constante inquietação e constatação a respeito do tempo e seu efeito sobre nós, o homem sabe-se um bicho que está no mundo, “bicho ferrado”, mas diferentemente dos outros bichos, consciente de sua condição, sente a ação do tempo. Bicho versus palavra, nomear é sua angústia e salvação. Há agonia se a palavra cala, pois a palavra surge como algo de bom nos dias, como uma interrupção na sua labuta de sísifo; porém, perpassa pelos poemas de Via Férrea a ideia de que a expressão jamais comunica exatamente aquilo que veio expressar. Existe um sentimento de impotência e incomunicabilidade diante do mundo.

“A tarde terminou com sinal de promessas.
Vieram as palavras!
E, com elas, a raiva varou noite adentro.”

Também é interessante notar a opressão dos calendários como repetição. Desde o calendário grafado, dos dias úteis, que aprisionam a vida, que colaboram para o sentimento da falta de sentido de viver, um dia após o outro, como o calendário mais natural, o calendário regido pelo aparecimento e pela ausência da luz do sol, pelos movimentos da Terra: manhã, tarde, noite e pelas estações do ano. O ser está preso aos seus afazeres, obrigações. Entre nascer e morrer (as duas extremidades de uma via), viver é um exercício penoso, desconfortável, “o salto é zero”:

Na próxima manhã
Sol escaldante barra a visão.
Não dessa mão que escreve
(rodopia pelas ruas da cidade)
e nada sobrevoa.
Fixar é aqui mesmo.
Contra tudo:
o salto é zero.
Posso não regressar.
Mas, a tarde neutra, desemboca
na manhã seguinte.”

Da aflição para que os dias úteis terminem, o humano prazer de que o sábado não termine nunca, mas ele “vai anoitecendo”, e o domingo é o prenúncio da segunda-feira. Uma das imagens mais bonitas de Via Férrea, por sinal, está no poema Domingo, onde, de forma tão sutil e indireta, o poeta nos faz ver um domingo (um menino?) soltando pipa (a luz que faltava?). A maneira pela qual ele faz isso é um grande acerto no poema: dizer sem dizer, mostrar, mostrando outra coisa, permitir que a imaginação torne o leitor coautor do poema:

“O domingo veio quente.
Sol a pino.
Ele empinava a luz que faltava.
Então, já sabe escolher entre o sim e o não?
Não.
Então volte e mastigue suas próprias palavras.”

Não estaríamos viajando, verdadeiramente, numa via férrea, acaso não prestássemos atenção na geografia. A paisagem é mesmíssima e é o amor que pode interrompê-la com alguma novidade. Assim, o amor aconteceu durante o percurso, mas a via só leva para a frente, exceto pela memória, “poeira”, que “noitea” os dias. O amor é a força capaz de fazer o coração bater, mas “ele só bate”. O amor é o grande sonho irrealizado, nem ele ou o sexo aparecem como redenção nesta poesia de Mario Alex Rosa, pois não é possível seguir na companhia do amor, exceto como perturbação: a vida é solitária e de dor continuada. Como no ritmo de um trem, o ritmo desta dor continuada é melodicamente constante e, por isso, suportável, mas apenas depois de já se ter alcançado a maturidade de saber ouvi-lo:

“Nunca o relógio andou tão rápido:
Disseram: Tempo de mudanças traz vida nova!
As folhas de outono amanhecerão
num jardim primaveril. As chaves abrirão
outras portas. Para sempre pensará no suicida que foi.
Em todo caso, sem desastre fez o dever de casa: mudou.
Mas aqui, onde ninguém chega,
uma dor muda
dói.”

E a via segue. O ser, comprimido pelo próprio caminho, sente raiva, violência e mantém-se acuado, minúsculo, no paradoxo de conter em si um furacão de sentimentos. Durante esse trajeto, há pouca possibilidade de fuga, e nem mesmo o poema se estabelece como uma:

 “Aqui no branco
ou na avenida estreita,
a margem é a mesma.
A sombra também.”

A dor interna muitas vezes coincide com uma dor externa, visível na paisagem. Ora, eu não disse que a paisagem era mesmíssima? Isso não quer dizer que ela seja calma e pacífica. O personagem que percorre Via Férrea (porque poesia também é ficção) é traído pela memória,  sente a mordida, mas é dentro de si: a ferrugem, essa oxidação que é tão simbólica da corruptibilidade da matéria, dos nossos corpos, dos trilhos. Novamente a ação do tempo, das intempéries.

Via de esperança mínima, o eu-poético em Via Férrea sofreu o suficiente para não ser mais ingênuo, sabe que os dias não permitem grandes ousadias, que são feitos de medo, inclusive do medo de amar. Não há concessão: o outro, que seria a ponte de alguma salvação ou sentido, não se realiza. Essa é a via do ser extremamente sozinho, que não deseja mais interrupções de ritmo com sobressaltos. E tanto a esperança quanto o amor deixariam o coração acelerado.

Terminada minha primeira leitura, fechei o livro e recomecei a viagem. Lembrei-me do poeta W. H. Auden e voltei a uma sua palestra em que dizia que a poesia funcionava quando, entre outros elementos do saber fazer, antes, o poeta encontrava o elemento sagrado. Para Auden, “não se pode escolher um ser sacro, é preciso encontrá-lo. No encontro, a imaginação não tem outra escolha a não ser reagir.”

Via Férrea traz vários de nossos “sagrados” e reage a eles, estes a que temos adoração ou repulsa: tempo, vida, morte, incompletude, amor, raiva, natureza, mistério, sentido. O poeta consegue em Via Férrea fazer um livro em que o confessional é matéria prima e, se vestiu em si mesmo, com o poema, uma camisa de força para continuar o caminho, vestiu em cada poema esta contenção que torna as palavras arte. O resultado é que emociona o leitor preparado para sentar no banco ao seu lado e seguir. Em silêncio.  A viagem emociona porque se nos identifica. Sabemos muito bem onde a via começa e onde vai terminar.

“Trilha

Se pudesse, mataria a palavra que guardo aqui.
Mas tenho muitos elementos covardes e adio
o que um dia, inevitavelmente, terá que deixar de ser.
A via férrea cortará os trilhos, os braços e, talvez,
abra um clarão no escuro.”



***
Via Férrea
Mario Alex Rosa
Poesia
Cosac e Naify

2013