segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Aimó, uma viagem pelo mundo dos orixás, de Reginaldo Prandi





Por Adriane Garcia

Deliciosa aventura é o livro Aimó, uma viagem pelo mundo dos orixás (ed. Seguinte), de Reginaldo Prandi. A edição é um capricho, com lindas ilustrações de Rimon Guimarães. O projeto gráfico é de Raul Loureiro e cada capítulo é aberto com uma posição do jogo de búzios.

O livro narra a história da “menina que ninguém sabe quem é”. Ela está no Orum, o lugar onde ficam os orixás. Lá também é onde ficam os mortos, à espera da reencarnação no Aiê, a Terra.

Aimó, por ter sido sequestrada na África pelo comércio de seres humanos e ter sido levada, em um tumbeiro, muito nova para o Brasil, vendida como escravizada, morreu sem saber de suas raízes, não se lembra de sua família, não sabe se alguém cultua sua memória, nem mesmo conhece qual é seu orixá. Por isso não tem as condições necessárias para retornar ao Aiê, para uma nova vida. Triste, a menina chora tanto que inunda o lugar e acorda Olorum. Ele, então, pai de tudo que existe, chama seus orixás Ifá e Exu. Para reencarnar, Olorum determina que ela escolha uma mãe orixá.

Juntos, Ifá, Exu e Aimó percorrerão as histórias dos orixás para que ela possa escolher sua proteção no Aiê. Nesta viagem, o leitor se encanta pela mitologia africana, passa a conhecer um pouco mais sobre cada orixá, além de se divertir com um personagem guloso muito especial: Exu, uma espécie de “faz-tudo” entre os orixás, o mensageiro sem o qual tudo para.

A história é não só encantadora como emocionante e ajuda a revelar, em contraponto com as perseguições que sofrem as religiões de matriz africana, o quanto há de ignorância, preconceito e racismo ao rotular os ritos dos afrodescendentes.

Outro ponto muito interessante é notar que nesta mitologia, não existe a perfeição ou a exigência da perfeição, como dada no mito cristão. Os orixás, que tanto podem ser masculinos, femininos ou indefinidos, assim como os humanos, não são somente bons ou somente ruins; relacionam-se, amam-se, odeiam-se por vezes, se vingam, se reconciliam, se ajudam, guerreiam entre si, se entristecem, se alegram. Não há a noção de pecado, há a noção de dever. São deuses que dançam.

Um livro que todos deveriam ler e que tem um final lindo, surpreendente.



      “Quando as águas cobriram o leito de Olorum, ele despertou contrariado,        cuspindo a água salobra que engolira sem querer, e foi logo reclamando:
    Só pode ser você, Iemanjá, que eu fiz com este gosto de sal — Olorum cuspiu repetidas vezes e continuou a falar à filha — e com esse seu jeito destrambelhado de inundar tudo o que estiver a seu alcance, menina levada!
    Aos poucos, ele abriu os olhos e se levantou sacudindo a túnica molhada. Olhou em torno e não viu Iemanjá, mas sim uma menininha desconhecida, Aimó, que chorava torrencial  mente. Reclamou:
    Ah, então foi você que veio interromper meu cochilo, omobinrin mi, minha menina. Mas quem é você, afinal?
    Aimó parou de chorar, tremendo de medo de ser castigada. Tentou responder, mas sua língua não obedeceu e ela conti  nuou muda enquanto Olorum a fitava de cima a baixo.
    Diga logo seu nome, omobinrin mi! Vamos, fale!
    Ela permanecia quieta.
    Eu ordeno: Orucó, omobinrin!
    Meu nome é Aimó — disse ela, fixando o olhar no chão e recomeçando o choro.
    Pare de chorar. Quer me molhar de novo, menina? Repita seu nome, eu não entendi.
    Aimó, é Aimó.
    Hum, isso não é nome de gente, nunca ouvi, e olha que eu sei de tudo, tudo que existe fui eu que ordenei aos orixás que fizessem.
    Ouvi por aqui uns mais velhos me chamarem assim.
    E sua família? Os que ficaram no Aiê?
    Acho que não tenho, esqueci. Ou melhor, fui esquecida.
    Entendi. Aimó omobinrin, a menina que ninguém sabe quem é.
    Aimó assentiu, ainda amedrontada.
    E como vai fazer para voltar para casa se a sua família não se lembra mais de você, minha menina? Vai ficar para sempre aqui no Orum, sempre ameaçando me afogar em seu rio de lágrimas? Pobre de mim!
    E ao ver lágrimas brotando novamente dos olhos da menina, Olorum gritou com ela:
    Pare! Chega de choro.
    Ela parou de chorar e ele continuou:
    Vamos resolver isso logo. Preciso defender meu direito ao descanso eterno.
    Em seguida, Olorum parou um instante, como quem reflete sobre as próprias palavras, e disse:
    Pessoalmente não me meto nas coisas do Aiê e no resto também não. Quem resolve tudo são meus filhos, deuses que eu criei, que os humanos chamam de orixás, a quem dei a mis  são de cuidar do mundo. Mas, como acabei envolvido nesta sua triste história, vou ter que determinar que se ache uma solução, omobinrin mi. Como é mesmo seu nome, ou aquilo que você pensa que é seu nome?
    Aimó — disse ela, já sem muita certeza.
    Aimó, ou seja lá quem você for, minha querida menina esquecida — continuou Olorum —, vou convocar imediata  mente Ifá, meu sabe tudo, e veremos por que você foi parar na condição de permanecer presa aqui para sempre. Vou chamar também Exu, meu mensageiro e meu faz tudo, porque sem ele nada se pode fazer.
    Olorum estalou os dedos chamando Ifá e Exu. Em seguida, piscou para a menina.
    Pela primeira vez depois de sua morte, a menina sorriu.” (p. 12-15)

***

Aimó, uma viagem ao mundo dos orixás
Reginaldo Prandi
ed. Seguinte
2018


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Onde se amarra a terra vermelha, de Marco Aurélio Cremasco




Por Adriane Garcia


Disposto em quatro partes, Memória dispersa, Pequeno tratado de cenas alheias, Ampulheta sem areia e A descoberta pela palavra, o livro de crônicas Onde se amarra a terra vermelha constrói narrativas sensíveis e tocadas de beleza a respeito da memória.

Principalmente nas duas primeiras partes, as crônicas se centram na infância e na ancestralidade, refletindo sobre o passado e as transformações. As situações vivenciadas em uma cidade do interior, mais especificamente Guaracy, no interior do Paraná, em outro tempo e outra geografia fazem elo com o adulto, professor e profissional da área de Química, escritor, cujas experiências se alargarão em outras viagens pelo mundo, encontrando assim, a terceira e quarta partes do livro.

Na viagem ao passado, o autor traz os gestos de cuidados recebidos na infância, o primeiro dia de aula, o estranhamento ao ver o primeiro professor do gênero masculino, quando até ali só tivera professoras, inclusive na família, já que toda a educação era passada por mulheres; é também notável a recorrência da figura carinhosa da mãe. As reminiscências vão aos jogos de futebol, barcos de papel na enxurrada, os tipos diferentes que habitavam a cidade, igrejas, coroinhas, travessuras, o frio, a geada que matou os pés de café e modificou a economia da cidade.

As crônicas de Cremasco pontuam objetos caros à memória como novelos de lã, cortinas vermelhas dos cinemas, álbuns de fotografias, árvores de natal com tufos de algodão e o nostálgico realejo. Ao refletir também por contemplação, o autor percebe a paisagem como motor para o desencadeamento da recordação e da escrita.

Em um livro onde o tempo é matéria central, depois de revisitar a infância, o autor indaga sobre a morte, na tentativa de entendê-la pelo viés da ciência, pelo tempo cíclico e por fim, pelo sentido prático, já que ela é inevitável.

As crônicas de Onde se amarra a terra vermelha tratam o passado com delicadeza e gratidão, conscientes de que o presente é a sua herança.


Cantiga para quando João chegar

Entre Santa Fé e Guaraci, o vento traz o frescor do Ribeirão Bandeirante do Norte. Manhã discreta. Manhã qualquer em que as crianças caminham sonolentas à escola e o pai, ao trabalho. Depois da louça lavada e das camas arrumadas. Após o silêncio ocupar os cantos da casa e o canto dos pássaros ecoar por entre as cortinas rendadas da janela, de modo o Sol deixar o acanhamento e pipocar luzes em sua face, a mãe caminha com vagar. Arrasta-se, como se carregasse um tesouro. Senta-se, ajeita-se e toma um novelo de lã. Antes de tricotar, sorri; dá o primeiro nó, laça, enleia, reza. Rezava para João: confortá-lo do choro, guiá-lo nos primeiros passos, protegê-lo dos tombos, até o seu embarque à capital e lá fazer a vida para, quem sabe, um dia voltar doutor. Rezava para o filho fazer boa viagem. Faria casacos de retalhos para o frio, frango recheado com farofa e ovos, no caso de fome. Acompanharia-o à rodoviária. Aconselharia a João para que tirasse a corrente, presente da avó, e a guardasse enrolada em um lenço sob a sola de um dos pés. Não esquecesse que, a cada estação, descesse, espichasse as pernas e se refrescasse com o ar puro da inocência adormecida. No balanço do ônibus, que sonhasse, desdenhando distâncias. Na cidade em que chegasse, fosse direto à pensão recomendada. Acordasse na hora marcada e comece o necessário. Lavasse as próprias roupas e as passasse como quem permite um trem vencer trilhos com resiliência. Na procura do emprego, deixasse o dinheiro em lugar apenas por ele sabido. Ao atravessar avenidas, que prestasse atenção, olhasse para os lados e, sem titubear, as cruzasse feito colibri. No trabalho, que João fosse humilde sem, contudo, envergonhar-se das origens. Orgulhasse da cor, da maneira de falar. – Poucas coisas são tão importantes quanto as nossas raízes, João. A mãe desatou em uma ladainha sem-fim: que João acertasse o circular, cedesse lugar às gestantes, senhoras, idosos e impossibilitados. Não se envolvesse com intrigas. Não madrugasse confusões nem alvorecesse prisões. Não se embriagasse ou cultivasse inimizades. Se tomado pelo calor da paixão, que a escolhida fosse, sobretudo, amorosa. Alugasse lugar simples, de móveis simples. Nele houvesse sala, banheiro, cozinha e algum ninho. Na chegada do filho, que João lhe ensinasse boas palavras, bons modos. Fosse ponderado, atencioso. Calmo, ameno, generoso. Tivesse a paciência de quem tece nuvens com o olhar e de quem ouve com a serenidade de uma folha ao receber o carinho do luar, todavia não recuasse diante de opinião divergente. Que a sua cabeça virasse por conta do próprio pescoço e jamais de outro. – Leia, João, leia muito. Estude, João, estude muito. Fosse mais ouvido e menos boca. Usasse o coração e ponderasse com a razão. Se o tempo o corroesse em rugas, a mãe rezava para que a velhice fosse qual pedra obediente à estrada. Que João compreendesse as coisas da época sem negar o passado. Tivesse saúde necessária para sentir a idade com dignidade e entendesse a perda dos entes queridos como quem consente a passagem do vento pela face. Na cadeira de balanço, à medida que tecia, a mãe rezava pelas cataratas, reumatismo, asma. Pela alma do filho encomendada na missa de sétimo dia. Rezava por toda uma vida, enquanto João dormia, tranquilo, no seu ventre.
(p. 21-22)

***
Onde se amarra a terra vermelha
Marco Aurélio Cremasco
Nave Editora
2018
Crônicas



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Os Sertões, de Euclides da Cunha




Por Adriane Garcia


Mais do que nunca, tempo oportuno para ler Os sertões, o livro-romance-reportagem, de Euclides da Cunha.

Considerado obra do Pré-Modernismo da literatura brasileira, Os sertões conta a história da Guerra de Canudos, que ficaria melhor denominada Massacre de Canudos, ocorrido em 1897, dada a desproporção de forças e a ordem de destruir o povoado, com mulheres, crianças e velhos inclusos. Vale lembrar que, neste mesmo ano, a República construía a primeira cidade planejada do Brasil, Belo Horizonte, símbolo do futuro, mesmo que para isso tenha promovido a exclusão e o êxodo de todos os seus antigos moradores.

Interessante notar que, ao mesmo tempo que Euclides da Cunha atribui o atraso material e espiritual à miscigenação, o enfraquecimento da raça; também atribui à miséria material o fanatismo dos povos. Nisso, critica a República e a prática da injustiça social. Ao mesmo tempo que acompanha o exército e polícias movimentando-se em batalhões de várias partes do país para o massacre, também mostra a resistência, a coragem e o ardil do sertanejo na defesa de seu território e de sua vida. Foram necessárias quatro expedições, somando cerca de 12.000 soldados para acabar com a comunidade de 5.000 casas, situada no interior da Bahia. Apesar de possuir jagunços armados precariamente, Canudos contava com um elemento naturalmente conhecido a seu favor: a caatinga.

O livro, além de dar um retrato pormenorizado da geografia do sertão, traz matéria para a antropologia, a sociologia e a política brasileiras. Determinista, eugenista e cientificista, a visão de Euclides da Cunha marca a narrativa com o racismo do século XIX, de cuja continuidade ainda não nos livramos.

A considerar que o Brasil continua a figurar como genocida de sua população negra e possuindo uma das polícias que mais matam no mundo, Os sertões é também a lembrança de que pouco se mudou, na prática, a atitude da República antes e depois da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

sábado, 19 de janeiro de 2019

Exercícios de fixação, de Antônio LaCarne




“Para que então ter um corpo se é preciso mantê-lo trancado num estojo,
 como um violino muito raro?”
 (Katherine Mansfield, em Bliss)


Por Adriane Garcia


O livro Exercícios de fixação (Publisher Editora), de Antônio LaCarne, é composto por dezessete contos. No primeiro deles, Cair demais, o narrador cita Katherinne Mansfield, mais especificamente seus personagens Bertha Young e Srta. Brill. Chamam a atenção as duas personagens citadas porque os temas que aparecem nesses contos de Mansfield (Bliss e Mrs. Brill), são os que atravessam não só o primeiro conto de LaCarne, como os demais de alguma forma. Com Bertha Young critica-se a ordem estabelecida, expõe-se o desejo que arde, cujo êxtase transborda amor e erotismo, mas tudo é mudez e nada se realiza. Com Srta. Brill, penetra-se na solidão, na inadequação e na invisibilidade que ela sente e só ao leitor comunica. Assim como Mansfield, LaCarne conhece o monólogo interior de seus personagens.

Jorginho (Cair demais) é o jovem que, indo a uma festa, sem franca vontade, se vê às voltas com seu “precipício existencial de dúvidas”. A vida lhe parece sem sentido, a “caçada” lhe parece sem sentido, assim como o sexo pago, do qual acaba por se arrepender. A solidão acompanhada é a presença constante e o personagem se debate entre ser ele mesmo e fazer o jogo social. Por fim, um evento inusitado mostra a Jorginho que o homem que ele deseja e de quem sente inveja pode também ter o seu próprio “precipício existencial de dúvidas”.

Em Shangai não me espera o personagem chamado “O príncipe selvagem” antagoniza a alcunha com seu modo de vida, nada selvagem, tão domesticado; LaCarne, com fina ironia, revela as vidas monótonas enquanto não decidem realizar seus desejos. Tal monotonia é quebrada pelo narrador em primeira pessoa de “Enquanto eu lia Balzac”, já que as contingências da vida, a “troca de olhares que me impediu o sono e a leitura dos meus romances policiais favoritos”, modificam ao menos os estados de espírito. É então que chegamos a Arlete no vazio.

Arlete no vazio é um dos pontos mais altos deste Exercícios de fixação; talvez porque neste conto o livro encontre a confluência do conjunto. A mulher velha, cujo tempo passou sem que se desse conta e que, agora, tarde demais, deseja o cumprimento impossível. Arlete é, sozinha, um poço de lembranças. Cuida da rotina diária como quem cumpre um calendário de condenação, pois a vida sem amor é sempre condenação, e ainda há um corpo vivo. LaCarne dá a Arlete uma complexidade riquíssima, o que torna sua verossimilhança assustadora. A imagem de uma mulher que se dedica à casa (fuga) como um cachalote em seu mar é poderosa, e o conto se realiza em beleza e potência.

Em A aranha, LaCarne explora sua capacidade de nos levar ao inusitado. Um casal está na cama transando, enquanto uma caranguejeira talvez trame um ataque. De parágrafo em parágrafo, LaCarne surpreende o leitor. O leitor tece um caminho que é logo traído, e assim até o ótimo final. Em seguida, o livro apresenta O homem de Higienópolis, conto engraçadíssimo porque a reiteração do narrador de que aquele fato não aconteceu consigo, mas com seu personagem, leva o leitor à desconfiança de que foi sim o narrador que levou o garoto de programa para o banco traseiro do carro. Finalização também inusitada.

Em Os gatos, LaCarne presta sua homenagem a estes seres sempre dignos de homenagens, e explica bem o porquê. À pureza e sinceridade dos gatos, o autor opõe o desajuste e a falsidade humana. Já em Boneca come-come, o personagem, aparentemente homem acima de qualquer suspeita, decide se comprará ou não um raticida para matar uma pessoa, um segredo que esconde outro.

No Encanadores não desentopem enganos, o protagonista e o encanador se entregam ao sexo e ao amor possível, ali mesmo, sem aviso prévio e sem referências, a paixão no escuro. Neste conto, LaCarne usa recursos de prosa poética, metáforas que tornam o texto muito bonito e tocante, conseguindo ampliar o sentimento de solidão dos personagens, mas vou abrir um parágrafo específico para o conto Lápis de cor:

O título Lápis de cor é mais um exemplo de como LaCarne sabe “trair” o leitor. Espere que lápis de cor evoque tudo o que lhe evoca e, certamente, será traído. Aqui, LaCarne conta a história de Guto, o menino de sete anos que sofria calado na escola. “Criança viada”, bolsista filho de mãe empregada doméstica, Guto passou pela crueldade do preconceito de classe e da homofobia, juntos. O conto, além de revelar características abjetas de nossa sociedade nos leva a uma empatia imediata com Guto, fazendo com que o leitor compreenda sua drástica medida de defesa.

Em Dias de promoção, um homem se pega a pensar alto na seção de hortaliças e legumes de um supermercado. Sua frase “onde estão os pepinos?” desencadeia a reação de um garoto e a reflexão do protagonista. A pergunta seria notada se quem a fizesse não estivesse na contramão da normatização tradicional dos gêneros? O garoto teria notado se para ele também a situação não estivesse sob o estigma de uma sociedade homofóbica? Em um conto pequeno, simples, de algo cotidiano numa terça-feira e, a princípio, sem qualquer importância, LaCarne consegue mostrar o que “paira no ar” todos os dias.

No conto A baleia, mais um personagem tocado pela invisibilidade. O encontro com a baleia, encalhada na praia, funciona como uma epifania, em que a vida e a morte do protagonista se confundem com a vida e a morte da baleia. Dizem os que quase morreram que nossa existência nos passa como um filme nos últimos minutos. Essa é a experiência do protagonista que, imiscuído na possível morte do cetáceo, olho no olho, se revê em infância e abismo.

Em Extraterrestres, o autor trabalha também outra recorrência: a de que não há sinceridade, a de que o mundo é de convenções e falseamentos das vontades. “Só os extraterrestres são sinceros”, ele avisa, e constrói um conto em que um homem, com um sorvete na mão, aguarda o outro que não vem. Enquanto espera aquele que “não reinventará o desejo de compensar o atraso com um abraço extra, um sorriso extra, um pau duro extra”, repara todo o ambiente e as pessoas ao redor, e essa observação se mistura aos seus sentimentos, fazendo do que era relato realista uma metáfora do mundo interior.

Ocultismo é mais um conto com um humor melancólico delicioso. O narrador tenta escrever uma história que envolve magia e comunica isso ao seu interlocutor, mas acaba desistindo e pedindo conselhos sobre sua vida amorosa cujo estado chama de “solteirice alarmante”. Estrabismo alucinante, o conto na sequência, traz um personagem que agora começa, felizmente, a aparecer mais amiúde na literatura do país, mas que é tão comum na vida real. Os homens casados, os chamados “homens de bem” acima de qualquer suspeita, que praticam sua homossexualidade às escondidas. LaCarne narra com grande sensibilidade essa história de amor em que um homem pergunta ao outro “Você quer mais?” e é tudo que se quer, mas no reino do impossível. Um conto lindíssimo em que a insistência na frase “Forcei todas as barras possíveis” consegue o efeito de penetrar no urgente desejo de amor do narrador.

Em Crise de insônia, a morte de um amigo e a prisão de outro desencadeiam um estado de torpor no narrador: “Eu queria algum acontecimento sem urgência, algo de que eu pudesse tomar conta sem insônia”. O conto mostra a dificuldade de se relacionar com um mundo cheio de vicissitudes e o papel da rotina como amortecedor de tragédias pessoais.

No último conto do livro, Pênis gigantesco, um morador de rua exibe orgulhoso seu pênis gigantesco, seu único e valioso bem. A vizinhança já parecendo acostumada, ou mesmo admirada de poder ter tal monumento pelos arredores, deixa o mendigo por ali, oferecendo até comida. Porém, num determinado momento, ele é denunciado à polícia por uma mulher. É interessante que LaCarne está menos preocupado com o fato do que com a motivação. Aqui, mais uma vez, a luz é lançada para fazer suspeitar das motivações.

Exercícios de fixação é um livro em que os personagens, na sua maioria, estão fora da heteronormatividade. Para além da denúncia de uma sociedade hipócrita e que promove muito sofrimento via preconceito, os contos de LaCarne trazem os temas universais do amor, da solidão, do deslocamento, da morte e da liberdade. Seus personagens estão na experiência da incompletude, como se pedissem um tanto de compreensão. Essa que, no fundo, todos nós pedimos. Há um destaque para a libertação do corpo, esse primeiro lugar de poder, negado desde cedo. Mesmo não alcançando a plenitude de seus desejos amorosos, os corpos, nos contos de LaCarne experimentam, buscam a reiterada sinceridade.

Se os exercícios de fixação são aqueles que nos fazem aprender, pela repetição, uma lição, LaCarne acerta bem no título, sem ser em nada repetitivo. É a vida que está, reiteradamente, dizendo algo aos seus personagens. Seus personagens estão, reiteradamente, dizendo algo para nós. Nada deveria ser tão caro, tão inacessível: “A vida em si poderia estar em promoção”.



Ele (que não sou eu) percorria o centro da cidade de madrugada em busca de rapazes que pudessem satisfazer o seu desejo. Cada quarteirão era delimitado: havia as esquinas das travestis e as esquinas dos garotos de programa. Mas ele (que não sou eu) dirigia seu carro lentamente, numa caçada, muitas vezes andando em círculos, em busca do rapaz ideal. Nem sempre ele (que não sou eu) explorava o prazer da noite sozinho, tinha um casal de amigos como cúmplices. Ao abordarem os rapazes, ele (que não sou eu) tomava a iniciativa de perguntar o preço, o tamanho e se poderiam exibir o que existia dentro de suas cuecas. O casal de amigos permanecia em silêncio, talvez controlando o desejo, observando discretamente se alguém ao redor se aproximava, pois a cidade era perigosa. Porém, ele (que não sou eu) nunca se decidia por nenhum rapaz, apenas se contentava em vê-los sem roupa por alguns segundos, desesperados por dinheiro. Muitos recusavam qualquer amostra grátis de suas qualidades específicas, pois exigiam algum pagamento prévio. Então uma bela noite, ele (que não sou eu) abordou um homem por volta dos trinta anos que dizia ser de Higienópolis. A maneira como ele falava e a ênfase na informação desnecessária porventura evidenciaria isso, mas o interessante era que a voz daquele homem era extremamente sexy. E ele (que não sou eu) convidou o homem de Higienópolis para o banco de trás. Quem dirigia o carro era o casal de amigos, um no volante e outro no banco do passageiro. No banco de trás o homem de Higienópolis tirou a camisa, baixou a bermuda de nylon e se deixou ser manipulado ali mesmo. Mas ele (que não sou eu) antes de atingir o êxtase, lembrou que durante toda a sua vida havia esperado por um grande amor, independentemente de qualquer dote físico, e que aquilo era um exemplo gigantesco de hipocrisia íntima. O programa foi encerrado ali mesmo, e o rapaz de Higienópolis saiu alegre e satisfeito ao receber uma nota de vinte reais de um otário (que não sou eu) por menos de três minutos de trabalho.”
(O homem de Higienópolis, p. 35/36)


***
Exercícios de fixação
Antônio LaCarne
Contos
Publisher Editora
2018

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Mauricéa, de Adrienne Myrtes





Por Adriane Garcia

Vão nos deixar bordar pássaros
Nas bandeiras da pátria livre?
Pedro Lemebel

Mauricéa (ed. Edith), título do romance de Adrienne Myrtes, faz referência à Cidade Maurícia e a Maurício de Nassau, à época da invasão holandesa; é também o nome escolhido por Omar, quando decide assumir a transgeneridade.

Diferente dos demais, deslocado, identificado, desde a infância, com o gênero feminino, Omar, quando nos narra em primeira pessoa sua vida, já é uma velha e  está, como nos diz, na melhor idade: “melhor idade para morrer”, “melhor idade para ir pro asilo”, “melhor idade para ter Alzheimer”, “melhor idade para brincar no Parkinson”. É com humor melancólico, alguma nostalgia e constatações de muita dureza que Mauricéa conta sua vida. A vida de uma sobrevivente, em um país com um dos mais altos níveis de homofobia do mundo, onde a expectativa de vida das travestis não chega aos 40 anos.

A história nos chega enquanto Mauricéa está de cama, na casa que divide com duas amigas, Izildinha e Paula Klee. Está imobilizada, devido às sequelas de um traumatismo craniano que sofreu, quando foi surrada por uma gangue de, acredite, outros velhos. É interessante que Adrienne Myrtes tenha escolhido para os criminosos a idade da velhice, revelando uma continuidade: o que, a princípio, soa inusual para uma gangue de caçada a pessoas LGBT, logo nos leva a refletir sua atualidade. Há pouco, na própria realidade brasileira, um senhor de 63 anos, ocupante de cadeira legislativa e concorrendo à Presidência da República, vociferava em vídeos de redes sociais e programas de televisão seu preconceito contra gays. Os problemas não resolvidos com a sexualidade duram o ódio de uma vida inteira, velhos capazes de espancar o que julgam ser um homem vestido de mulher podem estar na fila do posto de saúde. E estavam.

Sendo amparada e cuidada por Izildinha, cuja bondade e caridade chegam a irritar Mauricéa, “quem faz caridade oprime sorrindo”, ela rememora toda a sua trajetória. O leitor se instala no pensamento da protagonista. Dali, é possível saber quais foram seus caminhos, seja em Recife, onde, órfã, foi criada pela tia e trabalhou no Chanteclair, ou São Paulo, para onde foi tentar ser uma estrela, uma grande artista, se revelar no feminino. Porém, a realidade fez o que costuma fazer com os transgêneros, empurrou-a, mais uma vez, para a prostituição. Para complementar a renda, Mauricéa foi também manicure.

Passando por grandes amores, Jonas, Gilmar, Romero, Mauricéa nos conduz à sua vida amorosa, o amor terminando ora em traição, ora em morte, “o amor não é saudável nem compreensível”. “Mona é bicho que gosta de se iludir”. É no amor que a vida mais se confunde, pois não há uma educação amorosa e, no caso de Mauricéa, o preconceito social determina muitos abandonos; não se ensina em lugar algum o amor, essa “coisa” que todos buscam e em nome do qual se pratica tudo quanto é desamor.

De maneira fluente, verossímil, suspensa de julgamento, íntima, Adrienne Myrtes consegue estabelecer uma conexão perfeita entre sua protagonista e o leitor. A naturalidade com que as lembranças surgem é notada, inclusive, nos “ganchos” de memória. De modo recorrente, uma palavra do parágrafo acima é o que desencadeia a memória que virá no parágrafo seguinte, ou de uma linha para outra: “E o que eu mais queria era ver a segurança familiar dizimada, se eu pudesse espatifava a dele pra começo de papo, atirava no coração dela, a tirava de circulação...”, “ele foi fraco, homem é assim mesmo, tem necessidades. Não havia necessidade era de você nascer na família”.

Enquanto acompanhamos a existência de Mauricéa, aparece-nos o país de fundo, a época da ditatura militar, na qual Mauricéa passa parte de sua juventude e vida adulta. A eterna tentativa hipócrita e higienista da sociedade brasileira de “limpar” as ruas dos “indesejáveis”. A direita e a extrema-direita usando do bullying aos grupos de extermínio e a denúncia de Mauricéa de que até entre os subversivos (a esquerda) ela era uma subversiva, pois nem ali os travestis encontravam apoio para os seus corpos.

“... Tempos de maremoto, de força policial específica, embora não oficial, treinada para limpar as ruas da imundície que representávamos: o esquadrão antibichas era conhecido e temido; por sua vez temiam e, por isso, paravam o ataque quando começávamos a nos cortar. Guardavam medo do mal anunciado veladamente. Naquela noite, além de me deixarem a cara inchada de porrada, fui obrigada a engolir a porra de quatro deles; conseguiram me tomar a gilete quando me caçaram. Aqui se misturam em mim a dor da humilhação revisitada e a ternura do encontro com Gilmar, meu salvador, meu querubim.”

Mauricéa, contrariando prognósticos, chega à velhice, e a homofobia acompanha a história. É na contemporaneidade, na suposta democracia, que ela é abatida, como se humana não fosse. Na narração das lembranças de Mauricéa, poderíamos supor que ela frisa apenas seu lugar (ou não-lugar) social, mas não, o grande mérito de Adrienne Myrtes é nos dar uma personagem que faz isso, mas, antes, é uma vida humana completa e complexa, com dores, alegrias, desejos, sentimentos de vingança, pontos de vista pessoais, reflexões que independem de gênero, orientação sexual, rótulo. Parte da raiva dos “quadrados” é não conseguir “encaixar” as variantes da sexualidade, achando que, mais seguro, é o mundo conhecido, que mata.  A sexualidade de Omar/Mauricéa também não pode ser totalmente compreendida (ou encaixada), pois pertence ao campo da liberdade, ao delicioso campo do “fluir”. Mauricéa é gente, que acerta e erra. Gente que aprendeu a construir distâncias, que sabe que o tempo é “esse gigolô que nos fode e nos vende em troca de momentos(...). Gente que, como toda gente, quer amar e ser amada. E, parafraseando Mario Quintana, todas as histórias são mesmo de amor.

Omar, meu amor, você está acordado? É hora dos exercícios e da massagem nas pernas, o médico falou pra não descuidar, e você tem ficado tempo demais deitado, precisa se mexer.
A única coisa que mexi de modo involuntário foi o peito. As mãos de Izildinha aqueceram minhas pernas, as palmas esfregando a pele. Meus músculos, tocados, libertaram soluços velhos, coisas guardadas. Cobri o rosto com o braço a ver se escapava da piedade, mas, igual a um filhote de cão quando sonha, deixei escapar pequenos ruídos, gemidos de choro contido; um vira-lata sem dono aprendendo a lei da rua, do asfalto. Minha mãe precisou conhecer as ruas, pode-se dizer que sua vida foi mais fácil? Mais fácil foi aceitar que o calor das mãos de Izildinha massageando minhas pernas  e pés surtiram o efeito de acalmar a alma, pacificaram a guerra em meu peito, mas acordaram involuntariamente meu pau, adormecido e abandonado entre as pernas havia tanto tempo, rebaixado à tarefa de expelir urina feito fosse outra vez criança, meu velho amigo alquebrado pela jornada; sobreviveu ao mata-pombos e a minha condição de fêmea para chegar até aqui e ser trazido de volta à vida pelas mãos de uma mulher. Fechei os olhos e me permiti sonhar com o amor, esse belo desconhecido, enquanto Izildinha me acarinhava e me lembrava: a vida é maior que a dor e tem o costume de impor sua presença. Izildinha tem a manha do negócio, é profissional.
Omar, meu filho, relaxe. Veja se dorme. Vou ao banheiro lavar a boca.

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Mauricéa
Adrienne Myrtes
Ed. Edith
Romance
2018






quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Por cima do mar, de Deborah Dornellas




Por Adriane Garcia


Por cima do mar (ed. Patuá), de Deborah Dornellas, conta a história de Vitalina da Conceição Brasil, mulher negra, historiadora, professora da UNB, filha de pai cearense e mãe mineira, nascida em Brasília quando da construção da capital do país. Na infância, moradora em uma favela no Distrito Federal, logo se muda juntamente com a família para a Ceilândia, cidade satélite.

Indo e vindo em memórias, a protagonista, depois tornada Lígia Vitalina por uma ousadia da mãe, reconstrói a própria história e, nesse percurso, leva o leitor a muitos lugares. É em Benguela, Angola, que a narrativa começa. Fazendo o caminho contrário da diáspora africana, Lígia Vitalina busca as suas origens e, na África, reconhece as mulheres que lhe antecederam. Por cima do mar é tecido de muitas delas, são as mulheres que vão compondo o mundo neste romance.

Ao oferecer ao leitor a história de Lígia, Deborah Dornellas mostra também uma parte importante da história do Brasil, a dos candangos, migrantes que, vindos de vários lugares do país a partir de 1957, dispuseram-se a construir Brasília, sob condições precárias de trabalho e moradia. A capital não é feita para abrigar a classe de trabalhadores que a construiu. Pronta, aqueles que não podem estar dentro do Projeto Piloto são empurrados para as cidades distantes, sem serviços públicos adequados e sob forte repressão policial.

Também é destacável que a autora, a partir do personagem José Augusto Luacute, nos dá um panorama da Guerra Civil em Angola, só terminada em 2002. É comovente a história do jovem, único filho homem, que é enviado pela mãe ao exterior para que não lutasse na guerra fratricida. Luacute parte em um cargueiro holandês, mas não sem culpa por abandonar os seus. À ação de amor e desapego da mãe, Luacute deve a instrução intelectual e a vida.

Compreendendo, diariamente, e não sem dor, a diferenciação entre brancos e negros, ricos e pobres, homens e mulheres, patroas e empregadas domésticas, Lígia Vitalina busca o seu lugar – a despeito do que lhe deram – nas relações pessoais e sociais. Deborah Dornellas, neste Por cima do mar, leva-nos na companhia de uma personagem de muita beleza e luta. Uma história atravessada pelo racismo, pela misoginia (com um de seus eventos culminantes: o estupro), pela inadequação e invisibilidade social.

Um dia, em 1986, na Ceilândia, jovens reunidos para dançar em um baile black, no Quarentão, foram cercados por viaturas e um policial gritou: “branco sai, preto fica!” Em seguida, começaram a atirar. É importante lembrar. É importante não deixar esquecer. Por cima do mar é um livro que sabe que Minas Gerais e seus pretos, que Paracatu e seu congado, que Brasília e seus candangos, que Angola e suas zungueiras, que o Rio de Janeiro e o Mercado do Valongo falam da mesma dor e da mesma resistência.


Nunca achei que fosse o tipo de pessoa que faria terapia. Pensava que jamais ficaria confortável com isso. Não porque achasse que é coisa de gente doida, mas porque achava que terapia não era coisa para gente pobre. Que uma coisa não combinava com a outra. Era refém dessa crença inútil, reforçada por preconceito e desconhecimento. E, mesmo quando fui à primeira sessão, caminhei até o consultório da psicóloga carregando uma tonelada de culpa no lombo. É gastar dinheiro à toa, bobagem, frescura de branco, coisa de rico. Escutei essas expressões sei lá quantas vezes ao longo da vida. Inclusive da boca de gente da minha família. Mas aprendi a impedir que essa ideia me entrasse ainda mais pelos poros e circulasse nas minhas veias. Tenho, sim, o direito de buscar ajuda profissional que me auxilie a lidar comigo mesma e com meus problemas. Todo ser vivente tem. E de pagar uma terapia, mesmo que com sacrifício, se achar que é o caso. Era.
Sobrevive entre as mulheres negras a ideia de que, por ser preta e de origem pobre, uma mulher tem que ser sempre forte e aguentar tudo, sem sucumbir. E sem pedir ajuda. Minha mãe nunca me disse isso com todas as letras, mas sempre agiu como se esse comportamento estivesse subentendido. De tia Maria, ouvi absurdos a esse respeito. Minha tia não segurava palavra. Era uma tagarela para os padrões mineiros. Mas mãe e tia não foram as únicas que me incutiram essa crença estúpida, da qual elas próprias devem ter sido vítimas a vida toda. Vi e ouvi muitas vezes mulheres e homens negros, no espaço familiar, na vizinhança, nas rodas de amigos, falando e agindo como se para nós, pessoas negras, não houvesse a possibilidade da fragilidade.
Passei anos da minha vida guardando dentro de mim todos os detalhes do ataque. Aqueles escrotos me violaram o corpo e a alma naquele dia. Parte de mim ficou no chão seco do cerrado. Mas ainda estou aqui. E decidi não mais dar aos monstros o poder de me roubarem o gosto pela vida.
Antes de começar a falar, na primeira sessão de terapia, captei nos olhos de Míriam, a terapeuta, uma profunda empatia. Confiei nela e falei tudo que consegui em uma hora e pouco. Agradeci mil vezes por estar ali e por conseguir falar. Foi a primeira vez que mencionei a palavra feia sem constrangimento. Estupro. Estupro. Estupro. O que sofri foi um duplo estupro. Hoje se diz gang rape ou coisa parecida.
Míriam era a terceira pessoa que ficava sabendo do estupro. Além dela, até então, apenas o professor João Luís e Docas sabiam. Foram os dois, inclusive, que, cada um no seu front, me convenceram a procurar ajuda psicológica.
Um alívio conseguir falar da violência que meu corpo sofreu sem medir as palavras. A ferida ainda dói, mas já não sangra.” ( p. 169/170)

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Por cima do mar
Deborah Dornellas
Ed. Patuá
Romance
2018

Canção sem palavras, de Laura Cohen Rabelo




Por Adriane Garcia


Maria Tereza, protagonista de Canção sem palavras (ed. Scriptum), mais novo romance de Laura Cohen Rabelo, é uma musicista, violonista, filha de um famoso e requisitado luthier. Tendo vivido no universo da música desde seu nascimento, Maria Tereza se torna uma virtuose do violão. A narrativa se concentra especialmente no período de estudos universitários de Maria Tereza, na Escola de Música em Belo Horizonte – quando já fazia concertos em um duo de cordas, com o namorado Arie – e no primeiro ano após a formatura.

Dos conflitos e angústias comuns aos jovens assim que deixam a faculdade, Laura Cohen dá atenção especial à questão da vocação e da escolha de um projeto de vida. Tanto Arie quanto Maria Tereza entrarão em uma crise que coloca em dúvida não só o lugar que a música ocupa em suas vidas, quanto o lugar deles próprios na relação amorosa. É nesta crise que surgirá a viagem. Tanto Maria Tereza quanto Arie são filhos de mães judias e têm a possibilidade de fazer o “birthrigth”, um programa de turismo educativo para fortalecer a identidade judaica e colocar em contato jovens judeus de todo o mundo com os israelenses.

Ao partir para Israel, em um grupo de quarenta jovens, Maria Tereza empreenderá uma viagem surpreendente e – aqui o grande mérito de Laura Cohen – o leitor irá junto.

Chama a atenção em Canção sem palavras a fluidez do texto e a forma quase matemática (como a música) em que a narrativa vai se dando. Há um ritmo de imersão  para o leitor. Nada é dado de mais ou de menos, a leitura alcança uma verossimilhança total. Laura Cohen é profunda observadora de seus personagens, flagrando suas nuances e pensamentos. Tendo escolhido contar a história na terceira pessoa, mas no tempo verbal do presente do indicativo, Laura Cohen coloca seu narrador “colado” à sua protagonista, tanto que, no fim das contas, o leitor sabe que Maria Tereza existe, que pode ter passado por ela alguma vez e até lamenta não ter ido a um concerto seu.

Outro fato notável é que aqueles que não conhecem Israel ficam com a sensação de já terem ido lá, ainda que em sonho, enquanto leem o romance de Laura Cohen. Se a melhor literatura de viagem é aquela em que o leitor sente o que sente o viajante, fica próximo de outra cultura, ganha informações que pertencem a campos distintos do conhecimento, desenha em sua imaginação o cenário proposto a ponto de parecer ter pisado nesse outro território, Laura Cohen a cumpre em Canção sem palavras.

Além do universo da viagem, o romance traz dilemas intrínsecos aos músicos e aos estudantes de música. Como se já não fosse o suficiente, o leitor curioso encontrará uma espécie de “playlist” para ouvir, já que Maria Tereza em seu percurso de estudos vai nos mostrando o nome de grandes obras e compositores.

Canção sem palavras é um romance múltiplo, com personagens completos e complexos, demasiadamente humanos, procurando seu caminho no deserto. Da crítica geopolítica à condição feminina e à consciência do mito da masculinidade, do sucesso profissional ao sentimento constante de precariedade e da perecibilidade das coisas. Sutilmente, o lugar da viagem – um país jovem numa terra inóspita, que ameaça e é ameaçado – é também metáfora: “Ela tem a impressão de que tudo é frágil e vai acabar ruindo em pedaços um dia.”

O homem sem cidade ou é um deus ou é um monstro. Ela tem a impressão de que tudo é frágil e vai acabar ruindo em pedaços um dia. O que a salva dessa impressão sedutora e quase confortável de um fim violento é a rotina. Mais do que tudo, ela ama a rotina. Há os dias bons e os dias ruins, e isso ela pode controlar. Acorda, estuda, vai ao restaurante, trabalha, sai mais cedo quando tem aula de violão ou ensaio com o quarteto, volta para casa, estuda, toma um banho, lê, dorme. Sente que está avançando muito no violão, como se algum nó de aprendizado tivesse finalmente se desfeito, e agora ela gasta todo o tempo que tem para tocar tocando, e não se refestelando nas angústias em que se envolvera no Brasil depois que Arie foi embora. O que era uma promessa de ficar melhor finalmente tinha ficado melhor, e ela se lembra da melhor parte dos seus dias, o estudo, a rotina.
Anda muito a pé e pega a bicicleta do tio Jacques e pedala por todas as partes. Gosta de ver os judeus religiosos caminhando pela rua, gosta de passar entre eles, atravessá-los como o presente atravessa o passado. Os mais moços olham, às vezes sorriem como crianças tímidas. Bochechas coradas, homens puros. O sonho de toda religião é manter todos nós como crianças para sempre, sempre puros e sem erro. Vai enrolando para entrar no curso de hebraico, mas aprende aos poucos com a tia Deborah.
– Você não sabe de nada – diz a tia enquanto mexe a panela de molho de tomate.  – Seu tio Jacques brigou com seu avô não porque ele queria ir para Israel e ele não deixava. Seu tio Jacques saiu de casa porque ele é gay. Sua mãe não te conta as coisas direito, conta? (p. 192/193)




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Canção sem palavras
Laura Cohen Rabelo
Romance
Ed. Scriptum
2017