segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Rocketman, de Rique Ferrári




Por Adriane Garcia


Surpresa boa me foi o livro Rocketman (ed. Patuá), de Rique Ferrári. A edição, além de bonita, com 22 ilustrações produzidas por tatuadores, traz uma poesia que nos proporciona, no mínimo, duas viagens.

A primeira delas, a viagem a que um bom livro, por si só, nos leva. As segunda e demais viagens nos transportam para vários países da América do Sul: Argentina, Uruguai, Chile, Peru, Bolívia, Colômbia. Em Rocketman, Rique Ferrári elabora uma geografia afetiva, onde o olhar perscruta e refaz as paisagens, atenta-se para detalhes que só a poesia poderia ver e dar a ver.

Nessa chave generosa daquele que possui e reparte, Rocketman emociona. São camadas de cores. O olhar deste poeta é atento à luz nas cidades, especialmente à luz solar. Em consequência, sua poesia possui amplidão e privilegia a imagem. Do cenário para dentro, de dentro para fora, verdadeira usinagem que se manifesta em versos: o desenho tanto pode se dar na pedra, na arquitetura, nos muros, quanto na pele. As cores (com predominância para o amarelo) são uma presença recorrente nesta poesia e um símbolo da diversidade humana. Há algo de holístico a ser aprendido: “ – não estamos na natureza, somos a natureza – ” , na transmutação da noite para o dia, o próprio homem se transforma.

Viajar é abrir horizontes, contatar culturas. O bom viajante reflete, repensa, traz para vida o antes impensado do outro. Um viajante atento desfaz preconceitos, pois viajar é uma das melhores maneiras de conhecer. Rocketman faz dessas viagens o motor para a sensibilidade. Elementos corriqueiros, como a chuva, não lhe passam despercebidos. O olhar de um viajante precisa ter o frescor infantil para aproveitar a novidade. O poeta, melhor que ninguém, possui esse olhar infantil, que é também o olhar do sábio: “sabe-se desde os pré-colombianos: o sol marca as horas, a chuva o tempo”.

Utilizando-se de versos longos, Rique Ferrári lida à vontade com a linguagem, permitindo o pensamento solto, como se deixasse até certo ponto um fluxo. Contudo, os poemas são bem amarrados, sabem onde querem chegar, mesmo quando confessam não saber, caso do último poema, homônimo da coletânea. Também é de se notar a maneira como sua poesia é brincante, lúdica, com onomatopeias, ironia e citações por vezes inusitadas; em uma palavra muito usada pelo próprio poeta, Rocketman tem uma poesia “transante”.

Tendo o cenário e a viagem como gatilho, Rique Ferrári desenvolve uma poesia que passa pelos temas do conflito interior, da observação do mundo, da contemplação, da constatação da desigualdade social, da guerra e da violência promovida pelos colonizadores, dos gestos do cotidiano e da simplicidade como peça chave para viver bem, da importância da imaginação e do sonho, das indagações acerca do nosso ser/estar no mundo e do avesso das coisas. Se a viagem nos deixa tanto, também deixamos nas viagens nossos resquícios.

Rocketman é uma viagem de foguete para confirmar a frase de Gagarin, “a Terra é azul”, e para acrescentar que é preciso que deixemos que a luz amarela do Sol nos invada. Uma viagem de foguete pode dar a impressão de ser rápida, mas Rique Ferrári dá direito a belas paradas, ainda que nos confesse (os poetas são terríveis) uma verdade tirada do Mistério: “o mundo é só um dia”.


confissão

roubei duas coisas ontem

as quais, obviamente, não posso revelar aqui

se me apreenderem nos encontros calmos do meio
terei constitucionalmente o direito de permanecer calado,
o qual já o faço por dever, apenas deslizando nas leituras
escutando o som de vvvvvvvvvv
ou zzzzzzzz da minha própria respiração
(a depender de gripes)

infelizmente a ladroagem é uma arte não-reconhecida pelos noticiários

o índice de roubos mente
já que a maioria dos furtos é desapercebida

e nesta categoria estão chicletes, isqueiros, bebidas, principalmente

o guiness book dos roubos também mente
não foi o depósito Knightsbridge, em Londres, o maior furto da história
foram as terras;
a dizer, os colonizadores e colonizados, você sabe

no entanto, pode-se roubar algo ruim de alguém bom:
um sentimento podre, um desassossego de domingo, uma fúria ao patrão
e assim, na bela arte fina, além do ladrão não ser preso
ainda liberta a queridíssima vítima

está na categoria dos pequenos furtos leves
que ou cabem no bolso ou na consciência.



***

Rocketman
Rique Ferrári
Poesia
ed. Patuá
2017












terça-feira, 6 de novembro de 2018

Começa em mar, de Vanessa Maranha




Por Adriane Garcia



Começa em mar (ed. Penalux), romance da escritora Vanessa Maranha, traz para bem perto do leitor mais de uma viagem. Não só a viagem a que um bom livro leva, mas a própria viagem que a personagem Alice Zuma empreenderá. Filha de mãe espanhola e pai português, fugidos do salazarismo, a criança Alice se vê refugiada em uma ilha da Bahia. Ali começará sua história de inadaptação, cujo sentimento constante será o do exílio.

Os pais de Alice, no Brasil, não se adaptam. O conflito é interessante, pois mistura humilhação secreta com externação de sentimento de superioridade. O pai, com o tempo, definha, cada vez mais “diminuto”. A mãe insiste em narrar as glórias do passado europeu, enquanto se recusa a partilhar dos hábitos locais, inclusive não vestindo a filha como as outras crianças. Alice irá para a escola com a indumentária espanhola, mesmo que isso lhe aumente a inadequação de uma infância visivelmente forasteira. Essa infância determinará o cenário de Alice, esteja ela onde estiver: o não-lugar.

Simultaneamente à figura do pai que se enfraquece até desparecer, a mãe vai se “emasculando” naquilo em que ele se omite e retira; autoritária e cruel: “Para Concha, sofrimento era pedagogia (...)”. A influência (ou a falta de influência) do pai medíocre será determinante para o modelo de casamento da filha, cujo marido, também medíocre, escreve livros que ninguém lerá, preso no porão do hotel, agora, negócio em que Alice ganha a vida.

Assim como a incompletude está presente desde o início da narrativa, o mar é o constante contraponto: Alice sabe que ele é a possibilidade de encontro, chegada e partida e nele deposita esperanças de curar uma vida inteira de faltas.

Deste modo, planeja partir e descobrir suas origens na Ibéria, mas, inexorável, acaba por descobrir que também não pertence à Europa. No entanto, é em pleno mar e somente nele, a bordo de um navio, que Alice descobre uma natureza sexual desconhecida, sua sexualidade libertina, farta como as águas do oceano, onde é absoluta senhora de si e de seu corpo.

É interessante notar o destaque das personagens femininas em Começa em mar, todas trazendo relacionamentos conflituosos entre si e seus homens, entre si e seus filhos; também entre patroas e empregadas: “não se pode amar quem nos chefia, é antinatural”, sogra e nora. Situações muito próprias da experiência das mulheres como maternidade, estupro, aborto, objetificação são abordadas.

A linguagem se aproxima da prosa poética, às vezes trazendo construções parecidas com o português de Portugal; utilizando, amiúde, a inversão sintática. Uma história envolvente sobre despertencimento e solidão, ainda que nossos pés estejam em terra e que uma multidão nos acompanhe. Começa em mar também fala do desejo humano pela volta ao princípio. É a água o nosso primeiro lugar.

A ideia era atirar-se no mar, tornar à água, ninguém nesse mundo suspeitava que em Jordana tal intenção fermentasse tão lenta e longamente. Eram planos que desenhava desde muito antes, o perigo, nela, jazia acomodado, sem iminências nem rompantes, uma fera dormente, delicadamente alimentada em autofagia, de pouco em pouco a devorando por dentro.
A Jordana sempre sentira viver uma vida que não lhe pertencia. Nascida em negativo. Ainda mulher. Muito olho contra, quem sabe perecesse semente mesmo vingasse não. Desenvolvida para não ser. A mulher era só superfície de alisar. A mulher era vaso onde despejar tremores líquidos, sua carne de fundo infinito aberta em rasgo. Pra baixo de réptil, imbecil, amordaçar-lhe a sua muita fome.” (pg. 120)


***
Começa em mar
Vanessa Maranha
Romance
ed. Penalux
2017
Menção honrosa no Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2016.












terça-feira, 30 de outubro de 2018

O corpo descoberto, de Eliane Robert Moraes (org.)




Por Adriane Garcia



Apesar do erotismo ter estado sempre presente na literatura brasileira, foi a partir do final do século XIX que ele se expandiu, coincidindo com um maior exercício da tardia imprensa no Brasil e suas tipografias. O livro, artigo de luxo restrito a uma parcela pequena e privilegiada da população, era, em geral, importado. Com a maior circulação do livro na capital do Império, a autoria nacional cresceu no mercado livreiro.

Os livros tidos como pornográficos já faziam seus adeptos entre os leitores no país; vindos da Europa, tratavam dos temas devassos, da luxúria, da depravação, dos bordéis, das orgias e dos personagens sobre os quais a moral fazia calar: prostitutas, homossexuais, pervertidos, libertinos monásticos e políticos. Em uma sociedade marcada pelo conservadorismo e pelo controle do corpo através da Igreja e do Estado, alguns escritores brasileiros, para desenvolver a temática erótica, optaram por assinar com pseudônimos.  Além dessa estratégia, os escritores do século XIX que se aventuraram a falar do sexo, muitas vezes o fizeram utilizando-se da alusão.

Em O corpo descoberto, seleção organizada por Eliane Robert Moraes, é possível encontrar um grande acervo do que foi essa literatura. A seleção delimita setenta anos de produção do conto erótico brasileiro, de 1852 a 1922, finalizando exatamente com a chegada do Modernismo. Outra delimitação é que somente foram usados textos de domínio público. São 23 autores, notando-se entre eles apenas uma escritora: a carioca Júlia Lopes de Almeida. Em um país com entraves que iam da  deficiente alfabetização das mulheres ao machismo nas relações sociais, é explicável que a autoria feminina ficasse totalmente prejudicada. Não obstante, o conto da autora, O caso de Ruth, é um dos melhores da seleção. O leitor poderá observar a mudança de tratamento no conflito da personagem feminina quando escrito por Júlia. Sua personagem esconde o segredo da violência sexual e diferentemente de, por exemplo, a narrativa de Olavo Bilac, em que o narrador acaba justificando essa violência com a “premiação” de uma gravidez, Júlia nos conta de uma personagem que não escapa do suicídio.

Contextualizados dentro do Romantismo, passando pelo Realismo e Naturalismo, O corpo descoberto traz nomes como Machado de Assis, Raul Pompéia, Cruz e Souza, Aluísio de Azevedo, João do Rio e Lima Barreto, dentre outros, chegando em Mário de Andrade. A organização do livro é temática, abrangendo histórias que envolvem objetos, viúvas, feitiços,  mulheres da vida, descoberta do corpo, assombrações e até a sensualidade dos tísicos (mais especificamente das tísicas). A mulher é o personagem em comum e nisso também o livro se torna interessantíssimo. Como é para o leitor, a leitora de agora, ler essa visão de mulher essencialmente idealizada ou demonizada na literatura do século XIX? Pois é fato que o leitor, a leitora lê com os olhos de agora.

Usando a alusão para praticar uma literatura erótica, os autores em O corpo descoberto mostram os “modos de narrar”, de dizer sem dizer e, ao mesmo tempo, trabalham com a sugestão. O braço nu da mulher sugere o corpo, o vaso de cerâmica sugere a vagina, a comparação com o cisne sugere a mulher elegante, feita para a apresentação na sala, ao mesmo tempo que a comparação com a cabrita sugere a mulher sensual e pecaminosa, feita para a cama. No deslanchar das histórias, quase sempre, o homem é o ser desencaminhado pelas mulheres, assolado e desolado pelas paixões. A mulher bonita é quase invariavelmente branca, loira, no máximo morena, o que quer dizer ter cabelos negros.

Machado de Assis traz uma boa surpresa: Pílades e Orestes, um conto homoerótico sobre dois amigos inseparáveis e Mário de Andrade fecha o livro com O besouro e a rosa. Neste conto, um besouro caminha sobre o corpo de Rosa e se embola nos seus pelos pubianos. É a linha que separa a inocência do desejo consciente do sexo. A organizadora foi sagaz ao encerrar a seleção com um escritor que também representa uma linha divisória.

Um livro especial, feito para leitores e leitoras que para além da ficção, prezam os registros que a literatura efetua e que constituem, também, a nossa história e a história dos nossos modos de narrar.

***
O corpo descoberto
Contos Eróticos Brasileiros (1852-1922)
Seleção de Eliane Robert Morais (Org.)
Cepe Editora
2018


Texto originalmente publicado no jornal Estado de Minas, Caderno Pensar, 05 out 2018.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Amortalha, de Matheus Arcaro



Por Adriane Garcia

Já na epígrafe, Matheus Arcaro nos coloca em contato com a Filosofia. Um fragmento póstumo de Nietzsche, uma frase do Ética, de Espinosa. Tanto quanto o tema da morte, as referências da Filosofia atravessam os contos de Amortalha, naturalmente, numa escrita fluida (nem sempre linear) que usa analogias bem construídas: “Bete arrasta as sandálias como se precisasse desgrudar uma verdade da calçada”, “sua boca, uma metralhadora de Deus”. O leitor versado em Filosofia encontrará alusões que enriquecem a narrativa; o que não for, também aproveitará a leitura, pois as histórias sustentam-se sem as referências. Aqui, vale exemplificar com a ironia presente no conto Má educação, em que o professor de Filosofia, em greve, é agredido pelo policial que foi seu aluno. A Filosofia não salvou o militar, nem o professor, mas as consciências foram aguçadas.

Por toda a leitura, chama a atenção a capacidade de Matheus Arcaro para emocionar. Os contos permitem que o leitor não só “entre” na narrativa, mas que estabeleça contato com sentimentos e situações dos personagens. Parte deste alcance se deve ao fato de o autor conseguir manter a tensão e o mistério enquanto conta. No conto Como fugir? o narrador sente a beleza de forma tão avassaladora que chega a doer. A arte é absurdamente um ápice da capacidade humana de produzir beleza: “Antes a cegueira que os girassóis de Van Gogh.” A beleza da arte é comparada à beleza da natureza, Michelângelo, um deus “torturador”, como o deus que fez o vulcão e a lava vermelha que incandesce: “É deus esfregando a beleza na cara da gente”.

Na coletânea, sobressai a dor da morte nas nossas variadas experiências. A morte de nosso cão, de nosso ente amado, de nosso pai, de nosso filho, mãe, avó. A morte também do amor e a morte em seu avesso: o nascimento. É interessante notar que se no conto Alemão, o filho reage de forma racional à morte do pai, a ponto de parecer não senti-la, no conto seguinte, A flor, a epígrafe de Simone de Beauvoir já desmente toda a situação do conto anterior: “É inútil pretendermos integrar a morte na vida e conduzirmo-nos de maneira racional em face de uma coisa que não o é: que cada um se vire como possa na confusão de seus sentimentos.”, ressaltando a pluralidade dos personagens e dos conflitos. A flor, é um conto belíssimo, em que o amor por Princesa, uma gata, cresce na mesma medida que a solidão de sua dona, Clara, aumenta. As duas se tornam tão ligadas que estabelecem uma linguagem entendida por ambas e até pelo leitor. Matheus Arcaro nos faz acompanhar a dor dos últimos dias da companheira de Clara, doente e à beira do sacrifício. A morte poderá se tornar, então, gesto de amor.

Escritor que não foge ao seu tempo, Matheus Arcaro traz preocupações com relação ao presente e ao futuro das mulheres; seus personagens, não raro, são filhos de mães fortes ou pais de meninas: “Não sei teu sexo e te chamo assim! Ilustração de como será tua jornada caso sejas Camila. É mais profunda a cicatriz de fêmea, filha amada”. Também os cenários são construídos na sociedade das desigualdades econômicas, sociais e políticas. No hospital, a enfermeira de “A graça de Benedito” cuida de todos, indistintamente, inclusive dos moradores de rua que sempre voltam, doentes de novo. Em Fora do ar, o autor nos lembra, criticamente, através do seu jardineiro, que a beleza só poderá ser vista se desligarmos a TV.

Trabalhando também com humor, em Linha da vida, Amortalha traz um conto engraçadíssimo, em que Arthur, atendente em um programa contra suicídio, no seu primeiro dia, conversa com um provável suicida, Francisco (que ele insiste em chamar de  Frederico). Porém, pela conversa dos dois, o conhecimento de Filosofia de Arthur (referência a Schopenhauer) só faz piorar.

Amortalha é um livro sobre os fins, sobre os começos, sobre o amor, a certeza da morte e sim, a celebração da vida. Também trata do desejo, inclusive do de morrer. Uma leitura inteligente, envolvente e emocionante.



Filha, é bom que saibas: o ser humano não é como apresentam nas histórias de herói. Às vezes, ele pratica o mal em nome da justiça, às vezes diz uma coisa e faz outra, às vezes enterra um punhal no peito de quem ama. É bom que saibas que, enquanto algumas pessoas apanham migalhas para tapar os buracos do estômago, outras descartam comida como se fosse água barrenta. É bom que saibas que há pessoas que julgam importante a cor da outra pessoa e o que ela carrega nos bolsos. Saibas, Antonella, que, por seres mulher, o mundo, diversas vezes, vai te esfregar a proibição nas vistas. Vai te trancar portas e podar possibilidades. Vai esconder por trás de discursos coerentes o cimento que ergue a intransigência.
Não, não quero borrar tua visão com meus juízos. Não quero mostrar-te apenas a parte suja dos fatos. Estou certo de que não te assustarás com minhas palavras, mas as usará como combustível pro teu combate diário. Além disso, tu provarás, feito um faminto, a porção suculenta da vida e, com ela, lambuzarás a alma. De alguns destes momentos, sei que vou participar. Passearemos no parque em muitos finais de tarde, iremos ao cinema, falaremos sobre as danças da existência e, com tua mãe e teu irmão, chegaremos à ousada conclusão de que a vida, justamente pela ausência de sentido prévio, tem o vigor de uma bailarina.”

Excerto do conto A gestação de um pai, pag. 114/115

***  
Amortalha
Matheus Arcaro
Contos
Ed. Patuá
2017





segunda-feira, 10 de setembro de 2018

A mulher de Ló - de Carlos Machado

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Por Adriane Garcia

“Por que não deram voz/ à mulher de Ló?”


Que maravilha é ler um livro que nos surpreende.

Quando me deparei com o título A mulher de Ló, deste poeta e grande amigo da poesia que é Carlos Machado, lembrei-me da imensa personagem bíblica (quem passou por ela e não a guardou em imagem?) e senti que estava prestes a abrir algo especial. A intuição e o faro não mentiam, pois não pude deixar o livro, enquanto não chegava à sua página derradeira.

Espécie de poema-romance, composto por vários poemas, narra uma história única, a da Mulher de Ló, transformada em estátua de sal pela (in)justiça divina. O poeta se deu a acompanhá-la em seu horror, em seu último dia, em sua última hora; colocou os pés em Sodoma e Gomorra, viu as nuvens carregadas de ira e sentiu o cheiro de enxofre emanado da sentença de Deus. Sentença sem processo, assim como a sentença contra a Mulher de Ló, narrada em um poema inesquecível e tão contemporâneo, intitulado Tribunal. Em sua visita às duas cidades condenadas, Carlos Machado viu e ouviu seus habitantes, soube de suas crianças, plantações e bichos, pode até mesmo ver as costelas calcinadas do anjo que, no meio das chamas (e das virtudes inventadas que teimam com os desejos),  também olha para trás, e vê a Mulher de Ló.

Mulher sem nome, os escribas da Lei não se importaram, na mesma medida em que o poeta se incomodou. Qual o nome da mulher de Ló? Quais os nomes das Filhas de Ló? Quem, nos provoca o poeta, contará a história dos vencidos?

Ao refletir sobre o ato desobediente da Mulher de Ló, não pude deixar de refletir sobre vitória e derrota, sobre subordinação e altivez, sobre este papel em que, historicamente, a mulher quase sempre é colocada: o de quem erra. Não há como não lançar nosso olhar de completa desconfiança sobre as estatísticas oficiais: “Quem fez a/ estatística// dos mortos/ de Gomorra?”

Em A Mulher de Ló, a empatia e a contestação levam o leitor a fazer perguntas sobre aquilo que, muito provavelmente, nunca esteve inerte. A poesia lança movimento sobre a estátua de sal. Não estamos mais diante do objeto condenado, estamos ao lado do ser humano, sujeito de memórias e vivências de seu lugar, que poderia ser qualquer um de nós, olhando para os anjos cheios de fúria, sem compreender como é possível destruir uma cidade inteira, salvar apenas os membros de uma oligarquia e ainda chamar isso de alguma espécie de justiça.

Com versos inteligentes e, por vezes, de uma ironia mordaz, Carlos Machado nos lança em A Mulher de Ló, clarões como “não acreditam que Sodoma sairá/ do mapa para entrar na Bíblia” ou momentos apoteóticos, como em Frevo, onde a voz calada da mulher se ergue e se realiza. Da constatação de que, no próprio texto bíblico, não há qualquer menção à sodomia em Sodoma, da maneira como fizeram com que entendêssemos o termo hoje, o poeta brinca: “Os rebanhos de Ló/ - lascivas ovelhas -”, afinal, a morte das ovelhas precisa ser justificada.

Ler A Mulher de Ló me foi um exercício feliz de ler poesia, porque é poesia de primeira qualidade, porque é poesia que tem algo a dizer, porque é poesia de destruição, porque quer destruir o destruidor, porque sinaliza algo novo, porque ouve a voz da mulher silenciada, porque vai ao inferno e nos conta.


Tribunal

A mulher de Ló comparece ao tribunal.

Nome: desconhecido.
Acusação: olhou para trás.
Defesa: [interdita]
Sentença: morte sumária com regressão
                 ao reino mineral.
Últimas palavras: [interditas]


Varões

Aos varões da raça
não se pede muito.

Sua condição
lhes garante tudo.

Porém, quando há guerra,
quem se põe de luto?

Quem tece a mortalha
de seu próprio fruto?

Ao som da tragédia
quem conjura o susto?


Sodomia

Alguns justificam
o extermínio.

Dizem que a perdição
de Somoma
foi a sodomia.

E o bebê massacrado?
Só dormia?

***
A mulher de Ló
Carlos Machado
Poesia
Ed. Patuá
2018

* texto utilizado no posfácio da obra A mulher de Ló.




quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Parando para releituras - Grande Sertão Veredas - Guimarães Rosa



Parei um mês inteiro para reler essa obra da genialidade literária. Uma experiência incrível, já que, anos depois, a capacidade de leitura aumenta com o treino, o acúmulo de informações e aguçamento de sensibilidades. Ao terminar, lembrei-me de uma declaração de outro escritor mineiro, Wander Piroli, de que sentia pena de quem não leu Grande Sertão: Veredas. Uma obra imensa.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Passo Imóvel – de Lilian Sais






Por Adriane Garcia


Passo Imóvel, de Lilian Sais, plaquete com dez poemas, traz para a leitora/o leitor a possibilidade de uma viagem profunda e introspectiva. No pouco espaço de uma plaquete, Lilian Sais consegue nos transportar para o amplo cenário da solidão, um porão enorme, cheio de memórias.

De imediato, nota-se dois grandes méritos na poesia de Passo Imóvel: a beleza das palavras escolhidas com muita exatidão, como signos para que a leitora/o leitor construa o que não foi dito; o ritmo quase silencioso, sussurrado, a voz baixa, como convém a alguém numa madrugada de insônia. No adiantado da leitura, percebe-se que a autora trabalha uma narrativa única, orgânica, para uma personagem entre quatro paredes.

Alguns vocábulos merecem destaque como chaves que Lilian Sais usa para comunicar sentidos e sentimentos. A personagem aparece pela primeira vez no âmbito da palavra “madrugada” e termina com a palavra “palmo”. Entre insônia e morte, a autora revela a claustrofobia do passado, a palavra “casa” como símbolo não do que habitamos, mas de tudo que nos habita e a luta para que o futuro não seja eternamente quatro paredes sem “janelas”. “Janela”, por exemplo, utilizada nos versos “do que tenho,/ se tudo é possível/ deve haver/ uma janela// - sempre há uma janela”, remete ao problema colocado nos versos do poema anterior: “palavras batem/ no fígado// e estouram no céu/ da boca,// mas não ultrapassam/ a barreira// dos dentes/ cerrados.”

A poesia de Passo Imóvel reflete sobre a palavra que é anterior à fala ou à escrita, aquilo que não é falado e que, portanto, ainda não foi inventariado. Também a palavra “inventário” neste trabalho de Lilian Sais traz uma força especial à narrativa. É um inventário o que sua personagem (eu-lírico) tenta fazer. Sua impossibilidade de sair da casa, de sua própria solidão, revela-se no uso de “vendas” nos olhos, quando vai para o ambiente externo, como se só fosse possível ver dentro. O passo é imóvel: ela sai sem sair.

Estar consciente de tamanha consciência aumenta a solidão e faz com que não se possa amar as convenções, muito menos se submeter: “não convenho:/ da loucura preservo/ essa obstinação.// do que convém/ apenas tomo/ o prescrito,”. O ato de fumar aparece como ato de utilidade simbólica para um ser erodido, a erupção do cigarro sendo também a erupção de si, as cinzas como produto de desabamentos e escombros.

Com grande habilidade de síntese, Lilian Sais nos conta que a solidão é uma casa habitada por velhas palavras. Entre a prisão do passado e um futuro calculado em palmos – sete, para ser exata – , Passo Imóvel não tem lugar para o presente; porém, tanto é dito no não dito. A liberdade da leitora/do leitor pode traduzir que o presente é a janela que a personagem de Lilian Sais procura.

não é sina pouca
percorrer no futuro
passos passados:

silencia sinos.

peço,
de trago em trago

que entre
potência e exaustão

eu ainda seja
possível.



***

Passo Imóvel
Lilian Sais
Poesia
Ed. Cozinha Experimental
2018