segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A força gravitacional de líria porto – cadela prateada



Por Adriane Garcia


Estive às voltas com o livro “cadela prateada”, de líria porto (ela gosta assim, minúscula) por cerca de uma semana. Um livro de poesia que, sem dúvida, se leria de uma só vez, em algumas horas, pois de leitura extremamente fluida. Mas isso faria um leitor que não tivesse, como eu, uma relação quase gastronômica com palavras. líria porto oferece um banquete precioso, onde saber e sabor se misturam, e feliz é aquele que, privilegiado, pode sorver nuances, sustos de mudanças, inversões, duplos e triplos sentidos. Por isso li três vezes cada poema.

A coletânea é temática e aborda de criativas maneiras este nosso satélite, habitante do céu e do imaginário: a Lua. A cadela prateada uiva e faz uivar. É mulher, tem luz própria, é corporificada, amamenta, é força, é dionisíaca, erótica e vive de um amor complicado: o Sol.

De forma absolutamente ritmada e, portanto, musical, passear pelos poemas de “cadela prateada” é ouvir música. Brinco (de forma séria) que quando algum poeta tem problema de ritmo em seus poemas eu lhe recomendo, de imediato, ler Cecília Meireles. Faço-o agora também com líria porto.

A linguagem é atualizadíssima, bem humorada, sem deixar de falar da tragicidade da vida; as metáforas, riquíssimas. líria porto é uma poeta que consegue fazer uma poesia sensível, comunicante, filosófica e, ao mesmo tempo, falar de sentimentos ou mesmo de política. Em “cadela prateada” nada é panfletário, nada é ingênuo, nada é forçado, nada é gratuitamente confessional.

Da cosmogonia própria, elaborada em belíssima narrativa à solidão diária e noturna, os temas vão-se dando, página a página, de forma surpreendente, leve, mas com força de atração natural.

Fim de livro, penúltimo poema especificamente, eu, que ria e me deliciava, chorei. Ali estavam também dois temas que a poeta desenvolve com maestria: a morte e o tempo. Eram minhas marés internas sendo movimentadas. Um livro que coloca a lua na palma da mão.


pálpebras

de manhã abro a janela
e deixo o sol penetrar
no corpo da casa

à noite fecho-a de novo
(estrelas ficam lá fora)
eu durmo dentro
do ovo

na lua cheia
não tenho regra


biografia

na guerra foi concebida
ficou-lhe esta ferida
rasgo no espírito

quando chegou outubro
envolta num manto rubro
quis ser feliz

à meia-noite e meia
na hora da lua cheia
rompeu o escuro

assim nasceu uma bruxa
alma cor de puxa-puxa
nome de flor-de-lis


adiamentos

a lua esperava o sol
redonda um talismã
quando ela se despiu
ficou de manhã

o sol lambia a lua
o meio o lado as beiras
lamberia a face oculta
a nuvem veio

só amanhã


poder

ora tímida ora escandalosa
essa lua bipolar puxa e empurra o mar
com os olhos


à amiga rina bogliolo

estejas onde estiveres
ao contemplares a lua
(dela não arredo os olhos)
poderei ver-te

dir-me-ás
é pouco

dir-te-ei
nem tanto
aos loucos
basta uma gota
e o mar virá


minguante

lua
o rato roeu
tua cara de hóstia

caíram uns farelos
que o gato lambeu
com os olhos

cão pobre vadio
uivou no vazio
tristeza de morte

a vida é o quê
senão o aguardo
da hora

***

Cadela prateada
líria porto
Editora Penalux
2016







segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Não chore - De Luiz Bras



Por Adriane Garcia


Não chore, de Luiz Bras (heterônimo de Nelson de Oliveira) é uma novela que discute, de forma instigante, o aparelho prisional brasileiro. 

Enquanto percorremos um lugar do futuro (que reconhecemos inúmeras vezes ser já o lugar do agora, o lugar distópico do agora), com personagens que cruzam a história como realidades paralelas, aparentemente sem se tocarem, somos colocados em contato com a reflexão sobre esta instituição que consideramos natural e não questionamos: o sistema carcerário.

No livro, os personagens, também desenhados por Teo Adorno (outro heterônimo de Nelson), retratam negros e negras (estes habitantes mais que comuns na vida real das celas nacionais). 

Trabalhando na contramão do esperado (sempre), Luiz Bras devolve a estes "criminosos"  a sua ancestralidade e mais: a sua origem cósmica, grandiosa, misturando à contemporaneidade da linguagem e do cenário mitos antigos e fundadores da trajetória humana. Deuses, orixás, xamãs, espíritos e animais das florestas, guerreiros se misturam, assim como velhas e novas roupagens, velhos e novos rituais, armas antigas e armas somente possíveis na ficção científica. Um aparato que pergunta: "Você está com a gente? Está disposto a explodir presídios?" 

Com cenas de imensa solidão e violência - mas uma violência que nos diz "você já está se acostumando há tempos", Luiz Bras nos leva a reconhecer tendências interiorizadas e mesmo a flagrar o quanto os discursos institucionalizados já domesticaram e anestesiaram nossas mentes, o  quanto paralisamos o exercício de pensar sobre Estado e controle e sobre o que realmente o Estado controla, para quem, o quê  e o quanto é importante que nos convença por completo que trancafiar os "criminosos" é primordial. A vitória da vingança sobre a reabilitação. 

Mas não chore, nem tudo está perdido, parece que é impossível extinguir, por completo, a capacidade humana de sentir e de se comover com o outro, ainda que isso já seja apenas fragmento. Um defeito na máquina fria?

Um livro com um viés anarquista; uma discussão muito interessante e necessário.


"VAI FICAR ADMIRANDO ESSA torre o dia todo? Joga logo.
Raquel, vamos tomar um café, conversar no mundo real...
Que besteira. Já estamos conversando no mundo real. Quem disse que a web não faz parte do mundo real?
Você está filosofando. A web não tem cheiro, não conheço teu perfume, o aroma do teu xampu... Eu queria acariciar tua pele, mas a web não tem a sensação sutil do tato.
Ainda não, mas em dez anos isso será resolvido. Uma prótese neural mais eficiente, um antivírus quântico...
Não quero esperar dez anos pra sentir você.
Que drama, garota! Que diferença faz conhecer alguém no mundo real? Por que isso é tão importante? Você conhece dezenas de pessoas no teu colégio, nem por isso parece feliz & satisfeita.
Raquel, o que você sente por mim? De verdade? Você tem medo de quê? De chorar? De se apaixonar?
Ai, meus pentelhos. Joga logo, Soo-Yun."


Não chore
Luiz Bras
Editora Patuá
2016

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Folhas do Tempo - de Maria Céres Castro, Paulo Bernardo Vaz...



Folhas do tempo é um livro de ensaios sobre o surgimento do jornalismo em Belo Horizonte, seguindo por duas décadas.

O livro não só traz aspectos interessantes do Arraial do Curral Del Rei e da incipiente Belo Horizonte, como as características e curiosidades sobre as diversas publicações que surgiram na localidade entre 1895 a 1926. Dos reclames, notícias às crônicas, um retrato curioso sobre mais este lado de uma cidade nascendo, uma cidade republicana, onde a República também não se completou.

Vale a leitura.



Folhas do Tempo
Imprenas e cotidiano em Belo Horizonte
1895-1927
Maria Céres Castro, Paulo Bernardo Vaz
Cançado, Cunha, Loyola, Santos, Simões, Siqueira, Sosnowski
Editora UFMG
1997

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A perversa migração das baleias azuis – O olhar épico de Alberto Lins Caldas


Por Adriane Garcia

Já na orelha de seu livro, Alberto Lins Caldas nos escreve: “sem violência política não há poema, só poesia, só crônica, só relato da latrina do eu, esse pobre eu q todos sabem, todos reconhecem, todos gostam e entendem – essa coisinha q os poderes e o poder adora porq podem dominar, amedrontar, inverter, perverter, redirecionar e por “nas salas de aula, das salas de jantar e nos quartos”. o poema não é coisa de poeta mas de libertino.”

E eis que pelas cento e cinquenta e quatro páginas é essa fidelidade ao pressuposto acima que reconhecemos. O poema de Alberto Lins Caldas está fazendo algum caminho que não o usual, que não a estrada sinalizada e tão batida; seu poema despe-se do eu, de qualquer confessionalismo, para estender-se a uma história maior. É novamente a epopeia, milênios depois, que é retomada por Alberto Lins Caldas. E se Homero, ou as vozes que se fizeram de Homero, cantou os grandes feitos do homem e enalteceu as nobres virtudes ligadas à guerra, à vingança, à coragem e à ação, o autor de A perversa migração das baleias azuis vem dar-nos o final da história, agora, quando o resultado, escrito em seus versos, entrega-nos o nosso homem reconhecível, raquítico, reduzido, de cujos instintos só sobraram os piores: a humanidade que somos. Nossa guerra não passa de covardia, nossa vingança é substituída pelo medo e pela preguiça, nossa coragem nos faz valer menos do que valem os ratos e nossa ação – quando acontece – é na esperança de poder oprimir, jamais libertar.

Fosse uma pintura, os personagens de A perversa migração das baleias azuis seriam telas bizarras de Arcimboldo, o maneirista pervertido, em que todas as figuras se formariam por adição de comida, pois disso é feita a espiritualidade do homem em Alberto Lins Caldas, o predomínio da gula, o seu aspecto glutão que, na verdade, significa todo o consumismo desenfreado e a destruição dos ecossistemas. Neste sentido, não um Arcimboldo da integração com os elementais, mas ao contrário, um Arcimboldo da destruição em massa e, por que não?, lentamente.

O mais interessante é notar em Lins a sua proposital citação – seja explícita, seja implicitamente – de grandes obras, autores e personagens da literatura, incluindo-se a Bíblia e as fábulas de Esopo e La Fontaine. Durante toda a leitura somos colocados diante do grandioso, subvertido, para – ao mesmo tempo, e por antagonismo – sermos bombardeados com retratos contínuos de nossa pequenez e avareza. Isso, obviamente, aumenta o efeito de nossa percepção. É a tragédia grega, mais especificamente em Sófocles, dizendo-nos “não fugirás ao seu destino”, mas é a tragédia grega desvendada por Lins, cujo tom nietzschiano também é inequívoco: não há nada fora de ti.

● hoje so sei q é preciso pagar ●
● as contas q entopem a vida ●
● so fazemos isso agora ●

● sobre essas viagens ●
● não digo nada a ninguém ●
●nem como a coisa terminou ●

● o velho capitao inda dorme ●
● onde escondemos o corpo ●
● inda não sabe q ta morto ●

● agora é a dor nessa perna ●
● essa coceira no rabo as tosses ●
● sabendo q deus castiga ●

Neste sentido, impossível não pensar que A perversa migração das baleias azuis foge de toda metafísica, encontra-se com a fenomenologia, ou seja, Lins nos relembra que a verdade é provisória e informada pelos sentidos, de acordo com a experiência de cada pessoa; porém, não é uma verdade confortável entre pastores e ovelhas. Num ritmo impecável, de canção, em poemas narrativos, Lins discorre sobre o homem civilizado – no pior sentido – que já inventou verdades suficientes para não questionar mais nada. O homem de A perversa migração das baleias azuis é um ser anestesiado. E é do poeta o último esforço para fazer perguntas sem muitas esperanças de resposta, como neste poema, Jonas, composto de 5 partes, em que aqui transcrevo as duas primeiras:

● jonas ●
● ? como é a baleia por dentro ●
● a baleia viva ●

● tão vasto aquele abismo ●
● nela ali adentro ●
● jonas ●

● ? tem musica ●
● ? coisas vivas vivendo ali ●
● ? ha a respiração das ondas ●

● de todas essas ondas ●
● q podem ser o mar ●
● ? ha o mar jonas ●

● ou so a baleia ●
● a baleia sem o mar ●
● jonas ●

2

● jonas ●
● ? como são as noites ●
● as noites da baleia ●

● ? ou não são noites ●
● jonas ●
● aquilo dentro da baleia ●

●? Ou a baleia é deus ●
● torcido de mar e baleia ●
● travestido de dor ●

● porq a baleia jonas ●
● vc sabe e bem sabe ●
● é dobra de carne e dor ●

● se não sabia jonas ●
● saiba agora ●
● pra sempre ●

● porq deve haver ●
● depois da tormenta ●
● depois das viagens ●

● das viagens assim ●
● jonas ●
● como essa na baleia ●

● a hora do sono da razão ●
● porq a baleia jonas ●
● sem isso não sera ●

● jamais a baleia ●
● a baleia mesmo ●
● nem deus sera deus ●

● nem jonas sera jonas ●
● os dois na baleia ●
● como as ondas jonas ●

● as ondas do mar ●
● as ondas as ondas ●
● as ondas e a baleia jonas ●


Um livro de um mestre. Não menos. Questionador já na própria linguagem, A perversa migração das baleias azuis é sobre nosso corpo, nossa casa, nossa rua, nosso país, nosso mundo. É uma poesia-antena, pré-apocalíptica (mas o apocalipse já houve e não foi percebido), em que a religião também foi a arma da nossa derrocada. É o poema da falta de sentido, da desistência pela busca do sentido, de um tempo onde a tecnologia suplantou toda filosofia. Ao mesmo tempo, é, em si, uma crença na beleza, pois, de verdade, nenhum poeta que escrevesse esses versos, estaria livre de crer nela.

A perversa migração das baleias azuis
Alberto Lins Caldas
Editora Ibis Libris

2015

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Tirza, de Arnon Grunberg - Literatura com caleidoscópio



Por Adriane Garcia

Estive, por uma semana, às voltas com Tirza, de Arnon Grunberg (editora Rádio Londres). Tadeu Sarmento já havia devorado o livro e o recomendava com veemência. Assim, furei a fila de leituras e lá fui eu. Já nas primeiras páginas, sem nenhum arrependimento.

Tirza é um romance único, uma história envolvente do início ao fim. A ideia que me veio foi a de um caleidoscópio, brinquedo feito a partir de cacos de espelhos e cujas cores aparecem de forma inesperada.  Assim é o personagem protagonista,  Jörgen Hofmeester, um homem que vai nos dando os cacos de seus espelhos para que tentemos vê-lo inteiro, mas, como num caleidoscópio, o que vemos é desordenado e, ao mesmo tempo, íntegro. Hofmeester quer desaparecer.

A construção desse personagem é uma aula de composição. Dele, tudo se suspeita, mas nada assegura certeza ao leitor. O narrador, em terceira pessoa, parece estar constantemente a meio palmo de distância de Hofmeester. Essa proximidade faz com que o leitor sinta estar na casa, no quarto, na cozinha, na mente do protagonista; dá a impressão de que lhe acompanha o ato, lembrança, momento narrado, com a veracidade não dos fatos, mas desta única versão que possui, e que é totalizante.

Pai de família, abandonado pela esposa – que saiu em busca de seu amor de juventude – tendo ficado responsável pela educação das duas filhas, Hofmeester é um homem de meia idade, de classe média, procurando manter sua vida, cheia de fracassos, sob controle. E controle talvez seja a palavra chave deste livro. Para auxiliar a si mesmo na recomposição de si, o ser fragmentário que tenta não dar vazão aos instintos, Hofmeester resolve se alojar na paternidade. Quando a filha mais velha desiste da carreira acadêmica, sonhada pelo pai, e parte para a França, para ser proprietária de uma pousada, Hofmeester fica apenas com Tirza,  a filha mais nova, essa personagem que ocupa seu pensamento como uma obsessão, como a obsessão por uma salvação única, ou mesmo como a obsessão por uma amante. Quanto mais o protagonista pratica seu autocontrole, mais o leitor se vê diante de uma desconfiança. Tirza é um romance em que sabemos, todo o tempo, e ficamos em estado de alerta: algo vai acontecer. 

A narrativa se inicia exatamente no momento em que o pai começa os preparativos para a festa de Tirza, decidida a ir conhecer a África, após a formatura do ensino médio. Para agravar a situação, a esposa que sumira reaparece como se nada tivesse acontecido. Daqui, eu não poderia mais descrever a história sem privar o leitor das surpresas deste livro. Mas saiba, é um livro que vai longe, Arnon Grunberg nos leva a nós mesmos, como raça; à lembrança de algumas ideias psicanalíticas que desvendaram tanto sobre nós. Quanto custa ao humano civilizar-se? Qual o tamanho da angústia individual para formar o todo pacífico coletivo? Quanto desse todo é possível, já que a civilização gera pessoas doentes? Que tipo de ilusão é essa chamada civilização ou que garantia oferece? O que teríamos que extirpar de todos os seres humanos para obter uma civilização sincera, que fosse mais que aparências? Não por acaso, parte dessa história irá se localizar na África, continente de origem, continente que, no senso comum, ocupa o imaginário como o local das feras, da pobreza material, do encontro do homem com o solo, com a natureza, com o deserto. 

São quatrocentas e sessenta páginas, fluindo vigorosamente. Viaje com Hofmeester. O livro tem recebido muitas leituras e elogios. Arnon Grunberg os mereceu. 

"Tirza dava festas com frequência, mas esta noite era diferente. Assim como vidas, festas podem fracassar ou ser um sucesso. Embora Tirza não tenha dito, Hofmeester sente que muito depende desta noite. Tirza, sua filha mais nova, a mais bem-sucedida. Extremamente bem-sucedida, tanto por dentro quanto por fora.
Hofmeester arregaçou as mangas da camisa. Para se proteger das manchas, ele está usando um avental que comprou certa vez como presente de Dia das Mães. Do seu ponto de vista, está bastante másculo. Não se barbeava há seis dias. Não teve tempo. Logo depois de se levantar, era tomado por pensamentos que nunca tinha tido antes, não nessa proporção: planos, lembranças das filhas quando ainda mal podiam engatinhar, ideias que de manhã cedo lhe pareciam brilhantes. Mais tarde faria a barba rapidamente. Quer se mostrar bem-apessoado e charmoso. Os convidados deverão vê-lo desta forma: um homem que não viveu em vão.
Circulará com sushis e sashimis bem-arrumados numa travessa comprada na loja japonesa especialmente para a ocasião. Com este ou aquele trocará algumas palavras e dirá casualmente: "Prove o sashimi de lula." Um pai abnegado, isso é o que será . O segredo da paternidade: abnegar-se. O amor dos pais é o sacrifício silencioso. Todo amor é um sacrifício. Ninguém vai reparar nele. Também não há nada para reparar. (...)"


Tirza
Arnon Grunberg
Tradução de Mariângela Guimarães
Ficção holandesa
2015
Editora Rádio Londres

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

"Navegar é preciso; viver não é preciso": Um bote salva-vidas no naufrágio entre amigos


por Adriane Garcia


   Foi com grata surpresa que li os contos de Naufrágio entre amigos (ed. Patuá, 2016), de Eduardo Sabino. Não porque imaginava que não fosse um livro bom, mas porque constatei que era ainda melhor. Gosto dos livros que além de bem escritos – E Sabino é ótimo leitor – , emocionam-me, para o riso e para o choro. Gosto ainda mais quando um livro, realmente, faz com que eu saia do lugar, mude-me de cidade, de tempo, de conhecidos. Adicione-se a isso frases memoráveis, deixadas aqui e ali, como quem largasse displicentente um tesouro... ah, então a leitura torna-se um luxo.
   Assim, estive em Nova Lima (MG) com os personagens deste autor e fui, num jogo paulatino, entre as páginas, percebendo um naufrágio, dois, três, tantos. O naufrágio, esse ato universal.
   Sabino, em sua ficção, dá-nos um tanto de memória, mas, escritor ingênuo que não é, entrega-nos ele próprio sua suspeita, a de que a lembrança seleciona, elege, destrói, omite, refaz: "o inusitado é o rei no trono de ferro da memória".
   Na forma, o autor escolhe arejar os contos, dividindo os blocos de parágrafos pela passagem do tempo ou da circunstância, de maneira que a leitura fluida é privilegiada, com muita clareza, sem malabarismos, sem ostentações, sem tentar inventar a roda. É contemporâneo sem negar a tradição, inclusive de grandes ficcionistas mineiros, que reconhecemos, souberam nos dar um mundo, narrando-o com simplicidade. É o contador de histórias que consegue, perfeitamente, oferecer-nos uma arquitetura sem que fiquemos nos lembrando de sua engenharia. Sabino não quer se mostrar, quer comunicar. Uma literatura para encontrar o outro, irmanada na consciência do naufrágio coletivo.
   Do menino que é obrigado a ir à missa “Não existe nada tão ruim para uma criança quanto a obrigação de fazer silêncio na idade do barulho” ao avô amante de literatura “Aprendi com ele que a dúvida é uma condição da alma livre, não um pecado”, Naufrágio entre amigos nos apresenta um Deus que, se existe, vai, por gozo, desfazendo as coisas, recriando-as, como se gostasse da forma impiedosa de contar as nossas histórias, como se fosse divertido que encontrássemos, décadas mais tarde, nosso grande amigo de infância assassinado por homofobia.
   A leitura de Naufrágio é séria, mas encontra clarões de humor todo o tempo, porque os narradores de Sabino sabem que é preciso rir da própria tragédia, que é preciso trocá-la por palavras para que faça algum sentido. Mais, que as grandes tragédias, muitas vezes, são as pequenas: o desvalor que professores nos atribuem na escola, a conversão do músico ao dogma cego, o nosso afastamento voluntário e inexplicável das pessoas que amamos, a solidão da internet, a troca das relações reais pelas relações virtuais, hoje que pensamos que "navegar é preciso" e que "viver não é preciso", o engodo a que somos submetidos e submetemos.
   A maioria dos contos traz personagens adolescentes – crianças e adultos, por vezes – ensaiando a vida, dando os primeiros passos do fracasso para entrar no navio sem volta. O bote salva-vidas: a amizade. Não fosse isso, como no último conto, já teríamos sucumbido em buracos que se abrem na terra, em Nova Lima, em qualquer cidade do mundo.


Ela deu meia volta e ergueu a arma. O boteco silenciou-se e Afonso se transformou. Levantou as mãos e se pôs a tremer. “O que foi que você disse?”. Tia Nice puxou a trava do revólver e seu Jorge soltou um grito atrás do balcão. “Não faz isso, Nice, pelo-amor-de-deus”. Ela começou a alternar os alvos, dançando com o revólver na mão, enquanto eu gritava para irmos embora. Voltou a encarar Afonso. “Você não tem ideia de quantos bostas iguais a você eu já mandei pro outro mundo. Respeito é bom e eu gosto”.Depois mandou Afonso ajoelhar no chão do boteco e me pedir desculpas. “Não precisa, tia”, eu disse. “Precisa sim. Anda.”Afonso se ajoelhou e a obedeceu. A fala gaguejada, o bigode tremendo.  Depois eu apertei sua mão, Tia Nice guardou a arma e descemos a rampa do boteco abraçados e com um silêncio profundo às nossas costas.” (do conto Estouros, p. 27)

   Leitura recomendadíssima.


domingo, 27 de novembro de 2016

A Perspectiva da Morte: 20 (-2) Poetas Portugueses do Século XX - org. Manuel de Freitas



Ganhei esta antologia, de presente, da querida Dagmar Braga, poeta e grande incentivadora da literatura aqui, nestas terras belorizontinas. Demorei a poder estar neste silêncio e prontidão que a poesia exige para ser lida. Estando, nossa!, que tesouro.

Para quem, como eu, conhece pouco da poesia portuguesa, a não ser o mais óbvio, um desvendar e tanto (antologias servem para indicar caminhos, vislumbrar possíveis panoramas). Para quem conhece bastante, é um exercício delicioso da revisita.

Os dezoito poetas, nascidos entre 1900 e 1950 -  este o recorte temporal que escolheu o organizador - são Vitorino Nemésio, Ruy Cinatti, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, Carlos de Oliveira, Eugênio de Andrade, António Manuel Couto Viana, Mário Cesariny, Herberto Helder, Antônio José Forte, Fernando Assis Pacheco, Armando Silva Carvalho, Luiza Neto Jorge, A. M. Pires Cabral, Fátima Maldonado, António Franco Alexandre, Manuel Gusmão e José Amaro Dionísio. O organizador, Manuel de Freitas, salienta que os poetas  João Miguel Fernandes Jorge e Joaquim Manuel Magalhães, também com poemas selecionados para a antologia, preferiram não ser incluídos.

Impressionaram-me muito, neste livro, os poemas de Eugênio de Andrade, Mário Cesariny e Fernando Assis Pacheco. Posto aqui alguns deles. É, sem dúvida, leitura recomendadíssima:


"Cala-te, a luz arde entre os lábios
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tateia no escuro
esta perna é tua?, é teu este braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca
também a terra morre." 

(Eugênio de Andrade)



"Esta noite a loucura do meu ofício
privilegia os falcões;
vou morrer; à altura da boca
o mar pode ser a casa.

A manhã expulsará o sol do olhar;
fui algo para ver a neve,
para colher a transparente e verde
fragrância do ar.

Ninguém pode suportar de olhos abertos
o peso do mundo;
com a noite foram-se os cavalos;
partem para não morrer."

 (Eugênio de Andrade)


hoje, dia de todos os demônios
irei ao cemitério onde repousa Sá-Carneiro
a gente às vezes esquece a dor dos outros
o trabalho dos outros o coval
dos outros

ora este foi dos tais a quem não deram passaporte
de forma que embarcou clandestino
não tinha política tinha física
mas nem assim o passaram
e quando a coisa estava a ir a mais
tzzt... uma poção de estricnina
deu-lhe a moleza foi dormir

preferiu umas dores no lado esquerdo da alma
uns disparates com as pernas na hora apaziguadora
herói à sua maneira recusou-se
a beber o pátrio mijo
deu a mão ao Antero, foi-se, e  pronto,
desembarcou como tinha embarcado

Sem Jeito Para o Negócio 

(Mário Cesariny)




A Antonin Artaud


Haverá gente com nomes que lhes caiam bem.
Não assim eu.
De cada vez que alguém me chama Mário
de cada vez que alguém me chama Cesariny
de cada vez que alguém me chama de Vasconcelos
sucede em mim uma contracção com os dentes
há contra mim uma imposição violenta
uma cutilada atroz porque atrozmente desleal.

Como assim Mário como assim Cesariny como assim ó meu deus de Vasconcelos?
Porque é que querem fazer passar para o meu corpo
uma caricatura a todos os títulos porca?
Que andavam a fazer com a minha altura os pais pelos baptistérios
para que eu recebesse em plena cara semelhante feixe de estruturas
tão inqualificáveis quanto inadequadas
ao acto em mim sozinho como a vida puro
eu não sei de vocês eu ão tenho nas mãos eu vomito eu
não quero
eu nunca aderi às comunidades práticas de pregar com pregos
as partes mais vulneráveis da matéria

Eu estou só neste avanço
de corpos
contra corpos
Inexpiáveis

O meu nome se existe deve existir escrito nalgum lugar "tenebroso e cantante" suficientemente                                                                                                                                      glaciado e horrível
para que seja impossível encontrá-lo
sem de alguma maneira enveredar pela estrada
Da Coragem
porque a este respeito - e creio que digo bem -
nenhuma garantia de leitura grátis
se oferece ao viandante

Por outro lado, se eu tivesse um nome
um nome que me fosse realmente o meu nome
isso provocaria
calamidades
terríveis
como um tremor de terra
dentro da pele das coisas
dos astros
das coisas
das fezes
das coisas

Haverá uma idade para nomes que não estes
Haverá uma idade para nomes
puros
nomes que magnetizem
constelações
puras
que façam irromper nos nervos e nos ossos
dos amantes
inexplicáveis construções radiosas
prontas a circular entre a fuligem
de duas bocas
puras

Ah, não será o esperma torrencial diuturno
nem a loucura dos sábios nem a razão de ninguém
Não será mesmo quem sabe ó único mestre vivo
o fim da pavorosa dança dos corpos
onde pontificaste de martelo na mão

Mas haverá uma idade em que serão esquecidos por completo
os grandes nomes opacos que hoje damos às coisas

Haverá
um acordar

(Mário Cesariny)



Eu tinha grandes naus

Os amantes esquecem. A  Primavera volta.
A terra treme. E piam as aves em bando
vindas de Helgoland por detrás da serra.

Os poetas lamentam-se demais.
Gastam-se por vezes num choro muito fino,
quase impraticável. Querem ser ouvidos,
e vá de escreverem tal e tal desgraça.
Mas estão desempregados? perderam a mãe?
a chuva entra pelas solas com buracos?
Ou vão mover o mundo, as azenhas do mundo?

O teu olhar já não poisa em mim,
paciência, não morrerei por isso.
Iuri Gagárine lá foi pelo céu acima.
Aliás a vida tem recursos admiráveis.
Tudo isso fará a delícia
e o espanto dos nossos filhos.

Lamentam-se demais, acenam
com as suas dores particulares
a quem passa, que passa
por outras razões. Querem dedos suaves
na testa, um calor 
de lábios nas pálpebras molhadas.
São poetas, isto é, amantes em aflição.
.
Campainhas tocando ao mais pequeno vento.
Querem ser ouvidos, consolados, tapados do frio.
Temem o desprezo, a desolação ambiente,
os cães que ladram muito alto muitas vezes.

Mas o Maio volta
e eles consertam-se: coisas
da sua mecânica misteriosa.
Mesmo a terra, quando treme, treme
cheia de naturalidade.

Portanto não morri. Eu tinha grandes naus
aparelhadas na ribeira do coração.
Caíram árvores, camponeses gritavam
enquanto a chuva
mordia raivosamente as coisas do mundo.
"Paciência", dizia eu, "não morrerei por isso."
E esperava o sândalo e a canela.

(Fernando Assis Pacheco)



O garrote
(para Maria Mendes, minha mãe)

Ribeiras limpas acudi-me.
Vou ficar vivo enconstado
a esta memória de trampa.
Os meus olhos já foram brilhantes.
Sei fazer alguns versos mas nem sempre.
Eu narrador me confesso.
A guerra lixou tudo.

É curioso como se bebia
água podre.
Não falando no vinho, muito.
Durante os ataques doía-me um joelho.
Estou pronto, pensei.
Ninguém me conhece.
Os ratos são felizes.

Vocês não sabem como se perde a tusa.
De resto não serve para nada.
A melhor noite que eu tive
em Nambuangongo foi com uma garrafa de whisky.
Sei fazer versos mas doem.
Ninguém me conhecia dentro do arame.

O único joelho decente de Angola
embebeda-se no Norte. 
Vou para escrever e paro.
Deixei-me disso.
Sou feiíssimo ao espelho.
Recordação súbita duma litografia
castelhana: o garrote.
Não vos perdoo.


Suponho que a violência tem os dias contados.
Se não é assim é parecido.
Eu vi-os sair do quartel
com as alpergatas nas últimas.
Vai ali o Ocidente, escrevi.
Vai beber água podre.

E depois há um que pisa uma armadilha.
Houve um que pisou uma armadilha!
Sei fazer versos. Ou seja: nada.
O coto em sangue.
Neste ponto o narrador sofreia a imaginação.
Ninguém disse que me conhecia.
Conheço um rato, está em cima duma viga.
Serve para a gente olhar. 

(Fernando Assis Pacheco)