sábado, 25 de fevereiro de 2017

Clarissa Macedo e a visão dos abismos



Por Adriane Garcia

        Bastou-me pouco tempo da leitura, menos de um terço do livro, para sentir a força da poesia de Clarissa Macedo em “na pata do cavalo há sete abismos”. O título, por si só, com este misto de sortilégio e enigma, lembrava o aviso de bruxas que eu poderia ter ouvido na infância.
         Não é uma poesia difícil, ininteligível ou hermética, mas também não é uma poesia fácil, se o leitor é do tipo que quer sorver verdadeiramente o encantamento das palavras. Leia os poemas de “na pata do cavalo há sete abismos” uma, duas, três vezes. Verá que algo se abre, verá o que é ficar na beira de seus precipícios.
        Pois é isso, Clarissa está a nos falar da profundidade, de tempo, de velhice, de morte, de mundos que não temos mais; de inadequação, de incompletude, de dúvidas, fracassos, de desterramentos. É poesia para quem não teme tonturas. Sete, seu número cabalístico, não lhe salvará, nada lhe salvará; Clarissa está para dizer que somos seres procurando sentido, mas você se sentirá acompanhado. Suas palavras são de penetração e é necessário um leitor disposto às lanças. Sim, algumas vezes a autora o fará sob o lirismo, mas ainda assim, esse lirismo tem o movimento das crinas dos cavalos, enquanto é quase tempestade o que venta.
        A maturidade reconhece a dor e sabe o que fazer com ela. Clarissa é daquelas poetas que corroboram o meu pensamento de que todo poeta é antigo. Não luta contra, luta com. Sua poesia ditada de mistérios e de experiências que parecem advir de uma ancestralidade, comunga segredos tão necessários, aquelas leituras das reflexões mais silenciosas, feitas de habitar, como neste excerto, de Arrebatamento:

“O mundo é uma hora
mal desenhada e em tudo
esconde-se o infinito.”

Ou neste, de Jornada:

“surge a vida
mil vezes alucinada

parindo números
de mortos
desde ontem,
desde a era passada.”

        Sua musicalidade sendo belíssima, recorda esta nossa tradição mais bem realizada com Cecília Meireles. Seus versos limpos trazem o domínio diante do que fala e da forma com que escolhe falar. Sua poesia não nos põe obstáculos, mas nos pede desobstruídos, nos pede prontos para uma visão. Os elementos da natureza aparecem de forma insistente, principalmente a terra, como símbolo de lugar onde se estabelece a existência, onde se pisa, para onde se é sugado, como sangue, como matéria. Do pó ao pó, nas palavras da poeta: “cada passo é uma trapaça”. É interessante notar que a força invocada desde o título até as muitas reincidências da palavra terra, de seu elemental, é a força telúrica. Assim, pata do cavalo invoca solo, solo invoca abismo, abismo invoca espírito. Mas ela também tem a força para receber as alegrias, a poesia é também o júbilo da imaginação e do prazer:

“A chuva interfere nas ilhas
como quem deita de luz acesa.”

“Pois os magos, como os mais curiosos pesquisadores da natureza, fazem uso dessas coisas que são preparadas por ela, aplicando coisas ativas às passivas, produzindo, às vezes, efeitos antes do tempo ordenado pela natureza, que as pessoas comuns pensam se tratar de milagres aquilo que, de fato, são obras naturais, em que a prevenção do tempo apenas fica no meio, como se alguém pudesse brotar rosas em março; e amadurecer as uvas, ou colher feijões, ou desenvolver a salsa em uma planta perfeita em questão de poucas horas; mais ainda, provocar coisas maiores, como nuvens, chuvas, trovões e animais de diferentes tipos, e muitas transmutações de coisas (…)”.

Henrique Cornélio Agrippa de Netteshein, em Da Magia Natural

“Embora o poema não seja feitiço nem conjuro, à maneira de ensalmos e sortilégios o poeta desperta as forças secretas do idioma.”

Octavio Paz, em O arco e a Lira

        Haveria tantos versos de Clarissa, neste livro, para ilustrar o que o mago e o poeta disseram – acho que Clarissa faz nascer rosas em março, ou em todo mês, faz ver também seus espinhos mas ficarei com a força inequívoca destes seus versos:

“A alma relincha
na estrebaria.”

***

Clarissa Macedo, natural de Salvador (BA), doutoranda em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, professora, pesquisadora. Apresenta-se em eventos pelo mundo afora (além do próprio Brasil, Colômbia, Peru, Cuba). Está presente em diversas coletâneas, revistas e sites. É autora de O trem vermelho que partiu das cinzas e de Na pata do cavalo há sete abismos (7Letras Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia), ambos de 2014, este último, recentemente reeditado pela editora Penalux.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A força gravitacional de líria porto – cadela prateada



Por Adriane Garcia


Estive às voltas com o livro “cadela prateada”, de líria porto (ela gosta assim, minúscula) por cerca de uma semana. Um livro de poesia que, sem dúvida, se leria de uma só vez, em algumas horas, pois de leitura extremamente fluida. Mas isso faria um leitor que não tivesse, como eu, uma relação quase gastronômica com palavras. líria porto oferece um banquete precioso, onde saber e sabor se misturam, e feliz é aquele que, privilegiado, pode sorver nuances, sustos de mudanças, inversões, duplos e triplos sentidos. Por isso li três vezes cada poema.

A coletânea é temática e aborda de criativas maneiras este nosso satélite, habitante do céu e do imaginário: a Lua. A cadela prateada uiva e faz uivar. É mulher, tem luz própria, é corporificada, amamenta, é força, é dionisíaca, erótica e vive de um amor complicado: o Sol.

De forma absolutamente ritmada e, portanto, musical, passear pelos poemas de “cadela prateada” é ouvir música. Brinco (de forma séria) que quando algum poeta tem problema de ritmo em seus poemas eu lhe recomendo, de imediato, ler Cecília Meireles. Faço-o agora também com líria porto.

A linguagem é atualizadíssima, bem humorada, sem deixar de falar da tragicidade da vida; as metáforas, riquíssimas. líria porto é uma poeta que consegue fazer uma poesia sensível, comunicante, filosófica e, ao mesmo tempo, falar de sentimentos ou mesmo de política. Em “cadela prateada” nada é panfletário, nada é ingênuo, nada é forçado, nada é gratuitamente confessional.

Da cosmogonia própria, elaborada em belíssima narrativa à solidão diária e noturna, os temas vão-se dando, página a página, de forma surpreendente, leve, mas com força de atração natural.

Fim de livro, penúltimo poema especificamente, eu, que ria e me deliciava, chorei. Ali estavam também dois temas que a poeta desenvolve com maestria: a morte e o tempo. Eram minhas marés internas sendo movimentadas. Um livro que coloca a lua na palma da mão.


pálpebras

de manhã abro a janela
e deixo o sol penetrar
no corpo da casa

à noite fecho-a de novo
(estrelas ficam lá fora)
eu durmo dentro
do ovo

na lua cheia
não tenho regra


biografia

na guerra foi concebida
ficou-lhe esta ferida
rasgo no espírito

quando chegou outubro
envolta num manto rubro
quis ser feliz

à meia-noite e meia
na hora da lua cheia
rompeu o escuro

assim nasceu uma bruxa
alma cor de puxa-puxa
nome de flor-de-lis


adiamentos

a lua esperava o sol
redonda um talismã
quando ela se despiu
ficou de manhã

o sol lambia a lua
o meio o lado as beiras
lamberia a face oculta
a nuvem veio

só amanhã


poder

ora tímida ora escandalosa
essa lua bipolar puxa e empurra o mar
com os olhos


à amiga rina bogliolo

estejas onde estiveres
ao contemplares a lua
(dela não arredo os olhos)
poderei ver-te

dir-me-ás
é pouco

dir-te-ei
nem tanto
aos loucos
basta uma gota
e o mar virá


minguante

lua
o rato roeu
tua cara de hóstia

caíram uns farelos
que o gato lambeu
com os olhos

cão pobre vadio
uivou no vazio
tristeza de morte

a vida é o quê
senão o aguardo
da hora

***

Cadela prateada
líria porto
Editora Penalux
2016







segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Não chore - De Luiz Bras



Por Adriane Garcia


Não chore, de Luiz Bras (heterônimo de Nelson de Oliveira) é uma novela que discute, de forma instigante, o aparelho prisional brasileiro. 

Enquanto percorremos um lugar do futuro (que reconhecemos inúmeras vezes ser já o lugar do agora, o lugar distópico do agora), com personagens que cruzam a história como realidades paralelas, aparentemente sem se tocarem, somos colocados em contato com a reflexão sobre esta instituição que consideramos natural e não questionamos: o sistema carcerário.

No livro, os personagens, também desenhados por Teo Adorno (outro heterônimo de Nelson), retratam negros e negras (estes habitantes mais que comuns na vida real das celas nacionais). 

Trabalhando na contramão do esperado (sempre), Luiz Bras devolve a estes "criminosos"  a sua ancestralidade e mais: a sua origem cósmica, grandiosa, misturando à contemporaneidade da linguagem e do cenário mitos antigos e fundadores da trajetória humana. Deuses, orixás, xamãs, espíritos e animais das florestas, guerreiros se misturam, assim como velhas e novas roupagens, velhos e novos rituais, armas antigas e armas somente possíveis na ficção científica. Um aparato que pergunta: "Você está com a gente? Está disposto a explodir presídios?" 

Com cenas de imensa solidão e violência - mas uma violência que nos diz "você já está se acostumando há tempos", Luiz Bras nos leva a reconhecer tendências interiorizadas e mesmo a flagrar o quanto os discursos institucionalizados já domesticaram e anestesiaram nossas mentes, o  quanto paralisamos o exercício de pensar sobre Estado e controle e sobre o que realmente o Estado controla, para quem, o quê  e o quanto é importante que nos convença por completo que trancafiar os "criminosos" é primordial. A vitória da vingança sobre a reabilitação. 

Mas não chore, nem tudo está perdido, parece que é impossível extinguir, por completo, a capacidade humana de sentir e de se comover com o outro, ainda que isso já seja apenas fragmento. Um defeito na máquina fria?

Um livro com um viés anarquista; uma discussão muito interessante e necessário.


"VAI FICAR ADMIRANDO ESSA torre o dia todo? Joga logo.
Raquel, vamos tomar um café, conversar no mundo real...
Que besteira. Já estamos conversando no mundo real. Quem disse que a web não faz parte do mundo real?
Você está filosofando. A web não tem cheiro, não conheço teu perfume, o aroma do teu xampu... Eu queria acariciar tua pele, mas a web não tem a sensação sutil do tato.
Ainda não, mas em dez anos isso será resolvido. Uma prótese neural mais eficiente, um antivírus quântico...
Não quero esperar dez anos pra sentir você.
Que drama, garota! Que diferença faz conhecer alguém no mundo real? Por que isso é tão importante? Você conhece dezenas de pessoas no teu colégio, nem por isso parece feliz & satisfeita.
Raquel, o que você sente por mim? De verdade? Você tem medo de quê? De chorar? De se apaixonar?
Ai, meus pentelhos. Joga logo, Soo-Yun."


Não chore
Luiz Bras
Editora Patuá
2016

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Folhas do Tempo - de Maria Céres Castro, Paulo Bernardo Vaz...



Folhas do tempo é um livro de ensaios sobre o surgimento do jornalismo em Belo Horizonte, seguindo por duas décadas.

O livro não só traz aspectos interessantes do Arraial do Curral Del Rei e da incipiente Belo Horizonte, como as características e curiosidades sobre as diversas publicações que surgiram na localidade entre 1895 a 1926. Dos reclames, notícias às crônicas, um retrato curioso sobre mais este lado de uma cidade nascendo, uma cidade republicana, onde a República também não se completou.

Vale a leitura.



Folhas do Tempo
Imprenas e cotidiano em Belo Horizonte
1895-1927
Maria Céres Castro, Paulo Bernardo Vaz
Cançado, Cunha, Loyola, Santos, Simões, Siqueira, Sosnowski
Editora UFMG
1997

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A perversa migração das baleias azuis – O olhar épico de Alberto Lins Caldas


Por Adriane Garcia

Já na orelha de seu livro, Alberto Lins Caldas nos escreve: “sem violência política não há poema, só poesia, só crônica, só relato da latrina do eu, esse pobre eu q todos sabem, todos reconhecem, todos gostam e entendem – essa coisinha q os poderes e o poder adora porq podem dominar, amedrontar, inverter, perverter, redirecionar e por “nas salas de aula, das salas de jantar e nos quartos”. o poema não é coisa de poeta mas de libertino.”

E eis que pelas cento e cinquenta e quatro páginas é essa fidelidade ao pressuposto acima que reconhecemos. O poema de Alberto Lins Caldas está fazendo algum caminho que não o usual, que não a estrada sinalizada e tão batida; seu poema despe-se do eu, de qualquer confessionalismo, para estender-se a uma história maior. É novamente a epopeia, milênios depois, que é retomada por Alberto Lins Caldas. E se Homero, ou as vozes que se fizeram de Homero, cantou os grandes feitos do homem e enalteceu as nobres virtudes ligadas à guerra, à vingança, à coragem e à ação, o autor de A perversa migração das baleias azuis vem dar-nos o final da história, agora, quando o resultado, escrito em seus versos, entrega-nos o nosso homem reconhecível, raquítico, reduzido, de cujos instintos só sobraram os piores: a humanidade que somos. Nossa guerra não passa de covardia, nossa vingança é substituída pelo medo e pela preguiça, nossa coragem nos faz valer menos do que valem os ratos e nossa ação – quando acontece – é na esperança de poder oprimir, jamais libertar.

Fosse uma pintura, os personagens de A perversa migração das baleias azuis seriam telas bizarras de Arcimboldo, o maneirista pervertido, em que todas as figuras se formariam por adição de comida, pois disso é feita a espiritualidade do homem em Alberto Lins Caldas, o predomínio da gula, o seu aspecto glutão que, na verdade, significa todo o consumismo desenfreado e a destruição dos ecossistemas. Neste sentido, não um Arcimboldo da integração com os elementais, mas ao contrário, um Arcimboldo da destruição em massa e, por que não?, lentamente.

O mais interessante é notar em Lins a sua proposital citação – seja explícita, seja implicitamente – de grandes obras, autores e personagens da literatura, incluindo-se a Bíblia e as fábulas de Esopo e La Fontaine. Durante toda a leitura somos colocados diante do grandioso, subvertido, para – ao mesmo tempo, e por antagonismo – sermos bombardeados com retratos contínuos de nossa pequenez e avareza. Isso, obviamente, aumenta o efeito de nossa percepção. É a tragédia grega, mais especificamente em Sófocles, dizendo-nos “não fugirás ao seu destino”, mas é a tragédia grega desvendada por Lins, cujo tom nietzschiano também é inequívoco: não há nada fora de ti.

● hoje so sei q é preciso pagar ●
● as contas q entopem a vida ●
● so fazemos isso agora ●

● sobre essas viagens ●
● não digo nada a ninguém ●
●nem como a coisa terminou ●

● o velho capitao inda dorme ●
● onde escondemos o corpo ●
● inda não sabe q ta morto ●

● agora é a dor nessa perna ●
● essa coceira no rabo as tosses ●
● sabendo q deus castiga ●

Neste sentido, impossível não pensar que A perversa migração das baleias azuis foge de toda metafísica, encontra-se com a fenomenologia, ou seja, Lins nos relembra que a verdade é provisória e informada pelos sentidos, de acordo com a experiência de cada pessoa; porém, não é uma verdade confortável entre pastores e ovelhas. Num ritmo impecável, de canção, em poemas narrativos, Lins discorre sobre o homem civilizado – no pior sentido – que já inventou verdades suficientes para não questionar mais nada. O homem de A perversa migração das baleias azuis é um ser anestesiado. E é do poeta o último esforço para fazer perguntas sem muitas esperanças de resposta, como neste poema, Jonas, composto de 5 partes, em que aqui transcrevo as duas primeiras:

● jonas ●
● ? como é a baleia por dentro ●
● a baleia viva ●

● tão vasto aquele abismo ●
● nela ali adentro ●
● jonas ●

● ? tem musica ●
● ? coisas vivas vivendo ali ●
● ? ha a respiração das ondas ●

● de todas essas ondas ●
● q podem ser o mar ●
● ? ha o mar jonas ●

● ou so a baleia ●
● a baleia sem o mar ●
● jonas ●

2

● jonas ●
● ? como são as noites ●
● as noites da baleia ●

● ? ou não são noites ●
● jonas ●
● aquilo dentro da baleia ●

●? Ou a baleia é deus ●
● torcido de mar e baleia ●
● travestido de dor ●

● porq a baleia jonas ●
● vc sabe e bem sabe ●
● é dobra de carne e dor ●

● se não sabia jonas ●
● saiba agora ●
● pra sempre ●

● porq deve haver ●
● depois da tormenta ●
● depois das viagens ●

● das viagens assim ●
● jonas ●
● como essa na baleia ●

● a hora do sono da razão ●
● porq a baleia jonas ●
● sem isso não sera ●

● jamais a baleia ●
● a baleia mesmo ●
● nem deus sera deus ●

● nem jonas sera jonas ●
● os dois na baleia ●
● como as ondas jonas ●

● as ondas do mar ●
● as ondas as ondas ●
● as ondas e a baleia jonas ●


Um livro de um mestre. Não menos. Questionador já na própria linguagem, A perversa migração das baleias azuis é sobre nosso corpo, nossa casa, nossa rua, nosso país, nosso mundo. É uma poesia-antena, pré-apocalíptica (mas o apocalipse já houve e não foi percebido), em que a religião também foi a arma da nossa derrocada. É o poema da falta de sentido, da desistência pela busca do sentido, de um tempo onde a tecnologia suplantou toda filosofia. Ao mesmo tempo, é, em si, uma crença na beleza, pois, de verdade, nenhum poeta que escrevesse esses versos, estaria livre de crer nela.

A perversa migração das baleias azuis
Alberto Lins Caldas
Editora Ibis Libris

2015

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Tirza, de Arnon Grunberg - Literatura com caleidoscópio



Por Adriane Garcia

Estive, por uma semana, às voltas com Tirza, de Arnon Grunberg (editora Rádio Londres). Tadeu Sarmento já havia devorado o livro e o recomendava com veemência. Assim, furei a fila de leituras e lá fui eu. Já nas primeiras páginas, sem nenhum arrependimento.

Tirza é um romance único, uma história envolvente do início ao fim. A ideia que me veio foi a de um caleidoscópio, brinquedo feito a partir de cacos de espelhos e cujas cores aparecem de forma inesperada.  Assim é o personagem protagonista,  Jörgen Hofmeester, um homem que vai nos dando os cacos de seus espelhos para que tentemos vê-lo inteiro, mas, como num caleidoscópio, o que vemos é desordenado e, ao mesmo tempo, íntegro. Hofmeester quer desaparecer.

A construção desse personagem é uma aula de composição. Dele, tudo se suspeita, mas nada assegura certeza ao leitor. O narrador, em terceira pessoa, parece estar constantemente a meio palmo de distância de Hofmeester. Essa proximidade faz com que o leitor sinta estar na casa, no quarto, na cozinha, na mente do protagonista; dá a impressão de que lhe acompanha o ato, lembrança, momento narrado, com a veracidade não dos fatos, mas desta única versão que possui, e que é totalizante.

Pai de família, abandonado pela esposa – que saiu em busca de seu amor de juventude – tendo ficado responsável pela educação das duas filhas, Hofmeester é um homem de meia idade, de classe média, procurando manter sua vida, cheia de fracassos, sob controle. E controle talvez seja a palavra chave deste livro. Para auxiliar a si mesmo na recomposição de si, o ser fragmentário que tenta não dar vazão aos instintos, Hofmeester resolve se alojar na paternidade. Quando a filha mais velha desiste da carreira acadêmica, sonhada pelo pai, e parte para a França, para ser proprietária de uma pousada, Hofmeester fica apenas com Tirza,  a filha mais nova, essa personagem que ocupa seu pensamento como uma obsessão, como a obsessão por uma salvação única, ou mesmo como a obsessão por uma amante. Quanto mais o protagonista pratica seu autocontrole, mais o leitor se vê diante de uma desconfiança. Tirza é um romance em que sabemos, todo o tempo, e ficamos em estado de alerta: algo vai acontecer. 

A narrativa se inicia exatamente no momento em que o pai começa os preparativos para a festa de Tirza, decidida a ir conhecer a África, após a formatura do ensino médio. Para agravar a situação, a esposa que sumira reaparece como se nada tivesse acontecido. Daqui, eu não poderia mais descrever a história sem privar o leitor das surpresas deste livro. Mas saiba, é um livro que vai longe, Arnon Grunberg nos leva a nós mesmos, como raça; à lembrança de algumas ideias psicanalíticas que desvendaram tanto sobre nós. Quanto custa ao humano civilizar-se? Qual o tamanho da angústia individual para formar o todo pacífico coletivo? Quanto desse todo é possível, já que a civilização gera pessoas doentes? Que tipo de ilusão é essa chamada civilização ou que garantia oferece? O que teríamos que extirpar de todos os seres humanos para obter uma civilização sincera, que fosse mais que aparências? Não por acaso, parte dessa história irá se localizar na África, continente de origem, continente que, no senso comum, ocupa o imaginário como o local das feras, da pobreza material, do encontro do homem com o solo, com a natureza, com o deserto. 

São quatrocentas e sessenta páginas, fluindo vigorosamente. Viaje com Hofmeester. O livro tem recebido muitas leituras e elogios. Arnon Grunberg os mereceu. 

"Tirza dava festas com frequência, mas esta noite era diferente. Assim como vidas, festas podem fracassar ou ser um sucesso. Embora Tirza não tenha dito, Hofmeester sente que muito depende desta noite. Tirza, sua filha mais nova, a mais bem-sucedida. Extremamente bem-sucedida, tanto por dentro quanto por fora.
Hofmeester arregaçou as mangas da camisa. Para se proteger das manchas, ele está usando um avental que comprou certa vez como presente de Dia das Mães. Do seu ponto de vista, está bastante másculo. Não se barbeava há seis dias. Não teve tempo. Logo depois de se levantar, era tomado por pensamentos que nunca tinha tido antes, não nessa proporção: planos, lembranças das filhas quando ainda mal podiam engatinhar, ideias que de manhã cedo lhe pareciam brilhantes. Mais tarde faria a barba rapidamente. Quer se mostrar bem-apessoado e charmoso. Os convidados deverão vê-lo desta forma: um homem que não viveu em vão.
Circulará com sushis e sashimis bem-arrumados numa travessa comprada na loja japonesa especialmente para a ocasião. Com este ou aquele trocará algumas palavras e dirá casualmente: "Prove o sashimi de lula." Um pai abnegado, isso é o que será . O segredo da paternidade: abnegar-se. O amor dos pais é o sacrifício silencioso. Todo amor é um sacrifício. Ninguém vai reparar nele. Também não há nada para reparar. (...)"


Tirza
Arnon Grunberg
Tradução de Mariângela Guimarães
Ficção holandesa
2015
Editora Rádio Londres

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

"Navegar é preciso; viver não é preciso": Um bote salva-vidas no naufrágio entre amigos


por Adriane Garcia


   Foi com grata surpresa que li os contos de Naufrágio entre amigos (ed. Patuá, 2016), de Eduardo Sabino. Não porque imaginava que não fosse um livro bom, mas porque constatei que era ainda melhor. Gosto dos livros que além de bem escritos – E Sabino é ótimo leitor – , emocionam-me, para o riso e para o choro. Gosto ainda mais quando um livro, realmente, faz com que eu saia do lugar, mude-me de cidade, de tempo, de conhecidos. Adicione-se a isso frases memoráveis, deixadas aqui e ali, como quem largasse displicentente um tesouro... ah, então a leitura torna-se um luxo.
   Assim, estive em Nova Lima (MG) com os personagens deste autor e fui, num jogo paulatino, entre as páginas, percebendo um naufrágio, dois, três, tantos. O naufrágio, esse ato universal.
   Sabino, em sua ficção, dá-nos um tanto de memória, mas, escritor ingênuo que não é, entrega-nos ele próprio sua suspeita, a de que a lembrança seleciona, elege, destrói, omite, refaz: "o inusitado é o rei no trono de ferro da memória".
   Na forma, o autor escolhe arejar os contos, dividindo os blocos de parágrafos pela passagem do tempo ou da circunstância, de maneira que a leitura fluida é privilegiada, com muita clareza, sem malabarismos, sem ostentações, sem tentar inventar a roda. É contemporâneo sem negar a tradição, inclusive de grandes ficcionistas mineiros, que reconhecemos, souberam nos dar um mundo, narrando-o com simplicidade. É o contador de histórias que consegue, perfeitamente, oferecer-nos uma arquitetura sem que fiquemos nos lembrando de sua engenharia. Sabino não quer se mostrar, quer comunicar. Uma literatura para encontrar o outro, irmanada na consciência do naufrágio coletivo.
   Do menino que é obrigado a ir à missa “Não existe nada tão ruim para uma criança quanto a obrigação de fazer silêncio na idade do barulho” ao avô amante de literatura “Aprendi com ele que a dúvida é uma condição da alma livre, não um pecado”, Naufrágio entre amigos nos apresenta um Deus que, se existe, vai, por gozo, desfazendo as coisas, recriando-as, como se gostasse da forma impiedosa de contar as nossas histórias, como se fosse divertido que encontrássemos, décadas mais tarde, nosso grande amigo de infância assassinado por homofobia.
   A leitura de Naufrágio é séria, mas encontra clarões de humor todo o tempo, porque os narradores de Sabino sabem que é preciso rir da própria tragédia, que é preciso trocá-la por palavras para que faça algum sentido. Mais, que as grandes tragédias, muitas vezes, são as pequenas: o desvalor que professores nos atribuem na escola, a conversão do músico ao dogma cego, o nosso afastamento voluntário e inexplicável das pessoas que amamos, a solidão da internet, a troca das relações reais pelas relações virtuais, hoje que pensamos que "navegar é preciso" e que "viver não é preciso", o engodo a que somos submetidos e submetemos.
   A maioria dos contos traz personagens adolescentes – crianças e adultos, por vezes – ensaiando a vida, dando os primeiros passos do fracasso para entrar no navio sem volta. O bote salva-vidas: a amizade. Não fosse isso, como no último conto, já teríamos sucumbido em buracos que se abrem na terra, em Nova Lima, em qualquer cidade do mundo.


Ela deu meia volta e ergueu a arma. O boteco silenciou-se e Afonso se transformou. Levantou as mãos e se pôs a tremer. “O que foi que você disse?”. Tia Nice puxou a trava do revólver e seu Jorge soltou um grito atrás do balcão. “Não faz isso, Nice, pelo-amor-de-deus”. Ela começou a alternar os alvos, dançando com o revólver na mão, enquanto eu gritava para irmos embora. Voltou a encarar Afonso. “Você não tem ideia de quantos bostas iguais a você eu já mandei pro outro mundo. Respeito é bom e eu gosto”.Depois mandou Afonso ajoelhar no chão do boteco e me pedir desculpas. “Não precisa, tia”, eu disse. “Precisa sim. Anda.”Afonso se ajoelhou e a obedeceu. A fala gaguejada, o bigode tremendo.  Depois eu apertei sua mão, Tia Nice guardou a arma e descemos a rampa do boteco abraçados e com um silêncio profundo às nossas costas.” (do conto Estouros, p. 27)

   Leitura recomendadíssima.