domingo, 12 de maio de 2019

O feminismo é para todo mundo, políticas arrebatadoras – Bell Hooks




Por Adriane Garcia
O livro O feminismo é para todo mundo (ed. Rosa dos Tempos), de Bell Hooks, trabalha em linguagem simples (um objetivo declarado da autora) um pouco da história e crítica do feminismo contemporâneo, com ênfase no feminismo visionário, ou seja, aquele que não quer nenhuma espécie de sexismo, nem do homem sobre a mulher, nem da mulher sobre o homem, buscando a igualdade social, política e uma cultura de colaboração.

Para além das reformas que o feminismo já alcançou e quer alcançar, Bell Hooks destaca que o sistema capitalista patriarcal de supremacia branca é a estrutura central sobre a qual o sexismo se estabelece, de maneira que é necessário derrotá-lo. Deste modo, o livro discute também a questão de raça dentro do movimento feminista e os desdobramentos de conflito quando a demanda de mulheres brancas que já alcançaram postos na estrutura do sistema não coincide com a demanda das mulheres trabalhadoras pobres e/ou negras, para quem o trabalho existe desde que o mundo é mundo, mas é trabalho que jamais libertou essas mulheres.

A autora, em capítulos curtos, discute os tópicos “políticas feministas”, “conscientização”, “a sororidade ainda é poderosa”,  “educação feminista para uma consciência crítica”, “nosso corpo, nosso ser, direitos reprodutivos”, “beleza por dentro e por fora”, “luta de classes feminista”, “feminismo global”, “mulheres trabalhando”, “raça e gênero”, “pelo fim da violência”, “masculinidade feminista”, “maternagem e paternagem feministas”, “casamento e companheirismo libertadores”, “uma política sexual feminista”, “alegria completa: lesbianidade e feminismo”, “amar novamente: o coração do feminismo”, “espiritualidade feminista”, “feminismo visionário”.

Um livro interessante, excelente, inclusive, para quem estiver se iniciando no assunto, já que o feminismo é um dos mais importantes  movimentos e temas de nossa época.

"Se mulheres e homens querem conhecer o amor, precisamos aspirar ao feminismo. Porque sem o pensamento e a prática feministas não temos a base necessária para criar laços de amor. No início, profundas frustrações nos relacionamentos heterossexuais levaram várias mulheres a aderir individualmente à libertação da mulher. Várias dessas mulheres se sentiram traídas pela promessa de amor e felicidade para sempre quando elas se casaram com homens que rapidamente se transformaram de príncipes charmosos a senhores feudais patriarcais. Essas mulheres heterossexuais trouxeram para o movimento sua amargura e raiva. Elas juntaram seu coração partido com o de mulheres lésbicas que também se sentiram traídas em laços românticos  fundamentados em valores patriarcais. Consequentemente, quando a questão era o amor, o ideal feminista no início do movimento era de que a liberdade da mulher existiria somente se as mulheres se desapegassem do amor romântico.
  Nosso anseio por amor, conforme ensinadas nos grupos de conscientização, era uma armadilha sedutora para nos manter apaixonadas por amantes patriarcais, homens ou mulheres, que usavam aquele amor para nos dominar e subordinar. (...)" p. 145/146




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O feminismo é para todo mundo
Políticas arrebatadoras
Bell Hooks
Teoria feminista
ed. Rosa dos Tempos
2019

terça-feira, 30 de abril de 2019

Fahrenheit 451, de Ray Bradbury





  
“Há mais de um jeito de queimar um livro”
Ray Bradbury

Por Adriane Garcia

Fahrenheit 451, livro de ficção científica, distopia escrita por Ray Bradbury, narra a história de Guy Montag, um bombeiro que, ao invés de apagar fogo, coloca-o. Os bombeiros, em uma época em que as casas já não queimam mais, dedicam-se a queimar os livros daqueles que insistem em ter em casa esses objetos proibidos e anacrônicos.

O conflito do protagonista com sua função começa a se manifestar quando ele se encontra casualmente com Clarisse, uma menina que faz perguntas, gosta de diálogos e conversas. A personalidade de Clarisse e o indício de que sua família cultiva os mesmos gostos que ela sugerem que se trata de um grupo transgressor. Ser transgressor, na sociedade que Bradbury retrata, é ousar pensar, dedicar-se a ouvir o outro, ler. O aceitável é a cultura de massa, o pensamento único e uniformizado, a delação e a censura.

Publicado em meados do século XX, o livro aponta as observações que o autor vinha fazendo da sociedade norte-americana, no início da Guerra-Fria. Levada ao extremo, a sociedade retratada em Fahrenheit 451, mostra o empobrecimento das relações tomadas pelo uso da tecnologia sem estímulo ao pensamento. A consciência crítica diminui drasticamente até se transformar em traição ao Estado.

Guy Montag terá sua vida modificada por fazer o exercício de pensar, por achar os livros irresistíveis, por saber que há algo neles que não pode (mas precisa) ser contado. Ao final, uma emocionante surpresa sobre resistência, sem necessariamente ser uma esperança.

Essencial para dias perigosamente fascistas, como os que vivemos.


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Fahrenheit451
Ray Bradbury
Romance
Ed. Globo
2009


Carolina, de Sirlene Barbosa e João Pinheiro





Por Adriane Garcia

Escrita por Sirlene Barbosa e desenhada por João Pinheiro,  a biografia em quadrinhos Carolina conta a vida da escritora Carolina Maria de Jesus. Da infância em Minas Gerais, com direito a profecia de que ela seria poetisa, da luta pela sobrevivência da família, com três filhos, em São Paulo, até sua morte numa chácara, o livro flui como a obra de arte que é: bonito, emocionante, denso e dramático, tanto no texto quanto no traço do ilustrador.

Com algumas frases retiradas de Quarto de despejo, obra mais famosa de Maria Carolina de Jesus, os quadrinhos nos levam a conhecer o tom da obra desta mulher forte, negra, pobre, talentosa e que se dedicou a ler e a escrever mesmo quando já exausta.

Por um golpe de sorte, o jornalista Audálio Dantas encontra Carolina na favela do Canindé, lugar onde ela vivia, enquanto realizava uma reportagem. É Audálio que, vendo os escritos de Carolina, ajuda a torná-los livro.

Para além da biografia, o livro também fala sobre o racismo, triste fundamento da sociedade brasileira que precisa cada vez mais ser denunciado e discutido.

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Carolina
Sirlene Barbosa e João Pinheiro
Grafic novell
Biografia em quadrinhos
Ed. Veneta
2016


Poesia & Utopia, sobre a função social da poesia e do poeta, de Carlos Felipe Moisés




Por Adriane Garcia

Poesia e utopia, sobre a função social da poesia e do poeta, de Carlos Felipe Moisés, editado pela Escrituras, na coleção Ensaios transversais, traz reflexões importantes sobre a poesia e o sentido de se fazer poesia, além de discutir a função do poeta.

Sem tentar conceituar o que é poesia de forma definitiva, sabendo que muitas podem ser as definições (e indefinições), o autor adota o conceito de “ver como se víssemos pela primeira vez”. Traz no primeiro ensaio a expulsão do poeta da República de Platão, discutindo sobre a periculosidade do poeta e sobre liberdade e utopia: “Utopia e liberdade são inconciliáveis. Os sábios governantes de qualquer república “ideal” sabem ou simulam saber o que é melhor para todos e não hesitam em impô-lo, contra a vontade de quem quer que seja, vedando a partir daí todo avanço, todo conhecimento, toda liberdade.”

Ao adotar o conceito de poesia como aquilo que faz ver algo como se o víssemos pela primeira vez, destaca o potencial antipedagógico da poesia, pois, visto, o objeto tem que ser desconstruído, “desensinado”, para poder ser visto novamente, mas como se nunca antes. Neste sentido é que a poesia é intrinsecamente rebelde e traz seu potencial revolucionário.

No ensaio Make it new, parte de Ezra Pound e Confúcio. Das palavras de Confúcio: “O homem que mantenha vivo o que é velho e, ao mesmo tempo, reconheça a novidade, esse homem pode, eventualmente, ensinar”, Carlos Felipe Moisés encontra o Canto LIII, de Pound: “Tching orou na montanha e/ Escreveu: FAÇA-O NOVO/ em sua tina de banho/ Dia a dia faça-o novo/ apare a moita/ empilhe as toras/ mantenha-o crescendo.”

Em Pelos olhos e pelos ouvidos, Carlos Felipe Moisés destaca a diferença, no aspecto da periculosidade, da cidadania, entre a poesia falada e a poesia escrita. Aquela, coletiva, dita em praça pública; esta, individual, presa na página e no silêncio da vida privada. Neste sentido, discutirá a poesia e a ação política, o tecnicismo e o hermetismo.

Em Da praça pública à mansarda, Carlos Felipe continua a discussão do impacto político e da importância do poeta nas sociedades antigas e atuais.

No último capítulo, A hora da poesia, o autor continua defendendo não as respostas, mas as perguntas. Pois é preciso continuar escrevendo, lendo e falando poesia, e se perguntando para que ela serve e qual é a função do poeta em um mundo globalizado, onde cada vez mais o discurso em defesa apenas de funções técnicas servis a um mundo empresarial e globalizado ganha adeptos. Um discurso que nos aproxima das máquinas e nos distancia da nossa humanidade.


“Que papel representa para nós, hoje, essa milenar atividade humana, que continuamos a chamar “poesia”? Que espécie de realidade entrevemos ou julgamos entrever num poema, quando dele nos acercamos para ouvir a voz do poeta? Que relações mantém entre si a realidade “poética” e a “outra”, esta a que todos estamos presos, antes e depois, ou para aquém e para além do nosso contato com a poesia?
Tais são, em sua formulação mais singela, as questões que pretendemos investigar. Por várias razões, entre as quais não conta pouco a mescla de cautela e ceticismo que deve mover todo empenho ensaístico, proponho que nossa atenção se concentre, o mais demoradamente possível, nas perguntas atrás apenas esboçadas, para só então arriscar uma possível resposta. O único propósito que nos move é o misto de curiosidade e perplexidade sugerido na abertura. Por isso, convém insistir na reiterada ruminação da dúvida, sem pressa de chegar a qualquer resultado. Nesta nossa era de urgência global, que não tem tempo a perder e nos incita à corrida desenfreada no encalço de mais produção, mais qualidade e eficiência (ou seria eficácia?), proponho que nosso esforço adote de modo deliberado o ritmo contrário, o ritmo pausado e moroso de quem não tem convicções definidas a respeito do que seja “ganhar” ou “perder” em matéria de tempo; o ritmo, em suma, de quem dispusesse de todo o tempo do mundo para dedica-lo à questão da surpreendente sobrevida da poesia.”
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Poesia & Utopia, sobre a função da poesia e do poeta
Carlos Felipe Moisés
Ensaio
Ed. Escrituras
2007


sábado, 20 de abril de 2019

Torto Arado, de Itamar Vieira Junior




Por Adriane Garcia


Torto arado, romance de Itamar Vieira Junior, ganhador do Prêmio Leya 2018, é uma narrativa envolvente, efetuada em várias vozes, todas elas femininas. A força do romance se confunde com a própria força da mulher, que protagoniza o livro e o mundo descrito.

O cenário escolhido é árido: Brasil, Chapada Diamantina, Bahia – o mundo rural, o sertão e a seca. O tempo é de latifúndio: alguns anos após a abolição oficial da escravatura, encostando no hoje, aqui, agora mesmo. Já no primeiro capítulo, as duas heroínas aparecem: Bibiana e Belonísia, crianças adorando um objeto proibido e cortante. É de corte o Torto arado de Itamar Vieira Junior, é das vidas sob e sobre a lâmina que ele nos contará.

A comunidade em que a história se desenvolve é a Fazenda de Água Negra, um dos lugares onde negros e índios sem qualquer propriedade ou trabalho iam “pedir morada”. Em troca do lugar para ficar, deveriam trabalhar nas terras do fazendeiro (senhor), podendo cultivar pequena horta para subsistência no tempo que sobrasse para si. Os trabalhos para o senhor envolvem de lavoura a serviços de construção, sendo que obediência e gratidão ficam implícitos no contrato tácito (qualquer semelhança com sistema feudal e escravismo não é mera coincidência). Outros produtos poderiam ser comprados do próprio armazém do fazendeiro, a preços exorbitantes. Tal dinâmica circular, obviamente, mostra o autor, impede qualquer mobilidade social. Uma condição interessante imposta pelo fazendeiro, que Torto arado frisa, é a de que os moradores estabeleçam casa de barro e jamais de alvenaria, para que não se pudesse calcular o tempo de permanência e evitar, assim, a posse da terra por meio de usucapião, por exemplo.

Neste contexto, as famílias que ali se desenvolvem, trazendo seus conhecimentos e tradições de outros lugares, e criando outros a partir da vivência na nova terra, movimentam-se em torno de suas culturas muito particulares. No caso da Chapada Diamantina, representados nos personagens de Itamar Vieira Junior, os moradores exercitam e fortalecem sua identidade nos ritos do Jarê, religião de matriz africana (bantu e nagô) que junta elementos das culturas portuguesa, negra e indígena, mesclando santos católicos, orixás e caboclos. O líder espiritual no Jarê incorpora os Encantados, que falam ao grupo.  O Jarê mantém a comunidade unida, agrega pela fé e pelas festas, fornece a esperança para resolver o mal pelo pedido da graça e fortalece em seus cultos os laços com a natureza, a terra e as árvores.

As protagonistas Bibiana e Belonísia não só encarnam a dimensão da tragédia (que envolve miséria, sexismo, misoginia, exploração, violência) como também a dimensão da mudança. É por Bibiana e Belonísia, trazendo a força de Donana, a avó – que certamente trazia outra força-mulher atrás de si - que a narrativa evolui. Outros elementos como tradição e permanência ficam bem representados no pai, Zeca Chapéu Grande, o líder espiritual de Água Negra, um homem que apazigua os conflitos e intermedia os problemas entre os moradores e os proprietários. Ainda assim, é Zeca Chapéu Grande que, em um lance de grande esperteza, reivindicará, pela primeira vez, educação formal aos filhos dos trabalhadores.

A falta de educação formal em Água Negra é outro ponto crucial no romance. Há dois tipos de comportamento destacados em Torto arado: um conformado, já que o destino dos trabalhadores é dado pelo senhor; o destino é nascer, trabalhar, morrer. Esse comportamento não é questionado até que o primo Severo e a esposa retornem à Água Negra, agora munidos de estudo formal e da crítica sobre a própria realidade. Ao voltarem com a palavra, ao produzirem as palavras que mostram aos moradores sua verdadeira ancestralidade e direito à terra (que sem o trabalho não significa nada), uma força desponta, um segundo comportamento. Não que, antes, não houvesse consciência da exploração, essa consciência o homem rural tem e sente todos os dias, na carne; o que não havia era a transformação dessa consciência em ato político, o que nos faz lembrar Darcy Ribeiro (que adoraria o livro de Itamar): “ A crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto.”

A narrativa de Torto arado se estende por toda a história do Brasil, para trás e para a frente do tempo de seus personagens. Com um recorte de algumas gerações, Itamar Vieira Junior denuncia cinco séculos de ocupação fundiária irregular. Esta ocupação, feita não pelo direito, mas pela força, desenvolveu formas como a grilagem, quando o próprio Estado se torna cúmplice da fraude, tendo ele mesmo se formado sobre ela, pois não é possível que alguém tenha dúvidas verdadeiras sobre a quem pertencem as terras ocupadas pelos índios ou pelos quilombolas. Os conflitos no campo levam o Brasil a ser um dos países que mais mata ativistas no mundo, segundo dados da ONU e noticiários de nossas manhãs.

O conflito agrário envolve milícias, genocídio, assassinato, jagunços e muito sangue derramado. Aqueles que, como no romance de Itamar Vieira Junior, desenvolveram uma ligação com a terra, que se confunde com a própria vida, não têm condição de se retirar dela sem se esfacelar. Este processo, muito bem estudado e descrito noutro livro, Mundo encaixado (ed. Mazza), de Edimilson de Almeida Pereira e Núbia Pereira Gomes, leva o homem do campo a perder completamente a sua identidade e é uma das faces mais violentas da injustiça social, que transfere o homem do campo para as favelas dos grandes centros urbanos.

O romance Torto arado contribui de várias maneiras para a literatura brasileira e a reflexão sobre história e racismo. Ao trazer para suas páginas o protagonismo negro – e mais: o protagonismo da mulher negra, lidar com personagens que representam os “vencidos”, centrar o conflito na condição primeira destes personagens: herdeiros da escravidão, Itamar Vieira Junior fornece ao leitor uma imagética menos comum, já que nossa formação literária poucas vezes nos ofereceu as histórias cujo protagonismo e centralidade faziam jus ao fato de que a população negra é a maioria no país. Ainda assim, os produtos culturais agem como se o comum fosse sair e ver gente muito branca, masculina e burguesa nas ruas. Daí a grande importância de trazer à tona livros como este, como os de Lima Barreto, Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Carolina Maria de Jesus e outras e outros escritores que tratam de temáticas e personagens oriundos da triste e injusta herança escravagista.

Tensão e dramaticidade acompanham todo o livro. Itamar Vieira Junior mantém os segredos e mistérios que povoam a narrativa até o limite, de maneira que o leitor leva seu interesse sem pausa. Sua atenção às nuances mínimas que regem as emoções nos convívios deixa claro o quanto é observador de seus próprios personagens, tão bem construídos que se tornam conhecidos do leitor. Ninguém esquece Bibiana, Belonísia, Donana, Salu, Severo, Sutério, Tobias, Santa Rita Pescadeira. Nem mesmo detalhes das mãos de Donana, parteira, “mãe de pegação”, o leitor se esquecerá: “Eram mãos pequenas, de unhas aparadas, como deveria ser a mão de uma parteira, dona Tonha dizia. Pequenas, capazes de entrar no ventre de uma mulher para virar com destreza uma criança atravessada, mal encaixada, crianças com os movimentos errados para nascer. Ela faria os partos das trabalhadoras da fazenda até poucos dias antes de sua morte.”

Torto arado retrata com tanta verossimilhança a comunidade de Água Negra, que a impressão do leitor é a de já ter pisado lá. O autor não trata este lugar ou estas pessoas com idealizações. Naquela comunidade negra, de família estendida, de laços solidários e fraternos (pois é a solidariedade que salva o pobre), também ocorrem brigas, fofocas, sexismo, assédio sexual, dominação mesmo entre os fracos sobre os ainda mais fracos (supostamente), alcoolismo, violência doméstica. Se o homem negro sofre, a mulher negra sofre triplamente. A seca, a falta de recursos e opções, a grande mortalidade infantil, mostram o quanto estas pessoas são obrigadas a se adaptar ao inóspito, demonstrando gigante resistência, mas uma resistência que não deveria ser exigida de ninguém.

O sexo surge como um chamado da reprodução, força enorme da vida que quer se perpetuar e que, quanto pior for o ambiente, mais precisa se tornar fértil. A mulher, mais uma vez, matriz da vida, também aparece como ordenadora do mundo, o que fica bem explicitado no capítulo em que é descrito o barraco de Tobias: um mundo caótico à espera de uma mulher para ordená-lo e depois ser maltratada; uma cena que simboliza a coisificação da mulher, um objeto que é passado do pai para o marido e que torna os casamentos um excelente negócio para os homens.

Torto arado é um livro rico, complexo, que carrega a vantagem dos grandes romances escritos em linguagem comunicável, simples, mas jamais simplista: pode ser lido pelo leitor comum e pelos leitores mais experimentados, pode agradar jovens e adultos. Em primeiro plano se está lendo uma boa e intrigante história, que é também sobre amor, amizade e superação; em  segundo, se está vendo de outra forma o que se pensava ter visto; em terceiro plano, se está ligando aquilo que lê a uma realidade maior, ali questionada. Ao ter um tratamento tão sensível, há uma grande eficiência em despertar a empatia. O livro é cheio de beleza e contundência nas imagens, emocionantes passagens, triste e terrível, concilia bem a dureza da luta com a existência da esperança e mostra a dignidade daqueles que trabalham a terra e sabem que essa é a sua dignidade.

Os expedientes do poder sofrem pequenas metamorfoses, como transformar capitães do mato em policiais, feitores em capatazes de fazendas, para matar os divergentes, os insurgentes, os que proliferam as ideias de justiça e, por fim, não só prender ou matar o revolucionário, mas também manchar e matar a sua reputação. Contra o discurso que precisa acompanhar toda violência para legitimá-la só caberá outro discurso. É a força da oralidade que pode ajudar a comunidade de Água Negra, aliada aos novos saberes formais. É na linguagem que a consciência amadurece. Torto arado parte da metáfora da mudez para falar pelos que foram silenciados.

Necessário e imperdível.


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Torto Arado
Itamar Vieira Junior
Romance
Editora Leya
2019
Disponível em e-book pela Amazon
Em breve livro físico no Brasil

sábado, 30 de março de 2019

Poemas 1913 - 1956, Bertolt Brecht



Coletânia essencial. Resenha em breve.

Uma breve história da humanidade - Sapiens, de Yuval Noah Harari (tradução Janaína Marcantônio)




O livro Uma breve história da humanidade Sapiens, de Yuval Noah Harari, é excelente. Yuval, é professor de história na Universidade Hebraica de Jerusalém.

Além de traçar a história, desde o surgimento dos primeiros grupos de humanos, as várias raças das quais apenas o homo sapiens sobreviveu, até o advento da possibilidade de um novo ser, por meio da inteligência artificial ou da tecnologia genética, o autor instiga à reflexão quanto à nossa condição e aos rumos que se poderia tomar.

Inteligente e corajoso, Yuval Noah Harari nos traz um livro essencial para compreender nossa estadia neste planeta que, erroneamente, achamos que é feito exclusivamente para nosso usufruto.

Livro absolutamente imperdível.

Vítimas da revolução

A barganha faustiana entre humanos e grãos não foi o único pacto feito por nossa espécie. Descobriu-se outro pacto com relação ao destino de animais como ovelhas, cabras, porcos e galinhas. Os bandos nômades que caçavam ovelhas selvagens pouco a pouco alteraram a composição dos rebanhos capturados. Esse processo provavelmente teve início com a caça seletiva. Os humanos aprenderam que era vantajoso para eles caçar apenas carneiros adultos e ovelhas velhas ou doentes. Eles poupavam as fêmeas férteis e os cordeiros jovens para proteger a vitalidade do rebanho a longo prazo. O segundo passo talvez tenha sido defender ativamente o rebanho de predadores, afastando leões, lobos e bandos humanos rivais. Depois, o bando talvez tenha encurralado o rebanho em um desfiladeiro para controlá-lo e defendê-lo melhor. As pessoas começaram a fazer uma seleção mais cuidadosa das ovelhas para adaptá-las às necessidades humanas. Os carneiros mais agressivos, aqueles que mostravam mais resistência ao controle humano, eram abatidos primeiro, como também as fêmeas mais curiosas e mais magras. (Os pastores não gostam de ovelhas cuja curiosidade as leva para longe do rebanho.) A cada geração, as ovelhas se tornaram mais gordas, mais submissas e menos curiosas. Voilà! Mary tinha um carneirinho e a todo lugar que ela ia, ele ia também.

Outra possibilidade é que os caçadores capturassem e “adotassem” um cordeiro, engordando-o durante os meses de fartura e abatendo-o em época de escassez. Em algum momento, eles começaram a manter um número maior de tais cordeiros. Alguns deles chegavam à puberdade e começavam a procriar. Os mais agressivos e rebeldes eram abatidos primeiro. Os mais submissos e atraentes tinham a chance de viver mais tempo e procriar. O resultado foi um rebanho de ovelhas domesticadas e submissas.

Tais animais domesticados – ovelhas, galinhas, jumentos e outros – forneciam comida (carne, leite, ovos), matérias-primas (pele, lã) e força muscular. O transporte, o arado, a moenda e outras tarefas, até então realizadas por força humana, foram progressivamente executadas por animais. Na maioria das sociedades agrícolas, as pessoas priorizavam o cultivo de espécies vegetais; criar animais era uma atividade secundária. Mas um novo tipo de sociedade também apareceu em alguns lugares, tendo por base primordialmente a exploração de animais: tribos de pastores.

À medida que os humanos se espalharam pelo mundo, os animais domesticados também o fizeram. Há dezenas de milhares de anos, não mais de alguns milhões de ovelhas, vacas, cabras, javalis e galinhas viviam em nichos seletos na África e na Ásia. Hoje o mundo tem cerca de um bilhão de ovelhas, um bilhão de porcos, mais de um bilhão de cabeças de gado e mais de 25 bilhões de galinhas. E eles estão pelo mundo todo. As galinhas domesticadas são as aves mais disseminadas até hoje. Depois do Homo Sapiens, o gado, o porco e a ovelha são, nessa ordem, os grandes mamíferos mais difundidos no mundo. De uma perspectiva estritamente evolutiva, que mede o sucesso de uma espécie pelo número de cópias de DNA, a Revolução Agrícola foi uma grande vantagem para galinhas, vacas, porcos e ovelhas.

Infelizmente, a perspectiva evolutiva é um parâmetro de sucesso relativo. Julga tudo segundo os critérios de sobrevivência e reprodução, sem considerar o sofrimento e a felicidade individuais. As galinhas e as vacas domesticadas podem ser um história de sucesso evolutivo, mas também estão entre as criaturas mais miseráveis que já existiram. A domesticação de animais se baseou numa série de práticas brutais que só se tornaram cada vez mais cruéis com o passar dos séculos.

A expectativa de vida natural de galinhas selvagens é de 7 a 12 anos, e de bovinos é de 20 a 25 anos. Na natureza a maioria das galinhas e das vacas morria muito antes disso, mas ainda tinha uma boa chance de viver por um número respeitável de anos. Já a grande maioria das galinhas e vacas domesticadas é abatida com algumas semanas ou no máximo alguns meses de vida, porque essa sempre foi a idade ideal para abatê-las de uma perspectiva econômica. (Por que continuar alimentando um galo por três anos se ele já chegou a seu peso máximo depois de três meses?).

Galinhas chocadeiras, vacas leiteiras e animais de carga às vezes têm chance de viver por muitos anos. Mas o preço é a sujeição a um estilo de vida completamente alheio a suas necessidades e desejos. É razoável supor, por exemplo, que os bois preferem passar seus dias vagando por pradarias abertas na companhia de outros bois e vacas do que puxando carroças e arados sob o jugo de um primata com chicote.

A fim de transformar bois, cavalos, jumentos e cavalos em animais de carga obedientes, seus instintos naturais e laços sociais tiveram de ser destruídos, sua agressão e sexualidade contidas e sua liberdade de movimento, restringida.

Os criadores desenvolveram técnicas como trancar animais em jaulas e currais, contê-los com rédeas e arreios, treiná-los com chicotes e aguilhadas e mutilá-los. O processo de domesticar quase sempre envolve a castração dos machos. Isso restringe sua agressividade e permite que os humanos controlem seletivamente a procriação do rebanho.

Em muitas sociedades da Nova Guiné, a riqueza de uma pessoa é tradicionalmente determinada pelo número de porcos que ela possui. Para garantir que os porcos não fujam, os criadores no norte da Nova Guiné cortam um pedaço do focinho do animal. Isso causa dor intensa sempre que o porco tenta cheirar. Como os porcos não conseguem encontrar comida ou mesmo se orientar no espaço sem cheirar, essa mutilação os torna completamente dependentes de seus proprietários humanos. Em outra região da Nova Guiné, é costume arrancar os olhos dos porcos, para que eles não possam nem ver para onde estão indo.

A indústria de laticínios tem sua própria maneira de forçar os animais a fazerem sua vontade. Vacas, cabras e ovelhas produzem leite só depois de parir bezerros, cabritos e cordeiros e apenas enquanto seus filhotes mamam. Para ter uma oferta contínua de leite animal, um fazendeiro precisa ter bezerros, cabritos ou cordeiros para amamentar, mas deve impedi-los de monopolizar o leite. Um método comum ao longo da história foi simplesmente abater os filhotes logo após o nascimento, extrair todo o leite da mãe e então fazer que ela fique prenha novamente. Essa é, ainda hoje, uma técnica muito usual. Em várias fazendas de laticínios modernas, uma vaca leiteira vive cerca de cinco anos antes de ser abatida. Durante esses cinco anos, ela está prenha constantemente e é fertilizada entre 60 e 120 dias depois de parir, a fim de preservar a máxima produção de leite. Seus bezerros são separados dela logo após o nascimento. As fêmeas são criadas para se tornar a próxima geração de vacas leiteiras, ao passo que os machos são entregues aos cuidados da indústria da carne.

Outro método é manter os bezerros e os cabritos perto da mãe, mas evitar, por meio de vários estratagemas, que eles suguem muito leite. A maneira mais simples de fazer isso é permitir que o filhote comece a mamar, mas afastá-lo assim que o leite começa a fluir. Esse método geralmente encontra resistência do filhote e da mãe. Algumas tribos de pastores costumavam matar o filhote, comer sua carne e empalhá-lo. O filhote empalhado era então presenteado à mãe para que sua presença encorajasse a produção de leite. A tribo dos núeres, no Sudão, chegava ao ponto de espalhar urina da mãe nos animais empalhados, para que tivessem um odor vivo e familiar. Outra técnica dos nuéres era atar uma coroa de espinhos ao redor da boca do bezerro, apar que ele furasse a mãe e fizesse com que ela resistisse à amamentação. Os tuaregues, povo criador de camelo no deserto do Saara, costumavam perfurar ou cortar partes do focinho e do lábio superior do camelo para tornar a alimentação dolorosa, evitando, assim, que consumissem muito leite.

Nem todas as sociedades agrícolas foram tão cruéis com seus animais. A vida de alguns animais domesticados podia ser muito boa. Ovelhas criadas para lã, cachorros e gatos de estimação, cavalos de guerra e cavalos de corrida muitas vezes desfrutavam de condições confortáveis. O imperador romano Calígula supostamente planejou nomear seu cavalo favorito, Incitatus, ao posto de cônsul. Pastores e agricultores ao longo da história mostraram afeição por seus animais e cuidaram muito bem deles, assim como muitos senhores sentiram afeição e preocupação por seus escravos. Não foi nenhum acaso reis e profetas se apresentarem pastores e compararem o modo como eles e seus deuses cuidavam de seu povo com o cuidado de um pastor com seu rebanho.

Mas do ponto de vista do rebanho, e não do pastor, é difícil evitar a impressão de que para a grande maioria dos animais domesticados a Revolução Agrícola foi uma catástrofe terrível. Seu “sucesso” evolutivo não significa nada. Um raro rinoceronte selvagem à beira da extinção provavelmente é mais feliz do que um boi que passa sua breve vida dentro de uma jaula minúscula, alimentado para produzir carnes suculentas. O rinoceronte não é menos contente por estar entre os últimos de sua espécie. O sucesso numérico da espécie bovina é pouco consolo para o sofrimento que o indivíduo padece.

Essa discrepância entre sucesso evolutivo e sofrimento individual é, talvez, a lição mais importante que podemos tirar da Revolução Agrícola. Quando estudamos a história de plantas como trigo e milho, talvez a perspectiva puramente evolutiva faça sentido. Mas no caso de animais como bois, ovelhas e sapiens, cada um com um mundo complexo de sensações e emoções, temos que considerar em que medida o sucesso evolutivo se traduz em experiência individual. Nos capítulos seguintes, veremos mais uma vez como um aumento drástico no poder coletivo e o visível sucesso de nossa espécie andaram de mãos dadas com muito sofrimento individual.”

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Uma breve história da humanidade Sapiens
Yuval Noah Harari
Tradução : Janaína Marcoantônio
Editora L& PM
2018