sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Mauricéa, de Adrienne Myrtes





Por Adriane Garcia

Vão nos deixar bordar pássaros
Nas bandeiras da pátria livre?
Pedro Lemebel

Mauricéa (ed. Edith), título do romance de Adrienne Myrtes, faz referência à Cidade Maurícia e a Maurício de Nassau, à época da invasão holandesa; é também o nome escolhido por Omar, quando decide assumir a transgeneridade.

Diferente dos demais, deslocado, identificado, desde a infância, com o gênero feminino, Omar, quando nos narra em primeira pessoa sua vida, já é uma velha e  está, como nos diz, na melhor idade: “melhor idade para morrer”, “melhor idade para ir pro asilo”, “melhor idade para ter Alzheimer”, “melhor idade para brincar no Parkinson”. É com humor melancólico, alguma nostalgia e constatações de muita dureza que Mauricéa conta sua vida. A vida de uma sobrevivente, em um país com um dos mais altos níveis de homofobia do mundo, onde a expectativa de vida das travestis não chega aos 40 anos.

A história nos chega enquanto Mauricéa está de cama, na casa que divide com duas amigas, Izildinha e Paula Klee. Está imobilizada, devido às sequelas de um traumatismo craniano que sofreu, quando foi surrada por uma gangue de, acredite, outros velhos. É interessante que Adrienne Myrtes tenha escolhido para os criminosos a idade da velhice, revelando uma continuidade: o que, a princípio, soa inusual para uma gangue de caçada a pessoas LGBT, logo nos leva a refletir sua atualidade. Há pouco, na própria realidade brasileira, um senhor de 63 anos, ocupante de cadeira legislativa e concorrendo à Presidência da República, vociferava em vídeos de redes sociais e programas de televisão seu preconceito contra gays. Os problemas não resolvidos com a sexualidade duram o ódio de uma vida inteira, velhos capazes de espancar o que julgam ser um homem vestido de mulher podem estar na fila do posto de saúde. E estavam.

Sendo amparada e cuidada por Izildinha, cuja bondade e caridade chegam a irritar Mauricéa, “quem faz caridade oprime sorrindo”, ela rememora toda a sua trajetória. O leitor se instala no pensamento da protagonista. Dali, é possível saber quais foram seus caminhos, seja em Recife, onde, órfã, foi criada pela tia e trabalhou no Chanteclair, ou São Paulo, para onde foi tentar ser uma estrela, uma grande artista, se revelar no feminino. Porém, a realidade fez o que costuma fazer com os transgêneros, empurrou-a, mais uma vez, para a prostituição. Para complementar a renda, Mauricéa foi também manicure.

Passando por grandes amores, Jonas, Gilmar, Romero, Mauricéa nos conduz à sua vida amorosa, o amor terminando ora em traição, ora em morte, “o amor não é saudável nem compreensível”. “Mona é bicho que gosta de se iludir”. É no amor que a vida mais se confunde, pois não há uma educação amorosa e, no caso de Mauricéa, o preconceito social determina muitos abandonos; não se ensina em lugar algum o amor, essa “coisa” que todos buscam e em nome do qual se pratica tudo quanto é desamor.

De maneira fluente, verossímil, suspensa de julgamento, íntima, Adrienne Myrtes consegue estabelecer uma conexão perfeita entre sua protagonista e o leitor. A naturalidade com que as lembranças surgem é notada, inclusive, nos “ganchos” de memória. De modo recorrente, uma palavra do parágrafo acima é o que desencadeia a memória que virá no parágrafo seguinte, ou de uma linha para outra: “E o que eu mais queria era ver a segurança familiar dizimada, se eu pudesse espatifava a dele pra começo de papo, atirava no coração dela, a tirava de circulação...”, “ele foi fraco, homem é assim mesmo, tem necessidades. Não havia necessidade era de você nascer na família”.

Enquanto acompanhamos a existência de Mauricéa, aparece-nos o país de fundo, a época da ditatura militar, na qual Mauricéa passa parte de sua juventude e vida adulta. A eterna tentativa hipócrita e higienista da sociedade brasileira de “limpar” as ruas dos “indesejáveis”. A direita e a extrema-direita usando do bullying aos grupos de extermínio e a denúncia de Mauricéa de que até entre os subversivos (a esquerda) ela era uma subversiva, pois nem ali os travestis encontravam apoio para os seus corpos.

“... Tempos de maremoto, de força policial específica, embora não oficial, treinada para limpar as ruas da imundície que representávamos: o esquadrão antibichas era conhecido e temido; por sua vez temiam e, por isso, paravam o ataque quando começávamos a nos cortar. Guardavam medo do mal anunciado veladamente. Naquela noite, além de me deixarem a cara inchada de porrada, fui obrigada a engolir a porra de quatro deles; conseguiram me tomar a gilete quando me caçaram. Aqui se misturam em mim a dor da humilhação revisitada e a ternura do encontro com Gilmar, meu salvador, meu querubim.”

Mauricéa, contrariando prognósticos, chega à velhice, e a homofobia acompanha a história. É na contemporaneidade, na suposta democracia, que ela é abatida, como se humana não fosse. Na narração das lembranças de Mauricéa, poderíamos supor que ela frisa apenas seu lugar (ou não-lugar) social, mas não, o grande mérito de Adrienne Myrtes é nos dar uma personagem que faz isso, mas, antes, é uma vida humana completa e complexa, com dores, alegrias, desejos, sentimentos de vingança, pontos de vista pessoais, reflexões que independem de gênero, orientação sexual, rótulo. Parte da raiva dos “quadrados” é não conseguir “encaixar” as variantes da sexualidade, achando que, mais seguro, é o mundo conhecido, que mata.  A sexualidade de Omar/Mauricéa também não pode ser totalmente compreendida (ou encaixada), pois pertence ao campo da liberdade, ao delicioso campo do “fluir”. Mauricéa é gente, que acerta e erra. Gente que aprendeu a construir distâncias, que sabe que o tempo é “esse gigolô que nos fode e nos vende em troca de momentos(...). Gente que, como toda gente, quer amar e ser amada. E, parafraseando Mario Quintana, todas as histórias são mesmo de amor.

Omar, meu amor, você está acordado? É hora dos exercícios e da massagem nas pernas, o médico falou pra não descuidar, e você tem ficado tempo demais deitado, precisa se mexer.
A única coisa que mexi de modo involuntário foi o peito. As mãos de Izildinha aqueceram minhas pernas, as palmas esfregando a pele. Meus músculos, tocados, libertaram soluços velhos, coisas guardadas. Cobri o rosto com o braço a ver se escapava da piedade, mas, igual a um filhote de cão quando sonha, deixei escapar pequenos ruídos, gemidos de choro contido; um vira-lata sem dono aprendendo a lei da rua, do asfalto. Minha mãe precisou conhecer as ruas, pode-se dizer que sua vida foi mais fácil? Mais fácil foi aceitar que o calor das mãos de Izildinha massageando minhas pernas  e pés surtiram o efeito de acalmar a alma, pacificaram a guerra em meu peito, mas acordaram involuntariamente meu pau, adormecido e abandonado entre as pernas havia tanto tempo, rebaixado à tarefa de expelir urina feito fosse outra vez criança, meu velho amigo alquebrado pela jornada; sobreviveu ao mata-pombos e a minha condição de fêmea para chegar até aqui e ser trazido de volta à vida pelas mãos de uma mulher. Fechei os olhos e me permiti sonhar com o amor, esse belo desconhecido, enquanto Izildinha me acarinhava e me lembrava: a vida é maior que a dor e tem o costume de impor sua presença. Izildinha tem a manha do negócio, é profissional.
Omar, meu filho, relaxe. Veja se dorme. Vou ao banheiro lavar a boca.

***
Mauricéa
Adrienne Myrtes
Ed. Edith
Romance
2018






quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Por cima do mar, de Deborah Dornellas




Por Adriane Garcia


Por cima do mar (ed. Patuá), de Deborah Dornellas, conta a história de Vitalina da Conceição Brasil, mulher negra, historiadora, professora da UNB, filha de pai cearense e mãe mineira, nascida em Brasília quando da construção da capital do país. Na infância, moradora em uma favela no Distrito Federal, logo se muda juntamente com a família para a Ceilândia, cidade satélite.

Indo e vindo em memórias, a protagonista, depois tornada Lígia Vitalina por uma ousadia da mãe, reconstrói a própria história e, nesse percurso, leva o leitor a muitos lugares. É em Benguela, Angola, que a narrativa começa. Fazendo o caminho contrário da diáspora africana, Lígia Vitalina busca as suas origens e, na África, reconhece as mulheres que lhe antecederam. Por cima do mar é tecido de muitas delas, são as mulheres que vão compondo o mundo neste romance.

Ao oferecer ao leitor a história de Lígia, Deborah Dornellas mostra também uma parte importante da história do Brasil, a dos candangos, migrantes que, vindos de vários lugares do país a partir de 1957, dispuseram-se a construir Brasília, sob condições precárias de trabalho e moradia. A capital não é feita para abrigar a classe de trabalhadores que a construiu. Pronta, aqueles que não podem estar dentro do Projeto Piloto são empurrados para as cidades distantes, sem serviços públicos adequados e sob forte repressão policial.

Também é destacável que a autora, a partir do personagem José Augusto Luacute, nos dá um panorama da Guerra Civil em Angola, só terminada em 2002. É comovente a história do jovem, único filho homem, que é enviado pela mãe ao exterior para que não lutasse na guerra fratricida. Luacute parte em um cargueiro holandês, mas não sem culpa por abandonar os seus. À ação de amor e desapego da mãe, Luacute deve a instrução intelectual e a vida.

Compreendendo, diariamente, e não sem dor, a diferenciação entre brancos e negros, ricos e pobres, homens e mulheres, patroas e empregadas domésticas, Lígia Vitalina busca o seu lugar – a despeito do que lhe deram – nas relações pessoais e sociais. Deborah Dornellas, neste Por cima do mar, leva-nos na companhia de uma personagem de muita beleza e luta. Uma história atravessada pelo racismo, pela misoginia (com um de seus eventos culminantes: o estupro), pela inadequação e invisibilidade social.

Um dia, em 1986, na Ceilândia, jovens reunidos para dançar em um baile black, no Quarentão, foram cercados por viaturas e um policial gritou: “branco sai, preto fica!” Em seguida, começaram a atirar. É importante lembrar. É importante não deixar esquecer. Por cima do mar é um livro que sabe que Minas Gerais e seus pretos, que Paracatu e seu congado, que Brasília e seus candangos, que Angola e suas zungueiras, que o Rio de Janeiro e o Mercado do Valongo falam da mesma dor e da mesma resistência.


Nunca achei que fosse o tipo de pessoa que faria terapia. Pensava que jamais ficaria confortável com isso. Não porque achasse que é coisa de gente doida, mas porque achava que terapia não era coisa para gente pobre. Que uma coisa não combinava com a outra. Era refém dessa crença inútil, reforçada por preconceito e desconhecimento. E, mesmo quando fui à primeira sessão, caminhei até o consultório da psicóloga carregando uma tonelada de culpa no lombo. É gastar dinheiro à toa, bobagem, frescura de branco, coisa de rico. Escutei essas expressões sei lá quantas vezes ao longo da vida. Inclusive da boca de gente da minha família. Mas aprendi a impedir que essa ideia me entrasse ainda mais pelos poros e circulasse nas minhas veias. Tenho, sim, o direito de buscar ajuda profissional que me auxilie a lidar comigo mesma e com meus problemas. Todo ser vivente tem. E de pagar uma terapia, mesmo que com sacrifício, se achar que é o caso. Era.
Sobrevive entre as mulheres negras a ideia de que, por ser preta e de origem pobre, uma mulher tem que ser sempre forte e aguentar tudo, sem sucumbir. E sem pedir ajuda. Minha mãe nunca me disse isso com todas as letras, mas sempre agiu como se esse comportamento estivesse subentendido. De tia Maria, ouvi absurdos a esse respeito. Minha tia não segurava palavra. Era uma tagarela para os padrões mineiros. Mas mãe e tia não foram as únicas que me incutiram essa crença estúpida, da qual elas próprias devem ter sido vítimas a vida toda. Vi e ouvi muitas vezes mulheres e homens negros, no espaço familiar, na vizinhança, nas rodas de amigos, falando e agindo como se para nós, pessoas negras, não houvesse a possibilidade da fragilidade.
Passei anos da minha vida guardando dentro de mim todos os detalhes do ataque. Aqueles escrotos me violaram o corpo e a alma naquele dia. Parte de mim ficou no chão seco do cerrado. Mas ainda estou aqui. E decidi não mais dar aos monstros o poder de me roubarem o gosto pela vida.
Antes de começar a falar, na primeira sessão de terapia, captei nos olhos de Míriam, a terapeuta, uma profunda empatia. Confiei nela e falei tudo que consegui em uma hora e pouco. Agradeci mil vezes por estar ali e por conseguir falar. Foi a primeira vez que mencionei a palavra feia sem constrangimento. Estupro. Estupro. Estupro. O que sofri foi um duplo estupro. Hoje se diz gang rape ou coisa parecida.
Míriam era a terceira pessoa que ficava sabendo do estupro. Além dela, até então, apenas o professor João Luís e Docas sabiam. Foram os dois, inclusive, que, cada um no seu front, me convenceram a procurar ajuda psicológica.
Um alívio conseguir falar da violência que meu corpo sofreu sem medir as palavras. A ferida ainda dói, mas já não sangra.” ( p. 169/170)

***
Por cima do mar
Deborah Dornellas
Ed. Patuá
Romance
2018

Canção sem palavras, de Laura Cohen Rabelo




Por Adriane Garcia


Maria Tereza, protagonista de Canção sem palavras (ed. Scriptum), mais novo romance de Laura Cohen Rabelo, é uma musicista, violonista, filha de um famoso e requisitado luthier. Tendo vivido no universo da música desde seu nascimento, Maria Tereza se torna uma virtuose do violão. A narrativa se concentra especialmente no período de estudos universitários de Maria Tereza, na Escola de Música em Belo Horizonte – quando já fazia concertos em um duo de cordas, com o namorado Arie – e no primeiro ano após a formatura.

Dos conflitos e angústias comuns aos jovens assim que deixam a faculdade, Laura Cohen dá atenção especial à questão da vocação e da escolha de um projeto de vida. Tanto Arie quanto Maria Tereza entrarão em uma crise que coloca em dúvida não só o lugar que a música ocupa em suas vidas, quanto o lugar deles próprios na relação amorosa. É nesta crise que surgirá a viagem. Tanto Maria Tereza quanto Arie são filhos de mães judias e têm a possibilidade de fazer o “birthrigth”, um programa de turismo educativo para fortalecer a identidade judaica e colocar em contato jovens judeus de todo o mundo com os israelenses.

Ao partir para Israel, em um grupo de quarenta jovens, Maria Tereza empreenderá uma viagem surpreendente e – aqui o grande mérito de Laura Cohen – o leitor irá junto.

Chama a atenção em Canção sem palavras a fluidez do texto e a forma quase matemática (como a música) em que a narrativa vai se dando. Há um ritmo de imersão  para o leitor. Nada é dado de mais ou de menos, a leitura alcança uma verossimilhança total. Laura Cohen é profunda observadora de seus personagens, flagrando suas nuances e pensamentos. Tendo escolhido contar a história na terceira pessoa, mas no tempo verbal do presente do indicativo, Laura Cohen coloca seu narrador “colado” à sua protagonista, tanto que, no fim das contas, o leitor sabe que Maria Tereza existe, que pode ter passado por ela alguma vez e até lamenta não ter ido a um concerto seu.

Outro fato notável é que aqueles que não conhecem Israel ficam com a sensação de já terem ido lá, ainda que em sonho, enquanto leem o romance de Laura Cohen. Se a melhor literatura de viagem é aquela em que o leitor sente o que sente o viajante, fica próximo de outra cultura, ganha informações que pertencem a campos distintos do conhecimento, desenha em sua imaginação o cenário proposto a ponto de parecer ter pisado nesse outro território, Laura Cohen a cumpre em Canção sem palavras.

Além do universo da viagem, o romance traz dilemas intrínsecos aos músicos e aos estudantes de música. Como se já não fosse o suficiente, o leitor curioso encontrará uma espécie de “playlist” para ouvir, já que Maria Tereza em seu percurso de estudos vai nos mostrando o nome de grandes obras e compositores.

Canção sem palavras é um romance múltiplo, com personagens completos e complexos, demasiadamente humanos, procurando seu caminho no deserto. Da crítica geopolítica à condição feminina e à consciência do mito da masculinidade, do sucesso profissional ao sentimento constante de precariedade e da perecibilidade das coisas. Sutilmente, o lugar da viagem – um país jovem numa terra inóspita, que ameaça e é ameaçado – é também metáfora: “Ela tem a impressão de que tudo é frágil e vai acabar ruindo em pedaços um dia.”

O homem sem cidade ou é um deus ou é um monstro. Ela tem a impressão de que tudo é frágil e vai acabar ruindo em pedaços um dia. O que a salva dessa impressão sedutora e quase confortável de um fim violento é a rotina. Mais do que tudo, ela ama a rotina. Há os dias bons e os dias ruins, e isso ela pode controlar. Acorda, estuda, vai ao restaurante, trabalha, sai mais cedo quando tem aula de violão ou ensaio com o quarteto, volta para casa, estuda, toma um banho, lê, dorme. Sente que está avançando muito no violão, como se algum nó de aprendizado tivesse finalmente se desfeito, e agora ela gasta todo o tempo que tem para tocar tocando, e não se refestelando nas angústias em que se envolvera no Brasil depois que Arie foi embora. O que era uma promessa de ficar melhor finalmente tinha ficado melhor, e ela se lembra da melhor parte dos seus dias, o estudo, a rotina.
Anda muito a pé e pega a bicicleta do tio Jacques e pedala por todas as partes. Gosta de ver os judeus religiosos caminhando pela rua, gosta de passar entre eles, atravessá-los como o presente atravessa o passado. Os mais moços olham, às vezes sorriem como crianças tímidas. Bochechas coradas, homens puros. O sonho de toda religião é manter todos nós como crianças para sempre, sempre puros e sem erro. Vai enrolando para entrar no curso de hebraico, mas aprende aos poucos com a tia Deborah.
– Você não sabe de nada – diz a tia enquanto mexe a panela de molho de tomate.  – Seu tio Jacques brigou com seu avô não porque ele queria ir para Israel e ele não deixava. Seu tio Jacques saiu de casa porque ele é gay. Sua mãe não te conta as coisas direito, conta? (p. 192/193)




***
Canção sem palavras
Laura Cohen Rabelo
Romance
Ed. Scriptum
2017






segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Cloro, de Alexandre Vidal Porto




Por Adriane Garcia

O romance Cloro (Cia das Letras), de Alexandre Vidal Porto é narrado em primeira pessoa pelo advogado Constantino. O narrador, já falecido, não sabe bem em que lugar da eternidade se encontra. A partir de seu estado de “morto”, Constantino procura passar a vida em “revista”. Sem as amarras morais a que as convenções da sociedade obrigam, nada mais precisa ser fingido ou ocultado, afinal, mentir só faz sentido para os vivos. É então que Constantino terá coragem de contar sobre sua homossexualidade e como se deu a sua construção de homem heterossexual e homofóbico.

Como no romance anterior de Alexandre Vidal Porto, Sérgio Y. vai à América (Prêmio Paraná de Literatura, Cia das Letras), a escrita é direta e clara, o ritmo de frases curtas cadencia a narração. A inesquecível cena que revela a razão do título do livro é de um erotismo belo, fino e sutil. O interesse do leitor em Cloro é mantido do princípio ao fim; em capítulos curtos, muito bem costurados, o autor dá, aos poucos, os eventos que explicam Constantino e sua morte obscura, misteriosa para o leitor até quase o fim do livro.

É na infância que acontece a ruptura entre o que Constantino é (ser) e o que Constantino irá se tornar (estar). Um evento secreto e traumático de viés homofóbico, cometido por seu colega de escola, Marcos Bauer, traçará a linha que Constantino definirá, aos oito anos, como divisória entre a espontaneidade da criança, que simplesmente sente, e a performance limitada, do macho adulto que finge, com medo de ser descoberto.

A partir dos oito anos, Constantino estará na vida como quem está permanentemente num palco, atuando, sem descanso, para não ser pego em flagrante. Na rota de fuga, todo o aparelhamento do homem hétero bem-sucedido, uma espécie de kit-homem-de-bem: sucesso profissional, casamento, família, aceitação social e bastante afirmação de masculinidade, com pitadas de homofobia: “Nunca hostilizei ninguém cara a cara. Não me considerava homofóbico, mas participava de piadas e levantava suspeitas condenatórias contra possíveis homossexuais. Acho que devo ter vergonha disso, você concorda?” Obviamente, o que este narrador nos traz é uma vida triste, premida pelos ditames do patriarcado, camuflada, que envolve filhos e amores não vividos. Ser infeliz é também fazer infeliz.

Um segundo evento traumático, agora na vida adulta de Constantino, causará uma reviravolta, quando ele começará a fazer um raio-X de suas relações e um princípio de mudança.

Cloro é um livro interessantíssimo e corajoso, que traz um personagem crucial para a nossa reflexão, aquele que, impedido de ser e exercer a sua sexualidade, participa de um mundo triste, de tanta violência e engano. A negação e a dor de Constantino oferecem o retrato de uma sociedade que prefere enrustir e anular, quando a vida é curta e talvez não haja tempo para ser feliz, se gastamos todas as horas com o que esperam de nós. Haverá tempo para alguma realização sexual e amorosa genuína de Constantino? O leitor torce por ele, mas o autor, assim como as vidas mal vividas, é impiedoso.


Os avós de Débora haviam sido pioneiros no Jardim Virgínia, no Guarujá, e tinham uma casa grande na esquina da avenida Atlântica com a rua do canal. Durante nosso namoro, passamos vários feriados nessa casa.
Quando isso acontecia, eu dividia quarto com o meu cunhado Sílvio, irmão único e mais velho de Débora. Esse quarto que ocupávamos – “o quarto dos rapazes” – era na verdade uma garagem convertida em dormitório adicional. Ficava separado da casa, do lado de fora, com acesso independente.
O quarto tinha dois beliches de madeira, uma cômoda e um pequeno armário perto do banheiro com azulejos azul-celeste e um chuveiro elétrico que sempre dava defeito.
Sílvio era cinco anos mais velho do que eu. Na época em que dividíamos o quarto mais frequentemente, ele começava a explorar sua vida adulta. Dirigia, bebia, saía à noite. Nem Débora nem eu ocupávamos muito de sua atenção. Ele não era rude, mas pouco falava conosco. Tinha coisas mais importantes para fazer.
Sílvio e Débora acabaram ficando muito mais próximos ao longo dos anos, sobretudo depois da doença dos pais. Já eu nunca consegui desenvolver uma relação espontânea ou íntima com o meu cunhado.
A culpa terá sido minha, porque acho que não desenvolvi relação íntima ou espontânea com ninguém. É difícil ser espontâneo quando se tem medo. Como ser íntimo quando a intimidade é o que mais apavora você?” (p. 33/34)

***
Cloro
Alexandre Vidal Porto
Cia das Letras
Romance
2018










quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Mulherzinhas, de Louisa May Alcott





Por Adriane Garcia

Terminei de ler essa belezura que é Mulherzinhas, de Louisa May Alcott, publicado pela primeira vez em 1868.

O romance retrata a vida de uma família durante a Guerra Civil Americana, quando o pai está na guerra e mãe e filhas têm que continuar a rotina, após perderem grande parte de seus bens. A solidariedade é destacada como valor comunitário essencial.

A história se centra nas quatro irmãs, Meg, Jô, Beth e Amy e conta de modo fluido e divertido o mundo de infância e adolescência que é construído à custa das dificuldades e da imaginação. Louisa May Alcott dá uma aula de construção de diálogos. Também reserva um papel importante para o vizinho Laurie, jovem solitário que encontra nas vizinhas a amizade e uma segunda família.

É interessante como cada irmã tem sua personalidade bem construída o que as torna verossímeis e reais, com destaque para Jô, uma menina de 15 anos que não quer ser uma menina nem se comportar como uma mulherzinha. Jô, que protagoniza a história, tem como melhor amigo um rapaz e quer se tornar independente e escritora, ao invés de casar-se. 

O livro foi o primeiro a tratar de uma personagem adolescente desta forma.

Mary May Alcott foi uma escritora à frente do seu tempo. Não se casou, ganhou dinheiro com literatura para sustentar sua família (tendo antes passado por diversos empregos, de governanta a lavadeira de roupas), foi abolicionista e sufragista.

Um clássico que vale a pena conhecer.


“– Meninas, não briguem – Meg repreendeu-as. – Vocês gostariam que papai ainda tivesse o dinheiro que perdeu quando éramos pequenas? – Perguntou, pois se lembrava de tempos melhores. – Meu Deus! Como seríamos felizes se não tivéssemos tantas preocupações!
– Outro dia, você disse que somos mais felizes do que os filhos dos King, que vivem brigando e se preocupando o tempo todo, a despeito do dinheiro que têm – Beth lembrou-a.
– Eu disse, Beth, e acho que somos realmente mais felizes do que eles. Embora tenhamos de trabalhar, sabemos nos divertir entre nós, somos um “bando alegre”, como diria Jô.
– Jô usa cada termo! – Comentou Amy, olhando com reprovação para a irmã estendida no tapete.
Sentando-se rapidamente  e pondo as mãos nos bolsos do vestido, Jô começou a assobiar.
– Não assobie, Jô! Isso é coisa de homem!
– É por isso que eu gosto!”


***

Mulherzinhas
Louisa May Alcott
Romance
Ed. Nova Cultural
edição de 2003



sábado, 29 de dezembro de 2018

O som das coisas se descolando, de Casé Lontra Marques





Por Adriane Garcia




Na capa de fundo verde, onde outros olhos podem ver azul, somente o título e o nome do autor. É já ali a primeira pista sobre essa leitura: sinestesia. O som das coisas se descolando exige escuta e, por isso, alude ao silêncio. Ao abrir o livro, o leitor será solicitado a ouvir, mas, também, seguirá por um caminho tátil, gustativo, olfativo, visual. É para aguçar os sentidos. A poesia de Casé Lontra Marques requer o corpo.

Ensina o filósofo Merleau Ponty que nós só sabemos que existimos porque somos um corpo no mundo e que esse corpo único e individual é nossa chave de entendimento, chave pessoal e intransferível, corpo vivido. O corpo do outro é algo, no máximo, familiar, mas é por meu corpo percebendo os outros corpos que o mundo se alonga e se amplia: “um prolongamento milagroso de suas próprias intenções, uma maneira familiar de se relacionar com o mundo”.

Porém, antes de “saber”, no sentido intelectivo, percebemos, e a percepção é nosso primeiro contato com as coisas. Antes do pensamento elaborado há a sensibilidade, um contato primário muito rejeitado na sociedade contemporânea. Sociedade que sobrevive às custas de não ser percebida, para ser apenas consumida, para ter seus danos nos corpos validados pela ciência.

Entre o chamado mundo adulto, que despreza o encantamento pueril da criança e o mundo da criança, ainda na presença do susto, alumbramento diante das coisas (corpo para sentir), existe uma ponte chamada poesia. Não à toa, Octavio Paz escolheu dois símbolos como o princípio e o fim da linguagem humana: o abraço dos corpos e a metáfora poética: “No primeiro: união da sensação e da imagem, o fragmento apreendido como cifra da totalidade e a totalidade repartida nas carícias que transformam o corpo numa fonte de correspondências instantâneas. Na segunda: fusão do som e do sentido, núpcias do inteligível e do sensível.”

A poesia de Casé Lontra Marques, em O som das coisas se descolando, situa-se nessa ponte, onde o inteligível e o sensível se encontram. Casé Lontra Marques constrói os poemas com as imagens e os elementos dos corpos, aludindo ou fazendo referências, amiúde, aos termos da biologia e contrapondo a angústia à paz na mesma correlação que contrapõe vida orgânica à vida inorgânica: “Nada que respira perdura em paz”.
Há uma fluência de veias funcionando, uma delicadeza de arrepio de poros:

“Nunca inerte, a delicadeza
(pulsando)
se faz deque: sobretudo
quando algum grão
de coragem
chega
na garganta – e aí não para,
ainda
que tampouco
se apresse.”

As palavras são escolhidas com o cuidado de quem conhece o trajeto sensorial da poesia. Aludir ao paladar enquanto o verso trai o senso comum, ao mesmo tempo que a sonoridade, dedicadamente trabalhada, chega aos ouvidos. Concomitante, uma imagem visual feita de absurdos se nos dá, mas já não é mais absurda, e nos cai perfeitamente. Algo anterior ao que valorizamos como entendimento percebe, sente:

Em hora arredia,
arar o que mais arde:
oceano
mordido pela maçã
da face.”

A atenção é constante sobre a saliva, o sangue, o fôlego, a carne, os ossos, a precariedade e a sujeição do ser ao tempo. O desejo, no que concorda com os budistas, é uma grande aflição, a fome não dorme, “sempre insone”. O poeta de O som das coisas se descolando é atento e observador, cada reação e sentimento não lhe escapam. Seus elementos vão do micro ao macro, do grão às galáxias. Casé Lontra Marques trabalha o poema curto, com o mínimo; o que quer é mesmo esse grão que interfere, à flor da pele.

Por trás da composição de seus versos, o poeta reflete a existência, dialoga com informações de vários campos do saber, da filosofia à psicologia, chega à doença como sintoma:  a azia como um aviso de que não se está vivendo corretamente; a sabedoria ancestral de que “Conhecemos com os pulmões”, esse órgão da troca inexorável com o exterior: Ar. E, tendo percorrido, nos poemas, as reflexões que se apoiam em conhecimento intelectual é como se, paradoxalmente, afirmasse: Eu não sei se é assim, eu sinto que é assim. Do nada saber conecta-se com o Mistério; não para o alívio, mas para a plenitude. A vida aparece quase que como um organismo predador e o corpo só pode ser pensado no tempo. É contra o tempo que se apresenta a linguagem:

O tempo se debate
quando conseguimos respirar
 dentro
 de uma frase.”

O som das coisas se descolando permite várias leituras, o reino de suas significações é amplo, mas sob qualquer interpretação, os versos inquietam: “o que se traga sem trauma?”. Viver é um exercício destemido, principalmente porque só funciona se há a coragem de mexer dentro do próprio corpo e não fora dele, no corpo próprio e não no corpo do outro. Da constatação de que fazemos parte não do equilíbrio, mas da “ordem arredia do caos” e que o imperativo absoluto é viver, fecundar, o desafio da compensação: linguagem, poesia, pois a linguagem é necessária, mas a fome é fluente.

Que as frases, anonimamente;
que as frases
infeccionem – uma a uma –
sem
desfalcar a fome (aquela
mais fluente que
de fato funda).”

De tudo se descola uma palavra, como se a palavra fosse a pele das coisas:

Os objetos – assim como
os substantivos
que deles se soltam – nunca
abdicam
de desobedecer.
suas arestas
os arejam (eu que aprenda
a jamais
me apaziguar).

O que seria do corpo/ sem o espanto que o expande?”, pergunta Casé Lontra Marques. Seria a diminuição do corpo, a sua inutilização, a impossibilidade de sua plenitude – e como vive sem plenitude nossa sociedade! Os poemas de O som das coisas se descolando é um convite ao contato com esse espanto e a demonstração de que a poesia é uma maneira de acessar nossa primeira forma de estar no mundo, nosso estágio de percepção, as primeiras práticas de nosso aparato psíquico-biológico. Nossa vida não é toda refletida, nem tudo que acontece acomete nosso intelecto. É a percepção que revela o mundo pela primeira vez.

A poesia quer um corpo vivo. Um corpo vivo o suficiente para se alegrar e para sofrer, para sentir e para tentar entender, também para aceitar que nada entende. Um corpo vivo o suficiente para celebrar-se e se perceber numa espécie de maldição com consciência, em carne viva, ruína se formando no tempo e caminhando para a morte (integração?), vivo o suficiente para ouvir o som das coisas se descolando.

Tragédia veloz, trajetória voraz
– inenfaticamente:
aprender a ruir é já ressuscitar.”


***
O som das coisas se descolando
Casé Lontra Marques
Poesia
Ed. Aves de água
2017