quarta-feira, 17 de agosto de 2016

O bebezinho da velhinha - Silvana de Menezes



Por Adriane Garcia


Você conhece O bebezinho da velhinha? Se não conhece, tem que conhecer. É destes livros infantis que crianças amam e adultos adoram!

Escrito e ilustrado por Silvana de Menezes, ter este livro em mãos vai lhe mostrar a total sintonia entre texto e imagem. A história? Uma linda viagem amorosa, curiosa, ao segredo da velhinha que, dia sim, dia não, ia às compras, na cidade pequena, para cuidar das necessidades de seu misterioso bebê, jamais visto. As imagens? Ah, passeio de alumbramento por ilustrações monocromáticas tão criativas, quanto bonitas e surpreendentes, ocupando páginas largas inteiras.

Dona Serafina, a velhinha de 90 anos e óculos fundo de garrafa, tinha um bebê do qual as pessoas sabiam “só por ouvir dizer”. Não bastasse, era sempre acompanhada por seu fiel cãozinho de três pernas, Melzinho.

Todo mundo estranhava, mas ninguém fazia nada.
Podia ser um delírio, coitadinha.
E estando sempre tão alegrinha por cuidar de seu nenê, fosse ele de verdade ou ficção, era justo voltá-la à razão?
De tão velhinha, dona Serafina era vista como uma criança.
Foi então consenso entre todos deixá-la em paz com seus devaneios, afinal, o bebezinho podia ser o amigo invisível dela.”

Porém um dia, cadê, Dona Serafina? Some, simplesmente não aparece mais para as compras.
É então que pessoas da comunidade passam a procurá-la. E a leitora e o leitor também.

O final é prenhe de humanidade e reflexão sobre o amor.

Recentemente fiquei sabendo que foi traduzido na China e que vai encantar também as crianças de lá. Fiquei feliz. O mundo está mais é precisando de coisa boa.

* * *

O Bebezinho da velhinha
Silvana Menezes
Editora Cortez

2014

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

História da chuva – de Carlos Henrique Schroeder




Confesso que quando soube da morte de Arthur, num primeiro momento, de mesquinhez absoluta, fiquei feliz; pois, quando os bons se vão, sobra espaço para os ratos.”

Quando a apresentação terminou, levantaram-se e abraçaram Arthur. Estavam chorando, era possível ver as lágrimas despencando. Não disseram nada, não eram bons nisso, em expressar sentimentos. Eram gente do campo, acostumados com a natureza, que tem suas regras próprias, não humanas. Acostumados a não ter com quem dividir suas angústias, pois para eles a “vida era assim, e pronto”, não adiantava externar. O psicanalista do campo é a enxada, o arado.”

Ser escritor é ser rancor.”


Uma vez um professor de teatro brincou que no meio das peças ruins pensávamos: “ainda não acabou?” e que no final das boas inquiríamos: “mas já acabou?”, independente da duração das peças.

Terminei a leitura de História da chuva com aquela vontade que sentimos lendo um bom romance, a de adiar o final. Confesso que mais para o fim economizei, queria ler de uma só vez, mas, ao mesmo tempo, queria aquelas companhias se estendendo. Estava em viagem e aproveitei para dividir em “um pouco na ida, um pouco na volta”. Quando terminei, emocionada, pois àquela altura já tinha o narrador personagem como meu conhecido, fechei o livro, mas ainda fiquei um bom tempo pensando no narrador, em Arthur, Lauro, Melissa, aquele cenário de chuvas e rios, uma melancolia lacrimosa, portanto molhada, atravessando as existências.

Partindo da morte de Arthur, importante manipulador e dramaturgo do teatro de bonecos, após encontrado seu corpo boiando nas enchentes da região do Vale do Itajaí – quando diversas cidades se encontravam debaixo d'água – Schroeder nos oferece uma trama que prende do início ao fim. A maneira como o autor escolhe nos dar esta história, misto de romance, relato jornalístico, ensaio, faz com que, mesmo sendo um livro com muitas informações, isso não atrapalhe de forma alguma a fluência do texto. Ao contrário, grande riqueza de História da chuva é também poder passear pela história do teatro de bonecos no Brasil, especificamente em Minas Gerais (onde encontramos o magistral Grupo Giramundo, de Álvaro Apocalipse, e outros) e em Santa Catarina, onde Schroeder nos leva ao GEFA – Grupo Extemporâneo de Formas Animadas.

Escritor desesperado e confesso, homônimo do autor, dono de pequena editora num país que não lê, o narrador pretende escrever sobre Arthur e o GEFA, na esperança de “emplacar um ensaio em alguma grande revista.” Suas reflexões sobre meio artístico e literário são ácidas e impiedosas, assim como tampouco poupa a si mesmo. As páginas ainda são preenchidas de humor, tragédias e reviravoltas, numa narrativa não linear, mas que se encontra perfeitamente.

De forma criativa, em História da chuva, assistimos até mesmo a uma peça de teatro, e rimos; e, quando as cortinas se fecham, ficamos chocados. Reconhecemos a angústia do narrador, andamos por regiões rurais do sul do país e frequentamos um pouco suas gentes; conhecemos o ciúme doentio de Melissa, reconhecemos a precariedade de se fazer arte no Brasil, a incerteza das relações. Por algum tempo nos esquecemos dos alagamentos externos, mergulhados nos rios que somos. Por fim, a reflexão profunda, diante das águas que nosso narrador contempla. É com ele, em silêncio, que pensamos juntos: Arthur morre afogado, mas era exímio nadador. Parece o mesmo rio, o do início e o do fim, mas é impressão. O rio, sabemos de Heráclito, ignora permanência, e nós já não somos os mesmos.

***
História da Chuva
Carlos Henrique Schroeder
Romance
Editora Record



terça-feira, 26 de julho de 2016

+ REALIDADES Q CANAIS DE TV - De Reuben da Rocha


Por Adriane Garcia

Era uma sexta, à tarde. Férias, em Recife, em excelente companhia. A física quântica atestaria minha atração às coisas boas, neste dia. Justamente assim, Tadeu Sarmento me passou um livro de sua estante: AS AVENTURAS DE CAVALOdADA em + REALIDADES Q CANAIS DE TV (editora Pitomba, 2013). E então comecei a lê-lo. Comecei a vê-lo:

a capa amarela, de ilustração criativa e bonita, o rato na imagem da TV, assustando como se fosse fora dela; a mulher em pé, em cima da TV, com um medo real do rato. Uma capa que já diz tanto. Dentro, o texto brincando com a forma, com os gêneros, de maneira que se indefine se lemos um conjunto de poemas, crônicas, minicontos. Fato é que em + realidades q canais de TV pensamos, rimos por vezes, surpreendemo-nos, iluminamo-nos com ideias; mas o que percebi ainda mais importante: somos convidados a olhar a cena urbana com outro olhar. Somos convidados a incluir a cena urbana na atividade da reflexão política e estética, durante toda a leitura. E de maneira densa, mas de maneira leve.

"aqueles q mijam no
espaço urbano ñ o fazem
p/ demarcar território (e
sem dúvida ñ o fazem p/
"depredar") mas sim indicar
às autoridades (q ñ andam a
pé) os locais + estratégicos
p/ a instalação de banheiros
públicos"

"o cheiro do mijo em becos
ruas, cantos de praça,
precipícios é a gestão
participativa dos anônimos
q os governos teimam em
ignorar"

Obviamente falar de um livro nunca é ler o livro, ainda mais quando o projeto gráfico (de Tazio Zambi) é parte tão integrante da obra. E é o que acontece neste livro de Reuben da Rocha. As ilustrações, pin ups reinventadas, mulheres de outros séculos (?), a própria diagramação, tudo compõe o livro de maneira coesa e completa.

Seu trabalho com a linguagem, utilizando-se de sinais gráficos matemáticos, de internet, de variação de caixa alta e baixa consegue estar atualizado, mas sem forçar, flui natural e chegamos a pensar que não poderia mesmo, neste livro, ser de outra forma. Criativo, lúcido e louco, mas sem aquela pretensão artificializada tão comum de quem ainda quer inventar a roda. Reuben é sincero. A sua linguagem faz parte desta sinceridade. É seu olhar que nos convida. É um excelente convite.

Em + Realidades q canais de TV, há temas como os pichadores, a maconha, os moradores de rua, os proscritos, os skatistas, a adolescência, as ruas, o modelo norte-americano de consumo, a televisão, a política, o amor, as mulheres, a arte e os artistas, a própria linguagem escrita e seus suportes.

adolescentes ñ “sentam
direito” pq entendem q ñ
são eles q devem se adaptar
(mas sim os assentos q têm
1função p/ dar conta) além
do + se é p/ ficar parado a
tarde inteira no msm lugar:
p q ñ deitados?”

A ÚNICA COISA PIOR Q 1GOVERNO
É 1GOVERNISTA. O POLÍTICO
CONSERVADOR PODERIA SE INSPIRAR
NO ARTISTA CONSERVADOR E AO
MENOS SE TORNAR INOFENSIVO.
LEGALIZE O SOL ANTES
DAS SEIS

A minha alegria tripla? 1. Conhecer o livro. 2. Ler o livro. 3. Ter que reler o livro pra escrever sobre ele.

Obrigada, Reuben.

P.S.: após a leitura desta minha impressão, Tadeu Sarmento completa: " Reuben da Rocha (o herdeiro direto mais jovem de Valêncio Xavier e Marcel Duchamp): escritor, poeta, compositor, tradutor e editor de revistas e sites de terrorismo cultural, cujo único intuito é instalar a gráfica na borracharia para dinamitar todos os signos da “alta cultura” a partir dos detritos que a civilização descarta depois que o preço os abandona (com o abraço fraterno de Walter Benjamin)."

Agora sim.



quarta-feira, 29 de junho de 2016

7 poetas hoje, no Caderno Pensar, do Jornal Estado de Minas, por Mario Alex Rosa



7 POETAS HOJE
Literatura brasileira contemporânea tem lançamentos de obras de fôlego no campo da poesia. O poeta e professor Mario Alex Rosa fez uma seleção de trabalhos escritos por mulheres
A poesia brasileira contemporânea vai bem, obrigado. Essa afirmativa assim, tão sem ajustes, pode dar a entender que tudo é sinal de qualidade. O que se pode notar hoje é que existem muitas publicações, inclusive com o crescimento de pequenas editoras. Fazer a varredura dessa enorme quantidade de livros é tarefa difícil, complexa e um tanto perigosa, pois qualquer reparo que um crítico possa fazer a um livro de um poeta contemporâneo pode condenar este a um dos círculos infernais de Dante. Ou mesmo quando cita apenas alguns, omitindo outros, como é o caso aqui, a cabeça do crítico pode ir a prêmio. No entanto, é preciso assumir riscos, pois assim, quem sabe, possamos comentar abertamente a poesia contemporânea em suas diversas manifestações.
Para começar, lembro aqui uma passagem do ótimo poeta Cacaso – um dos mais importantes pensadores de sua geração, que assim inicia uma resenha sobre a poesia da Olga Savary: “Uma atitude que se generaliza entre as mulheres poetas é evitar serem confundidas com a tradicional 'delicadeza feminina', para a qual os críticos sempre apelam quando querem reconhecer algumas peculiaridades em nomes como Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa” (revista Veja, 13.out., 1982). A propósito disso, passaremos em revista sete livros de poetas contemporâneas que publicaram obras em 2015. Adiantamos que, por limite de espaço, não há como detalhar certos procedimentos formais de cada autora. Todas as poetas têm mais de um livro editado, tendo Simone de Andrade o maior intervalo de publicação entre um livro e outro, cerca de 20 anos. Já a poeta Denise Emmer é a que mais lançou livros, mesmo porque é de outra geração. Enquanto Ana Elisa Ribeiro, Adriane Garcia, Ana Martins, Tatiana Pequeno, Leila Guenther e Simone de Andrade são todas da mesma geração. Das sete poetas, Emmer, Guenther e Ana Elisa atuam também em outros gêneros, como o romance e o conto.
Se Cacaso estava certo, é possível então sair do clichê “delicadeza feminina” e pensar a poesia das sete poetas como um lugar de autoras que escrevem independentemente dos vestígios que possam haver de delicado e feminino em cada escrito. O que importa dizer é que o poeta deve ficar alheio a esses adjetivos e deixar a palavra poética se impor como processo de transformação, tanto estético como ideológico.
Pensando assim, Aceno, infelizmente de pequena circulação, é o segundo livro de Tatiana Pequeno, uma poeta que acena para um lugar onde a linguagem de extrema depuração comove porque desola, comove porque não inibe o feminino, ainda que às vezes atue de forma hermética. A poesia de Tatiana Pequeno, ao contrário do seu sobrenome, tem na sua estrutura poemas narrativos, com versos longos entrecortados com grande habilidade no uso dos enjambements. Aceno, mesmo com seu intimismo, talvez seja o único livro das sete poetas que evoca momentos recentes dos protestos que se espalharam no Brasil nos últimos anos. Na forma de uma carta aberta (Carta para Mariana, depois dos protestos) embora íntima, temos um dos belos poemas desse livro grandioso.
Corpos em marcha, de Simone Andrade Neves, é quase a estreia da poeta mineira. Mas um começo muito promissor, pois traz uma poesia que, muito trabalhada na sua linguagem, consegue se esquivar da suposta delicadeza feminina. A sua delicadeza é conquista diária, por isso seus corpos (linguagem) se impõem numa perícia demorada na escolha de cada palavra, cada verso, e tudo isso sem perda do lirismo que, camuflado, se abre sutilmente para a descoberta do prazer, como no admirável poema Ovo. Simone de Andrade, sem dúvida, é uma das ótimas revelações na cena da nossa jovem poesia contemporânea.
Se na poeta mineira acima o delicado se esquiva, o mesmo não ocorre com a poesia da belo-horizontina Ana Martins Marques. Em seu terceiro livro (Livro das semelhanças), a poeta acentua o uso da metalinguagem, porém recoloca esse exercício numa visada amorosa, como na última parte do livro, onde o tema amoroso, um dos mais buscados pela poesia desde sempre, ganha delicadeza sem frivolidade. Ana Martins é daquelas poetas que pensa muito o que sente e, sentindo, recolhe-se para embaralhar os sentimentos. Talvez por isso a ironia seja tramada de maneira discreta, mas que está lá para dizer que o amor, às vezes, pode ficar ancorado num porto de alguma cidade, onde uma vez esquecido é lembrado. Que o digam as “cartografias”, um dos pontos fortes do livro. Portanto, as semelhanças aqui são apenas um espelho, digamos fosco, que nos adverte ser preciso desconfiar das doações.
Desconfiar é o que Ana Elisa faz no seu Xadrez. Mudando as peças do tabuleiro, a poeta não mede palavras para derrubar os reis. A sua delicadeza é dar xeque-mate com humor, mas um humor irônico, pois a aparente simplicidade da linguagem é na verdade algo sempre refletido, como no jogo que dá título à coletânea, que exige sensibilidade concentrada. Xadrez tem entre seus melhores resultados o deboche desses amores em tempo de muita mercadoria. A poeta sabe que o melhor antídoto para a poesia é a própria poesia e disso resulta um livro cuja qualidade é justamente não amenizar o sentimento amoroso. O ótimo poema Aqueles ciúmes da Playboy é uma das peças em que Ana Elisa não poupa críticas ao que poderia ser “fácil” dentro do tema do erotismo. Em Xadrez, mais uma vez a poeta mineira não joga na defensiva.
Adriane Garcia ganhou em 2013 um importante prêmio de poesia com seu livro Fábulas para adulto perder o sono. Nesse livro, a poeta brinca ironicamente com as fábulas, mas é no seu terceiro livro Só, com peixes que ela, num mergulho mais marítimo, ao modo dos escafandristas, embora ainda temático, vasculha os mundos abaixo de nós, sem esquecer a superfície. Um livro cujo feminino na sua liquidez nos faz lembrar a bela definição que o escritor americano Carl Sandburg escreveu: “A poesia é o diário de um animal marinho que vive na terra e que gostaria de voar”. Só, com peixes, em seus melhores momentos, essa máxima pode definir os caminhos que Adriane Garcia descobriu ao abrir e fechar seu livro com dois poemas que inundam de beleza essa poesia.
Saindo do círculo de Minas Gerais, Leila Guenther, nascida em Santa Catarina, é uma poeta mais vinculada à prosa. No entanto, publicou um livro cuja “delicadeza feminina” se dá justamente no equilíbrio dessaViagem a um deserto interior, título da coletânea de seus poemas. Na ótima orelha, o poeta e crítico Alcides Villaça pergunta: “Poesia feminina? Se a arte não parece ter gênero, as experiências o têm: chegam aos poemas de nossos dias vozes marcadas por um espanto de vida a um tempo estoico e dilacerado, ressurgido de incêndios, vingando um calor histórico”. Poeta que cultiva os silêncios, tem nessa escuta os melhores momentos nos poemas mais longos, nos quais podemos ouvir melhor os seus desertos interiores. Já os haicais, que ocupam uma parte do livro e que poderiam ser o lugar desses silêncios, talvez sejam mais exercícios do que propriamente novas formas de descobrir o vazio da arte do zen.
Denise Emmer, como dissemos, é a poeta mais experimentada, com uma obra vasta e que tem nesta nova reunião Poema cenário e outros silêncios um momento, digamos, sublime, com uma poética mais ao gosto elegíaco, porém sem se prender apenas à melancolia, pois a poeta bem sabe que é preciso olhar o mundo com suas durezas, como o belo Poema cenário, dedicado ao pai. Em tempo de muita euforia e pressa, a poesia de Emmer nos propõe um recolhimento para dentro de seus poemas, cuja voz baixa e grave pode recuperar um pouco da falta de delicadeza que afeta o mundo hoje.
Enfim, são apenas sete poetas, sabemos de outras, mas 2016 está aí e, quem sabe, a poesia possa ainda nos surpreender.


  (Estado de Minas, “Caderno Pensar”, 8/1/2016)

domingo, 26 de junho de 2016

Beijo, boa sorte – de Ana Elisa Ribeiro





Por Adriane Garcia


O título é uma despedida. Já nas epígrafes, um casamento e um divórcio. “Escrevo para me casar” e “por que você não para de escrever/ E passa a dizer tchau?” de Adília Lopes.

A capa, um pano branco de bolinhas vermelhas, sinaliza um vestido, uma saia, sinaliza a delicadeza e sugere alguma dor. Viro o livro, a contracapa é uma grande mancha de sangue sobre o pano do vestido. Respiro. Entro. Abro o livro.

A prosa vem entrecortada de poesia, de forma sutil, segue junto a uma frieza. Fica por conta do leitor certa compaixão pelos personagens. É um livro sobre mulheres, sobre a ótica das mulheres nas relações e de dentro delas. Ana Elisa Ribeiro tem o cinismo dos bons escritores, que dizem isso para dizer aquilo e dizem aquilo para dizer aquilo mesmo.

À fantasia de que mulheres portam-se ou portavam-se apenas passivamente num território patriarcal, Ana responde com donas de casa que colocam na balança homens, filhos e a si mesmas. Mulheres cujas escolhas só podem ser entendidas no terreno da falta delas, mas por isso mesmo, num universo reinventado onde cabe tanto o holocausto para proteger os filhos, quanto o assassinato do opressor. Sua denúncia ultrapassa os lares e vai às ruas, de dentro de um conto, do nada, de repente, Ana está denunciando a violência policial. Neste conto em que fala das prostitutas da rua Guaicurus, famosa zona de prostituição de Belo Horizonte, a autora faz isso como quem nada quer, inverte. E ao inverter, mostra-nos que a realidade é que se encontra com os valores trocados:

(…) Elas estão ali rezando, com as mãos em concha, pedindo que reabram os quartinhos em que atendem os clientes. E elas dizem que não, que não têm nada a ver com o tráfico de drogas. Quem trafica são os policiais militares. E ainda lhes arrancam parte do soldo recebido com sal na testa e cheiro de látex. E ainda xingam-nas. E ainda solicitam serviços de graça. Beijinho, beicinho, chupadinha grátis.”

Seus narradores variam, algumas vezes é o homem quem fala, e quando fala, é de sua boca que sai a confissão da violência ou da redenção que uma mulher lhe causara. Não raro, é de sua boca – como na mais dura e repetida realidade – que sai a acusação de culpa atribuída à vítima. Com recursos da melhor ironia literária, Ana Elisa Ribeiro cava os feminicídios, escancara-os, faz com que este bizarro apareça na obra de arte.

Ontem, saí do primeiro; saí do segundo; o terceiro soco pegou.”

O conto acima se chama “explicação na delegacia de ccm” e, prosseguindo, vamos notando, que onde existe opressão violenta, a violência pode mudar de lado.

A mulher idealizada de outrora é agora Maria da Purificação, a puta. A mulher insatisfeita no casamento fomenta sonhos de adultério – e realiza. A viúva dá uma festa, porque não suportava mais o marido. Outra se submete terrivelmente, e perde a vida para proteger a vida, única coisa que lhe resta, sabe-se lá para qual finalidade. A narrativa é perversa e com requintes de crueldade, mas há sutileza, muita e um humor ácido:

Desde que nos conhecemos me policio para não chamá-la pelo nome da falecida, mas não sei de onde vêm essas desgraças. A boca diz o que nem é sincero.”

Seu humor ácido, quer corroer o que é dado como natural:

Às vésperas do casamento, mandou-me um bilhete, representante máximo de sua franqueza presente e futura: não lavo, não passo, não sei cozer nem desejo aprender, não limpo, não seco, não espano. Baixei os olhos, verti uns pequenos arrependimentos antecipados e me casei.”

Neste universo, majoritariamente de histórias de quem não é feliz para sempre, sobra muito espaço para filhos infelizes, que continuarão a roda sem fim da infelicidade conjugal, do aprendizado do poder violento, do machismo, da humilhação pela subserviência e anulação de seres humanos.

Todo um universo frequentado por mulheres aparece nesta literatura, não podendo faltar a maternidade, que, obviamente, tratando-se de Ana Elisa Ribeiro, não seria decorada com o manto da Virgem Maria. A maternidade que ela nos dá, e que algumas mulheres escritoras começam – felizmente – a nos dar, é a maternidade real, cheia de cuidados difíceis, de resignações e sacrifícios, na maioria das vezes sem qualquer colaboração masculina; é a maternidade repleta de dúvidas e culpa por não se encaixar no que homens discursaram sobre a maternidade que sequer conhecem.

Creio que não seja necessário argumentar sobre a importância de livros como este no mundo que vivemos, especificamente nesta atualidade e no país em que ele foi publicado. Sabemos que nossa formação literária vem com mais lacunas do que simplesmente a dos livros que não lemos por falta de tempo. Há algo novo e complementar que esta literatura abordando o universo e o ponto de vista feminino traz. Este algo pode ser claramente reconhecido neste Beijo, boa sorte.

A literatura sempre foi o campo de se falar o que o mundo é e a melhor literatura sempre registrou o seu tempo.

No final do livro, Ana nos relata que escreveu estes contos curtos no blog A estante, entre 2001 e 2003. É. Ela mora na contemporaneidade desde sempre.

Beijo, Boa sorte
Ana Elisa Ribeiro
Editora Jovens Escribas
2015
72 páginas















domingo, 27 de março de 2016

BORDA, DE NORMA DE SOUZA LOPES – UM OUTRO NOME PARA BEIRA DO PRECIPÍCIO




    Ao invés de perguntar-me eternamente “por que nunca resenhei o livro Borda, de Norma de Souza Lopes?” eu resolvi pegá-lo novamente na estante e reler. Ingênua, eu; foi Borda quem me pegou. E o mais interessante é que à releitura ele não só sobrevive, como fica ainda melhor. Este é para mim um grande teste para os livros, pois julgo que leitores em constante exercício estão sempre, neste afim, melhorando.
    Além do prazer em si da leitura de um livro cuja poesia alcança a si, Borda emociona, suspende-nos, faz com que mudemos do ritmo em que estivermos para o seu próprio ritmo. Esta dança a que Norma nos convida, dança da vida, dança na borda do precipício, é a dança dos loucos que, a despeito de encontrarem ou não o sentido, despencam para o chão dos seus elementos de história pessoal e reordenam o mundo. Claro, fui direto ao grande Arthur Bispo do Rosário, neste parágrafo imenso que nos dá José Castello, em seu Inventário das Sombras (Record):

    “Arthur Bispo do Rosário considerava-se o salvador. O apocalipse se aproximava, e, como um Noé moderno, ele tinha que preservar os homens, os animais e os objetos do flagelo final. Bispo se julgava investido da missão de resguardar em seu reservatório, um conjunto de celas fétidas cheias de baratas no Manicômio Juliano Moreira, em Jacarepaguá, pelo menos um exemplar de cada uma das coisas existentes; aquelas que não fossem representadas nesse complexo dicionário de objetos estariam condenadas a desaparecer para sempre.”

    Não, não estou comparando, estou em festa por ter relido um livro bonito, um livro vivo, cheio de força, beleza e dor. Os objetos com que Norma de Souza Lopes reconstrói a história do mundo são as suas lembranças, sem as quais estaria condenada a desaparecer para sempre. Poesia é, então, em Borda, o exercício da memória, como neste “esmeril”:

debaixo da janela do quarto de minha mãe
uma touceira selvagem de cactos
perfura minha memória

lembrar é ato
e efeito
e afiar o corte

    Porém, não se trata simplesmente de relatos memorialistas, poemas confessionais que a ninguém interessaria a não ser seu próprio autor. Norma revela que possui o dom da alquimia de grandes poetas que temos e que souberam fazer da lembrança e do cotidiano temas de uma universalidade tão inequívoca que alcançam várias pessoas, seja pela empatia, seja pela recordação pessoal que despertam nos leitores. Com domínio, elabora versos, em sua maioria curtos, com grande síntese; seu poema, optando na maioria das vezes, pela divisão em estrofes, deixa-nos respirar, limpo e suave, na forma. Na temática, quase sempre utiliza o tom de saber dizer durezas, sua poesia tem a crueldade que só a beleza tem. E não fosse ela, Norma de Souza Lopes deixa revelar por quase todo o livro, não seria possível refazer-se diante de um mundo repleto de impossibilidades. É a poesia que Norma chama de “óculos coloridos”, como neste “a olho nu”:

nem morta volto
atrás
sem óculos coloridos

aquele passado
do chão do banheiro
da área de serviço
era esquisito

a olho nu
não há beleza
em ler
ou comer lixo

    Seu olhar vai das coisas da natureza à paisagem dura que olha da janela do quarto de sua mãe. Vai da avó índia pega no laço à cirurgia bariátrica da amiga tentando ser Barbie. Do gato que “salta em arco/sobre a asa/de mariposa/reflexo do sol// mordisca/ uma flor de serralha” à compaixão pelos que têm fome (“hiato”):

a brir
clareira
com
pa
lavra
luzir a lágrima
der
ra
ma
da
por todas as barrigas vazias do mundo

    Enfim, eu poderia ficar falando do livro por horas, e copiando aqui, com prazer, poemas e mais poemas, mas vale mesmo é ter o livro nas mãos e confirmar que é riqueza ainda maior que a que descrevo. Terminei grata por ter olhos de ver.
    Borda é essa delicadeza que os seres humanos tecem para fazer um pano qualquer ficar bonito e único. Serviço geralmente ensinado por mulheres, mas que pode ser praticado independente de gênero e é. Borda é toda vez que pegamos nossas linhas e damos um jeito de transformar a realidade em algo mais respirável. Bordas são feitas com a dor que as agulhas causam. Num momento eu disse sobre uma dança da vida. Bordas são a prova de que resistimos à morte.
    Em certo poema, Norma de Souza Lopes nos diz que perdeu a viagem na ESTAÇÃO DA POESIA PÓS-MODERNA, que

sem bilhete, /não pode embarcar/perco o trem”.

    Ô, Norma, perde não. A Estação é que perde, se te perder.


Livro: Borda
Autora: Norma de Souza Lopes
Editora Patuá
2014










terça-feira, 22 de março de 2016

Lambe-lambe, de Sérgio Fantini.




A fotografia despudorada de Sérgio Fantini ou os olhos da empatia


    Passo pela cidade, minha cidade, tão feinha Belo Horizonte por onde passo. Lá onde veste seu melhor vestido, vou vez em quando, vou para lazer. No “todo dia”, percorro o que é para ficar no escuro.
    Há livros que não mudam nada, há livros mudos. Há livros que nos mudam, verdadeiros incômodos a cutucar verdades guardadinhas. E há livros que mudam a forma como olhamos as coisas. E isso é irremediável.
    Agora não tem mais jeito, abri este livro de fotografias. Este lambe-lambe não contente em lançar seu flash de magnésio pela sua própria vida, fez o favor de publicar suas impudências. Lançou luz sobre o escuro e não parei mais de ver a mendigaria, os moradores de rua, os gatos no parque, os camelôs e sua algazarra, os favelados, os hippies vendendo suas bugigangas e expondo essas diferenças do que somos, os meus preconceitos e os meus pós-conceitos flagrados.
    Nunca mais passar pelo Parque Municipal apenas passando, agora é ver os velhos, a sua solidão, os bancos sempre ocupados e essa vontade de gritar que quero me sentar na grama porque não aguento mais esse mundo imundo. Agora é olhar para o passado e me lembrar de minha mãe empregada doméstica, tão incômoda e tão necessária na casa dos patrões. Mamãe mulata, linda, jovem, passando por cima de assédios para não perder emprego e mudando móveis de lugar na ingenuidade amável de quem pensa que está agradando.
    Minha cidade que se droga para ver, que se droga para não ver. Os carroceiros de minha infância, os cavalos que comovem todas as crianças, pois nenhuma criança jamais entendeu a violência contra os cavalos. Agora saio pensando na violência contra os carroceiros, sua vida de açoite, essa transferência de quando as metáforas estão materializadas, quando sou interrompida pela inércia calculada dos jogadores de dama da praça 7 de Setembro. Quando um grito de um pastor evangélico quer sobrepor toda identidade. Cidade louca. Eu penso: independência ou morte.
    Valei-me. Continuo o álbum e vejo: que nunca entrei numa barbearia. Sempre as olhei de fora com muita curiosidade, as suas cadeiras-máquinas-do-tempo. E este cachorro na porta, fotografado pelo lambe-lambe, eu posso jurar que já o vi.

    É pela manhã que saio todos os dias, transporte público, esses motoristas que trabalham seis viagens sem parada, que almoçam em 15 minutos, que fazem suas necessidades fisiológicas em banheiros fétidos que as empresas de ônibus não se dão ao trabalho de mandar limpar. Digo a eles bom dia porque sei que não é fácil. Muitos respondem, surpresos que alguém ainda os veja. Agora é assim.

    Saio clicando com a lente do lambe-lambe, a cidade vai mudando aos pouquinhos e ainda carregando um tanto do que foi há 117 anos. Há 300, quando ainda era um arraial, mas trazia tantos pés descalços. Ao menos o amor mudou. Eu também já achei estranho as duas meninas se beijando publicamente. Como seria uma cidade que se beijasse?
    Nas páginas entre os contos, encontrei esses 3x4, amarelando. Anônimos que se tornam especiais apenas ali, na lateral da máquina-caixote de fotografia. Estão chegando na rodoviária, vêm tentar uma nova vida nesta Belo Horizonte, acreditam na promessa deste nome. E agora, iluminada por quem não tem medo de lamber o vidro, de verificar qual lado da chapa é doce e qual é o amargo, talvez eles possam se localizar.
    Passei a andar com este livro. Vou e volto para casa. Sim, eu encontro o caminho.
A verdadeira literatura é a que nos mostra o quanto estamos perdidos.


Lambe-Lambe
Sérgio Fantini
Editora Jovens Escribas
2016