quinta-feira, 16 de junho de 2022

Estudo sobre o fim: bangue-bangue à paulista, de Paula Fábrio

 



Por Adriane Garcia




Na capa (fotografia de Adriana Moura) vemos em destaque uma criança de pele negra vestindo uma camisa da seleção brasileira. É assim que começa Estudo sobre o fim: bangue-bangue à paulista, terceira parte de uma trilogia que a escritora Paula Fábrio vem escrevendo. 

 

O título se adequa com perfeição ao livro. É estudo que parte da etimologia da palavra “bandido”, banido, exilado, para dar conta de uma pequena amostra da sociedade brasileira, espécie de sinédoque que toma as personagens que se movimentam em São Paulo e em João Pessoa como o singular que explicará o plural. É um estudo sobre o Brasil de 2018 em diante, que não pode ser entendido sem o Golpe de 2016, quando uma revanche da necropolítica se efetua e retira a presidente eleita Dilma Rousseff da presidência do país, usando para isso conchavos políticos, judiciais e midiáticos em que o discurso anticorrupção irá manipular o eleitorado. Mas não é tão simples assim. É muito mais complexo. E é isso que podemos ver na trama e nas entrelinhas da construção das personagens de Paula Fábrio neste Estudo sobre o fim

 

A partir do furto de três bicicletas em um condomínio de classe média, a autora retrata as relações pessoais e sociais. Paula Fábrio conseguiu com uma narrativa de muitas vozes, oriundas de classes sociais diversas, nos dar a ideia de uma polifonia nacional esquizofrênica, que inclui a paranoia do inimigo invisível – um comunismo brasileiro, por exemplo. É notável que a construção do texto muda o tipo de registro de linguagem a partir do mundo que está sendo narrado e que isso se opera com muita naturalidade – lemos até mesmo os comentários de internet e as mensagens de whatsapp das personagens. A leitura de Estudo sobre o fim é densa, e muito fluida. E por incrível que pareça, diante de nada menos que a tragédia nacional, há humor. É uma história envolvente.

 

A maior parte da narrativa ocorre na cidade de São Paulo, o bangue-bangue à paulista é o salve-se-quem-puder que desemboca no Brasil de hoje, mas que não é de forma alguma novidade para a parte mais injustiçada e vulnerável da população brasileira: os pobres, notadamente os pobres de pele negra. É contra os pobres que, após o Golpe de 2016, foi instituído um teto de gastos que não permite políticas públicas, é contra eles que se fez a Reforma Trabalhista, a Reforma da Previdência e as privatizações. O resultado, ao contrário do argumento usado para ludibriá-los – criar mais empregos – é a total precarização do mundo do trabalho, a uberização que vem na esteira da perda dos direitos trabalhistas, e o crescimento vertiginoso do mercado informal. Paula Fábrio nos apresenta ainda uma novidade mais cruel: a terceirização da terceirização. 

 

É assim que Magaiver e Alemoa personificam o saber popular de que o mundo é dos espertos, de que em terra de cego quem tem um olho é rei. Explorando meninos (bandidos, banidos) que precisam furtar para sobreviver, eles mantêm uma empresa de interceptação de bicicletas e celulares, tipo de negócio que explora a massa miserável dos serviços de entrega. E é o próprio Magaiver que, instigado pelo discurso com tendências de politização de Solange (Sol), começará a pensar em um movimento organizado de entregadores de aplicativos. Pontes, nome que atravessa o livro, um empresário envolto em mistério, desaparecido, que foi de camelô a ativista, de político a empresário do coco, representa para quem ouve sua história uma meritocracia que as elites insistem em dizer – a despeito dos fatos – que existe. Os pobres de Estudo sobre o fim: bangue-bangue à paulista não se identificam com os trabalhadores que são, mas com os empresários que querem ser, identificam-se com o “empreendedorismo” como se fosse possível uma sociedade constituída apenas de empresários.

 

Uma sombra do passado alcança todas as páginas deste livro. É como se ele trouxesse a nata da história pregressa do Brasil, que subjaz por trás de tudo. O que há por baixo é a ferida nacional chamada escravidão; a outra, chamada latifúndio; a outra, chamada patrimonialismo, todas elas envoltas em racismo. Não à toa, falando de sombra, aparece Marc, um homem ligado à ditadura militar, o dono de uma empresa de segurança cujo delírio é automação completa: “a tecnologia tira esse problema da frente, o problema chamado pessoas”. Marc faz cerveja artesanal e não parece mesmo gostar de pessoas, não as diferentes, nota-se pela forma como se refere a Tânia, vigia das câmeras do prédio, portadora de nanismo. 

 

Munidas de seus celulares, as personagens de Paula Fábrio nos mostram que essa facilidade tecnológica também pode ampliar a confusão. Do uso excessivo e viciante ao repasse de fakenews pelas redes sociais, o abuso do eletrônico instaura comportamentos. Há que se falar também em novos modos de leitura: a preferência pela mensagem visual, rápida, superficial – isso sobre uma população que nem adquiriu os modos de leitura convencional, concentrada, crítica e/ou literária. A passagem em que Magaiver entende uma mensagem de maneira contrária ao que ela significa ilustra bem como a tecnologia tem encontrado solo fértil para confundir, não para esclarecer, e nos lembra um episódio recente da história brasileira: durante a greve dos caminhoneiros em setembro de 2021, a mensagem de voz por whatsapp de Jair Bolsonaro enviada a eles despertou a desconfiança de ser falsa, enquanto muitos caminhoneiros, seus apoiadores, acreditaram que a mensagem de voz do comediante Marcelo Adnet, se passando pelo presidente e solicitando que dançassem a “Macarena”, era verdadeira.

 

Estudo sobre o fim não deixa dúvidas sobre o efeito coletivo das ações individuais, à medida que as personagens, aparentemente isoladas, se cruzam. Há nesses cruzamentos um outro mérito na estrutura, o ritmo de movimento, os deslocamentos que a autora nos informa nas cidades de São Paulo e João Pessoa, sinalizados nas seções em que se divide o livro: Vila Mariana-Vila Prudente/ Tambaú-Coqueirinho/ Vila Mariana-Vila Prudente-Vila Mariana. A cidade de São Paulo, assim, aparece com suas classes sociais, os lugares funcionando como organismos vivos, pois a forma como pulsa a cidade só se dá por causa das pessoas. Um país é feito de pessoas. Na outra ponta, no Nordeste, a Professora (também conhecida pelos moradores do seu prédio como a síndica sapatão), personagem que é um importante elo na narrativa, descreve a sua viagem a algumas praias de João Pessoa, em um celta vermelho dirigido por um motorista de aplicativo, e mostra – pela fala do motorista – o Brasil de 2016 chocando o ovo da serpente, prestes a trincar. Quando trincar, cinquenta e sete milhões de brasileiros elegerão um presidente de orientação fascista. São dessa professora as reflexões sobre o momento político, como se ela percebesse, mas ainda não tivesse a dimensão exata, algo como um sentimento de suspeita que já se instalava: “(...) eu voltaria a encarar o futuro com jeito de passado, mal-passado.

 

Se é a partir do furto das bicicletas que conhecemos a precariedade em que os meninos Costela, Conexão e Sócrates se encontram, é a partir da reunião no condomínio de classe média que constatamos o nível de intolerância e ódio de classe em patamares extraordinários – tudo está por um fio – a vida do outro não tem mais valor. É ali que vai se manifestar o reacionarismo diante de grupos que exigem ser tratados com respeito e por isso exigem novas palavras. A exigência do “politicamente correto” causa revolta porque além do desejo de matar os diferentes (leia-se aqui população de mulheres, indígenas, negros, LGBTQI+, portadores de necessidades especiais), desejo que ao longo da história brasileira foi e é tantas vezes saciado, há a prática de destruir os diferentes com as palavras, de humilhá-los – e esses outros, os diferentes, devem suportar as palavras daqueles que se entendem como superiores, frequentadores do mundo dos iguais. Para os pretensos superiores, diferente é sinônimo de inferior. É assim que, na reunião, a voz narrativa nos deixa ouvir em alto e bom som este pensamento: “Ah, quando pudessem voltar a dizer certas coisas. Anseiam por se juntar aos radicais, àqueles menos contidos, mas eles ainda têm vergonha.” 

 

Com uma participação reduzida, apenas 5% dos moradores, a reunião mostra o tamanho da cultura participativa – a apatia política e a desvalorização da vida comunitária. Já a vida online, conta com o entusiasmo de cidadãos ativos em rede, além de um exército de robôs que não cessa. Um momento de clareza sobre o avanço de uma cultura fascista se apresenta nas páginas em que a autora utiliza comentários de internet em notícias como a da “Invasão do Capitólio, nos EUA”.

 

Há uma organicidade muito grande em Estudo sobre o fim: bangue-bangue à paulista. Como um oroboro, o fim se une ao começo e o começo ao fim. Em qualquer ordem, podemos voltar ao motorista de aplicativo manifestando seu desprezo pelos pobres, pelos nativos e seu deslumbre diante do explorador; sua aversão ao Partido dos Trabalhadores, as frases diretas que ele profere, entregando sua visão de mundo: “O certo é que ninguém pode tomar o espaço de ninguém. Rico é rico e pobre é pobre. E bandido é bandido. Também não é correto tomar dinheiro do pobre, trabalhador, ambulante que ganha pouco, embora ambulante também seja bandido (...).

 

Nesta ordem social em que a palavra bandido se amplia para nominar os excluídos, não poderia faltar o papel das igrejas, especialmente as neopentecostais, que sabem tão bem explorar, assim como Alemoa e Magaiver, a miséria ao seu redor dando desculpas de nobreza. Alemoa e Magaiver são a única salvação econômica de muita gente. “Vinte reais por bike”. As igrejas exploram oferecendo salvação espiritual. A diferença é que Magaiver e Alemoa, pelo menos, entregam o que prometem. Sem justiça social de distribuição de renda e sem políticas públicas eficientes e humanitárias de saúde mental as igrejas proliferam. A “novilíngua” do clássico 1984, de George Orwell, se apresenta nitidamente no nome da igreja evangélica em uma ocupação popular para moradia: Igreja do Brasil do Futuro. Denominação que subentende o sonho de uma teocracia e lembra o sloganUma ponte para o futuro” do governo de Michel Temer, feito de retrocessos. Em Estudo sobre o fim, Zé Eulálio estuda para ser pastor, lê as apostilas do pastor Deoclécio e vê na criação de uma filial grande oportunidade. Também é esperto o suficiente para saber que igreja no Brasil é um negócio concorrido; assim, busca, na sua performance, aprender técnicas do jornalismo policial mais baixo que existe, protagonizado por datenas e afins. O diabo será mais uma vez deslocado para as religiões de matriz africana. 

 

Na caracterização complexa das personagens de Paula Fábrio, as línguas são diferentes. O bangue-bangue se dá numa espécie de Babel. Talvez por isso Magaiver e Sol não possam se entender, mesmo tentando. Nos encontros com a Professora, Sol nos mostra que as ideias podem ser contaminadas umas pelas outras. Sol é mesmo essa pequena e rara luz se insinuando em alguma fresta, misturando ideias de cooperativismo com o sonho de fazer parte de um grupo funk. De alguma forma, essa personagem representa o poder das palavras. Ela é uma contadora de história e sabe: “Muitas vezes, ao contar uma história para o Magaiver, ao ouvir sua própria voz, Sol parece entender o real sentido daquilo que está narrando”.

 

Estudo sobre o fim: bangue-bangue à paulista é um livro que destaca as decisões que acontecem dentro do Edifício Iracema (sim, o da virgem dos lábios de mel que morre de saudades de seu colonizador – afinal não foi a indígena que contou essa história); um pequeno país que retrata o grande, este que agoniza socialmente. É o estudo sobre o fim da consciência de classe, o fim dos sonhos coletivos, o fim da capacidade de se integrar como categoria trabalhadora e lutar por ela. É também uma pequena galeria de pessoas que podemos encontrar por aí todo dia, cada vez mais.

Muitas dessas personagens de Paula Fábrio nos surpreendem por alguma característica que não combina com a noção que fazemos delas, são humanas, demasiadamente humanas e, portanto, possuem suas incoerências, para o bem e para o mal, algozes e vítimas que se misturam dentro de si. Em algumas, como Marc, podemos encontrar o que chamamos correntemente de “um combo”: machista, fascista, homofóbico, racista, capacitista. Eles existem e já não se escondem. 

 

No prefácio do cientista político Jairo Nicolau ao livro Como as democracias morrem, de Levitsky e Ziblatt, ele nos alerta que a “tolerância mútua é reconhecer que os rivais, caso joguem pelas regras institucionais, têm o mesmo direito de existir, competir pelo poder e governar. A reserva institucional significa evitar as ações que, embora respeitem a letra da lei, violam claramente seu espírito. Portanto, para além do texto da Constituição, uma democracia necessitaria de líderes que conheçam e respeitem as regras informais.” No Brasil atual, do qual Estudo sobre o fim fala, a democracia está completamente abalada. Não só a tolerância institucional foi rompida com a prisão do principal candidato à Presidência da República, Luís Inácio Lula da Silva, utilizando o recurso abominável do “lawfare”, executado por um Juiz de Direito chamado Sérgio Moro – em conluio com membros do Ministério Público como a reserva institucional foi rompida a partir da utilização do recurso de impeachment para efetuar um golpe. Porém, algo concomitante a esses processos acontece com os indivíduos de uma democracia em erosão. É esse algo que a autora de forma literária e tão bem articulada consegue apontar. Aquela pergunta “como foi que chegamos aqui” é o que ela responde.

 

Paula Fábrio nos entrega um livro que faz rir e chorar de nossas mazelas, que dialoga o tempo todo com a realidade e nosso tempo; leva-nos até o ponto mais alto da tensão deste triste fenômeno que jura de morte a democracia brasileira: a violência estatal, social, econômica e política voltada principalmente para nossos mais vulneráveis banidos: a criança de pele negra.




A mulher acaba de sair do prédio. É professora. Tem certa idade. Não carrega nenhuma bolsa consigo, a não ser a dos olhos. 

Na rua, ainda há respingos d’água nos galhos das árvores e na fiação elétrica. Mesmo assim, a mulher leva o guarda-chuva aberto sobre a cabeça. O guarda-chuva a impede de cruzar o olhar com o do menino, e isso pode ser um lance de sorte para ambos. No entanto, ela lê os dizeres em sua camiseta: “Jesus tem planos para você.” (p. 11)

 

*** 

 

Estudo sobre o fim: bangue-bangue à paulista

Paula Fábrio 

Romance

Reformatório

2022

 

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Ao pó, de Morgana Kretzmann


 


Por Adriane Garcia

 

Em 1932, no Congresso Internacional de Psicanálise em Wiesbaden, na Alemanha, por ocasião do septuagésimo quinto aniversário de Freud, Sándor Ferenczi levou a púlpito um assunto espinhoso, do qual a sociedade jamais gostara de falar a respeito, sequer de mencionar: o abuso sexual infantil cometido por familiares adultos. O trauma (fator externo) como causa de transtornos mentais, que fora deixado em segundo plano por Freud, ao abandonar a sua “teoria da sedução” (a Psicanálise sofria severos ataques que se agravariam ao afirmar a existência de uma sexualidade infantil), retornava assim com todas as letras em Ferenczi, que as publicaria no ensaio “Confusão de línguas entre o adulto e a criança”: “Pude, inicialmente, confirmar a hipótese já anunciada de nunca se insistir o bastante na importância do traumatismo sexual como fator patógeno. Até crianças de famílias honoráveis e de tradição puritana são, mais frequentemente do que se ousava pensar, vítimas de violências e violações. São ou os próprios pais que buscam um substituto para suas insatisfações, dessa forma patológica, ou pessoas de confiança, membros da mesma família (tios, tias, avós), preceptores ou o pessoal doméstico que abusam da ignorância e da inocência das crianças.

 

Com isso, Ferenczi estava dizendo que a doença de suas (e seus) pacientes não estava relacionada apenas a fantasias edipianas, mas a fatos, com toda a sua carga de violência física e/ou psíquica: “A objeção que se faz, vendo-se nisto fantasmas da própria criança, isto é, mentiras histéricas, perde infelizmente sua força, em consequência do considerável número de pacientes em análise, que confessa ações desse tipo em crianças.

 

O livro de Morgana Kretzmann, Ao pó, traz-nos não só a trajetória de uma mulher abusada sexualmente na infância, como uma construção primorosa de personagem. A narradora e protagonista é a jovem atriz Sofia, que foi morar no Rio de Janeiro para deixar para trás tudo o que representava sua cidade natal, Tenente Portela, no interior do Rio Grande do Sul. O  ponto de partida para entender a trama é a infância da narradora e de sua irmã, Aline. Na primeira cena, uma festa de aniversário, elas estão com quinze e onze anos. Sabemos da gravidade do que acontece, pois é preciso que Sofia dê um “banho do esquecimento” em Aline. Mas ao contrário do que pensa o senso comum, a criança não esquece nada.

 

Com uma narrativa não-linear, a história vai nos dando, aos poucos, um quadro panorâmico da família de Sofia. É a família tradicional exposta na sua nudez, a família que, não raro, usa suas crianças para fins sexuais, em uma relação de poder, já que a criança é o elo mais fraco e portanto mais fácil de ser subjugado e confundido. A trama nos coloca em contato não só com o abusador mais evidente, mas com outros abusadores, homens e mulheres, também com os silêncios e omissões acerca daquilo que “é melhor não ver”. Mas  nada disso acontece sem gravíssimos danos.

 

Adulta, Sofia foge, mas não pode fugir de si mesma. Morgana Kretzmann nos mostra, habilmente, os sinais de permanência do trauma. Sofia não só é incapaz de proteger a sua própria vontade - sequer reconhecê-la - como se aproxima de relacionamentos cuja potência em feri-la ou levá-la à repetição do trauma é enorme. A autora é muito sutil em dar esses sinais quando, por exemplo, ao narrar a cena em que Sofia  conhece o dramaturgo famoso com quem terá uma relação conturbada, a personagem olha, mas não vê:  Ele acendeu e me devolveu o cigarro quebrado” ou “... um homem que me olhava como se entrasse dentro dos meus olhos e fosse até o centro da minha alma”. Ao se dizer fugindo de tudo o que é invasivo, é justamente ao encontro do invasivo que a personagem caminha: “Já estávamos saindo juntos há tempo suficiente para eu entender que Carlos não tinha intenção em assumir uma relação de verdade comigo” Ainda assim, diante dessa conclusão, ela insiste: “Não me contive, acabei ligando”.

 

Conscientemente, não há o que Sofia não saiba a respeito dos homens com quem se relaciona, que o que podem lhe oferecer é uma “caixa de sonhos”, com pesadelos dentro. O livro, inclusive, é permeado de momentos oníricos que se entrelaçam com a linguagem realista tão condizente com o tema. A narradora é uma mulher despedaçada, com autoestima baixa, apresentando descrédito sobre si, culpabilização e um mau encaminhamento de suas pulsões sádico-masoquistas: “Aperto a corrente um pouco. Ela geme mais.” Há perdão para quem pensa em se salvar, deixando a irmã sob o poder de um abusador? Porém, mais profundo ainda é pensar que para a criança, aquele que abusa pode ser também aquele que a ama e, deixando de abusar dela e passando a abusar de outra, joga também as vítimas em um conflito fraterno.

 

Em pleno adoecimento, bebendo para anestesiar o que não cessa de falar (o silêncio) e deixando o protagonismo da própria vida ser vivido por outro - no caso homens simulacros do abusador - Sofia entra numa espiral de depressão: “Parecia que eu estava em segundo plano, mas não era verdade, já que não havia nenhum plano para mim . Não via nenhum interesse em mim. Não havia nada de interessante numa pessoa como eu. Eu, uma personagem fraca, sem quereres, sem ambição, sem raiva, sem paixão, sem coragem.” É um eterno retorno do trauma que vai se agravando em Ao pó, até o ponto em que a personagem resolve romper sua relação de culpa e vergonha com o passado e encarar seus algozes. É justamente no momento perigoso em que Sofia tem o abusador já introjetado em si e, portanto, destruindo-se para matar o abusador, que um grande amor revela-se como clareira. Um amor chamado amizade, amor desinteressado, que não requer a protagonista sexualmente e será o seu apoio.

Ao pó é um livro importante, que nos propicia estar “colados” ao drama de sua protagonista e - por extensão - ao drama das crianças abusadas. Voltando a Ferenczi, ele nos fala que diante do abuso sexual a primeira coisa que a criança faria seria a recusa, um “não quero, isso me machuca”. Todavia, essa reação é inibida por um medo intenso. A força de um adulto é esmagadora para uma criança, ela ainda não tem meios para reagir de igual para igual. Assim, se submetem à força do agressor. “Mas este medo, quando atinge seu ponto culminante, obriga-as automaticamente a se submeter à vontade do agressor, a adivinhar o menor dos seus desejos, a obedecer esquecendo-se completamente de si, e a se identificar completamente com o agressor (...) Ela ao mesmo tempo é inocente e culpada, e sua confiança no testemunho de seus próprios sentidos está quebrada”.

Morgana Kretzmann conseguiu traduzir essa complexidade em um romance cuja linguagem é fluida, arte democrática (no sentido de que ela não escreve apenas para escritores), direta e capaz de emocionar. De um tema tão necessário ao debate público não se poderia desejar outra coisa. Leiam esse livro.

 

***

Ao pó

Morgana Kretzmann

Romance

Patuá

2020


quarta-feira, 30 de março de 2022

MÁQUINA, DE ELEAZAR VENANCIO CARRIAS


 


Por Adriane Garcia

 

 

Termino a leitura deste livro e conto o que dele em mim reverbera. Talvez seja aquilo que em você também coincida – ou não – já que a leitura da obra de arte é um exercício da autonomia e da subjetividade única que nos constituem, a cada uma (um) de nós. É nesse sentido que a obra de arte colabora para a consciência do ser/estar no mundo, da cidadania, uma vez que no contato de uma pessoa com o conteúdo artístico a autoria não se impõe autoritária, mas transita entre quem cria e quem cocria. A minha leitura está inevitavelmente tomada pelo meu mundo que encontra o mundo do poeta. A leitura aproxima, no mínimo, dois mundos. Não saímos ilesos do trânsito.

 

Sempre me intrigou a máquina do mundo e quando descobri que eu fazia parte das engrenagens, que nada escolhi, que quando nasci tudo já estava pronto sem minha permissão, confesso que foi dos meus primeiros estarrecimentos. Agora me deparo com Máquina, de Eleazar Venancio Carrias, que contém uma máquina para ser imaginada, ao mesmo tempo que descrita como é. Cá estou no paradoxo que me leva a questões ontológicas. Como um Hamlet existencialista, o poeta indaga: ser ou existir? Ser peça de uma máquina fatal, peça inominada, ou reivindicar um nome? O desejo ancestral na encruzilhada, o antes do “mal-estar da civilização”, encontro de vida e morte com a vida.

 

Concordo com as perguntas do poeta, para algumas tenho mais respostas do que coragem, mas a poesia não está nem aí para o nosso conforto, a poesia incomoda. Fazer parte da máquina ou boicotar a máquina? Viver como um protesto: “Não quero construir nada. / Talvez uma letra de música / da mais vagabunda / para tocar na estrada”. Também quero aceitar a construção apenas como um construir-me, quero me construir desconstruindo, mas a máquina deseja apenas que eu repita gestos e modos que não coloquem em pane seu funcionamento. Enxerga o mundo? O vizinho “que ainda liga o rádio” questiona, mas não deixa de nos contar as imagens de amor que encontrou na estrada.

 

Reverbera em mim este assunto que a literatura tem trazido, rompendo o silêncio no ampliar das vozes: o abuso sexual infantil, pois é preciso dar nomes às coisas, o nome certo. É preciso também abandonar a pressa de se rotular. A poesia nos pega pela mão, no meio da beleza, e nos diz que rótulos podem definir quem mata e quem morre, o opressor e o oprimido: “Se nosso irmão não se chamasse Caim, / teríamos Abel conosco esta noite. / O pai nunca se perdoou por ter/ escolhido o nome errado”. É denúncia e vontade de parar esta máquina, de emperrá-la dizendo do amor e da liberdade que a enfrentam. Ela mesma – a máquina – sabe que poetas não podem habitar a República.

 

Terminei esta leitura pensando na poesia que observa o mundo, feito as gentes da terra que plantam, olham a lua, conhecem suas fases, retornam a uma ancestralidade que soube viver em outro tempo, mas que também questiona. Quero alguma asa para meu pássaro interior, quero os conselhos de O velho pai, quero estar atenta mesmo não dizendo a palavra câncer e gozar livre da máquina. E se eu tiver alguma inveja, que seja a mesma de Eleazar Venancio Carrias. Quero ter inveja da lucidez de Eugênio Montale, o poeta genovês que planejou seu Diário póstumo para depois de si. Quero ter inveja de alguém que acreditou na morte e trapaceou com ela. Por isso, cito os versos de Montale:

 

A cada dia, uma revolução

nas estações, nos povos, nas ideias.

Todas as decisões são transferidas sine die.

Nada mais é estável, a não ser alguma canção

repetida sob todas as bandeiras.

O que se vai salvar, deste aguaceiro,

não se sabe. Talvez depois de tanto estrago

até mesmo a palavra acabará no brejo.

Resta-nos apenas a esperança de que algum

anacoreta destile resinas douradas

dos troncos emurchecidos do saber”. *

 

***

Máquina

Eleazar Venancio Carrias

Poesia

Editora Urutau

2021

 

* MONTALE, E. Diário Póstumo. Tradução I. Barroso. Rio de Janeiro: Record, 2000

Texto originalmente publicado como posfácio. 

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Um vídeopoema de Estive no fim do mundo e me lembrei de você

https://www.youtube.com/watch?v=QLp06R8O9SU


ANTROPOCENO

 

Está parecendo que eu odeio a humanidade

Desde que vi as morsas caindo de montanhas

Em que nunca deveriam ter subido

As morsas quicando

Uma, duas, três vezes e caindo estateladas

No meio da multidão de morsas

 

Na costa da Rússia, eu que nunca estive lá

Chorei como quem passava a amar somente os bichos

E as plantas que cultivo no meu apartamento

Sob um pedacinho de sol

Que os arquitetos deixaram por compaixão

Ou por esquecimento

 

Soube então que faltavam geleiras às morsas

E que elas agora se viravam nas pedras

Amontoadas, que algumas subiam as montanhas e

O resultado já disse

Elas caem e fica parecendo que eu

Odeio a humanidade

 

Como se eu não soubesse que gente

Também é bicho

Como se eu não entendesse que é preciso amar

A minha própria espécie

Fica parecendo que eu não compreendo

Que nós caímos quando a morsa cai.

.


Estive no fim do mundo e me lembrei de você

Adriane Garcia

Poesia

Coleção Biblioteca Madrinha Lua

Ed. Peirópolis

2021


Vídeo de Amanda Ribeiro



sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Lança chamas, de Regina Azevedo

 


 

Por Adriane Garcia

 

 

Lança chamas, de Regina Azevedo, começa a nos chamar pela capa, no bonito projeto gráfico de Gabriela Araujo. É lá na página 65 que a cor roxa não nos passa desapercebida: “carregar um roxo/ na pele”. Cor de hematoma, caminhando para o lilás, um espectro que irá da dor para a alegria, fazendo desta uma arma para resistir. Integrante da coleção Biblioteca Madrinha Lua, editora Peirópolis, o livro de Regina Azevedo possui quatro partes: Capim, Mar aberto, Multidão e A poeta. Chama a atenção a pouca idade da autora – nesta data com 22 anos – e a seriedade com que trabalha sua poesia desde a adolescência. Neste sentido, faz-se muito coerente a escolha de um livro de Regina Azevedo para uma coleção cuja homenageada, a poeta Henriqueta Lisboa, via na poesia não somente um fazer artístico, mas uma profissão de fé. Regina Azevedo é também uma militante pela poesia entre jovens de sua cidade.

 

Lança chamas, sem o hífen, aproveita-se de mais sentidos. É tanto o substantivo lança-chamas quanto um imperativo, um convite. É também uma constatação sobre o sujeito que lança chamas, no caso, a poeta: “porque não se responde/ um revólver// escrevo como quem lança chamas”. Fogo implícito, esse objeto poético por excelência, que quase nunca falta nas reflexões sobre memória – pois é símbolo para o avivar das lembranças e para o esquecimento – perpassa a poesia de Lança chamas para reviver a infância, a família, os avós, os tios, o letramento e a alfabetização, para iluminar o amor – que é chama – e a política, que tantas vezes gostaríamos de destruir para construir uma outra, que nos permitisse mais que um mundo cinza. Lança chamas é também o fogo da juventude a que Regina Azevedo nos convida; convite que só poderia ser feito por um eu poético que se declara jovem, pois a juventude conserva o motor das rebeliões e a sua indignação é a nossa.

 

Com versos na maioria das vezes curtos, livres, usando o mínimo de pontuação e sem as letras maiúsculas, Regina Azevedo constrói uma poesia limpa e objetiva, sem qualquer intenção de ornamento, fiel à proposta temática dos poemas. É exatamente por isso que pode nos surpreender com um verso que parece ter saído, de repente, de uma associação livre. É justamente por saber dosar as figuras de linguagem, que Regina Azevedo consegue dar “rasteiras” em quem está lendo. E é bom cair nas armadilhas que transformam por exemplo “um homem de gravata” em “um homem de bravata”. É bom ler um livro que faz a dura e necessária crítica sociopolítica, que denuncia o machismo e os males do patriarcado. E é bom que este mesmo livro contemple o que é íntimo em nós: a passagem do tempo, a beleza do cotidiano, o sexo, os nossos desejos e perdas, evocando também a vitalidade, a leveza.

 

 

brasil 2018

 

jamais esquecer

de beijar a sua boca

antes de sair de casa

porque isso aqui é brasil, 2018,

e os cidadãos de bem

arma em punho, bandeira aberta

nos querem mudos,

amordaçados

escorraçados do país

a arma da família

mira no próprio sangue

a gente nunca sabe

se vai voltar a se ver

não dá pra saber

quem será o próximo

moa, marielle,

eu ou você

no brasil de 2018,

lutar e beijar

jamais esquecer

 

 

festejo ao fogo

 

só por um segundo

sob teu peito

 

o farfalhar do outono

e o que você fazia

em festejo ao fogo

 

a ponta dos dedos

ao relento

 

traquejo singular da labareda

 

misto de calmaria e lampejo

numa dança descabelada

 

a língua pronta para o surgimento

da manhã

 

o espírito de cavalo colorido

no ato de trocar os óculos com você

e te olhar de baixo

 

o minério que dorme na pele

o desafio que doma o segundo

a ginga que derrete as ondas

 

cheiro tônico diante do espelho

 

o rugido e o anúncio

do tropeço no ritual:

 

um orgasmo estupendo

anestesia contra as bombas

de efeito moral

     

***
Lança chamas

Regina Azevedo

Poesia

Ed. Peirópolis

2021

 

Jenipará, de Graziela Brum


 


Por Adriane Garcia

 

 

 

Jenipará, romance de Graziela Brum, traz como cenário a floresta amazônica e conta a história de fundação de uma cidade fictícia, cujo nome dá título ao livro. Para o vilarejo, que mais tarde será a cidade de Jenipará, confluem habitantes expulsos de outras localidades da floresta, seja pelo desmatamento, pelo confronto direto com posseiros e políticos corruptos, pelas queimadas, pela implantação da pecuária, que destrói as economias locais, ou pela miséria. Situada à beira de um rio chamado Jarurema, até chegarmos em Jenipará, acompanharemos personagens cujas vozes compõem um retrato da dura realidade vivida pelos povos da floresta, cada vez mais acossados e violentados pelas forças do capital, o que inclui o assassinato de lideranças e comunidades inteiras.

 

De início, Graziela Brum nos apresenta Joane, a ribeirinha, empregada doméstica da casa dos Lima, grávida de nove meses em seu caminho por dentro da mata, a fim de chegar em casa. Joane leva o amor por Zé Bidela e os ensinamentos de tia Dulcineia, a parteira. Acompanhando Joane, conhecemos Zé Bidela e a história de sua família no seringal Baldaceiro, uma história de resistência e de fuga, pois as forças contrárias à floresta parecem não ter fim. É assim, entre os seringueiros de produção sustentável e tribos indígenas, entre mulheres que conservam os saberes da terra e da manutenção de suas comunidades, que a leitura de Jenipará nos revela também os grandes depósitos de máquinas e motosserras, enquanto ouvimos a rádio local tocando o carimbó e um passarinho perdido, desorientado pela fumaça ininterrupta.

 

Jenipará utiliza várias vozes narrativas, dando dinamismo à leitura. Na fumaça que queima a floresta, por vezes sentimos uma claustrofobia, sabemos que a floresta não está queimando somente de forma fictícia. São momentos de morte que a autora salva com momentos de vida. Instantes em que habilmente nos sintoniza com a rádio Tapajós 81 FM e nos faz ouvir a deliciosa Dona Onete e encontrar poetas contemporâneas como Katia Marchese, Yara Darin, Rosana Banharoli e Wanda Monteiro. Com um equilíbrio entre a contundência realista e o lirismo que abarca mitos, peixes, pedras, árvores, comidas, hábitos, aves, Graziela Brum nos entrega um romance comovente, ao mesmo tempo em que faz denúncia política. Quando terminei a leitura, fui pesquisar sobre um dos narradores, o passarinho capitão do mato. Ouvi emocionada o seu canto cricrió... cricrió... cricrió...

 

Estranho ver o pai assim. Meu irmão Chico quis chamá-lo para pescar no rio, mas a mãe não deixou. Mandou ele pegar o prato de boia e comer quieto no canto da cozinha. Que deixasse o pai em paz. Chico começou a chorar, era muito jovem ainda, não conseguia entender o que o pai pretendia. Na verdade, nem a mãe, nem eu sabíamos o que se passava com ele. A gente imaginava que era coisa de decisão, que ele buscava resposta nos espíritos da mata. Quem sabe o pai tivesse enlouquecido, era difícil de acreditar. Ele era o líder do povoado, sabia sempre o que fazer, aconselhava a plantar no roçado, a quebrar as castanhas nas pedras para não faltar o que comer na temporada de chuvas. Sempre teve ideia. Quando a noite se aprochegou, o pai voltou para casa. Ainda calado, tomou um banho, se arrumou e depois sentou ao redor da mesa para o jantar. Comeu com fartura, enquanto a gente em silêncio esperava uma palavra dele. Então o pai nos disse:

— “É preciso a guerra, o Padre que perdoe a gente.”

 

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Jenipará

Graziela Brum

Romance

Ed. Reformatório

2019