domingo, 27 de março de 2016

BORDA, DE NORMA DE SOUZA LOPES – UM OUTRO NOME PARA BEIRA DO PRECIPÍCIO




    Ao invés de perguntar-me eternamente “por que nunca resenhei o livro Borda, de Norma de Souza Lopes?” eu resolvi pegá-lo novamente na estante e reler. Ingênua, eu; foi Borda quem me pegou. E o mais interessante é que à releitura ele não só sobrevive, como fica ainda melhor. Este é para mim um grande teste para os livros, pois julgo que leitores em constante exercício estão sempre, neste afim, melhorando.
    Além do prazer em si da leitura de um livro cuja poesia alcança a si, Borda emociona, suspende-nos, faz com que mudemos do ritmo em que estivermos para o seu próprio ritmo. Esta dança a que Norma nos convida, dança da vida, dança na borda do precipício, é a dança dos loucos que, a despeito de encontrarem ou não o sentido, despencam para o chão dos seus elementos de história pessoal e reordenam o mundo. Claro, fui direto ao grande Arthur Bispo do Rosário, neste parágrafo imenso que nos dá José Castello, em seu Inventário das Sombras (Record):

    “Arthur Bispo do Rosário considerava-se o salvador. O apocalipse se aproximava, e, como um Noé moderno, ele tinha que preservar os homens, os animais e os objetos do flagelo final. Bispo se julgava investido da missão de resguardar em seu reservatório, um conjunto de celas fétidas cheias de baratas no Manicômio Juliano Moreira, em Jacarepaguá, pelo menos um exemplar de cada uma das coisas existentes; aquelas que não fossem representadas nesse complexo dicionário de objetos estariam condenadas a desaparecer para sempre.”

    Não, não estou comparando, estou em festa por ter relido um livro bonito, um livro vivo, cheio de força, beleza e dor. Os objetos com que Norma de Souza Lopes reconstrói a história do mundo são as suas lembranças, sem as quais estaria condenada a desaparecer para sempre. Poesia é, então, em Borda, o exercício da memória, como neste “esmeril”:

debaixo da janela do quarto de minha mãe
uma touceira selvagem de cactos
perfura minha memória

lembrar é ato
e efeito
e afiar o corte

    Porém, não se trata simplesmente de relatos memorialistas, poemas confessionais que a ninguém interessaria a não ser seu próprio autor. Norma revela que possui o dom da alquimia de grandes poetas que temos e que souberam fazer da lembrança e do cotidiano temas de uma universalidade tão inequívoca que alcançam várias pessoas, seja pela empatia, seja pela recordação pessoal que despertam nos leitores. Com domínio, elabora versos, em sua maioria curtos, com grande síntese; seu poema, optando na maioria das vezes, pela divisão em estrofes, deixa-nos respirar, limpo e suave, na forma. Na temática, quase sempre utiliza o tom de saber dizer durezas, sua poesia tem a crueldade que só a beleza tem. E não fosse ela, Norma de Souza Lopes deixa revelar por quase todo o livro, não seria possível refazer-se diante de um mundo repleto de impossibilidades. É a poesia que Norma chama de “óculos coloridos”, como neste “a olho nu”:

nem morta volto
atrás
sem óculos coloridos

aquele passado
do chão do banheiro
da área de serviço
era esquisito

a olho nu
não há beleza
em ler
ou comer lixo

    Seu olhar vai das coisas da natureza à paisagem dura que olha da janela do quarto de sua mãe. Vai da avó índia pega no laço à cirurgia bariátrica da amiga tentando ser Barbie. Do gato que “salta em arco/sobre a asa/de mariposa/reflexo do sol// mordisca/ uma flor de serralha” à compaixão pelos que têm fome (“hiato”):

a brir
clareira
com
pa
lavra
luzir a lágrima
der
ra
ma
da
por todas as barrigas vazias do mundo

    Enfim, eu poderia ficar falando do livro por horas, e copiando aqui, com prazer, poemas e mais poemas, mas vale mesmo é ter o livro nas mãos e confirmar que é riqueza ainda maior que a que descrevo. Terminei grata por ter olhos de ver.
    Borda é essa delicadeza que os seres humanos tecem para fazer um pano qualquer ficar bonito e único. Serviço geralmente ensinado por mulheres, mas que pode ser praticado independente de gênero e é. Borda é toda vez que pegamos nossas linhas e damos um jeito de transformar a realidade em algo mais respirável. Bordas são feitas com a dor que as agulhas causam. Num momento eu disse sobre uma dança da vida. Bordas são a prova de que resistimos à morte.
    Em certo poema, Norma de Souza Lopes nos diz que perdeu a viagem na ESTAÇÃO DA POESIA PÓS-MODERNA, que

sem bilhete, /não pode embarcar/perco o trem”.

    Ô, Norma, perde não. A Estação é que perde, se te perder.


Livro: Borda
Autora: Norma de Souza Lopes
Editora Patuá
2014










terça-feira, 22 de março de 2016

Lambe-lambe, de Sérgio Fantini.




A fotografia despudorada de Sérgio Fantini ou os olhos da empatia


    Passo pela cidade, minha cidade, tão feinha Belo Horizonte por onde passo. Lá onde veste seu melhor vestido, vou vez em quando, vou para lazer. No “todo dia”, percorro o que é para ficar no escuro.
    Há livros que não mudam nada, há livros mudos. Há livros que nos mudam, verdadeiros incômodos a cutucar verdades guardadinhas. E há livros que mudam a forma como olhamos as coisas. E isso é irremediável.
    Agora não tem mais jeito, abri este livro de fotografias. Este lambe-lambe não contente em lançar seu flash de magnésio pela sua própria vida, fez o favor de publicar suas impudências. Lançou luz sobre o escuro e não parei mais de ver a mendigaria, os moradores de rua, os gatos no parque, os camelôs e sua algazarra, os favelados, os hippies vendendo suas bugigangas e expondo essas diferenças do que somos, os meus preconceitos e os meus pós-conceitos flagrados.
    Nunca mais passar pelo Parque Municipal apenas passando, agora é ver os velhos, a sua solidão, os bancos sempre ocupados e essa vontade de gritar que quero me sentar na grama porque não aguento mais esse mundo imundo. Agora é olhar para o passado e me lembrar de minha mãe empregada doméstica, tão incômoda e tão necessária na casa dos patrões. Mamãe mulata, linda, jovem, passando por cima de assédios para não perder emprego e mudando móveis de lugar na ingenuidade amável de quem pensa que está agradando.
    Minha cidade que se droga para ver, que se droga para não ver. Os carroceiros de minha infância, os cavalos que comovem todas as crianças, pois nenhuma criança jamais entendeu a violência contra os cavalos. Agora saio pensando na violência contra os carroceiros, sua vida de açoite, essa transferência de quando as metáforas estão materializadas, quando sou interrompida pela inércia calculada dos jogadores de dama da praça 7 de Setembro. Quando um grito de um pastor evangélico quer sobrepor toda identidade. Cidade louca. Eu penso: independência ou morte.
    Valei-me. Continuo o álbum e vejo: que nunca entrei numa barbearia. Sempre as olhei de fora com muita curiosidade, as suas cadeiras-máquinas-do-tempo. E este cachorro na porta, fotografado pelo lambe-lambe, eu posso jurar que já o vi.

    É pela manhã que saio todos os dias, transporte público, esses motoristas que trabalham seis viagens sem parada, que almoçam em 15 minutos, que fazem suas necessidades fisiológicas em banheiros fétidos que as empresas de ônibus não se dão ao trabalho de mandar limpar. Digo a eles bom dia porque sei que não é fácil. Muitos respondem, surpresos que alguém ainda os veja. Agora é assim.

    Saio clicando com a lente do lambe-lambe, a cidade vai mudando aos pouquinhos e ainda carregando um tanto do que foi há 117 anos. Há 300, quando ainda era um arraial, mas trazia tantos pés descalços. Ao menos o amor mudou. Eu também já achei estranho as duas meninas se beijando publicamente. Como seria uma cidade que se beijasse?
    Nas páginas entre os contos, encontrei esses 3x4, amarelando. Anônimos que se tornam especiais apenas ali, na lateral da máquina-caixote de fotografia. Estão chegando na rodoviária, vêm tentar uma nova vida nesta Belo Horizonte, acreditam na promessa deste nome. E agora, iluminada por quem não tem medo de lamber o vidro, de verificar qual lado da chapa é doce e qual é o amargo, talvez eles possam se localizar.
    Passei a andar com este livro. Vou e volto para casa. Sim, eu encontro o caminho.
A verdadeira literatura é a que nos mostra o quanto estamos perdidos.


Lambe-Lambe
Sérgio Fantini
Editora Jovens Escribas
2016