segunda-feira, 26 de junho de 2017

O avesso da lâmpada de Demetrios Galvão – Poesia, silêncio e memória: um antídoto para a cidade

Por Adriane Garcia

Em O avesso da lâmpada, Demetrios Galvão constrói uma poesia inteligente, rica e sensível. Seu vocabulário, recheado de metáforas e construtor de belíssimas imagens, utiliza combinações que alcançam um lirismo bem medido, sendo, ao mesmo tempo, atual e contundente. Dos termos coloquiais aos da biologia ou geometria, Demetrios dispõe de suas ferramentas realizando um projeto bonito e coeso.

Três ideias me chamaram a atenção durante a leitura: a memória, o silêncio, a cidade. Neste livro, o poeta expõe a necessidade do silêncio e da memória como formas de sobreviver no espaço que chamamos cidade, entendida tanto como espaço real, demarcado, quanto cidade vivenciada, única porque subjetiva, pela qual transitam o poeta e seus afetos.

Do exercício da memória e do silêncio, a fantasia, a poesia, o poema. “Varandas” para embelezar o cotidiano cinza na cidade precária e em decomposição. Em O avesso da lâmpada, o poeta sabe que guarda tesouros para poder prosseguir entre “dragões” de cobiça e poder, que tudo destroem. Nas entrelinhas, toda uma crítica social e política, que envolve a frieza do capitalismo, a destruição das comunidades indígenas (o passado, a memória), a exclusão dos menos favorecidos, a continuidade de um sistema de capitanias hereditárias. Ao mesmo tempo, a resistência, a amizade:

“nós, rinocerontes da ternura
nós, rinocerontes prometidos para a extinção
conhecemos bem os dragões da cidade,
os seus disfarces alcalinos, suas gírias oblíquas...”

Não há ingenuidade. A poesia de Demetrios sabe o chão onde pisa – sabe, inclusive, sobre o chão da literatura brasileira, seus círculos de luta por manutenção de poder – e constrói beleza a partir do dilaceramento dos sonhos, com a insistência nos sonhos:

“na margem do silêncio esférico
as árvores frutificam
uma espiritualidade indomável”

Forças primitivas são evocadas, a liberdade, a própria poesia cuja proximidade maior é alcançada pela criança. Provavelmente, é desse olhar infantil, tão íntimo da magia e do encantamento, que Demetrios conseguiu uma imagem como esta, aliado, obviamente, de muita leitura:

“quando o fogo alteia, sobrenatural se torna
tua arcada de medusa.
As tatuagens arcaicas grafadas nos ossos
emergem faiscando.”

O mundo interior se apresenta munido de soluções muito particulares para conviver com a dor, a insuficiência, a solidão, os fantasmas da insônia, a miséria. É no avesso que algo simples como tomar um café pode se transformar num ritual de lembrança e mesmo num exercício reflexivo sobre a história; é também no avesso que se dá o silêncio, capaz de estabelecer a comunicação consigo próprio, com os livros ou com a natureza. Aliás, no livro de Demetrios, a natureza apresenta seu potencial xamânico, de forte ligação com o sagrado, tudo em contraste com a artificialidade e a parafernália que, o tempo inteiro e sem descanso, transformam, remodelam, formam e deformam os espaços urbanos, deixando o ser perdido e em busca de referências. No avesso da lâmpada o seu escuro, o seu silêncio, o grito da identidade, a sua arma. O antídoto para a multidão sem rosto das cidades.

“a voz do abismo

como pensar no futuro
sem pronunciar a palavra medo?
a harmonia da morte não desafina
as águas não trazem alívios.

conheço uma mulher
que não sai mais de dentro de si.
desaprendeu a pronunciar “felicidade”.
– a família teve que sepultar alguns nomes.

o desencanto assalta a multidão
o terror estremece as fibras do afeto
e esperamos a queda em um campo minado.
– existe um abismo que não se cala.

as mães se pintam para a guerra
com o leite que alimenta a humanidade.
levantam o punho e perfumam as ruas
com sua coragem iluminada.

– a esperança transpõe as fronteiras armadas
resiste em assentamentos de plástico
e se salva em um abraço sem idioma.”


 ***

O avesso da lâmpada
Demetrios Galvão
2017
ed. Moinhos




terça-feira, 20 de junho de 2017

Dyonelio Machado, O cheiro de coisa viva - Introdução, seleção e notas de Maria Zenilda Grawunder



Interessantíssimo livro. A introdução de Maria Zenilda Grawunder, acrescida da seleção de entrevistas e anotações do próprio autor, trazidas a público pela organizadora, compõem um rico panorama sobre Dyonelio Machado, o escritor, médico e político rio-grandense, mais conhecido por seu romance Os ratos.

Tanto sua trajetória política (Dyonelio foi preso político na Era Vargas) quanto literária podem ser descobertas neste livro que ainda traz um inédito do autor, o romance O Estadista. 

Em O Estadista, Dyonelio descreve as relações patrimonialistas da República Brasileira, os vícios, favorecimentos e a falta de comprometimento ideológico dos políticos, cujo compromisso se dá apenas com o poder e tudo que dele se possa usufruir, esteja de que lado estiver. Na condução de seu protagonista, Dantas, o rapaz ambicioso que não mede esforços para galgar os mais altos postos, usando inclusive de relações íntimas com mulheres associadas a homens poderosos, Dyonelio leva o leitor aos bastidores da política nacional. 

O livro foi escrito em 1926 e continua mais atual do que nunca. 

segunda-feira, 5 de junho de 2017

A morte de Ivan Ilitch - Tolstói e a perfeição ao falar sobre a morte




A novela A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, é, sem dúvida, dos mais perfeitos relatos e reflexões feitos em literatura sobre a morte.


A narrativa parte do enterro de Ivan Ilitch, caminhando, em seguida para a descrição do que fora sua vida de magistrado, marido, homem correto no que tange às convenções sociais. Sem deixar de notar a crítica ao estamento burocrático russo, o leitor, ao acompanhar os últimos dias de Ivan Ilitch, vai se deparar com um texto que assombra, pela sinceridade e genialidade com que a morte é tratada. No fundo, a grande pergunta é "qual a vida que vale a pena ser vivida?".

Procurando o sentido da morte, Ivan Ilitch procura o sentido da vida, das dores, do sofrimento. O leitor se surpreende com a forma com que Tolstói constrói esta "resposta". O último capítulo da novela é um dos melhores capítulos da literatura universal. Um livro brilhante, genial, fluido, cruel, compassivo, "demasiadamente humano". 

"O exemplo de silogismo que aprendera no compêndio de lógica de Kiesewetter - "Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal" - sempre lhe parecera exato em relação a Caio, jamais em relação a ele. Que Caio, o homem abstrato, fosse mortal, era perfeitamente certo; ele, porém, não era Caio, não era um homem abstrato, era um ser completa e absolutamente distinto de todos os demais. Ele fora o pequeno Vânia, com sua mamãe e seu papai, com Mítia e Volódia, com os brinquedos, o cocheiro, a ama, depois com Kátienka e com todas as alegrias, tristezas e entusiasmos da infância, da adolescência e da mocidade. Porventura conheceu Caio o cheiro da pequena bola de couro listrado de que Vânia tanto gostava? Por acaso Caio beijava a mão da mãe como Vânia? Era para Caio que a seda do vestido da mãe fazia aquele frufru? Fora Caio quem protestara, na escola, por causa dos pastéis? Tinha Caio amado como Vânia? Seria Caio capaz de presidir, como ele uma audiência?
"Caio é de fato mortal e, portanto, é justo que morra, mas quanto a mim, o pequeno Vânia, Ivan Ilitch, com todos os meus sentimentos e minhas ideias, o caso é inteiramente outro. É impossível que eu tenha de morrer. Seria demasiado horrível.""



***

A morte de Ivan Ilitch
Liev Tolstói
Tradução: Boris Schnaiderman
Editora 34

terça-feira, 30 de maio de 2017

Movimento em falso, de Simone Teodoro. O gueto dos sozinhos.



Movimento em falso, de Simone Teodoro (Patuá, 2016) é um livro que contém sua organicidade na solidão. Em seus poemas, a poeta trata da inadaptação do ser que narra, o sentimento de ser “gauche” perpassa toda a construção, onde o que é visto é o avesso, a denúncia do inverso. Fato interessante, que salta à leitura, é a relação do eu lírico com o lugar/cidade. Simone Teodoro, em seus versos, faz perceber inúmeras vezes esse ser “torto” em sua geografia, no caso, Belo Horizonte, que observa e desnuda o seu campo de visão e atuação, numa crítica social e política de entrelinhas, convivendo com o lirismo e a beleza, sem deixar de dizer o que tem que ser dito.

Caríssima
o cheiro de merda
sabota a mentira do boulevard:

águas impuras escorrem nesses subterrâneos

infectas

como as bocas dos vermes que roem carnes ricas sob
os granitos luxuosos do Bonfim”

Poeta com os dois pés na tradição e as mãos na poesia contemporânea mais atual, Simone traz referências diretas de Rainer Maria Rilke, Carlos Drummond de Andrade, Adélia Prado, entre outros. Seu espaço de “ferramentas” vai do cânone cultuado às cantigas de roda e a leitura dos “marginais”. Assim, seu anjo terrível anda de metrô e tropeça em ataduras:

Me sento numa cadeira verde
recolhendo junto ao peito
uma imensa asa ferida”

Com uma imagética forte e bem construída, a poesia de Movimento em falso nos leva em viagem para (re)conhecer personagens tão atuais quanto universais: o gênero humano, que sofre por amor (e a desilusão amorosa em Teodoro é recorrentemente a imagem da estrela de vidro, que se quebra, ferindo de sangue as mãos); o amor romântico de uma mulher por outra mulher; a mulher que precisa se disfarçar de homem para andar nas madrugadas citadinas, sem sofrer a ameaça da violência, do estupro; a mulher que dispensa o falo e faz sua declaração aberta e corajosa contra o machismo; a criança que, numa referência ao Poema de sete faces, só pode viver um poema de uma única face, a da impossibilidade de ter infância; o cidadão de segunda categoria que não têm assegurados direitos mínimos e caga entre os automóveis, estacionados em frente à igreja de arquitetura imponente, art déco.

Usando palavras antigas, algumas vezes e propositalmente, Simone evoca uma nostalgia por um tempo que não lhe pertence (não que o desejasse), é sua forma de amplificar o sentimento de “estrangeirismo” também com relação à época: “me tornei alta/ e plena de antiguidades”. Do mesmo modo, utiliza quebras, com um antilirismo que atualiza o poema e o traz para o momento presente e sua contundência, conseguida por não querer disfarçar a realidade.

Em Movimento em falso, para se entender o eu lírico precisa se estender. Estender-se para o mito, para a natureza, para a fabulação de seus elementos: “as pedras cantam/ como se fossem de carne/ e doessem”. A necessidade de dialogar não pode contar com o outro, humano: é um mundo de desencontrados, a poesia é um diálogo consigo mesma e com os seres inanimados. O mundo da poeta não é o mundo no qual ela chora, há um descompasso.

Sem poder estar em Duíno, no alto da montanha, o que também não seria rima nem solução, Simone Teodoro trafega com sua mulher de chuva e resignação por entre o cinza. E constrói um livro capaz de afirmar do início ao fim uma identidade. Identidade singular no gueto dos sozinhos. O gueto de todos nós.


Cem segundos de espera

Antes de
atravessar a sinaleira
cem segundos de espera

A pressa dos carros
retalha a cor cinza do dia

Um vento quente
agita a aridez da tarde
Bacanal de coisas sujas e
minúsculas
pelos ares
e a porra de um cisco
bem no fundo do meu olho

Solicito a abertura dos portões
do inferno

Ameaça de tempestade
gota grossa escapa de cima
cusparada do demo

Esvoaçam as nossas saias
ah, se fossem asas
ah
encomendei uns livros da Colette
Vagabunda
Ingênua Libertina
My dear
sei que tulipas deveriam estar atrás das
grades

Como pode um sussurro doer tanto?

Não sou Lady Lazarus
Corda e janela serão minhas palavras definitivas

Vomito os homens que comi
Não te disse
mas um deles pisou
na barra da minha saia
e eu caí
(é tanta fratura no osso)
Senhoras e senhoras
pulem de um pé só”


***
Movimento em falso
Poesia
Simone Teodoro
Ed. Patuá
2016




quarta-feira, 17 de maio de 2017

Outros Cantos, de Maria Valéria Rezende: O olhar da empatia



Por Adriane Garcia

Nestes dias, estive em outros cantos. Mais especificamente em Olho d'Água, sertão de Pernambuco, lugar imaginário e tão real, criado por Maria Valéria Rezende. A edição de Outros cantos, primorosamente editada pela Alfaguara, traz,  já na capa, a aridez do sertão, assim como a algaroba, árvore frondosa do semi-árido brasileiro. Delicadamente, muito discretamente, um coração entre as folhas, feito fruto – sabemos que o que irrigaria a Terra é amor. Abaixo, areia, pó, terra seca esvoaçante como a dos desertos.

“Um bando de meninos me espreitava. Nos peitos, o teclado perfeito das costelas expostas; nas costas, saliências pontiagudas, duros cotos de asas cortadas antes mesmo de que vissem a luz por primeira vez. Nus vieram ao mundo e nele permaneciam, quase nus e inocentes, não por serem incapazes de fazer o mal, mas por serem ignorantes do mal que lhes podia ser feito. (p. 15)”

Não há como ler este romance e não se envolver e se emocionar. A narrativa é feita em linguagem primorosa e, ao mesmo tempo, simples. Maria Valéria Rezende escreve para se comunicar com o maior número possível de leitores. Sua comunicação é dom e o que ela tem a dizer nos deixa despertos para a realidade. Realidade de uma comunidade que se repete por tantos brasis, marcada por fatores históricos, sociais e culturais que a retêm na miséria material, latifúndio e a confirmação da máxima “o problema do Nordeste não é a seca, é a cerca”; realidade de nossa condição humana, tão independente de geografias.

A história se passa enquanto a personagem Maria está num ônibus de viagem, quarenta anos depois, voltando para o sertão. O lugarejo é Olho d'Água, local onde estivera para alfabetizar jovens e adultos, na época da ditadura militar brasileira, no programa MOBRAL. Nas lembranças de Maria, já idosa, o leitor acompanha Maria, a jovem revolucionária, sonhadora e crente no poder de mudança da palavra escrita e da leitura. Porém, o que Maria descobriria (e o leitor) é a força da linguagem oral, a força e a beleza do povo sertanejo. Maria, que fora para Olho D'Água ensinar, descobre que só poderia aprender com esse povo ágrafo.

Entre cenas marcantes, com grande poder de fixação na imaginação do leitor, Maria Valéria Rezende traz o vigor que este cenário rural alcançou, por exemplo, com Raquel de Queiroz, Guimarães Rosa e Graciliano Ramos. Impossível, depois de ler Outros cantos, esquecer-se do tingimento das redes, dos quartos abarrotados pelos grandes teares, das conversas noturnas debaixo das algarobas, apenas sob a luz das estrelas, da primeira e única vez que o povo de Olho d'Água viu um cinematógrafo; dos penitentes mortificando a própria carne, sofrendo mais do que já sofrem, para que a chuva caia no dia de São José; das mães gastando sua única água para que os meninos fossem limpos no seu primeiro dia de escola. Impossível esquecer-se de Fátima e sua solidariedade absoluta, a solidariedade de quem aprendeu que não se vive sozinho em duras condições de sobrevivência.

Outros cantos desenha, na memória de sua personagem, um cruzamento de tempos e espaços, a protagonista fazendo comparações de seu cotidiano no sertão pernambucano com o cotidiano de outros cantos em que estivera: o deserto da Argélia, o México, Paris. O leitor vendo, pelos olhos desta autora, esses seres humanos e aquilo que temos de diferente e comum, para o bem e para o mal.

Chorei inúmeras vezes lendo este livro, chorei de tristeza por reconhecer a ambição humana, gerando dificuldades extremas para tantas pessoas, cujos sonhos se reduzem a conseguir viver apenas mais um dia; chorei de alegria por perceber o alcance que a palavra de Maria Valéria exerce na duração e após a leitura, chorei, sobretudo, pela beleza alcançada numa obra, sim, magistral. Quando fechei o livro sabia que chorar era um sintoma causado pelo instrumento, talvez principal, utilizado por sua autora: a empatia. Ao usar a empatia de forma tão natural e verdadeira, com recursos literários belíssimos, Maria Valéria Rezende desperta a empatia de seu leitor. Daí, levamos o livro em nós, saímos a olhar com outros olhos os outros cantos. Talvez, nunca mais passemos por aquele homem que mora debaixo do viaduto, na região Sudeste, exposto a toda discriminação e perigo, sem pensar que ele provavelmente abandonou Olho d'Água depois de tentar de tudo, depois de enterrar mais um filho subnutrido, deixando mulher e outros filhos, que eternamente o esperam.

Outros cantos não é um livro do qual dizemos “leia porque é muito bom”. Outros cantos é um livro que dizemos “leia porque é essencial, leia porque é necessário, leia porque é sobre política, sem ser, leia para conhecer o Brasil”. Se a personagem Maria acreditava na palavra escrita e lida como a sua missão em Olho d'Água, a autora Maria Valéria Rezende a continua, onde seu livro alcance. Que ele alcance muito mais.

 “Expliquei-me como pude. Não, menti, ou não menti, pois nem eu sabia ao certo, aquilo não era saudade de ninguém, não, e nem culpa do povo. Ao contrário, era o medo de ter de ir embora, o vereador que não resolvia nada, não trazia o contrato e o material prometidos e eu por isso esmorecia, já quase sem esperança de ser professora e poder ficar por muito tempo. “Você diz que de família só tem pouca gente, espalhada em outras terras e quer ficar aqui, que a gente é sua família escolhida. Ah, pois! Então aprenda que aqui o que mais se carece é de paciência, saber esperar. A gente vive esperando, a noite, o dia, a chuva, o rio correr de novo, esperando menino, esperando a safra, notícia, o caminhão do fio, o tempo das festas, visita de padre, tudo coisa que custa a chegar (...)”(p.123)

***
Outros cantos
Maria Valéria Rezende
Romance
Ed. Alfaguara
2016



terça-feira, 16 de maio de 2017

O mar não sofre coisa morta – O pesadelo humano na literatura de Leonardo Paiva.



Por Adriane Garcia

Que coisa feliz é quando um livro curto, com poucas páginas, é suficiente. Assim é O mar não sofre coisa morta, de Leonardo Paiva.

A edição caprichada da editora Moinhos traz uma capa que chama a atenção, um naufrágio, uma tempestade, o cinza engolindo o azul e um barco com pessoas que tentam sobreviver à sua tragédia.

O mar não sofre coisa morta é composto por nove contos, de tamanho médio.  Já no primeiro conto, Lourdes, o leitor poderá perceber a força da narração de Leonardo Paiva, que publica pela primeira vez.  A cena de Lourdes matando uma galinha e aguardando que os coelhos mortos, e devidamente limpos, cheguem para a refeição que preparará, mais que bem descrita, revela a crueza de uma linguagem atenta à palavra e à frase. O texto de Leonardo é preciso e cuidado. Interrompida pela notícia da morte de um familiar que é “persona non grata”, Lourdes precisa pausar seus afazeres para ir reconhecer-lhe o corpo. É isso, O mar não sofre coisa morta é um livro em que os personagens não têm tempo ou mesmo oportunidade de não seguir em frente, ainda que a frente seja mais crueldade, o mundo, sabemos, não sai da frente e eles vão.

No conto Véspera de Páscoa, mulheres que precisam lidar com a violência que lhes é imposta. Além da história curiosa, cujo cenário nos coloca num presídio de paredes brancas, em cima de uma colina, a condução do conto é uma delícia rítmica, o texto respira, enquanto nossa respiração fica tensa pela realidade surreal e tão próxima das “mulheres da vez”. Em O ciúme, Leonardo consegue mesmo nos surpreender quanto à voz narradora, o que universaliza o amor de forma comovente. Mas é em Afogados que ele nos faz chorar. Tão próximos, os meninos Iago e Ricardo atravessam a estrada e a adolescência; com muita sutileza, Leonardo Paiva sugere o amor homoerótico, tão naturalmente, que compreendemos a violência silenciosa do que para Iago é um interdito: ele não pode demonstrar o amor por outro menino, nem mesmo manifestar o que possa ser entendido como desejo; mas tudo é sugestão, Leonardo Paiva revela mesmo é uma amizade pura e profunda, que não poderia aceitar a morte.

Em Os primos, reforça-se uma característica curiosa da linguagem do autor. Em muitos contos, e também neste, as pessoas são, naturalmente (e não desde o princípio), no meio da narrativa, tomadas por coisas ou por suas partes; como numa fábula ao contrário, de repente, alguém é uma minhoca branca ou uma boca de batom, ou três crianças passam a ser os seis pés que pisam as pedras quentes. O mais interessante é que ele consegue tirar qualquer efeito de artificialismo que isso poderia ter.

Em O mar não sofre coisa morta, conto que dá nome ao livro, Leonardo traz a história de um pai cujo filho é hidrocéfalo e vítima da maldição que acomete geneticamente a família, “a linhagem de homens doentes, que, a partir da herança do bisavô, definhavam antes dos vinte anos como fossem plantas secas”. Uma espécie de escravidão, quando tudo tem que ser suportado e vivido, um pesadelo que faria até mesmo as águas do mar se retraírem.

Em O cavalo, sussurros e segredos numa noite agitada colocam um menino no centro de histórias que envolvem xenofobia e não poupam sua infância já irremediavelmente maculada. Em Brasília, conto que remete à história de tantos operários que deixaram suas famílias para a construção da capital, o leitor encontrará mistério e loucura. Em Jacarandá, um sequestro com tentativa de estupro e a reflexão sobre o que perdura na natureza humana.

O mar não sofre coisa morta é um livro bem construído, que delineia a vida no território da violência e dos enganos, das tragédias inevitáveis e das tragédias que, não satisfeitos, criamos; um livro cuja compaixão está justamente em não tê-la. Um trabalho de arte que, sendo-o, traz revelação, essa palavra de raiz ligada a desnudar, destapar, mostrar.

“Na sala fria seguiu o homem até alcançarem a mesa de aço e o pano branco estendido. O homem levou o pano branco da cabeça até o púbis liso do morto. O homem disse que esse é o Antônio Oliveira? Reconhece seu irmão?
Lourdes podia dizer que sim, mas talvez estivesse enganada. Podia dizer que ela era aquele corpo deitado.
Ela era aquele corpo deitado. Reconheceu-se no rosto de Antônio, embora fosse bonito e jovem. Os cabelos tão compridos, era desejo de Lourdes ter cabelos longos, mas sempre tivera aqueles cabelos curtos, que não tinham força para crescer. Antônio tinha peitos bonitos, grandes, de bicos escuros como os dos peitos secos de Lourdes. Não tinha pelo qualquer naquele corpo sem cor. Abaixo os furos na barriga, furos tão grandes que era possível enfiar em um deles o punho fechado.
Ela era aquele homem deitado.”

***
O mar não sofre coisa morta
Leonardo Paiva
Editora Moinhos

2016

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Não, a afirmação de Bruna Mitrano



Por Adriane Garcia


Não comecei a ler o livro Não, de Bruna Mitrano (ed. Patuá, 2016) pelo prefácio sobre poesia e política, feito pela poeta e estudiosa Nina Rizzi, que é, por si só, uma aula. Sempre deixo por último os prefácios, apresentações, orelhas. Confesso que também não foi o texto escrito o primeiro que li, foram as imagens, as belíssimas e contundentes ilustrações que Bruna Mitrano criou para Não. Das imagens, você já pode ter uma ideia do que virá.

A edição do livro não se trai, a capa é preta, a cor estigma da negação em nosso país; negação de direitos básicos, de políticas públicas, negação das ações de inserção necessárias, quando o processo histórico se deu sobre expulsões, exclusão, assassinato, escravidão, sempre em prol de uma classe dominante branca, macha, insensível, racista, sem empatia e (serei redundante) de péssimo caráter. As letras vermelhas, no advérbio saltando no escuro, não deixam de remeter imediatamente à violência.

Os poemas de Bruna Mitrano trazem ao mundo audível (ainda que este mundo seja minúsculo) o mundo mais que populoso dos que nada têm, dos marginalizados, dos moradores pobres, brancos ou negros, das periferias e das ruas, das crianças brasileiras abandonadas, das mães abandonadas, das mulheres, vítimas constantes e fatais do machismo. Com grande parte dos poemas orbitando em torno da temática do aborto, Bruna acaba por retratar uma realidade acontecida e não o sonho delirante dos que querem legislar o corpo dos outros, mais especificamente das outras. Sem apologia a isto ou aquilo, Bruna conta, Bruna descreve, Bruna faz sentir. Preto no branco.

Se preto é, então, estigma, Bruna traz à luz também o fato conhecido e quantas vezes combatido (pois a verdade transforma): o de que preto é também a cor da resistência neste país. Resistência que começa com quatro milhões e meio de pessoas sequestradas de seu continente para compor um dos maiores êxodos forçados da história da humanidade. É no Brasil que essa diáspora produzirá efeitos que o Estado não foi (e não parece interessado) capaz de sanar. É também no Brasil que essas pessoas se reinventaram, com a força de suas culturas matrizes e a capacidade de absorver outras, sobrevivendo às piores condições possíveis. Mas também não é uma apologia à pobreza ou ao sofrimento o livro de Bruna. É um grito por justiça social sem ser em nada panfletário. É poesia com lirismo, ritmo, imagens, polissemia. É poesia que se recusa a ser somente poesia bonita, é poesia com o pé no lugar onde se vive. Se uma das funções da poesia é dar a ver, Bruna Mitrano a cumpre, retirando seu interior e entorno da invisibilidade.

Ao mesmo tempo em que no livro é forte a presença da problemática social, a voz narradora é intimista, chama para um ponto de vista, é subjetiva também, mostra a dor desta digestão que é, dentro, o mundo de fora. Sexo, fome, solidão, precariedade do corpo, degeneração da carne, asfixia diante do mundo, loucura e desejo são as forças cotidianamente presentes na luta pela sobrevivência exposta em Não.

Ao dar voz a questões como aborto e machismo, Bruna soma à nossa literatura contemporânea o ponto de vista das mulheres sobre o mundo em que habitam e atuam, onde falam sobre seu próprio corpo e sobre o modo como sentem as relações com o outro, o macho, inclusive. Juntamente com tantas outras escritoras que hoje vem transformando a literatura brasileira, cuja hegemonia masculina é inegável, Bruna registra a existência real de mulheres, de dentro, da experiência da opressão e do trauma.

É preciso matar para se libertar. Eis uma frase perigosa que podemos formular após ler Não. Uma frase metafórica ou literal. O que mataremos? O que lutaremos para que viva? Bruna vem nos dizer das escolhas que não nos são possíveis, quando nos tiram tudo, e faz isso na contramão. Ao fazê-lo, ela escolhe, como se fosse possível. E então passa a ser. Neste momento reencontramos Nina Rizzi: “ O gesto poético já é, e desde sempre, político. A poesia é uma insólita. Seu sentido se faz outro, reclama um outro e é arma contra a barbárie. Bruna Mitrano não nos deixa esquecer a máxima barthesiana que nos diz que a poesia é prática da sutileza num mundo bárbaro; não nos deixa esquecer a máxima nietzschiana: se o tempo é sombrio, a poeta pensa contra o seu tempo em nome do tempo por vir.”

De dentro da barbárie e de um corpo de mulher, no Brasil, ela faz poesia.

puta que pari um bicho morto
risco indócil na coxa
barulho oco dos coágulos esbofeteando a água da privada
estilhaços imagens
o enquadramento impreciso
aparar as arestas até triturar os ossos do rosto
as unhas perfuram lentas a boca grande calada
é preciso fugir pelas beiradas
sem alarde.”

***

Não
Poesia
Bruna Mitrano
Editora Patuá
2016




quarta-feira, 19 de abril de 2017

Eis o mundo de fora – O mundo de dentro, de Adrienne Myrtes



Não se entra no reino da morte vestido. Conheci as mãos de Raul, a saliva macia, sua boca aberta, engolindo-me pedaços e líquidos. Acordamos o dia no final da noite gozando o fato de sermos machos. Fomos homem um para o outro.” (Fala de Luis, p. 25)

Com o pouco tempo de que disponho para leituras (para a vida, realmente – visto que a Engrenagem nos assalta à mão armada, cotidianamente), li o romance de Adrienne Myrtes, Eis o mundo de fora, pelo Ateliê Editorial. Em três dias, ou seja, a leitura é muito fluida e instiga a continuar. Também, a autora conhece a sedutora arte dos bons primeiros parágrafos.

Com dois protagonistas que se revezam, Irene e Luis, Adrienne Myrtes, desde a primeira página – que já é o ápice de um drama – nos sequestra: estamos diante de uma tentativa de suicídio e não vamos mais parar. A forma absolutamente natural e verossímil não antagoniza com a linguagem literária tão bem cuidada. Excelente literatura é a que, sendo, nos faz esquecer de que estamos lendo literatura. Irene e Luis nos levam até suas vidas. Seus mundos de dentro atropelados pelo mundo de fora. O mundo de fora, o alimento de suas digestões e digressões.

Irene é a mulher que se tornou fria com relação ao amor, a que repele o amor conscientemente: “o que eu sabia é que me sentia sem corrimão, sem prumo, em resumo, que aquilo não era bom. Até doía. Pior, era um inferno. E aquilo era o amor. O amor cantado e decantado pela natureza humana. Amar para quê? Para dar chance a meu coração de me enforcar?”. Luis é o único amigo de Irene, ator, entre amores e michês, um homem que se recusa a sair da adolescência amorosa, e que vive a vida na intensidade dos cortes. Eros e Thanatos acompanham as personagens, Dionísio dá as caras e algumas cartas. Sim, é um livro sobre vida e morte, sobre amor e morte e também sobre esse amor puro e raro chamado amizade.

No meio da depressão de Luis, que mora com Irene, um telefonema faz com que ela tenha que voltar à cidade de sua infância. Consequentemente, rever a avó, Dona Auxiliadora, Tia Lurdinha, Léa, a mãe que nunca é chamada de mãe e Moacyr, o primeiro homem na vida sexual e amorosa de Irene. Rever a própria infância e a origem das primeiras despedidas. Juntos, ela e Luis encontrarão, nessa visita de uma semana, cada um a seu modo, motivos para novas reflexões e amadurecimentos. Irene terá que enfrentar tudo o que deixou para trás, fatos que a autora soube dosar com maestria, revelando-nos, aos poucos, o passado de sua personagem. Luis encontrará o distanciamento suficiente, e desejado, para se reencontrar e tentar esquecer Raul, ainda que seja para constatar suas repetições: “Na verdade gostaria de ser salvo pela distância. Ficar afastado da vida, receber uma suspensão. Não estar com algumas pessoas, não precisar contar histórias, enredar fatos, encontrar palavras para dar explicações. Explicações que não tenho nem para mim.”

Em Eis o mundo de fora, a dor assume uma questão central , tanto a física quanto a psicológica. Adrienne Myrtes, trabalha, por meio de suas personagens, a consciência de que somente a dor nos acorda para o que somos (iguais) e, ao mesmo tempo, um desejo fracassado de torpor, seja pelo excesso de verdade ou pelo excesso dos sentidos, para não senti-la tanto, pois o que somos não é notícia agradável. Nas palavras de Irene, “Estar vivo é estar doente, mas não sei lidar com a dependência gerada por isso. Odeio lamentação, lamúria, odeio com a mesma intensidade a falta de lamentação, o sofrimento digno, abnegado. Mártir. Alguém que se entrega aos vermes. Passivamente. A dignidade existe em olhar na cara da dor e rosnar”. A sinceridade das palavras dos dois personagens conversa com a nossa sinceridade, assusta-nos, como finalmente o faria um espelho verdadeiro. A autora não sopra a ferida, ela a escancara, até que possamos ver um coração que pulsa, não importa até quando, que, enquanto pulsa, flerta com a morte, mas quer pulsar. A morte é o evento marcado, Irene sabe que é a única coisa que sabemos. E, se Irene encara a morte de frente, Luiz encara a vida: “Descobri que prefiro ser atacado pela morte sem aviso, pelas costas.”

Eis o mundo de fora é também pontuado por paradoxos, ideias que Adrienne Myrtes subverte: a morte não é o desconhecido; a vida é que, sem controle algum, vem, mas não nos diz a que veio. A morte encerra a dor, mas sabê-la não é suficiente para executá-la. Imperativo é viver. Daí a admiração de Irene por Luis, ciente de que ele, sim, enfrenta fera de maior perigo. Luis, por seu lado, encontra em Irene o esteio de lucidez que o salva de tanta vida.

Aqui e ali, muito pontuais, pitadas de um humor inteligente e ácido, como no início do capítulo XXV: “Odeio gente gentil. Gentileza não é coisa natural, é sem princípios. Gentileza é invenção de vendedor.”, ou quando Luis é apresentado a Moacyr: “Essa era Irene tentando me convencer a me comportar como um criado velho, surdo-mudo numa peça renascentista. Fiquei quieto porque o pretenso amigo era um tesão e a vida é vaudeville.”.
As ilustrações, também feitas pela autora, tornam o livro um conjunto íntimo e rico. O romance traz trechos e mais trechos de grande beleza e reflexão. Copio um, entre os inúmeros que marquei (e que marcaram minha leitura).

A criança é a maior prova de que o homem não nasce bom. O homem apenas nasce. Todo o resto é tecido que fabricamos para proteger a pele. Para brincar de esconde-esconde.
Passei a infância me escondendo de minha maldade interior, sentindo pena das lagartixas mortas em favor das experiências necessárias ao exercício de minha curiosidade. A investigação científica era minha forma de brincar de adulto e eu precisava me sentir próxima as pessoas que me rodeavam. A morte fazia-se necessária para as descobertas, mas ela vinha costurada à compunção. A imagem do bicho morto, das vísceras expostas, da gordura do sangue, provocava certo sofrimento em mim. O sentimento corria em círculos, ao redor da irreversibilidade do feito. Uma vez morto, morto até o fim. Durante alguns minutos eu me arrependia e havia verdade nisso, cheguei ao ponto de fazer enterro de alguns animais depois de dissecados, arrumando-os em pequenas caixas cheias de flores. Acendia velas e fazia orações pela metade, imitando minha avó diante de seus santos. Mas isso não me impedia de matar outro quando precisava fazer outra experiência. Eu era criança e criança não tem alma.” (p. 39)

O mundo de fora pode ser também um sonho, sair de si, estar liberto deste jogo chamado vida, onde não há manual ou sentido e onde só nos resta caminhar: "A vida é a possibilidade que tenho no momento, o que me resta. Por isso o que tenho a fazer é me levantar da cama e começar o meu dia." 

Um livro excelente, de uma autora que merece ser lida, porque tem muito a dizer e sabe como.

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Eis o mundo de fora
Adrienne Myrtes
Ateliê Editorial
2011


sábado, 1 de abril de 2017

O exercício da distração – De Kátia Borges



Por Adriane Garcia

O livro que me acompanhou durante esta semana foi O exercício da distração, da poeta Kátia Borges (ed. Penalux, 2017). Li-o duas vezes, para melhor ficar distraída. A distração que Kátia oferece é aquela que nos faz sair do mundo ordinário. Não à toa, a capa traz acrobatas em equilíbrio no topo do Empire State, uma fotografia de 1934. Mas que diabos fazem três pessoas numa performance arriscada e inútil? Que diabos faz Kátia, construindo um livro de poemas (antes: lançando um olhar para a poesia das coisas), recusando-se a ser simples engrenagem neste sistema que apenas quer nos consumir o tempo de vida, apertando seus parafusos?

O exercício da distração é uma resposta rebelde. Uma resposta rebelde silenciosa, visto que a poesia é capaz de se comunicar no silêncio do outro. É rebelde porque se insere no mundo do cansaço, e teima: “Dizer do medo, a coragem/com a qual dançamos a vida/sem descalçar os sapatos”.

Dividido em três partes, Como se fosse o órgão vivo, Fugas extraordinárias e As pequenas vilanias da cidade, o livro se comunica o tempo todo com seu título. A distração, a inadaptação, o mundo como um não-lugar para os sensíveis, para a sensibilidade. A máquina do capital a massacrar as pessoas, explorá-las, matá-las, cotidianamente, enquanto buscam a sobrevivência e o amor.
O amor, em O exercício da distração, é a “caça inútil”, a busca difícil, mas a busca da qual não se pode fugir, a busca necessária. O amor “arrasta os astros/pros lugares certos” e dá sentido ao que não tem. É o grande consolo, é a mão próxima, a possibilidade da dor compartilhada: “estou cansada de sentir este aperto no peito//amo esta mulher que diz que passa”. Ao mesmo tempo, não há ingenuidades, há uma maturidade nos versos de Katia Borges que não permite ilusões. A fantasia é proposital, a fantasia é um mecanismo de quem escolheu dar conta do mundo pelo seu avesso, mas com total consciência do processo. Este poema, que me lembrou dos momentos finais de Lorca, dá a dimensão do conflito tão presente neste trabalho:

Teu movimento

Antes que te chame
o pelotão de fuizilamento
repara o pássaro
apara o dia.

Há um olhar que se derrama
lento sobre a vigia
e graciosidade no andar
do carcereiro.

Antes, sim, que chamem
o teu nome, anota
num papel ou na parede
certo verso de cimento.

Na argamassa firme
teu movimento.

A distração é o exercício da liberdade, exercício cerceado, que só pode acontecer como desobediência, estranheza ou mesmo loucura, como a poesia. Já nos títulos de alguns poemas, a poeta brinca riscando palavras: Anotações para um poema sobre pássaros (sapos) flores. É assim, nas brechas, que se vai criando possibilidades de escolha para se inventar a própria autonomia. A poeta anda presentemente em sua cidade, indaga o mistério das perdas e sabe da resignação quanto a essas fugas, observa o mundo para além do que ele quer mostrar – falávamos sobre a distração como ato de rebeldia, a poesia como recusa à cegueira imposta.

Os poemas são de grande musicalidade, e há imagens imperdíveis, como em Hashi: “tão tristes os três tigres/do I Ching/espreitam o amor, a caça inútil// seria bom se descansassem/o peso das pernas,/seria bom se repousassem/o rosto nas patas”.

Por fim, O exercício da distração é um livro que traz paradoxos. Se por um lado, a distração parece que aliena, Kátia vem mostrar que, ao contrário, a distração é o que nos mantém vivos e acordados. E, obviamente, ela não está falando da distração permitida, da distração de massa, que quer fechar os olhos, banalizar até o ponto de não mais se poder perceber. A distração de que Kátia fala é aquela que nos abre ao desejo de molhar a planta que avistamos na varanda do vizinho, tão próxima ao nosso apartamento, afinal

“A vida é esse verde entre nós.

Talvez os biólogos nos expliquem
a fluidez do amor, a essa altura.
Serei melhor se lançar água
e, dessa distância que penso segura,
salvar uma begônia.”

Um livro lindíssimo. Para ler e reler.

*
O exercício da distração
Kátia Borges
Editora Penalux
2017