terça-feira, 2 de outubro de 2018

Amortalha, de Matheus Arcaro



Por Adriane Garcia

Já na epígrafe, Matheus Arcaro nos coloca em contato com a Filosofia. Um fragmento póstumo de Nietzsche, uma frase do Ética, de Espinosa. Tanto quanto o tema da morte, as referências da Filosofia atravessam os contos de Amortalha, naturalmente, numa escrita fluida (nem sempre linear) que usa analogias bem construídas: “Bete arrasta as sandálias como se precisasse desgrudar uma verdade da calçada”, “sua boca, uma metralhadora de Deus”. O leitor versado em Filosofia encontrará alusões que enriquecem a narrativa; o que não for, também aproveitará a leitura, pois as histórias sustentam-se sem as referências. Aqui, vale exemplificar com a ironia presente no conto Má educação, em que o professor de Filosofia, em greve, é agredido pelo policial que foi seu aluno. A Filosofia não salvou o militar, nem o professor, mas as consciências foram aguçadas.

Por toda a leitura, chama a atenção a capacidade de Matheus Arcaro para emocionar. Os contos permitem que o leitor não só “entre” na narrativa, mas que estabeleça contato com sentimentos e situações dos personagens. Parte deste alcance se deve ao fato de o autor conseguir manter a tensão e o mistério enquanto conta. No conto Como fugir? o narrador sente a beleza de forma tão avassaladora que chega a doer. A arte é absurdamente um ápice da capacidade humana de produzir beleza: “Antes a cegueira que os girassóis de Van Gogh.” A beleza da arte é comparada à beleza da natureza, Michelângelo, um deus “torturador”, como o deus que fez o vulcão e a lava vermelha que incandesce: “É deus esfregando a beleza na cara da gente”.

Na coletânea, sobressai a dor da morte nas nossas variadas experiências. A morte de nosso cão, de nosso ente amado, de nosso pai, de nosso filho, mãe, avó. A morte também do amor e a morte em seu avesso: o nascimento. É interessante notar que se no conto Alemão, o filho reage de forma racional à morte do pai, a ponto de parecer não senti-la, no conto seguinte, A flor, a epígrafe de Simone de Beauvoir já desmente toda a situação do conto anterior: “É inútil pretendermos integrar a morte na vida e conduzirmo-nos de maneira racional em face de uma coisa que não o é: que cada um se vire como possa na confusão de seus sentimentos.”, ressaltando a pluralidade dos personagens e dos conflitos. A flor, é um conto belíssimo, em que o amor por Princesa, uma gata, cresce na mesma medida que a solidão de sua dona, Clara, aumenta. As duas se tornam tão ligadas que estabelecem uma linguagem entendida por ambas e até pelo leitor. Matheus Arcaro nos faz acompanhar a dor dos últimos dias da companheira de Clara, doente e à beira do sacrifício. A morte poderá se tornar, então, gesto de amor.

Escritor que não foge ao seu tempo, Matheus Arcaro traz preocupações com relação ao presente e ao futuro das mulheres; seus personagens, não raro, são filhos de mães fortes ou pais de meninas: “Não sei teu sexo e te chamo assim! Ilustração de como será tua jornada caso sejas Camila. É mais profunda a cicatriz de fêmea, filha amada”. Também os cenários são construídos na sociedade das desigualdades econômicas, sociais e políticas. No hospital, a enfermeira de “A graça de Benedito” cuida de todos, indistintamente, inclusive dos moradores de rua que sempre voltam, doentes de novo. Em Fora do ar, o autor nos lembra, criticamente, através do seu jardineiro, que a beleza só poderá ser vista se desligarmos a TV.

Trabalhando também com humor, em Linha da vida, Amortalha traz um conto engraçadíssimo, em que Arthur, atendente em um programa contra suicídio, no seu primeiro dia, conversa com um provável suicida, Francisco (que ele insiste em chamar de  Frederico). Porém, pela conversa dos dois, o conhecimento de Filosofia de Arthur (referência a Schopenhauer) só faz piorar.

Amortalha é um livro sobre os fins, sobre os começos, sobre o amor, a certeza da morte e sim, a celebração da vida. Também trata do desejo, inclusive do de morrer. Uma leitura inteligente, envolvente e emocionante.



Filha, é bom que saibas: o ser humano não é como apresentam nas histórias de herói. Às vezes, ele pratica o mal em nome da justiça, às vezes diz uma coisa e faz outra, às vezes enterra um punhal no peito de quem ama. É bom que saibas que, enquanto algumas pessoas apanham migalhas para tapar os buracos do estômago, outras descartam comida como se fosse água barrenta. É bom que saibas que há pessoas que julgam importante a cor da outra pessoa e o que ela carrega nos bolsos. Saibas, Antonella, que, por seres mulher, o mundo, diversas vezes, vai te esfregar a proibição nas vistas. Vai te trancar portas e podar possibilidades. Vai esconder por trás de discursos coerentes o cimento que ergue a intransigência.
Não, não quero borrar tua visão com meus juízos. Não quero mostrar-te apenas a parte suja dos fatos. Estou certo de que não te assustarás com minhas palavras, mas as usará como combustível pro teu combate diário. Além disso, tu provarás, feito um faminto, a porção suculenta da vida e, com ela, lambuzarás a alma. De alguns destes momentos, sei que vou participar. Passearemos no parque em muitos finais de tarde, iremos ao cinema, falaremos sobre as danças da existência e, com tua mãe e teu irmão, chegaremos à ousada conclusão de que a vida, justamente pela ausência de sentido prévio, tem o vigor de uma bailarina.”

Excerto do conto A gestação de um pai, pag. 114/115

***  
Amortalha
Matheus Arcaro
Contos
Ed. Patuá
2017





segunda-feira, 10 de setembro de 2018

A mulher de Ló - de Carlos Machado

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Por Adriane Garcia

“Por que não deram voz/ à mulher de Ló?”


Que maravilha é ler um livro que nos surpreende.

Quando me deparei com o título A mulher de Ló, deste poeta e grande amigo da poesia que é Carlos Machado, lembrei-me da imensa personagem bíblica (quem passou por ela e não a guardou em imagem?) e senti que estava prestes a abrir algo especial. A intuição e o faro não mentiam, pois não pude deixar o livro, enquanto não chegava à sua página derradeira.

Espécie de poema-romance, composto por vários poemas, narra uma história única, a da Mulher de Ló, transformada em estátua de sal pela (in)justiça divina. O poeta se deu a acompanhá-la em seu horror, em seu último dia, em sua última hora; colocou os pés em Sodoma e Gomorra, viu as nuvens carregadas de ira e sentiu o cheiro de enxofre emanado da sentença de Deus. Sentença sem processo, assim como a sentença contra a Mulher de Ló, narrada em um poema inesquecível e tão contemporâneo, intitulado Tribunal. Em sua visita às duas cidades condenadas, Carlos Machado viu e ouviu seus habitantes, soube de suas crianças, plantações e bichos, pode até mesmo ver as costelas calcinadas do anjo que, no meio das chamas (e das virtudes inventadas que teimam com os desejos),  também olha para trás, e vê a Mulher de Ló.

Mulher sem nome, os escribas da Lei não se importaram, na mesma medida em que o poeta se incomodou. Qual o nome da mulher de Ló? Quais os nomes das Filhas de Ló? Quem, nos provoca o poeta, contará a história dos vencidos?

Ao refletir sobre o ato desobediente da Mulher de Ló, não pude deixar de refletir sobre vitória e derrota, sobre subordinação e altivez, sobre este papel em que, historicamente, a mulher quase sempre é colocada: o de quem erra. Não há como não lançar nosso olhar de completa desconfiança sobre as estatísticas oficiais: “Quem fez a/ estatística// dos mortos/ de Gomorra?”

Em A Mulher de Ló, a empatia e a contestação levam o leitor a fazer perguntas sobre aquilo que, muito provavelmente, nunca esteve inerte. A poesia lança movimento sobre a estátua de sal. Não estamos mais diante do objeto condenado, estamos ao lado do ser humano, sujeito de memórias e vivências de seu lugar, que poderia ser qualquer um de nós, olhando para os anjos cheios de fúria, sem compreender como é possível destruir uma cidade inteira, salvar apenas os membros de uma oligarquia e ainda chamar isso de alguma espécie de justiça.

Com versos inteligentes e, por vezes, de uma ironia mordaz, Carlos Machado nos lança em A Mulher de Ló, clarões como “não acreditam que Sodoma sairá/ do mapa para entrar na Bíblia” ou momentos apoteóticos, como em Frevo, onde a voz calada da mulher se ergue e se realiza. Da constatação de que, no próprio texto bíblico, não há qualquer menção à sodomia em Sodoma, da maneira como fizeram com que entendêssemos o termo hoje, o poeta brinca: “Os rebanhos de Ló/ - lascivas ovelhas -”, afinal, a morte das ovelhas precisa ser justificada.

Ler A Mulher de Ló me foi um exercício feliz de ler poesia, porque é poesia de primeira qualidade, porque é poesia que tem algo a dizer, porque é poesia de destruição, porque quer destruir o destruidor, porque sinaliza algo novo, porque ouve a voz da mulher silenciada, porque vai ao inferno e nos conta.


Tribunal

A mulher de Ló comparece ao tribunal.

Nome: desconhecido.
Acusação: olhou para trás.
Defesa: [interdita]
Sentença: morte sumária com regressão
                 ao reino mineral.
Últimas palavras: [interditas]


Varões

Aos varões da raça
não se pede muito.

Sua condição
lhes garante tudo.

Porém, quando há guerra,
quem se põe de luto?

Quem tece a mortalha
de seu próprio fruto?

Ao som da tragédia
quem conjura o susto?


Sodomia

Alguns justificam
o extermínio.

Dizem que a perdição
de Somoma
foi a sodomia.

E o bebê massacrado?
Só dormia?

***
A mulher de Ló
Carlos Machado
Poesia
Ed. Patuá
2018

* texto utilizado no posfácio da obra A mulher de Ló.




quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Parando para releituras - Grande Sertão Veredas - Guimarães Rosa



Parei um mês inteiro para reler essa obra da genialidade literária. Uma experiência incrível, já que, anos depois, a capacidade de leitura aumenta com o treino, o acúmulo de informações e aguçamento de sensibilidades. Ao terminar, lembrei-me de uma declaração de outro escritor mineiro, Wander Piroli, de que sentia pena de quem não leu Grande Sertão: Veredas. Uma obra imensa.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Passo Imóvel – de Lilian Sais






Por Adriane Garcia


Passo Imóvel, de Lilian Sais, plaquete com dez poemas, traz para a leitora/o leitor a possibilidade de uma viagem profunda e introspectiva. No pouco espaço de uma plaquete, Lilian Sais consegue nos transportar para o amplo cenário da solidão, um porão enorme, cheio de memórias.

De imediato, nota-se dois grandes méritos na poesia de Passo Imóvel: a beleza das palavras escolhidas com muita exatidão, como signos para que a leitora/o leitor construa o que não foi dito; o ritmo quase silencioso, sussurrado, a voz baixa, como convém a alguém numa madrugada de insônia. No adiantado da leitura, percebe-se que a autora trabalha uma narrativa única, orgânica, para uma personagem entre quatro paredes.

Alguns vocábulos merecem destaque como chaves que Lilian Sais usa para comunicar sentidos e sentimentos. A personagem aparece pela primeira vez no âmbito da palavra “madrugada” e termina com a palavra “palmo”. Entre insônia e morte, a autora revela a claustrofobia do passado, a palavra “casa” como símbolo não do que habitamos, mas de tudo que nos habita e a luta para que o futuro não seja eternamente quatro paredes sem “janelas”. “Janela”, por exemplo, utilizada nos versos “do que tenho,/ se tudo é possível/ deve haver/ uma janela// - sempre há uma janela”, remete ao problema colocado nos versos do poema anterior: “palavras batem/ no fígado// e estouram no céu/ da boca,// mas não ultrapassam/ a barreira// dos dentes/ cerrados.”

A poesia de Passo Imóvel reflete sobre a palavra que é anterior à fala ou à escrita, aquilo que não é falado e que, portanto, ainda não foi inventariado. Também a palavra “inventário” neste trabalho de Lilian Sais traz uma força especial à narrativa. É um inventário o que sua personagem (eu-lírico) tenta fazer. Sua impossibilidade de sair da casa, de sua própria solidão, revela-se no uso de “vendas” nos olhos, quando vai para o ambiente externo, como se só fosse possível ver dentro. O passo é imóvel: ela sai sem sair.

Estar consciente de tamanha consciência aumenta a solidão e faz com que não se possa amar as convenções, muito menos se submeter: “não convenho:/ da loucura preservo/ essa obstinação.// do que convém/ apenas tomo/ o prescrito,”. O ato de fumar aparece como ato de utilidade simbólica para um ser erodido, a erupção do cigarro sendo também a erupção de si, as cinzas como produto de desabamentos e escombros.

Com grande habilidade de síntese, Lilian Sais nos conta que a solidão é uma casa habitada por velhas palavras. Entre a prisão do passado e um futuro calculado em palmos – sete, para ser exata – , Passo Imóvel não tem lugar para o presente; porém, tanto é dito no não dito. A liberdade da leitora/do leitor pode traduzir que o presente é a janela que a personagem de Lilian Sais procura.

não é sina pouca
percorrer no futuro
passos passados:

silencia sinos.

peço,
de trago em trago

que entre
potência e exaustão

eu ainda seja
possível.



***

Passo Imóvel
Lilian Sais
Poesia
Ed. Cozinha Experimental
2018








quarta-feira, 11 de julho de 2018

A oração do carrasco – De Itamar Vieira Junior





O livro A oração do carrasco (ed. Mondrongo), de Itamar Vieira Junior, traz sete contos, narrados com intensa sensibilidade e grande capacidade de emocionar o leitor.

Seus personagens são os escravizados, os banidos, os incompreendidos, os fracassados, os injustiçados, os expropriados, os exilados. Sua matéria é a solidão.

Em A oração do carrasco, Itamar não só dá voz aos silenciados, como trabalha a história dos perdedores pelo viés crítico e humanizador. Violências atuais como o racismo, herança da escravidão no país, aparecem tanto na história de uma escravizada em fuga, Alma, quanto no tratamento dado aos refugiados negros no país, no conto Meu mar (fé), em que uma senegalesa refugia-se na Bahia como imigrante ilegal.

Em A floresta do adeus, Itamar traz a metáfora do preconceito como fronteira, da separação, da impossibilidade do convívio; ao mesmo tempo, da força de transformação do amor e da solidariedade. Força de transformação é o que também se encontra no conto que dá nome ao livro, pois o carrasco, cuja profissão vem de antiga e ininterrupta linhagem, acaba por encontrar a surpresa e a mudança.

É destacável a extrema solidão de todos os personagens de Itamar Vieira Júnior. No conto O espírito aboni das coisas, Tokowisa, o guerreiro indígena, procura pela floresta a planta abatosi, para curar sua esposa grávida e doente, enfeitiçada pelo xamã da tribo inimiga. Apesar de ter seu aboni (espírito) ligado a tudo, árvores, céus, bichos, Tokowisa precisa decidir sozinho sobre a vida e a morte. Em Doramar ou A odisseia, a empregada doméstica, que “é como se fosse da família”, parte da epifania para a memória, da memória para o esquecimento, numa viagem em que, à medida que esquece, lembra, adentra no passado, como em um processo de alzheimer. É quando o leitor descobre o que precedeu a Doramar e sua comunidade, até chegar ali, no lugar quase imóvel da desigualdade social.

No último conto, Manto de apresentação, uma voz é ouvida pelo homem negro, pobre, estigmatizado, preso numa cela de manicômio. Ele é Arthur Bispo do Rosário. A voz transforma a sua realidade, dá-lhe o tamanho gigante que tem, ordena que ele mude seus dias até seu encontro com Deus. E Arthur transmuta a miséria em riqueza e cor, em fé e sonho.

Itamar Vieira Junior constrói um livro sem a facilidade dos maniqueísmos, seus personagens de carne e osso olham-nos diretamente. E sabemos que estamos próximos deles, muito próximos.



"Dominique me diz que eu não devo ter muita esperança nem esperar muita bondade dos brasileiros. Fala que o preconceito contra nossa cor e nossa origem são muito fortes por aqui. Ela compreende mais o português porque chegou há mais tempo e me fala coisas que eles fazem sorrateiramente, e que se fizeram notar. Dominique fala que mesmo os negros daqui sofrem discriminação. Ela me diz, enquanto andamos pelas ruas até a calçada onde estendemos nossas mercadorias: “Olhe ao seu redor e veja onde estão os brancos e onde estão os pretos”, olhava então para os edifícios e continuava dizendo “olhe à sua volta e veja como estão separados, como eles andam separados, como as mulheres negras andam atrás de suas patroas, segurando suas crianças. Olhe para as pessoas que tentam trabalhar e vão para a rua vender seus materiais, são quase todos como nós”. Ela andava rápido, mas atenta a todos os passos, “Já observou quem atende os portões dos prédios? Quem guarda os carros nas ruas? Quem dirige os ônibus?” olhava para mim com os olhos vivos, “sabia que as empregadas não podem usar os banheiros das patroas? Os engenheiros no Brasil cuidam de fazer um banheiro só para elas” e concluía com pesar: “aqui negro é um cidadão de segunda classe. Como nos Estados Unidos. Como na Europa”."
(p. 116/117)


***


A oração do carrasco
Itamar Vieira Junior
Contos
ed. Mondrongo
2017

segunda-feira, 9 de julho de 2018

O filho da empregada - de Marcelo Labes





Por Adriane Garcia


O filho da empregada, conto de Marcelo Labes, é uma espécie de carta à mãe, rememoração que o filho faz sobre a infância e a adolescência, na companhia dela, empregada doméstica.

O conto não só é capaz de mover o leitor para o cenário de sua narrativa, como expõe, de dentro, a condição de empregada doméstica no Brasil, com seus resquícios claros de escravidão.

Entre as memórias do filho e o balanço intelectual e moral que ele faz ao elaborar o passado, o leitor toma conhecimento da voz de quem sofreu na pele a discriminação social e entendeu o funcionamento das engrenagens do poder e do controle, da submissão e da divisão de classes. A empregada doméstica é sempre “como se fosse da família”, ainda que seja explorada para que não possa cuidar materialmente ou presencialmente da sua própria. Marcelo Labes expõe a ferida de uma sociedade extremamente preconceituosa, de uma elite egoísta e de uma classe média incapaz de se identificar com os mais pobres, apesar de estar muito mais próxima deles, como classe, do que da elite, que tenta imitar, a duras prestações de cartão de crédito.

Ao escolher como narrador o filho de uma empregada doméstica, o autor foca o caráter de continuidade da desigualdade social, da miséria como herança, em um sistema perverso e opressor de manutenção de privilégios. O filho da empregada grita o absurdo e a falácia da apregoada e inexistente meritocracia brasileira.


Habítávamos dois mundos: o dos meninos de apartamento, do não-põe-o-pé-pra-fora, de poucas perdas e muitas vitórias; e habitávamos bem aqui, onde reconhecem-se as senhoras com seus meninos que, se espera, encontrem por seus destinos um ofício que lhes assegure, ao qual se agarrem com as duas mãos por quinze, vinte, trinta anos e que seja mais do que somente um ganha-pão: que seja trabalho honesto e que dignifique o homem – e que este seja o filho que deu mais certo. Deus nos ajude! E ajude a vendedora de Avon que nos vende, à prestação, os perfumes que lhe engordam a situação e permitem que todos se aturem por perto.

Onde ficou o amor? De onde a tua solidão? Que frase te ilustrará a vida e que palavras serão ditas quando estiveres num caixão?

    Tão honesta e comprometida!
    Sempre adiantada na chegada e sempre atrasada na partida!
    Fazia boa comida, mas não sabia limpar o chão!"
    (p. 32/33)

***
O filho da empregada
Marcelo Labes
Conto
2016
ed. Hemisfério Sul


sexta-feira, 29 de junho de 2018

Notícias populares – de Tatiana Bicalho



Por Adriane Garcia

Primeiro livro da autora, Notícias populares (Edições de Minas), de Tatiana Bicalho, é um trabalho interessante e criativo.

Construídos a partir de notícias de jornais, os poemas trazem ficção, de modo explícito, para os versos.

Com humor, imaginação e inteligência, a autora ri e nos faz rir das notícias de jornais, dos assassinatos e tragédias tão propaladas e sensacionalistas às manchetes absolutamente desimportantes como “Caetano é fotografado no Leblon”, podendo narrar a história que precede a notícia ou a que dela procede, quando não brinca com a própria manchete.

Se a notícia chega manipulada – e chega –, Tatiana a manipula uma vez mais e confere a verdade da poesia ao cotidiano truncado, e tantas vezes falso, dos jornais.


Joyce, moreninha safadinha
top dez dos classificados
foi encontrada morta junto
da sua coleção de
pênis
causa mortis
provável suicídio
deixa um classificado
agradece a preferência



Tesão no protesto

durante as manifestações
dois estudantes aos gritos
retumbantes trocaram
seus olhares no meio da
multidão
ela gritava fora
ele respondia dentro
durante as manifestações
dois estudantes aos gritos
retumbantes trocaram
beijos ao som de tiros
de escopeta, spray de pimenta
cassetete e balas de borracha
durante as manifestações
dois estudantes morreram de tesão
televisionados pela emissora em cadeia
nacional em meio a uma tensão e em
plena recessão


***
Notícias populares
Tatiana Bicalho
Poesia
Edições de Minas
2018


domingo, 10 de junho de 2018

Interrompidos – de Alê Motta






Por Adriane Garcia


Interrompidos (ed. Reformatório), de Alê Motta, é um livro de contos curtos, compostos de 4 a 7 parágrafos. Elaborando uma maneira de contar, quase uniforme, por todo o livro, Alê Motta condensa até o penúltimo parágrafo histórias que conduzem a emoção do leitor. É com maestria que a autora o leva a pensar exatamente o que ela quer que ele pense, porém é no último parágrafo de cada conto que ela o trai, que ela o engana, que ela lhe aplica uma espécie de inversão e susto. Ao não subestimar o leitor, Alê Motta não fala tudo, deixa espaço para o leitor continuar as histórias, ou compor o que não foi dito, mas sugerido. Na forma, Interrompidos também cumpre seu projeto temático: os contos interrompem expectativas.

Como assunto central, o livro destaca a morte, interrupção por excelência, seja por acidente, doença, velhice, suicídio ou, principalmente, assassinato. É ainda interessante notar que a maioria dos assassinatos, em Interrompidos, é cometido por mulheres, contra homens. O homem de Interrompidos é quase sempre aquele que trai, abandona ou maltrata.  

Nesta obra de Alê Motta não existe Deus, tampouco a culpa cristã, nenhuma moralidade que não seja a do alívio de se livrar da opressão. O desaparecimento do outro é solução recorrente e revisitada, histórias que poderiam ser de amor tornam-se histórias de vingança; mágoas infantis são guardadas como combustível para futuros desaparecimentos. A morte também se apresentará como solução para os conflitos entre irmãos, pais e filhos, pais e filhas, colegas de trabalho. Já a morte da mãe, não. A morte da mãe é sempre como a despedida de nossa única nave e o sentimento de se estar sem saída no mundo.

Em O erotismo, de Georges Bataille, Tanatos está sempre abraçado com Eros. Mal disfarçamos isso, mas sempre disfarçamos: “Um conjunto de condições nos conduz a fazer do homem (da humanidade) uma imagem igualmente afastada do prazer extremo e da extrema dor: os interditos mais comuns atingem a vida sexual e a morte, de modo que uma e outra formaram um domínio sagrado, pertencente à religião.” Disso também advém o aspecto grave que damos à morte. Ler Interrompidos é ter esse contato com uma narrativa sobre a interrupção definitiva chamada morte sem a presença do julgamento. Alê Motta disfarça a gravidade, inclusive do crime, escrevendo também com algum humor. Desvia nosso olhar do julgamento e nos mantém no fato (e no desejo). Quem é que nunca pensou na utilidade de (matar) morrer alguém? Os personagens de Alê Motta matam e são mortos. Por trás do “horror que intensifica a atração” há a vida. E a vida é tão difícil, quando nos é negado o amor.

***

Prato principal

Frango assado com batatas portuguesas. Arroz branco, bem soltinho. Salada de rúcula e palmito. Molho de mostarda.
Fiz seu prato. Enquanto comia, falou do seu carro na revisão, do CD novo da sua banda predileta, reclamou do seu patrão e emendou na chuva que, se viesse, atrapalharia seu futebol.
Sentada na cadeira, ao seu lado, acompanhei a revisão, a banda, a possível chuva, a reclamação. Sou ótima para acompanhar. Sou como o molho de mostarda.
Ele terminou de comer. Eu sorri. O veneno demora uns minutos para fazer efeito.





Meu avô

Meu avô morava num sítio. Uma casa amarela com varanda. Portas e janelas brancas.
Ele amava andar a cavalo. Num dia calorento de janeiro ele cavalgou muitos quilômetros. Quando o sol se pôs voltou para casa. Caiu na soleira da varanda.
Depois do enterro ninguém encontrou o cavalo. Reza a lenda que ele é o único cavalo do mundo que cavalga todos os dias até o pôr do sol. E chora quando vê uma casa com varanda.

***
Interrompidos
Alê Motta
Contos                                                          
2017
Reformatório



domingo, 20 de maio de 2018

E, de Edimilson de Almeida Pereira




Por Adriane Garcia

Para falar do livro “E”, de Edimilson de Almeida Pereira, podemos começar pela bonita edição (ed. Patuá). O volume de 128 páginas intercala poemas com imagens do artista plástico Antônio Sérgio Moreira. As imagens, coloridas, vibrantes e fortes destacam, do corpo humano, a cabeça (orí).

Orí é também o primeiro poema do livro, se considerarmos que Oráculo: “para sair de tua morte,/ morre.” é a abertura de “E”, a sua apresentação, enigma sob o qual a linguagem se pronunciará.

Poesia de grande refinamento, feita com técnica, burilamento e inteligência, Edimilson alia esses predicados a uma sensibilidade direcionada principalmente para a solidariedade. A poesia de “E” está falando ao outro, está de mãos dadas com o outro; não por acaso, muitas vezes, levanta questões da ética e da política, notadamente, as que se relacionam com o racismo, a diáspora africana, o genocídio da população negra brasileira.  A forma como desloca seus vocábulos provoca ambivalências que só enriquecem a leitura, numa dança de sentidos:

                 DAN

não    me     preocupar por mim
                                         letal

não  me preocupar com o outro
                         que há em mim
                                        igual

não  me preocupar com o outro
                                      imoral

não   me  preocupar   com o eu
que espera no outro – um sinal

Orí, a cabeça, a mente, a inteligência, rege o desenvolvimento de “E”. O poeta evoca a linguagem como fenômeno vital para nos fazer humanos e também para nos deixar à deriva, nossa condição de conflito. É pela inteligência, pela capacidade de linguagem que o poeta chama à autonomia do sujeito, à defesa de uma identidade única e particular, contra todo sentimento de manada. “E” é letra de um rito de origem, o primeiro sinal gráfico para o poeta se iniciar na escrita do próprio nome: Edimilson. O ato de escrever é ato de libertação e resistência, feito com ciência e fúria. A palavra (a poesia de Edimilson), como o metal, é moldada na forja, sob intuição, fogo e arte, mas é preciso, e ele mesmo nos mostra, mais que técnica: é preciso dar a ver ao leitor algo que já há no poema, mas que só o leitor poderia acrescentar; algo que só existe quando o leitor declara para si sua existência. Não só o “logos”, mas o “punctum” conceituado por Roland Barthes, o ponto que fere e punge, alegra e anima. É a própria subjetividade do leitor, pessoal e intransferível, naquilo que o toca, que trará ao poema seu maior sentido. Desse modo, o poema é também doação.

 “Ouve ainda a voz
do mor-
to: “dai a cada um
a sua altura.”

As chaves de leitura dos versos de “E” se ampliam, na medida em que o autor sabe usar o poder da sugestão. Os poemas, em sua maioria, dizem de um ser inteiro, integral, que não abre mão de sua singularidade. A adversidade aparece inúmeras vezes, acompanhada dos signos da luta: língua, apneia. Seus temas são os temas mais variados que ocupam seu mundo, seu tempo, sua ancestralidade africana: a poesia, a música, a amizade, a saudade, o sentimento de ser estrangeiro,  voduns e orixás, desigualdade social, exploração, discriminação racial e de gênero, a tensão que é viver consciente, compreender essa condição de ser aquele que duvida.  

Recorrentemente, aparece nos poemas de “E” a reflexão sobre o significado da palavra em nossas vidas. Essa valorização faz com que o leitor possa depreender que também há, nos poemas de Edimilson, uma exigência pelo direito universal à palavra e à voz, como condição primeira para a liberdade.

Um livro excelente, de muita beleza.

Língua

Um cão divide a praça

: às suas costas
Um câncer       o trópico

: à sua cabeça
Um laser          o espólio

Um cão decide a praça

: em seus ossos
e cérebro

: em sua carne
e raiva

apneia – a flor do lácio

Cantilena

O ofício da mulher antiga
era ser avó toda manhã.
E o nosso era fingir
que não queríamos, não

sua mão em nossa cabeça.
O ofício por ser antigo,
tecia a cada manhã,
a mulher e seu vestido.

E nós, entre a nesga
da infância, ao desamparo,
cedemos aquela manhã.
No entanto, a inquice

vestida à dureza bruma,
flutua entre os cardos: nós
já nem fingimos
a fome de seu abraço.


Oráculo

O que é
do meu entendimento

se enerva, pulsa
rompe

a saliva.
Fora de si se atreve:

expulsá-lo
é colocá-lo dentro

da vida.
Esse o roteiro,

a promessa.
Colocar-se vivo

onde nos imaginam
a ferros.



***
 E
Edimilson de Almeida Pereira
Poesia
Ed. Patuá
2018

terça-feira, 15 de maio de 2018

Álbum, de Ana Elisa Ribeiro





Por Adriane Garcia

Diante da leitura dos originais de Álbum, de Ana Elisa Ribeiro (ed. Relicário, 2018), resolvi adiantar essa resenha. A poesia de Álbum é um primor. Trata-se, a princípio, de um livro temático em volta da fotografia, do ato de fotografar e de ser fotografado.

Tenho uma predileção por livros temáticos, por sabê-los difíceis de serem construídos: neles há sempre o risco de, justamente pela repetição, cansar o leitor. Escrever um livro temático interessante requer que o escritor alcance inúmeras nuances sobre um mesmo objeto, olhares que o alcancem, perpassem e ultrapassem. É então que o leitor descobre que o objeto sobre o qual o escritor se debruçou é apenas uma boa desculpa para falar de uma vida imensa e universal.

Já nos primeiros poemas, Ana Elisa Ribeiro compara o ato de fotografar com o ato de escrever; a exatidão das palavras teria que ser como a exatidão da luz para um fotógrafo, a fim de produzir a melhor imagem. Trabalho técnico, trabalho que envolve conhecer, estudar, traçar um caminho. Não por acaso, Álbum é o livro mais pensado da autora, segundo ela própria declara e podemos perceber. Que luz o poeta lançará, em que quantidade? Em qual cenário? Sobre que personagens? Porém, somente o trabalho técnico, sem o olhar poético, crítico ou instigante do fotógrafo não garantiria uma imagem que emocionasse. Assim é o trabalho com a palavra poética e, assim, Ana Elisa Ribeiro a realiza.

Em seguida, a autora nos leva à reflexão quase instantânea de quando nos deparamos com um álbum de família: o tempo. O interessante é que Ana Elisa Ribeiro nos entregará alguns paradoxos: o tempo visitado na fotografia não é o tempo vivido, mas o tempo vivido só pode se eternizar na fotografia, pois a memória não nos é confiável.  Que tempo exatamente a fotografia captura? Se é que captura. E como acreditavam certas tribos indígenas, qual espírito ali se prende? Começamos a suspeitar de que é o espírito daquele que contempla.

Nos poemas de Álbum, evoca-se uma educação para a fotografia (educação para a vida), aprender a olhar, ver além da foto, ter atenção com o elemento ausente, o fotógrafo, os objetos reincidentes.

De modo sensível e profundo, Ana Elisa Ribeiro desenvolve o tema das imagens fotográficas e sua relação com as lembranças e nosso entendimento do passado, levando-nos a perceber a fragilidade de tudo o que consideramos memória, a fragilidade da experiência humana, em cujas pontas encontram-se nascimento e morte. A fotografia é aquilo que sobra quando o acontecimento já se foi.

Inevitavelmente, lembrei-me de Rilke e sua frase: “O modelo parece, a coisa de arte é.” Influenciado pela arte de Rodin, Rilke queria para sua poesia o que o escultor alcançava com a pedra. O que Rodin fazia, declarou Rilke em suas cartas, era prender o tempo, prender a beleza efêmera para que ela durasse, transformar aquilo que passa naquilo que fica.

Uma das leituras possíveis deste livro, é a de que Ana Elisa Ribeiro traz este Álbum em retribuição a outro. Assim como sua mãe passa as férias organizando fotografias antigas que sejam heranças dos filhos, Ana Elisa Ribeiro prepara o livro de poemas que registra a preparação de sua mãe, pois “nenhuma fotografia/ se mede/ em segundos”. Ela, ao rever o passado, movimenta-se em gratidão. E é por haver um encontro com o amor, com a dor, com a frustração, com a morte, com a resignação e com a alegria, que a poeta escreve. Há sempre mais em uma fotografia do que a própria fotografia, há sempre mais na palavra do que a própria palavra. Rever um álbum exige coragem. Dessa coragem, ela também nos fala.



PROCESSOS

O amor é um processo químico.

O amor é um processo biológico.

O amor é explicável pela história,

com implicações geoespaciais.

O amor é uma questão híbrida.



A fotografia é um processo químico.

A fotografia é um processo físico.

A fotografia é uma questão artística,

jornalística e tecnológica,

com implicações éticas e financeiras.

A fotografia é uma questão híbrida.



O que dizer de nossas fotografias rasgadas?

O que dizer destas fotos em que não estamos

lado a lado, e nem podemos nos tocar?

O que dizer das fotos que não tiramos

daqueles dias de amor nascente?

E destas fotos em que estamos

com os pares errados?



O que não é fotografia

dependerá da memória.



A memória é um processo químico.

A memória é um processo biológico.

A memória é uma questão para nós,

com implicações para o futuro.



O amor é um processo.

A fotografia é um processo.

A memória não é confiável.

O amor é sempre um processo.

A fotografia, não.

Olhar minuciosamente a fotografia

é um processo híbrido.

A memória é um processo que falha.

Resta confiar na ciência e no amor





INSTANTÂNEO #5

Só mesmo uma foto

para nos flagrar

no auge

de um quase





MENOS DUAS

sete irmãos

e irmãs

quase abraçados

tímidos no ato

da fotografia



meio posados

meio não

muito limpos

em suas roupas

bem passadas



cinco moças

dois rapagões

orgulhosos de suas

calças suspensas



sete irmãos e irmãs

na fotografia

em cima do piano



as duas irmãs —

mortas em acidentes —

continuam limpas

e desafiadoras

sobre o negro

piano fechado



os demais

irreversivelmente

envelhecem



***
Álbum

Poesia

Ana Elisa Ribeiro

Ed. Relicário

2018