sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Vila Vermelho, de Jeter Neves, um livro memorável



Por Adriane Garcia


“Penso, Professor, que a literatura perdeu o prazo de validade. Você deve estar pensando que o pouco que sei do mundo foi a literatura que me deu. Tudo bem, não vou discutir, mas não foi ela que me deu dinheiro. Para ganhar dinheiro com a literatura, o sujeito tem de negar a natureza da literatura, se é que você me entende.”
(p. 44)

Há dias estou para falar desse livro, sua leitura me deixou impactada. É o impacto de me sentir conduzida, de ouvir uma boa história, uma história que só se torna grande porque um grande escritor soube contá-la.

Por muitas vezes, durante a leitura, perguntei-me o motivo de um livro desses não ser mais conhecido, lido, citado. A resposta passa pelo de sempre: o desprestígio da literatura na cultura do país de modo geral (o que influencia a eficácia da crítica) e a oferta cada vez maior de atividades que atraem para a rapidez e a superficialidade, em detrimento da profundidade e da introspecção.

Isso para não falar do número absurdo de analfabetos funcionais e da nossa educação, relegada a último plano. Como se não bastasse: tantas brasileiras e brasileiros que lutam para satisfazer necessidades bem mais imediatas: comer, defender algum teto onde se possa dormir, saber onde deixar os filhos durante o expediente de dez horas do dia mais três horas em ônibus e trens lotados; e tudo isso para, cansados de exploração e trânsito, irem cuidar apressadamente de suas casas e filhos; depois, dormir e começar tudo novamente; não sem antes ligar a televisão, de modo que se receba uma cota diária de medo e algo facilmente digerível, absolutamente digerido. O cansaço nunca quer que pensemos.

Mas o livro do qual falo é Vila Vermelho. Seu autor é Jeter Neves. Jeter é mineiro de Miradouro, professor, tendo recebido os prêmios literários do Paraná, Cidade de Belo Horizonte e, com este romance, o Minas Gerais de Literatura.

Vila Vermelho é a história de um homem adulto que, após décadas, volta à sua cidade. Caburé, protagonista cujo nome não conheceremos (apenas este apelido), retorna à Vila Vermelho porque ouve falar que seu amigo de infância, Tié, morreu. Chegando à Vila, descobre que a morte de Tié é um boato. Na cidade por uma semana, Caburé narra a um antigo professor, internado em um asilo, as lembranças de sua vida naquele lugar.  Em estado vegetativo, o professor não interfere na narrativa. Assim, o leitor conhece a história de Vila Vermelho naqueles anos das décadas de cinquenta e sessenta.

O que o leitor tem, a partir de então, são duas visões: macro e microscópica.  No plano macro, o leitor enxerga a Vila, o país, a agitação política e revolucionária das mentes jovens, a vila como um lugar dentro de outro, como tantos que se faziam por aquele Brasil. Microscopicamente, o leitor vê personagens que, com suas idiossincrasias perfeitamente construídas por Jeter Neves, tornam Vila Vermelho um lugar único. Vila Vermelho é daqueles lugares que um leitor não esquece, que fica na geografia literária pessoal de quem lhe soube, assim como a Antares de Érico Veríssimo, ou a Olhos D’água de Maria Valéria Rezende, ou a Comala, de Juan Rulfo.

Caburé é filho de um fazendeiro e de uma herdeira rica, mas a família perde tudo com a bebedeira e boemia do pai. Na Vila, vai viver com outras crianças pobres, mas estuda, com bolsa, no melhor colégio da região, onde conhece Isadora, menina rica e comunista, pela qual se apaixona. Isadora, sendo rica, identifica-se com os pobres; Caburé, pobre, identifica-se com os ricos.

Mário é outro jovem, o mais velho da turma, que se torna marinheiro e envia postais de suas viagens pelo mundo a Caburé. O leitor verá a transformação de Mário: de marinheiro admirador do liberalismo norte-americano a rebelde com idéias comunistas. Mário, com seus postais, crê doutrinar Caburé para o Comunismo. Caburé parece ser doutrinado, mas o leitor sabe, de antemão, que Caburé é um vencedor, isto é, um homem bem-sucedido dentro dos valores capitalistas, cujo trabalho de sucesso é legalizar terras que foram indígenas.

Todos os personagens de Vila Vermelho são singulares e necessários para a narrativa, mas alguns me marcaram especialmente. Impossível esquecer a força da mãe de Caburé (a família de Caburé nunca aparece nomeada), mulher forte que guia a família enquanto o marido destrói toda a fortuna e que na miséria, como costureira, esforça-se por estudar um dos filhos, nosso narrador. Seu Giuseppe, o pai dos Russo, uma espécie de Dom Quixote anarquista e questionador, que tira os filhos da escola para dar a eles uma educação humanista e cujo destino me fez desatar em lágrimas. Tié e Taú, os grandes heróis de Vila Vermelho, os irmãos que saem para o Rio de Janeiro (com passagens financiadas pela turminha de amigos) para ingressarem na Marinha e que descobrem toda a crueldade e o engano da cidade grande.

Acompanhar a história de Vila Vermelho por aquelas 302 páginas é acompanhar a vida.  Não é sempre que encontramos um livro que pulsa. Ainda estou aqui, com a turma de meninos que se reunia para jogar bola e fazer planos, como se pudessem conduzir a vida. Não podem. Não puderam. A vida parece um organismo próprio que nos toma. Agora conheço um rio chamado Rio Vermelho.  Ainda estou aqui com os personagens que parecem tão reais que tenho certeza que existiram. É bonito quando um escritor consegue que acreditemos. 

“...não gostei de Isadora no primeiro contato: era bonita demais, sabida demais, segura demais. Era preciso desconfiar de mulher bonita, sabida e segura demais, mas aceitei o convite sem discutir, primeiro porque eu queria estar perto dela, estava vaidoso de ter sido escolhido por ela, segundo porque Mário tinha dito para eu participar da política estudantil. A chapa teve o apoio do irmão de Isadora, que vinha nos fins de semana para organizar e orientar a campanha. Era estudante de engenharia, no Rio, fazia parte da diretoria da UNE, tinha experiência em política estudantil. Foi ele, e não Isadora, que explicou o que a chapa adversária representava: tradição, família e propriedade, um movimento católico ultraconservador surgido em São Paulo. “Vocês ainda vão ouvir falar dessa desgraça reacionária”, disse ele – a outra chapa era a do “Onan Punho-de-Aço”. Isadora explicou o que era uma “desgraça reacionária”, e eu disse que não entendia a ira dela e do irmão contra a TFP – sigla da tal “desgraça reacionária” –, pois o movimento defendia justamente a tradição e a propriedade da família dela contra os comunistas. E ousei: “É uma contradição”. Ela disse que as contradições faziam parte do processo dialético, que eu ia entender melhor isso através da práxis. Me arrependi da ousadia porque, além de passar por ignorante, agora já eram duas palavras a mais que eu não conhecia: dialética e práxis...”
(p. 121 -122)

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Vila Vermelho
Jeter Neves
Romance
Ed. Record

2013

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