quarta-feira, 26 de maio de 2021

A mulher submersa, de Mar Becker

 



Por Adriane Garcia

 

Uma poesia atravessada pela fantasia e trazendo tanto da realidade da condição feminina. É interessante pensar nessas características de A mulher submersa, de Mar Becker, enquanto lemos suas páginas em linguagem fluida e deslizante de versos longos, como uma mulher que mergulha em grandes profundezas. Mas no mergulho, deslizar é um dos aspectos da ação de submergir, os outros são tensão, pressão, perícia, cuidado. A poeta mantém o tensionamento e sustém a beleza, utilizando a observação do cotidiano das mulheres, a atenção detalhada da subjetividade feminina do eu-lírico, transformadas em ricas figuras de linguagem como metáforas, analogias, comparações, sinestesias, hipérboles e antonomásias. A paisagem, o clima, os utensílios: fora é dentro e tudo se confunde e se imiscui na mulher. Se lemos A mulher submersa com o centro temático nas relações mulher/mulher, homem/mulher, estes quatro versos se tornam conclusivos: “tu dizes que me amas, eu digo que te amo mais//eu te amo mais, meu amor// porque tu me amas com amor apenas/mas eu tive que aprender a te amar com ódio”.

 

A mulher submersa pode também ser entendida como uma alegoria, pois não se trata de uma mulher específica, mas de todas as mulheres, do passado, presente e futuro: “somos loucas, o meu amor me diz// somos, respondo. loucas daquela loucura iluminada que sobe por/um corpo quando nele se levanta uma legião”. Há no livro um grande sentido de irmandade, a mulher submersa é uma comunidade inteira. A imagem que o título do livro evoca permite levar a muitas associações e a leitora/o leitor pode até mesmo pensar na Atlântida, a sede da antiga civilização que supostamente existiu no oceano Atlântico e que há milhares de anos teria sucumbido a um cataclismo geológico ou à degeneração de seus costumes, o que teria levado os atlantes à ruína, provocando a ira dos deuses. Na Idade Média o mito de Atlântida encontrou muitas versões, no Renascimento foi retratada como a cidade ideal dos sábios. Na era das invasões, conhecidas como descobrimentos, surgiram teorias que viam os indígenas como descendentes dos atlantes, ligando assim as Américas ao continente submerso. Podemos nos lembrar da Atlântida lendo A mulher submersa porque suas páginas evocam tragédia, naufrágio e uma sobrevivência mágica: “Porque é assim que amo, lendária e triste”.

 

Mar Becker trabalha com uma simbologia poderosa ao falar do feminino. Sua escolha pela água, o elemento primordial, símbolo da emoção, encaixa-se perfeitamente em um eu-lírico que sugere um recuo para o útero, a fim de voltar a um tempo sem fardos; não à toa, a morte também é presença constante nessa poesia. Repleta de ambiguidades, a voz lírica assume as acusações imputadas às mulheres e se declara bruxa e ser coletivo. A mulher é temível para o homem e para Deus. Longe de negar, o eu-lírico reforça a bruxaria como poder, o poder de conhecer as forças telúricas, conhecimento herdado no tempo e repassado coletivamente, do uso do sobrenatural (aquilo que ainda não entendemos) e da aproximação com o mundo onírico: “havia noites que eu e minha irmã dormíamos com nossas/bonecas//antes de apagar a luz, dizíamos seus nomes, abraçando-as/depois tomávamos alguma distância, para olhá-las//para chamá-las pelo nome e imantar seus corpinhos de pano/com relâmpagos”. Assim é inserida a menstruação, fenômeno associado com a paga de sacrifício pelos mortos, para vingá-los. Nesta simbologia, a liberdade (pássaro) vem à custa de dor “arrancar a bicadas meus pelos pubianos” para construir um ninho, ou seja, para construir algo (um lar do lado de fora) a partir do feminino.

 

Sobre a fantasia, Carl Gustav Jung afirmou que “Pelo pensamento fantasia se faz a ligação do pensamento dirigido com as camadas mais antigas do espírito humano, que há muito se encontram abaixo do limiar do consciente”. É essa a impressão que temos ao ler A mulher submersa, a de que Mar Becker está habilmente trabalhando esses conteúdos antigos, arquetípicos, que seus versos habitados pela contundência do real e pela força da imaginação despertam velhas imagens, velhas ambiguidades que, em particular, vão dizer de uma história secreta das mulheres.

 

Na história secreta das mulheres que a poeta canta, a mulher pode criar para além da maternidade. Já nos primeiros versos nos é colocada a infertilidade e a fertilidade de uma mulher estéril: “eu então sou uma mulher estéril repleta de estrelas/de constelações”. O fim da linhagem não assusta a mulher infértil, pois ela não tem mais um compromisso com a geração de homens, mas com o fio invisível que une todas as mulheres do mundo, de todas as épocas, conhecedoras de um cativeiro comum. O canto que Mar Becker estabelece olha o comezinho da vida, por exemplo, calcinhas no varal, para tecer as reflexões que alcançarão cada mulher em sua casa e em sua intimidade. O eu-lírico, apesar de declarar seu amor em relações heterossexuais, todo o tempo olha para o corpo das mulheres, em um exercício que se assemelha ao voyeurismo. É um jogo de espelhos em que a mulher está enamorada de si mesma. Admite que a relação com a mãe foi de proteção, medo e desejo, identifica-se com esse amor. Nos momentos em que a mulher submersa está na companhia de um homem, é a si que ela descreve em detalhes, não ele; é o corpo da mulher que lhe interessa, quando lhe escapa uma vontade: “imitando uma moeda em estilo antigo//poderia arrancá-lo do cordão e depositá-lo como um óbolo na/tua boca entreaberta. é o que os gregos faziam com seus mortos/ na certeza de que o barqueiro seria pago”. Não sendo possível matar ou morrer, a mulher submersa se contenta com a pequena morte do gozo e o cheiro do próprio sexo: “algo do cheiro das minhas coxas/do meu sexo, de quando estava gozando em tua boca”. Eros e Tanatos se apresentam muitas vezes na sua oposição /completude: “algo como um sonho que homens sonham, entre o espelho/e o lodo”, imagem adorada de si e um terreno pantanoso.

 

É fácil aceitar uma mulher por uma ordem social, uma mulher fabricada socialmente, feita para obedecer, apanhar e calar; porém, que amor resiste à sombra, ao que é imperfeito, sujo? É imperfeito, sujo, aquilo que rompeu a sua ordem social e deseja. A mulher submersa é sexualizada e não é mãe. É uma mulher que já perdeu demais e está em franca disposição: “falta-me em mãos algo de desolador”. Na fantasia, a mulher submersa se vê animal mitológico, antropomórfico, capaz de habitar as águas abissais como o fizeram outras escritoras, mulheres tão submersas quanto o eu-lírico do livro, evocadas por similaridade: Safo, Virgínia Woolf, Sylvia Plath, Ana Cristina César. Mulheres que visitaram as profundidades com perigosa regularidade e que exigiram o recolhimento para poderem ser, poderem sentir a mínima partícula que comunga no mundo “uno”: “a partícula de sal retida à ponta de um cílio/fazer disso uma cosmogonia”.

 

A mulher submersa fala de uma mulher escondida que pode vir à tona a qualquer momento, uma mulher prestes a se mostrar inteira. Uma Atlântida procurando, ela mesma, a sua localização concreta.

 

por ficarem muito tempo expostas ao ambiente do lar, as donas/ de casa acabam sendo tomadas pelo lar. é como numa doença// as cenas domésticas avançam no seu sono do mesmo modo/ que a febre avança no sangue/ assim as donas de casa preveem o futuro. dizem que em breve/ a rebelião virá

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começará na cozinha/ os talheres permanecerão na gaveta, mas à noite/ a certa hora do sono teremos pesadelos envolvendo rostos/ deformados// tal como quando os vemos refletidos/ no aço da colher// bocas tortas; narizes enormes, côncavos, convexos// o uivo de uma cadela de rua entrará pela fresta da porta/ à soleira/ e até a faca que deixamos na mesa/ qualquer prateamento esquecido assim/ qualquer lâmina disposta no escuro/ poderá acender-se, renovando em nossas mãos/ toda uma disposição arcaica para matar

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(excerto do poema breve ontologia doméstica, pag. 89/90)

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A mulher submersa

Mar Becker

Poesia

Editora Urutau

2020

 

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