segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Aimó, uma viagem pelo mundo dos orixás, de Reginaldo Prandi





Por Adriane Garcia

Deliciosa aventura é o livro Aimó, uma viagem pelo mundo dos orixás (ed. Seguinte), de Reginaldo Prandi. A edição é um capricho, com lindas ilustrações de Rimon Guimarães. O projeto gráfico é de Raul Loureiro e cada capítulo é aberto com uma posição do jogo de búzios.

O livro narra a história da “menina que ninguém sabe quem é”. Ela está no Orum, o lugar onde ficam os orixás. Lá também é onde ficam os mortos, à espera da reencarnação no Aiê, a Terra.

Aimó, por ter sido sequestrada na África pelo comércio de seres humanos e ter sido levada, em um tumbeiro, muito nova para o Brasil, vendida como escravizada, morreu sem saber de suas raízes, não se lembra de sua família, não sabe se alguém cultua sua memória, nem mesmo conhece qual é seu orixá. Por isso não tem as condições necessárias para retornar ao Aiê, para uma nova vida. Triste, a menina chora tanto que inunda o lugar e acorda Olorum. Ele, então, pai de tudo que existe, chama seus orixás Ifá e Exu. Para reencarnar, Olorum determina que ela escolha uma mãe orixá.

Juntos, Ifá, Exu e Aimó percorrerão as histórias dos orixás para que ela possa escolher sua proteção no Aiê. Nesta viagem, o leitor se encanta pela mitologia africana, passa a conhecer um pouco mais sobre cada orixá, além de se divertir com um personagem guloso muito especial: Exu, uma espécie de “faz-tudo” entre os orixás, o mensageiro sem o qual tudo para.

A história é não só encantadora como emocionante e ajuda a revelar, em contraponto com as perseguições que sofrem as religiões de matriz africana, o quanto há de ignorância, preconceito e racismo ao rotular os ritos dos afrodescendentes.

Outro ponto muito interessante é notar que nesta mitologia, não existe a perfeição ou a exigência da perfeição, como dada no mito cristão. Os orixás, que tanto podem ser masculinos, femininos ou indefinidos, assim como os humanos, não são somente bons ou somente ruins; relacionam-se, amam-se, odeiam-se por vezes, se vingam, se reconciliam, se ajudam, guerreiam entre si, se entristecem, se alegram. Não há a noção de pecado, há a noção de dever. São deuses que dançam.

Um livro que todos deveriam ler e que tem um final lindo, surpreendente.



      “Quando as águas cobriram o leito de Olorum, ele despertou contrariado,        cuspindo a água salobra que engolira sem querer, e foi logo reclamando:
    Só pode ser você, Iemanjá, que eu fiz com este gosto de sal — Olorum cuspiu repetidas vezes e continuou a falar à filha — e com esse seu jeito destrambelhado de inundar tudo o que estiver a seu alcance, menina levada!
    Aos poucos, ele abriu os olhos e se levantou sacudindo a túnica molhada. Olhou em torno e não viu Iemanjá, mas sim uma menininha desconhecida, Aimó, que chorava torrencial  mente. Reclamou:
    Ah, então foi você que veio interromper meu cochilo, omobinrin mi, minha menina. Mas quem é você, afinal?
    Aimó parou de chorar, tremendo de medo de ser castigada. Tentou responder, mas sua língua não obedeceu e ela conti  nuou muda enquanto Olorum a fitava de cima a baixo.
    Diga logo seu nome, omobinrin mi! Vamos, fale!
    Ela permanecia quieta.
    Eu ordeno: Orucó, omobinrin!
    Meu nome é Aimó — disse ela, fixando o olhar no chão e recomeçando o choro.
    Pare de chorar. Quer me molhar de novo, menina? Repita seu nome, eu não entendi.
    Aimó, é Aimó.
    Hum, isso não é nome de gente, nunca ouvi, e olha que eu sei de tudo, tudo que existe fui eu que ordenei aos orixás que fizessem.
    Ouvi por aqui uns mais velhos me chamarem assim.
    E sua família? Os que ficaram no Aiê?
    Acho que não tenho, esqueci. Ou melhor, fui esquecida.
    Entendi. Aimó omobinrin, a menina que ninguém sabe quem é.
    Aimó assentiu, ainda amedrontada.
    E como vai fazer para voltar para casa se a sua família não se lembra mais de você, minha menina? Vai ficar para sempre aqui no Orum, sempre ameaçando me afogar em seu rio de lágrimas? Pobre de mim!
    E ao ver lágrimas brotando novamente dos olhos da menina, Olorum gritou com ela:
    Pare! Chega de choro.
    Ela parou de chorar e ele continuou:
    Vamos resolver isso logo. Preciso defender meu direito ao descanso eterno.
    Em seguida, Olorum parou um instante, como quem reflete sobre as próprias palavras, e disse:
    Pessoalmente não me meto nas coisas do Aiê e no resto também não. Quem resolve tudo são meus filhos, deuses que eu criei, que os humanos chamam de orixás, a quem dei a mis  são de cuidar do mundo. Mas, como acabei envolvido nesta sua triste história, vou ter que determinar que se ache uma solução, omobinrin mi. Como é mesmo seu nome, ou aquilo que você pensa que é seu nome?
    Aimó — disse ela, já sem muita certeza.
    Aimó, ou seja lá quem você for, minha querida menina esquecida — continuou Olorum —, vou convocar imediata  mente Ifá, meu sabe tudo, e veremos por que você foi parar na condição de permanecer presa aqui para sempre. Vou chamar também Exu, meu mensageiro e meu faz tudo, porque sem ele nada se pode fazer.
    Olorum estalou os dedos chamando Ifá e Exu. Em seguida, piscou para a menina.
    Pela primeira vez depois de sua morte, a menina sorriu.” (p. 12-15)

***

Aimó, uma viagem ao mundo dos orixás
Reginaldo Prandi
ed. Seguinte
2018


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